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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Pausa para reflexão


Katsushika Hokusai (1760-1849). A Grande onda de Kanagawa, c.1829-32.
Xilogravura colorida, 25.7 cm x 37.8 cm.. Museu Britânico, Londres.

Em crônica publicada em 5 de fevereiro passado, abrindo a série Viagem sentimental à roda de meus livros, prometi “contar alguns episódios curiosos relacionados a eles, ao comércio livreiro e às antigas edições [...] Salvo, é claro, se ocorrer algum outro desastre, ou quedas de governos, ou efemérides incontornáveis”.
Pois é, bem que tentei contornar a crise política do Norte da África e de parte da Península Arábica. Visto que ouvi da própria boca do insigne historiador francês Roger Chartier, já lá se vão quase cinco anos, que o pecado maior dos historiadores é tentar prever o Futuro, ando declinando dos exercícios de futurologia, pelo menos em público. E preferi esperar. Caiu Mubarak, do Egito, e um outro desconhecido na Tunísia? Bom, agora é só aguardar a queda de Kadafi, pensei comigo. Mas ele permanece no posto, não sei se de joelhos, mas está lá.
A primeira reflexão neste campo é bem prosaica. O ex-presidente do Egito, que governou por trinta anos aquele país graças a eleições fraudulentas, nunca havia sido chamado de Ditador (o que, de fato era), não digo pela imprensa mundial, mas, certamente, pela nacional. Era sempre o “Presidente Mubarak aqui”, “o Presidente Mubarak ali”, e pronto. Somente quando os protestos eram irreversíveis, assim como suas conseqüências, é que passaram a chamar o homem de ditador. Vícios da nossa Grande Imprensa, que é mais realista que o rei (ou melhor, mais americanizada que a norte-americana). A sua falta de independência, em muitos casos, ou mera bajulação, na maioria deles, talvez enxergasse no defuncto presidente o último dos Abencerrajes, o derradeiro paladino muçulmano, ilustrado, contra as hordas fundamentalistas. E fazia-lhe vistas grossas.
A segunda tem a ver com o plenipotenciário da Líbia, que até anteontem era Muammar Kadafi (ou Khadafi), e agora passa a ser anunciado pela Grande Imprensa como Gaddafi. Imagino que enquanto vivia ele na periferia do Mediterrâneo, sem motivar praticamente qualquer notícia que não uns descalabrozinhos de ordem interna, por lá, ou umas truices berradas no campo da política externa, acolá, ninguém se preocupou como deveria der grafado seu nome. Reproduzia-se, automaticamente, a manchete de alguma agência de notícias, principalmente norte-americana, e pronto. Mas, agora, não mais. Acho que os editores, ou chefes de redação andam cobrando mais serviço dos seus meninos. Fico até imaginando a cena: um redator sênior grita para a patuléia de plantão: “Ô Fulano, liga para o consulado da Líbia e vê como é que se escreve o nome do presidente deles!”, e corre o rapaz a cumprir a ordem. Dada a situação geral, volta o jovem e diz ao chefe: “Ninguém atende!”, e o intrépido jornalista veterano estertora: “Veja então como está escrito no New York Times!”; mas, responde o aprendiz: “Eles escrevem Qaddafi”. Então, num arroubo de justiça salomônica, proclama o sumo-chefe: “Nem Kadafi nem Qaddafi: ponha aí Gaddafi e não se fala mais nisso!” – e, assim, vai sendo feito o jornalismo pátrio...
