sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Coronéis de meia pataca e o novo curralismo eleitoral

O eleitor de bom senso geralmente torce o nariz quando sente o cheiro de um candidato tresandando a curral eleitoral. É por este motivo, de um modo geral, que poucos coronéis são eleitos por um estado como São Paulo, por exemplo. O que não quer dizer que estejamos livres deles.
Alguns analistas políticos e historiadores, entretanto, vêm analisando a reformulação do coronelismo eleitoreiro nos últimos anos e têm chegado a interessantes constatações. A velha figura do senhor de terras, de terno branco e botas, já desapareceu da agenda política. Mas muitos de seus herdeiros – alguns de sangue, outros de ideário político – ainda estão aí, tratando a política na base de favores pessoais: o seu voto por uma “quebrada de galho” minha, parecem dizer. Neste rol entrariam os candidatos médicos – esta proliferação de Doutores Fulanos e Doutores Beltranos que vemos por aí, com direito ao Dr. antes do nome até no santinho e na, verbi gratia, cédula eleitoral: no nome de guerra, que aparece na urna eletrônica. Outros seriam os donos de rádios, que, por um dia terem cobrado das autoridades a pavimentação da rua dos Lírios na Vila Oncinha, ou mais iluminação na avenida dos Cravos, no Jardim Jabuti, até hoje contam com os votos daquelas comunidades. Mas é claro que há os grandalhões da turma, os proprietários de retransmissoras de televisão, que coíbem toda a crítica, sufocam a oposição, e repetem, em escala maior a defesa da Vila Oncinha e do Jabuti, a meia dúzia de municípios ou microrregiões. Um exemplo perfeito que abarca todos estes níveis de coronelismo moderno é o do defunto Antônio Carlos Magalhães (ex-Demo, porque morto: se vivo fosse, continuaria naquela agremiação). Outro que mistura o assistencialismo à política paroquial, e é herdeiro de sangue de uma das mais antigas oligarquias do país, é o deputado Bonifácio de Andrada, de Minas Gerais, do PSDB. Outro ainda, segundo o historiador cearense André Heráclio do Rego (Revista de História da Biblioteca Nacional, ano 5, nº. 60, setembro de 2010), seria o seu conterrâneo, o senador Tasso Jereissati, também do PSDB. Coronelzinho agrário, do tipo dos velhos tempos, seriam poucos hoje em dia, e o mais evidente – que também é médico – é Ronaldo Caiado, outro Demo.
Porém as análises mais modernas consideram um coronel de uma forma mais ampla. De modo que os eternos detentores de cargos eletivos, gente que está no seu quarto ou quinto mandato, no mesmo posto, entraria para a lista dos mandões da política, dos mantenedores de currais. São eles os eternos defensores da microrregião tal, da cidade qual, desta ou daquela categoria de profissionais, empresários, funcionários públicos, militares, etc. Coroneizinhos de fancaria. Porque uma andorinha não faz verão. Que o digam todos os eleitores iludidos que votam nos “defensores” dos aposentados, do funcionalismo civil e militar, e por aí vai, mantendo eternamente certos nomes em trocas de migalhas, quando não em troca de coisa alguma, porque suas situações só deterioraram ao longo do tempo. Ex-delegados da Polícia Civil e ex-oficiais da Polícia Militar são verdadeiros modelos da inoperância frente às suas representações: que o digam os seus “representados”. É verdade que a turma do agro negócio (leia-se: “latifúndio monopolista”) consegue emplacar seus defensores, e estes são muito ativos em agradar seus amos. Mas fazem alguma coisa pelo grosso dos eleitores? Nada!
Aprendi com meu pai – homem honradíssimo, filho de um deputado federal mineiro e constituinte de 1934, e este também um homem de olímpica honradez – que acima dos interesses do curral e da paróquia está o bem publico universal. De modo que não se vota no Dr. Manuel dos Anzóis porque ele trará um quartel para Esperantópolis, em detrimento da Dra. Maria das Couves, que levaria o dito quartel para a vizinha Bonitolândia. Antes, é de se perguntar: necessitam, quaisquer uma delas, do tal quartel? E se, de fato, precisam, não está de bom tamanho que o mesmo venha para a microrregião onde elas se encontram?
Esta história de querer eleger um candidato desta ou daquela região, deste ou daquele segmento, é coisa ultrapassada e atenta contra a amplitude dos direitos de cada cidadão. E é de estarrecer verificar que o curralismo eleitoral parece que só aumenta. Vejam-se os candidatos de torcidas organizadas de times de futebol. O que era para ser uma pura diversão, ou entretenimento, se converteu numa espécie de ideologia, de razão ética, de modo de vida, para além da sociedade como um todo. Deplorável. Ou a proliferação de pastores candidatos, alguns ameaçando com o fogo do Inferno quem neles não votar, outros proclamando que o voto neles seria a própria manifestação do Espírito Santo! Ora, o Estado é laico e plural: não pode, nem deve, ser aparelhado por esta ou aquela religião ou doutrina. Pois tal não passaria de um golpe branco contra a impessoalidade do Estado e contra os direitos dos católicos, judeus, islâmicos, budistas, espíritas, evangélicos tradicionais, umbandistas, maçons, rosacruzes, e o que mais se quiser – inclusive ateus – que têm todo o direito de se proclamarem enquanto tal e contam com a salvaguarda da lei para tanto: graças a Deus! Ou será que pretendem, no fundo, uma guerra religiosa: não mais as Cruzadas, mas a antecipação do Armagedom?
Aliás, é realmente preocupante quando vemos certas pessoas que pertencem a seitas apocalípticas ou flagrantemente fanáticas – “a Verdade está comigo e com meus irmãos, e que o resto arda no fogo do Inferno” – tentando formar blocos no Legislativo. A sociedade laica e ordeira não precisa de talebãs neopentecostais. A visão do Paraíso alheio não tem que ser, necessariamente, a minha. Nem, muito menos, o mundo tem de ser moldado – este mundo com o qual convivemos dia a dia – pelo filtro estreito de caçadores de danados. Devemos aceitar o direito dos outros dizerem o que bem entendem. Se é que entendem: mas desde que os mesmos não queiram cassar nossa palavra.
Trato deste assunto enquanto cidadão de uma República laica, e também membro da Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR), por meio da qual conheço e me relaciono com inúmeras pessoas das mais variadas vocações religiosas – neopentecostais, inclusive, ainda que poucos – que temem, de forma absoluta, a tomada do Estado pelo fanatismo.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de setembro de 2010].

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