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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Kadafi: vivo, ditador; morto, cangaceiro

Em crônica de 19 de março passado, intitulada Pausa para reflexão, pouco depois do tsunami que atingiu o Japão e no início da chamada Primavera Árabe (que vai a cada dia mais se tornando uma espécie de Outono Persa), tratei um pouco do ditador líbio Muammar Kadafi. A grande imprensa, então, acreditava, num frenesi de oba-oba, que ele seria o próximo tirano a cair, depois de Mubarak. Mas aquele permanecia no posto, ainda que de joelhos, e que estava lá, estava. E, portanto, disse, então, que era melhor esperar para ver ou comentar alguma coisa. Vejo, sem falsa modéstia, quão acertada foi minha opinião, uma quase futurologia às avessas. Pois o homem só caiu, morto, sete meses e um dia depois da publicação de minha crônica – mas não graças a ela, evidentemente. Sábios conselhos de Roger Chartier! Que bom que os ouvi, e justamente aquele de que “o pecado maior dos historiadores é tentar prever o Futuro”!
Naquela mesma ocasião, tratei da querela quanto à grafia de seu nome, ora Gaddafi, ora Khadafi e outros tantos. Bem como seu pendor para a extravagância no vestir e no pentear. Permitam-me citar-me:

“Pois que figurinha esquisita é o ditador líbio! Faça-se uma pesquisa de imagens, no Google, por exemplo, e veja-se quantos modelitos o tiranete desfila em público. Há fotografias dele em que parece um Roberto Carlos com o cabelo de Cauby Peixoto. Noutras, é o próprio Cauby, mas trajando farda completa. Noutras ainda, parece o defunto Michael Jackson em visita à África, ou ao Olodum... É sabido que ditadores têm um certo pendor por um vestuário movimentado, por assim dizer. Se houvesse uma tendência fashion dictarioral, Hitler e Mussolini seriam grandes designers, e Augusto Pinochet um top model. Mas, Kadafi, Qaddafi ou Gaddafi já é quase que um Elton John africano, passando de todas as medidas... Ou seria o John Galliano líbio? Afinal, ambos têm se destacado por seu declarado antissemitismo”.

Mas, vendo por outro lado, é curiosa a comparação entre ditadores, se pensarmos em seus momentos finais, ou logo depois deles. Pinochet, Mao, Stálin, Idi Amim, Bokassa, vários dos ditadores argentinos, e todos os nossos, morreram velhos, serenamente em casa, ou num luxuoso exílio. Hitler se matou e, por suas ordens expressas, queimaram seu corpo. Getúlio idem, mas seus restos foram venerados. Podem até dizer que, então, ele havia sido eleito democraticamente, o que é um fato, mas quem o pranteou, na verdade, era por saudades de sua ditadura. Saddam Hussein, capturado num aspecto que lembrava um mendigo ou um lobisomem, foi enforcado qual um cão na coleira, e dele não tivemos mais imagens. Um fim muito diferente do sofrido por Mussolini, fuzilado e depois exposto à execração pública durante vários dias, pendurado pelos pés, na Piazza Loreto em Milão.
A morte de Kadafi, e o que fizeram com seu corpo, tem algo do que se fez com Mussolini. Mas olhando bem as imagens, o que de fato me vinha a lembrança era o fim de Lampião, o rei dos cangaceiros. Os closes sobre o rosto do líbio remeteram-me diretamente aquela tétrica fotografia das cabeças de Lampião, Maria Bonita e parte de seu bando expostas na escadaria da igeja de Piranhas, AL, uma imagem que se encontra em todos os livros escolares e que chocam por seu horror. Pensei em expor as duas fotografias lado a lado, mas não quero chocar o leitor. Depois, mesmo facínoras merecem um pouco de respeito depois de mortos.
Que coisa, ao fim. Kadafi viveu como um ditador, poderoso lá em sua terra, que não é lá essas coisas, mas, ali, ele era o Supremo. E no entanto, no final das contas, morreu emboscado como um cangaceiro e, como tal, também vilipendiaram seu corpo. Curiosa é a roda da fortuna...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 22 de outubro de 2011].

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Mulher brasileira em primeiro lugar!

A Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República quer retirar de circulação um comercial de roupa íntima em que uma, como dizem por aí, übermodel brasileira se apresenta naqueles trajes, e na ausência de outros, para dar más notícias ao marido. Pois, de acordo com um comunicado do órgão do governo, a peça publicitária “promove o estereótipo errado da mulher como objeto sexual de seu marido e ignora grandes avanços que alcançamos para desmontar práticas e pensamentos sexistas”.
Atentaram no texto? Viram que valiosíssima pérola de estupidez? “Estereótipo errado”! Quer dizer que existe um “estereótipo certo”? Sempre pensei, e acredito que a maioria das pessoas também, que todo e qualquer estereótipo é, em si, equivocado, porque demasiado simplista, parcial, etc. Mas vamos lá saber hoje em dia... E não discordo quanto à necessidade de valorização dos avanços femininos rumo ao desmonte das práticas e pensamentos sexistas, pelo contrário. Porém, se o mesmo argumento for levado a fundo, até a profissão daquela moça acabaria por se tornar alvo da mesma censura. Pois, afinal, o que é um/uma modelo que não um objeto sexual, visto que é sua beleza escancaradamente oferecida o chamariz que leva muita gente a leva a consumir isto ou aquilo, julgando que está, sim, consumindo quem anuncia aquilo ou isto? Alguém já viu um ou uma modelo escolhida que não por sua aparência, mas, sim, digamos, por seus méritos morais ou intelectuais? É claro que não nem é isto o que se espera. O apelo é a carne (ainda que a maior parte deles não as tenha), a luxúria, o sexo, portanto. Ótimos prazeres, mas que jamais serão usufruídos pela simples compra do que quer que seja com junto a quem o anuncia. São, de fato, objetos, na mais completa acepção do termo, na medida em que sua função é a de vender um produto, tal qual um cabide ou uma vitrine o faz. E se o consumo se dá mais por uma vã tentativa de imitação – “ se fulana usa isto, eu também usarei, para me sentir tão poderosa como ela”, como muitas mocinhas, ou nem tanto, parecem pensar – que se olhem no espelho, confiram suas formas, e depois avaliem seus saldos bancários e pensem na outra. Verão o quanto foram iludidas por um objeto cuja única função é vender. Como uma máquina de vendas, ou de fazer dinheiro, pilhou o dinheiro delas, e só engrossou seus fundos (volumosos, do ponto de vista financeiro, mas fundos um tanto magros na parte física, como é de conhecimento nacional). Um objeto hipnótico, que faz as pessoas perderem a razão e lançarem-se às compras, pela sugestão da satisfação de um desejo, por uma tentativa de cópia inatingível... por uma ilusão, portanto.
Mas outra pérola, tão valiosa quanto a primeira, se encontra na resposta do anunciante que alegou ter em sua campanha o “objetivo claro e definido de mostrar, com bom humor, que a sensualidade da mulher brasileira, reconhecida mundialmente, pode ser uma arma eficaz no momento de se dar uma má notícia”. Não, realmente, esta da “sensualidade da mulher brasileira” é ótima! Vá lá que a moça seja mundialmente reconhecida como bela e sensual. Mas seu biótipo, fenótipo e genótipo são 100% alemães! Pode ela pertencer à sexta geração de imigrantes aqui radicados, mas ninguém, em parte alguma do mundo, a apontaria na rua e diria; “aí vai uma brasileira”. Claro que não! Ela me faz lembrar aquela velha anedota, relacionada aos filhos de imigrantes italianos que não se sentiam brasileiros, visto que nascidos aqui de casais oriundi, e se comparavam aos gatos de padaria, que, ainda que nascidos no forno, não eram, certamente, pães! Nem os mais exacerbados teóricos da suposta necessidade de branqueamento do país, umas figuras que pontearam aqui e ali na imprensa, de fins do século XIX e começo do XX, que o atraso do país se devia aos negros e índios, e que influíram nas políticas de imigração que privilegiaram caucasianos, nem estes, se redivivos, por mais orgulhosos que se sentissem com a projeção mundial da moça em questão, concordariam que ela era uma “mulher brasileira”. Se muito uma promessa, porém jamais uma realidade, em qualquer época que fosse. Inclusive na atual. Sua aparência de brasileira é similar a de dinamarquês do ator Luiz Gustavo – o célebre Beto Rockfeller e Mário Fofoca de antigas telenovelas – um filho de espanhóis nascido na Dinamarca e que encarnou, sim, um certo tipo de brasileiros. Ou à cara de mexicano dos também atores Chico Diaz (filho de um peruano, e excelente na caracterização de jagunços e cangaceiros do nosso Nordeste) e Giselle Itié (filha de um mexicano e de uma brasileira), brasileiríssima na forma e no semblante.
A brasileiridade, quanto à aparência, é um conceito muito fluídico e sólido ao mesmo tempo. Ela provém dos estudos de Gilberto Freyre, dentre outros, e se estabelece no Estado Novo, graças ao Dia da Raça Brasileira, celebrado em 5 de setembro, até hoje em alguns lugares. A proposta era boa, mas não foi lá muito levada à sério. Propugnava que o tipo nacional era eminentemente mestiço, com vistas a abrandar as diferenças de cor e de origem através de um aplainamento das diferenças. Algo do tipo: “você é branco hoje, mas sua tataravô foi índia, e seu bisavô negro”. Mas muita gente não gostou. Eram brancos que não queriam ser lembrados de sua origem morena, e também negros, porque tal fórmula poderia encobrir – e de fato o fez, menos pela intenção da lei e mais pela prática de alguns brancos – os preconceitos e vilipêndios sofridos pelos negros, que duraram décadas. Mas o fato é que o espírito da coisa toda funcionou, de certa maneira. E as pessoas de bem enxergam em nossa morenidade e mescla a tão propalada brasileiridade, ou brasileirice.
Em vista de tudo o que foi exposto, acho que todos os nossos compatriotas de bom senso hão de dar uma resposta unânime à seguinte pergunta: quem mais encarna a sensualidade da mulher brasileira? Gisele Bündchen ou Juliana Paes? A ebúrnea loura de estendidas proporções silfídicas, ou voluptuosa morena com olhos de cunhã? Quem não souber responder, não é brasileiro...