A terceira reflexão é quase fútil, beirando o banal. Mas tem uma certa razão de ser. Pois que figurinha esquisita é o ditador líbio! Faça-se uma pesquisa de imagens, no Google, por exemplo, e veja-se quantos modelitos o tiranete desfila em público. Há fotografias dele em que parece um Roberto Carlos com o cabelo de Cauby Peixoto. Noutras, é o próprio Cauby, mas trajando farda completa. Noutras ainda, parece o defunto Michael Jackson em visita à África, ou ao Olodum... É sabido que ditadores têm um certo pendor por um vestuário movimentado, por assim dizer. Se houvesse uma tendência fashion dictarioral, Hitler e Mussolini seriam grandes designers, e Augusto Pinochet um top model. Mas, Kadafi, Qaddafi ou Gaddafi já é quase que um Elton John africano,passando de todas as medidas... Ou seria o John Galliano líbio? Afinal, ambos têm se destacado por seu declarado antissemitismo.
A quarta reflexão é ainda mais inútil: o resultado do desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, em que Roberto Carlos, mais uma vez, saiu triunfante, do que ninguém tinha dúvidas. Desfilasse a escola toda só coberta por uma folha de parreira, com a bateria desfalcada, passistas mancos e só um carro alegórico – o que traria “o Rei” – e ganharia do mesmo jeito. O tema era superior a qualquer quesito mensurável pelos juízes, que o digam os patrocinadores e transmissores da celebração...
Voltando aos temas sérios, quero concluir com o desastre ocorrido no Japão. Desastre, vígula, verdadeira catástrofe. Lamento, condoído, as vítimas do terremoto, da onda gigante que veio em seguida, e dos incêncios, de proporções lisboetas. Mas, com todo respeito, eles estão acostumados com isto. Terremoto no Japão é como eleição fraudada na África, sêca no Nordeste e chuva no Sul: todo ano tem. Tsunami, menos, mas há que se recordar que a obra de arte mais conhecida daquele país, e que ilustra esta crônica, retrata justamente, uma onda gigante, dentre as várias que o acometeram.
E, neste caso, os pontos de reflexão seriam pelo menos três. Vamos ao primeiro: se os pagodes, castelos, e sítios arqueológicos seculares não vieram abaixo, mas os prédios modernos, sim, não seria de se especular que estes últimos foram construídos seguindo o código de ética haitiano, ou bem parecido? Segundo: se o solo de lá é notória e milenarmente conhecido como sujeito a terremotos, como é que o Japão teve a coragem de instalar usinas nucleares em seu território? Economia? Ou, seguiu o padrão haitiano de qualidade e responsabilidade? Terceiro e último ponto: a Terra do Sol Nascente é uma das nações mais ricas do nosso planeta. Rica e perdulária. Como é que ela não tem alimentos de reserva para o seu povo, ou serviços de apoio que funcionem a contento, ou cidadãos dispostos a ajudarem seus irmãos? Querem, agora, que o mundo inteiro se condoa de suas imprevisões e políticas equivocadas?!
Respeito e admiro a cultura (artística) japonesa, mas o comportamento de seus praticantes frente à catástrofe tem deixado em muito a desejar. Que os ricos de lá (Aiwa, Honda, Kumon, Toyota, Sony, Fuji, Mitsubishi, Pentax, Pentel, dentre tantos outros), cuidem de seus desvalidos. Nós temos é de tratar dos nossos, como os de Alagoas, sem casas há mais de dois anos. Ou, mais recentemente, dos paranaenses do litoral.
Reconheço e louvo, entusiasticamente, o esforço de muitos brasileiros, de lá, que têm confortado e socorrido as vítimas de tal efeméride, dada a aparente inépcia ou falta de comoção dos naturais daquele país. Mas, convenhamos: organizarmos levas de doações para uma das nações mais ricos da Terra? Soa à piada de mau-gosto. Pois que eles se reorganizem, e aos seus modelos de gestão, e aprendam com tal calamidade. Temos ainda muita gente de quem cuidar, em nossas esquinas, grotões, etc.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP,em 20 de março de 2011].

