Na semana passada, manifestei aqui minha extrema frustração e tristeza com o debate dos candidatos ao governo federal (e, no calor das emoções, até grafei um “observrador”, em lugar de “observador"), quer em relação aos participantes, quer à organização do mesmo. E concluí, numa tentativa honrada, exortando os leitores a evitarem votar nos “tipos folclóricos, coroneizinhos de meia-pataca ou coroneizões de alto coturno, missionários, pastores e apóstolos”, visto que a “democracia é muito maior que isto: não cabe num circo, num curral, nem em um templo de meia dúzia de sectários”.
Porém muito mais triste foi o resultado das urnas! A corriola que deveria ser evitada foi consagrada nas urnas, a começar pelo inclassificável deputado federal mais votado no país. Sua eleição, sem dúvida, deporá contra o eleitorado paulista durante muitos anos. Por muito tempo não se poderá falar mal, como era costume, nestas terras, dos outrora famigerados políticos nordestinos, eleitos por uma malta de ignorantes. Pois em matéria de ignorância e irresponsabilidade política, São Paulo marcou um tento sem par, digno de entrar no rol das infâmias públicas nacionais. E que não se argumente que o voto no circense candidato foi uma mera reação de protesto: uma coisa é preencher a cédula eleitoral do rinoceronte Cacareco (100 mil votos para vereador na eleição paulistana de 1959), outra, muito diferente, é contabilizar votos, válidos, numa urna eletrônica. Em suma, observou-se a um desastre. E o pior é que ele foi anunciado. Mesmo assim, 1.353.820 abestados paulistas elegeram como seu representante uma figura, para dizer o mínimo, incapaz: pois quando um palhaço, que vive do riso, não se mostra sequer hábil o bastante para provocá-lo (palhaço, aliás, valeria como um título de pós-graduação frente às parcas atividades e míseros recursos cômicos que o citado senhor sempre apresentou), o que se pode dizer quanto a qualquer outra atuação pública? “Como palhaço, ele é um ótimo político”? Ou “como político, ele é um perfeito palhaço”? Duvido muito quanto à primeira proposta. Quanto à segunda, é bem possível que seja válida. Mas por que elegê-lo, em detrimento de outros vários, que cumpriam, à risca, igual papel?
Porém, o mais cruel resultado das urnas foi a eleição, em primeiro turno, do picolé de chuchu, do Senhor Pedágio, também conhecido como Mestre dos Presídios. Ela comprova não só a falta de organização política dos funcionários públicos do Estado de São Paulo, como, ao mesmo tempo, o supremo descaso do eleitorado paulista frente a assuntos cruciais como a Educação, a Saúde, a Previdência Social em âmbito paulista e a Segurança Pública. Mais, do mesmo, mais uma vez, será sempre menos, e menos do mesmo. Todavia nossos bravos conterrâneos devem estar satisfeitos com o resultado. Quem sabe, agora, todas as cidades de nosso Estado poderão contar com presídios, pedágios, postos de saúde e escolas sucateadas. Poderemos ver grassar, em todas as nossas plagas, o ensino técnico – este prêmio de consolação que os governos dão aos filhos dos pobres que não ingressam nas universidades públicas. Pois, afinal, por que pretender entrar em universidades públicas, visto que elas são mais um ponto fraco das políticas educacionais da emplumada administração que governa nosso Estado faz duas décadas? Não! Que os jovens se lancem às privadas! Isto é, aqueles que sobreviverem ao analfabetismo funcional, endêmico, que nos assola desde os anos 1990.
Outro lastimável aspecto desta campanha eleitoral, que aqui ventilamos quando nos referimos à censura (?), melhor dizendo, à omissão da grande imprensa quanto a fatos relevantes ou críticas aos candidatos, plasma-se, claramente na atitude de um grande diário paulista quando demitiu uma de suas colunistas por estar não seguir a cartilha ideológica de seus patrões. E, depois, é o Presidente da República quem ameaça a liberdade de Imprensa? É ele, e tão somente ele, quem conta com órgãos jornalísticos intrinsecamente ligados à sua pessoa?
Quanto ao cachorro morto, confesso que o subestimei. Mas o que poderia fazer? Nada entendo da sobrevida dos vampiros, e de seus poderes, macabros, de regeneração... Cumpre agora, ao eleitorado nacional, exorcizá-lo de uma vez. Cravar uma estaca (ou poste) em seu peito. Porque o eleitorado paulista, longe de execrá-lo, só o alimentou com mais e mais sangue, de inocentes e ignorantes. Ou abestados...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 9 de outubro de 2010].
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