sexta-feira, 30 de abril de 2010

A Ciranda de desgraças a girar

Todos os dias, por volta da uma da tarde, minha mulher e eu tomamos um café expresso numa confeitaria a uma quadra de nossa casa. O lugar é bastante agradável, tanto pela proximidade quanto pelo ambiente – salvo aos fins de semana: como se tornou um lugar meio que da “moda”, como dizem, uma gente estranha, mal-educada, pretensamente rica e claramente falastrona invade o lugar aos sábados e domingos. Nós, é claro, evitamo-los nestes dias.
Muito bem, há cerca de uma quinzena, pouco mais ou pouco menos, entramos ali e vimos um pequeno cartaz convidando os freqüentadores para uma festa, com fins filantrópicos, cujo cardápio seria um “porco no rolete”. Confesso que tenho verdadeira aversão a este tipo de prato, se é que o termo prato cabe a este tipo de coisa. Carneiros, novilhos e até mesmo bois – sim, perpetram isto em Cândido Rondon, Paraná – “no rolete” sugerem-me cerimônias bárbaras, banquetes selvagens, festins diabólicos: a refeição de um Gêngis Cã num dia de mau humor; ou de Átila, o Huno, em festa; ou de Vlad Drácula, o Empalador, num acesso de momentosa criatividade. Chego até mesmo a vislumbrar os preparativos, que , acredito, devem fazer eco à Orgia dos Duendes:

“[...] Lobisome apanhava os gravetos
E a fogueira no chão acendia,
Revirando os compridos espetos,
Para a ceia da grande folia. [...]

[...] Taturana, uma bruxa amarela,
Resmungando com ar carrancudo,
Se ocupava em frigir na panela
Um menino com tripas e tudo [...]”.


Deixando o velho Bernardo Guimarães (1825-1884) de lado, autor dos versos acima, retorno ao assunto para esclarecer o fim benemérito de tal manjar: o dinheiro arrecadado no funesto convescote seria revertido para as vítimas do terremoto do Haiti.
Não há dúvidas que o motivo é elevado, apesar da baixeza da proposta. Porém, ao mesmo tempo, dediquei-me a uma pequena contagem das desgraças mais recentes às para as quais pediram-se doações, para muitos, ou o cumprimento das Obras da Misericórdia, para alguns poucos e bons.
Contando somente a partir do fim do ano passado, assistimos às catástrofes de Angra dos Reis, São Luís do Paraitinga, São Paulo, Haiti, Chile, Niterói, Rio de Janeiro e, mais recentemente, China. Se escapou alguma, depois de tantas, peço desculpas aos leitores. Mas o fato é que, por baixo, tivemos oito hecatombes em meros quatro meses, ou seja, quase duas por mês, na média. Ora, Como disse um amigo meu, “não há bolso nem armário que aguente! Mal despachei uma leva de roupas para Angra, e veio o Haiti. Agora me pedem contribuição para o Rio: será que pensam que sou dono de tecelagem? Mais um pouco e estarei tirando a roupa do corpo para doar! Vai com calma, ô Natureza!”.
Brincadeiras à parte – pois brincadeiras não cabem diante de tais descalabros, e os excelentes exemplos de São Martinho de Tours e São Francisco de Assis devem ser sempre lembrados como lições a serem seguidas para o conforto de quem dele necessita – o fato é que ando meio desconfiado de quem promove certas práticas caritativas com um certo alarde e por meio de expedientes tão suspeitosos. Um untuoso banquete (banquete?) cujos fundos serão revertidos para famélicos, não cheira a certa hipocrisia, quer de quem organiza, quer de quem toma parte? Benemerência, agora, tem de vir acompanhada de publicidade e satisfação (satisfação?) dos sentidos?
De fato, assistimos, nos últimos meses, a uma ciranda de desgraças monumentais poucas vezes vistas – e que não se culpem a rapidez na circulação das informações ou a fome da grande imprensa por tais mazelas. Nem, acredito, são sinais do Juízo Final, como aqueles horrorosos History Channel (que divulga mais boatos que História) e Discovery Channel (cada vez com menos descobertas) parecem alardear. Na minha sincera opinião, os motivos de muitas dessas calamidades são, e para sempre serão, insondáveis. Por outro lado, as conseqüências, evidentemente, poderiam ser minoradas com um mínimo de vontade pública. Mas o que esperar de uma época em que as consciências se apaziguam ao frigir das banhas de um filantrópico porco no rolete, anunciado aos quatro ventos, coberto pela imprensa, com direito a várias fotografias dos beneméritos de pança cheia?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de abril de 2010].

Mais uma vez o desastre

No dia 6 de dezembro de 2008 – vejam lá quanto tempo faz – aqui neste mesmo espaço, comentei uma colossal enchente em Santa Catarina? Acaso alguém ainda se lembra do episódio, depois do que ocorreu em Angra dos Reis, São Luís do Paraitinga, no Haiti e no Chile? Tenho minhas dúvidas...
Pois bem, naquela crônica, cujo título era “Desastre anunciado”, disse, então:

“[...] convenhamos, temporais no Sul e seca no Nordeste ocorrem todo ano e quase que com data marcada no calendário. O problema, como é mais do que sabido, há décadas, e que poucos se lembram, não está nesses incidentes climáticos, mas, sim, na absoluta inépcia ou falta de vontade por parte das autoridades públicas quanto a procurarem diminuir os seus efeitos. E que se furtam das responsabilidades que são só suas. Pois, caso seguíssemos suas lógicas distorcidas, seria o mesmo que culpar um sujeito, que pereceu num naufrágio, por sua própria morte, visto que não sabia nadar. Está certo: ele não sabia nadar. Vá lá, naufrágios são imprevisíveis. Mas se houvesse botes salva-vidas suficientes, coletes, ou bóias, ele se salvaria. Entretanto, não havia. E se culpa o afogado. E o capitão e o dono do navio dão de ombros. Estão vendo como a questão não se sustenta?
Um barraco não é erguido nas margens de um rio — sob o risco de ser levado na primeira cheia, por menor que seja — porque assim o seu “dono” o quis. Ele ali está porque o fiscal não fiscalizou. Porque o vereador fulano fez pressão sobre o funcionário público beltrano para que este fizesse vista grossa frente à coisa: vão alguns votos para um e uns trocados ou uma promoção para outro. E o coitado do posseiro por ali vai ficando...
Uma casa erguida numa encosta que, à primeira chuva, pode desabar, não foi ali construída porque seu dono tem “amor ao perigo” ou “sede de adrenalina”. Se naquele lugar se encontra, foi porque algum empresário inescrupuloso loteou o morro, com a conivência de um prefeito, de técnicos, etc. E repete-se a equação “dinheiro + vantagens = lucros + votos”.
É a especulação imobiliária, açambarcando os melhores terrenos de uma cidade, que empurra as pessoas sem condições para as beiras de rios, áreas de mananciais, encostas, altos de morro e por aí afora. É a especulação imobiliária que corrompe as autoridades públicas a ponto de que estas permitam loteamentos, até de alto padrão, em lugares instáveis: que se lixe a segurança e o ambiente!
Mas culpa, também, e muita, senão a principal, cabe aos nossos representantes políticos e aos empregados deles, pagos, afinal de contas, e no final das contas, lembremos, com o nosso dinheiro. São eles que fingem não ver o que salta aos olhos até mesmo de um cego. Que não escutam os argumentos lógicos que ribombam nos ouvidos inclusive dos surdos. E que respondem com discursos tão vazios e sem sentido que fariam um mudo jamais ter inveja ou desejo do poder da fala, com medo de que pudesse repetir semelhantes disparates [...]”.


Voltemos a esta semana e ao que aconteceu no Rio de Janeiro e em Niterói. Não se tratou, exatamente, do mesmíssimo caso?
São estas constantes repetições de absurdos (isto mesmo, não se trata de um pleonasmo, mas de uma constatação quanto à insultuosa frequência com que tais fatos ocorrem) que acabam por levar à descrença no futuro deste país.
No episódio do Rio, entretanto, há severos agravantes: o eterno problema das favelas que, mesmo urbanizadas, demonstram sua permanente situação de risco. Pois na rua da favela, por onde não passa carro de polícia, também não circula ambulância, caminhão do corpo de bombeiros, guindaste nem escavadeira. Como estamos vendo, nos últimos dias...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de abril de 2010].

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O Haiti, desta vez, não é aqui

Os leitores que me desculpem, mas é muito difícil acrescentar quaisquer informações ou análises novas a respeito do terremoto no Haiti que não tenham sido exaustivamente apresentadas por todos os meios de comunicação da face da Terra. O assunto, aliás, parece ter sido mais revirado pela grande imprensa do que o foram os escombros e ruínas pelas equipes de resgate. No Brasil chegou-se ao cúmulo de duas revistas concorrentes publicarem a mesmíssima fotografia em suas capas.
De modo que não teria muito sentido, aqui, alongar-me sobre os principais aspectos da catástrofe que abateu aquele país e seu povo, tão explorado. Nem prantear ainda mais a miséria em que vivem, a corrupção e incompetência dos políticos e da classe dominante de lá, a ignorância do povo, a péssima qualidade das construções locais, o mau-caratismo dos empreiteiros que as ergueram, em suma, todas as mazelas que afligem os haitianos e que se exacerbaram graças àquela horrível fatalidade.
Quero enfocar, portanto, dois aspectos que me chamaram a atenção no episódio todo.
Em primeiro lugar, pareceu-me que vem ocorrendo um tremendo desconcerto entre as nações que se prontificaram a ajudar o país. As relações entre elas, diante dos fatos, dão a impressão de um diálogo de surdos que também são cegos: todos falam, mas ninguém escuta e os sinais não são interpretados. Veja-se o caso da ocupação militar norte-americana do aeroporto de Porto Príncipe. Vá lá que alguém precisasse pôr ordem no lugar, mas o estilo caubói dos estadunidenses – ocupam o Forte Apache e deste ninguém entra ou sai – provocou atrasos no desembarque das equipes de resgate estrangeiras e até dos insuspeitíssimos Médicos sem Fronteira. E quando for necessário administrar o dinheiro das doações (estatais, particulares, do terceiro setor, etc.)? Quem irá cuidar dele? Os haitianos? Não sei não... É muito mais que preocupante, é verdadeiramente assustador, observar como tão poderosas nações parecem não chegar a um consenso mínimo, em tempo hábil, diante de uma calamidade destas.
Em segundo lugar, fico imaginando o trabalho de Hércules que será reconstruir o Haiti. Bom, reconstruir em termos, porque muita coisa faltava por lá, sobretudo no que diz respeito à infraestrutura. Mas do pouco e mal-feito que existia, ainda assim era alguma coisa, ocupava um certo espaço. É de se imaginar, por exemplo, o que farão com as toneladas de entulho em que se transformou sua capital. Como serão transportadas, se não há estradas? E seriam levadas para onde? O país é pequeno. Como se dará a recuperação do país, pobre e corrupto? Seguindo as mesmas regras de antes? Sob intervenção estrangeira? Sim, porque o presidente haitiano não é nenhum Marquês de Pombal, pelo contrário. Nem Porto Príncipe é a Lisboa do século XVIII. Por ora, estão enterrando os mortos. Mas conseguirá ele cuidar dos vivos?
Há pouco tempo, falei da urucubaca que tem dominado São Paulo. E os leitores certamente dirão que a do Haiti nos superou. De minha parte, digo que superou em número de mortos. Pois as destruições pela chuva – leia-se, também, por culpa da ausência de projetos urbanísticos e incompetência das autoridades – continuam. E os donativos com que contavam os habitantes de São Luís do Paraitinga, por exemplo, agora são enviados para outras plagas.
Tristíssimo e miserável Haiti! Rezemos por ele. Triste e pobre São Paulo. Que Deus tenha piedade de nós! Porque se houver um terremoto por aqui, muito pouco também há de ficar de pé: talvez só as estradas privatizadas, com suas cabines de pedágio.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 23 de janeiro de 2010].

Mais nuvens negras sobre São Paulo

As nuvens negras que pairam sobre os céus de São Paulo, há vários anos, abandonaram o seu aspecto, por assim dizer, metafórico, para se converterem em algo muito mais palpável e cruel, por via do clima: uma série de chuvas impiedosas que têm destruído cidades, sendo o caso mais grave o de São Luís do Paraitinga, completamente varrida pela enchente do rio que passa por ela.
A destruição, ali, foi quase absoluta. Nada menos de trezentos imóveis foram afetados pelas águas, e cento e oito deles interditados. A Igreja Matriz – sob a invocação de São Luís de Tolosa, padroeiro do município, e a mais alta construção da cidade – desabou sob o impacto da enchente. E o mesmo triste destino sofreu a encantadora capela de Nossa Senhora das Mercês, seguramente um dos mais antigos prédios locais. Não bastasse isto, o cartório foi devastado, destruindo bicentenários registros, apagando a memória dos mortos e dos vivos. E a biblioteca, uma das raras existentes em localidades daquele tamanho (pouco mais de 10 mil habitantes) no Estado de São Paulo. Sem falar na interrupção do abastecimento de água e telefone, das pessoas que tiveram de abandonar suas casas. Por sinal, ali, nem os animais foram poupados: as águas invadiram até o canil da Associação Protetora dos Animais, resultando na morte de oitenta gatos e mais de setenta cães.
Louve-se o heróico papel dos grupos e empresas de canoagem locais, responsáveis pela salvação de muitas vidas. Não fossem eles, as consequências seriam muitíssimo piores: pois apesar de São Luís ser um dos pontos turísticos mais visitados do Estado, célebre pelo seu casario histórico, o corpo de bombeiros local conta com apenas três – isto mesmo, TRÊS – integrantes. Veja-se o cuidado que a administração estadual tem por aquela preciosidade arquitetônica, o respeito que nutre por seus habitantes...
Por sinal, como costumam ser as coisas neste país e, sobretudo, em nosso Estado, o desastre já vinha sendo anunciado. Há dois, anos uma cheia do rio já pusera em alerta os cidadãos. Mas o Palácio dos Bandeirantes, acomodado em sua inércia de mais de uma década de sucessão de compadres, nada fez por São Luís – em nenhuma esfera, frise-se, pois é uma queixa de cada cidadão luisense com quem se encontra.
Estive ali por duas vezes. Passei ótimas temporadas por lá. Tratava-se de uma localidade que tinha tudo para ser – senão uma Ouro Preto paulista – algo não muito distante de uma Tiradentes do Vale do Paraíba, ou uma Paraty de serra acima. Mas as autoridades estaduais pouco se lixavam por São Luís do Paraitinga. Uma prova disto é mais do que evidente. Para que seu conjunto arquitetônico fosse oficialmente tombado pelo IPHAN, seria necessário que a rede elétrica fosse embutida no calçamento, para melhor visão dos prédios e logradouros históricos. Mas a verba veio? Claro que não. O Estado de São Paulo, administrado por pessoas pouco afeitas ao passado que antecede suas próprias origens, tem frequentemente rejeitado iniciativas do gênero.
E uma das provas do que dizemos é facilmente reconhecível pelas palavras do Excelentíssimo Senhor Governador do Estado de São Paulo, o nosso conhecido Chirico. Disse ele, em visita, tardia, ao município, e sem poder culpar São Pedro pela catástrofe, nem pronto para uma autocrítica, mas, sim, rápido para encontrar um bode expiatório: “O pessoal do patrimônio histórico gosta muito de discutir e debater. Desta vez, vamos ter que fazer uma ação mais rápida” e, mais adiante, acrescentou que “Se discutirmos academicamente [quanto à reconstrução] vamos levar anos”.
Quando ouvimos a pressa do Chirico em pôr tudo de pé, para além das justas preocupações patrimoniais expressamente negadas por ele, trememos nas bases. Seriam as obras de reconstrução de São Luís do Paraitinga regidas pela mesma avidez de tempo da Linha Amarela do Metrô? Ou dos viadutos do Rodoanel?
Não se reconstitui a história e a vida das pessoas por uma assinatura palaciana, ainda que do primeiro mandatário do Estado, sobretudo quando o mesmo ignora as noções mais básicas do procedimento de restauração. Pois antes de assinar um simples cheque, que daria conta da obra, há que se saber da eficiência dos trabalhos, das aspirações locais, dos procedimentos técnicos.
Será o Chirico capaz de tais feitos? Restituir São Luís do Paraitinga, dotar a cidade de um sistema contra as enchentes, e devolvê-la ao circuito turístico estadual? Conseguirá ele resgatar o passado, o orgulho, a própria noção de existência, roubada pelas águas, dos luisenses? O povo do Estado de São Paulo aguarda por esta resposta. Mas será que ela virá, num ano de campanha? E, olhem, que nem falei da urucubaca....

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 9 de janeiro de 2010].

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O Terremoto do início do Milênio

O recente terremoto no Oceano Índico, seguido das ondas gigantescas que devastaram toda a região sul da Ásia, é um destes fenômenos que dão muito o que pensar, sobretudo a nós, cristãos — lembremos que toda a coisa teve seu início em pleno dia de Natal — e ocidentais, para não dizer, também, falantes do português — porque outro evento igualmente horrendo vitimou não só a Europa, mas mais especificamente Portugal.
Pois no dia 1 de Novembro — Festa de Todos os Santos, uma das mais importantes da Cristandade àquela época — do ano de 1755, pouco depois das 9 horas da manhã, quando as igrejas estavam cheias de fiéis e as ruas tomadas pelo povo que ia ou voltava dos cultos, um dos mais violentos tremores de terra de que há memória ou registro destruiu quase toda Lisboa. Prédios sucumbiam, incêndios surgiram de toda parte, e os muitos, apavorados, que se meteram em barcos ou navios para fugir daquele terror, foram colhidos por uma onda de proporções inimagináveis que convulsionou todo o Mar da Palha — como é chamada a larga embocadura do rio Tejo — e varreu toda a parte baixa da cidade. E o resultado de tantos desastres foi terrível: uma metrópole em ruínas e mais de 60 mil mortos.
Tudo isto, note-se bem, ocorrido no espaço limitado de uma cidade que era grande, mas longe estava de ser uma das maiores da Europa, e no correr de um único dia, ao fim do qual, um rei, D. José I, quase em estado de choque, perguntava a um ministro — que não era o mais poderoso, mas tivera a audácia a presteza de ser o primeiro a se apresentar frente à sua majestade — “o quê fazer agora?”. E, segundo a tradição, respondeu-lhe o ministro — Sebastião José de Carvalho e Melo, que ainda não era Conde de Oeiras, nem muito menos Marquês de Pombal — num exemplo de praticidade e larga visão: “Agora é sepultar os mortos e cuidar dos vivos”.
Se para os portugueses foi um horror indescritível, emocional e materialmente falando, do ponto de vista espiritual também foi um terror. Portugal era uma das nações mais religiosas, das mais ferrenhamente católicas da Europa, com proporções altíssimas de clérigos regulares e seculares dentre a população, com um sem fim de catedrais, igrejas, capelas, santuários, ermidas, cruzeiros, conventos e mosteiros. Tinha, como defensor da Pátria, como seu "Anjo da Guarda Nacional", por assim dizer — então chamado "Anjo Custódio" — ninguém menos que o Arcanjo São Miguel, que teria sido visto combatendo, lado a lado com os portugueses; como protetor, havia São Jorge, e como padroeiro, Santo Antônio, que era também padroeiro de Lisboa e, mais do que tudo, nascido ele próprio naquela cidade (Pádua é o local de sua morte). E não bastasse o que já era tanto, mal cumpriam-se sete anos desde que seus monarcas foram reconhecidos como grandes defensores do Catolicismo, através do título de Sua Majestade Fidelíssima — concedido pelo Papa Benedito XIV ao Rei D. João V, e extensível a seus descendentes —, honraria que só se rivalizava à de Sua Majestade Católica (pertencente aos reis de Espanha) e de Sua Majestade Cristianíssima (esta, aos Reis da França) e que representava o quanto a Santa Sé devia em preito de gratidão a Portugal.
É preciso dizer que a violência do fenômeno e suas conseqüências impressionaram fortemente toda a Europa, e os mais ilustres personagens a deixarem um testemunho a respeito do episódio, em razão também de seu grau de envolvimento, foram Voltaire (1694-1778) e Rousseau (1712-1778). Pois ambos os autores travaram uma célebre polêmica justamente em razão daquela hecatombe.
O primeiro não só utilizou-se do terremoto para rebater parte das teorias de Leibniz, grande filósofo de meados do século XVII, princípios do XVIII, como o mesmo desastre lhe serviu de tema para um longo poema, intitulado o “O Desastre de Lisboa” — em que indaga como um Deus benevolente e onipotente teria permitido tamanha destruição e sacrifício.
Já o segundo, que discordou da interpretação do fato dada por Voltaire (mas que também era admirador de Leibniz), respondeu a ele por meio da “Carta sobre a Providência”, na qual procurava eximir de culpa tanto a natureza quanto Deus, e atirando-a toda para as costas dos homens pelo fato de viverem em casas sólidas de mais de dois andares dispostas numa área relativamente pequena e quase incitando a humanidade a viver em cabanas ou choças como as dos índios em geral.
Não é preciso dizer o quanto o argumento utilizado por Rousseau foi, e até hoje ainda o é, massacrado por boa parte dos leitores. E Voltaire, cuja pena era um chicote, não deixou por menos: volta ao desastre de Lisboa e dele faz referência no capítulo VI de seu clássico romance, cômico e filosófico ao mesmo tempo, “Candido, ou o otimismo”, no qual ironiza justamente certas idéias de Rousseau, que julga um otimista para além da realidade ... por causa do terremoto.
Bem, o fato é que, quanto ao terremoto de Lisboa, duzentos e quarenta e nove anos já se passaram e, parafraseando a célebre frase atribuída ao Marquês de Pombal, já sepultaram seus mortos e já cuidaram dos vivos que, por sua vez também morreram, e não são mais pranteados porque ninguém mais se lembra deles, porque a vida dos homens continua, o tempo segue, as cidades são refeitas, como Lisboa também o foi.
O que se viu recentemente nas terras banhadas pelo Oceano Índico foi, indubitavelmente, tristíssimo e assombroso. Mas não devemos circunscrevê-los à esfera a qual pertencem os conceitos de bem ou mal, ou àquela outra onde gravitam as noções de bom ou mau. O horror que vitimou aquela região da Terra não foi a vontade de um Deus em querer punir cristãos hedonistas que trocam um Natal em família por exóticos e distantes ambientes, ou não-cristãos que não reconhecem o nascimento de Jesus, como muitos têm ouvido nos últimos dias. Pois o que, em suma, aconteceu foi um mero, ainda que imenso, fenômeno da natureza, cujos efeitos poderiam ser muitíssimo minorados se houvesse nas regiões atingidas algum monitoramento contra esse tipo de ocorrência, além de condições básicas para a atuação de uma defesa civil eficiente. Vale lembrar que a natureza é imprevisível, porém manda avisos, cabe aos homens democratizar as tecnologias que decifram esses comunicados, ao invés de imputá-los a qualquer outra força maior.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 30 de dezembro de 2004].