[Pubricado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de outubro de 2011].

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Uma móvel feira de móveis, e certas ideias imutáveis

Um amigo convidou-me para visitar, recentemente, uma feira internacional de móveis ocorrida em São Paulo. Tratava-se de um evento fechado, destes dos quais só participam profissionais do setor, como era o caso de meu anfitrião. Curioso que sou, e mais ainda afeito a uma peta, fui até lá, passando-me por alguém do ramo, no que meu confrade ajudou. É muito fácil, aliás, conseguir tal coisa: basta alguém de dentro colaborar e despeja-se um ônibus inteiro de penetras (uma categoria a qual, pela primeira vez em minha vida, posso dizer que pertenci, momentaneamente). E, assim, por aqueles corredores – vazios – passeei qual um comprador atacadista, empresário moveleiro, decorador ou arquiteto, mal ocultando minha diversão por saber-me um intruso ali.
Como nada do que era exposto naquele recinto era passível de ser comprado individualmente, flanei por lá e cá na busca de alguma coisa que pudesse me interessar, menos como objeto de compra e mais por sua beleza de acabamento, ou proposta de decoração, ou, em suma, para saber o que as fábricas de móveis fazem que pudesse interessar a uma pessoa afeita a certos valores estéticos. Mas, para a minha surpresa (tratava-se de um evento internacional, com dúzias de expositores!), a curiosidade foi cedendo espaço, metro a metro caminhado ali, à mais completa decepção. E vejamos por que.
Logo à entrada, havia um mostruário com os móveis que ganharam um prêmio interno (criado pelos organizadores) para avaliar o melhor design de uma cadeira, mesa, etc., nos últimos anos. Desconsiderei os premiados de dois ou três anos passados e me concentrei no vencedor de 2010. Pensei: “se este móvel ganhou um prêmio tão importante concedido por profissionais da área, o mínimo a se supor é que boa parte do que adiante estará exposto faça alguma referência à obra premiada”. Qual o quê! Mais uma vez deparei-me com um daqueles casos já mencionados de um “discurso loquaz” lançado a uma “plateia surda”. O “gênio de ontem” não deixou descendência hoje. E, portanto, restou-me vagar por uma sucessão, quase infinita, de cópias de cópias, que seguem tendências, e passam longe de ideias ou conceitos.
Entendo que alguns setores da indústria e do comércio sejam conservadores. Quem haveria de investir num novo e radical produto se o tradicional (ainda que este seja só uma voga) venda bem? Que se faça más de lo mismo. Porque sai, tem compradores. E agrada a todos. Mas não a mim.
Invejo algumas gerações anteriores à minha, que iam a uma loja de móveis e compravam, por exemplo, uma sala de jantar. Naqueles tempos, uma compra desta não se resumia à mesa e às cadeiras, mas incluía um aparador, um armário, não raro um bufê, uma cristaleira, além de um carrinho de serviço. De forma que se montava um ambiente da melhor maneira que se podia, numa tacada só, e no mesmo estilo. Por outro lado, de uns tempos para cá, valoriza-se a escolha aleatória de tais objetos, da qual não discordo totalmente.
Mas, convenhamos, nos dias de hoje, dá um trabalho miserável, e cansativo, ir de seca a meca, tentando descobrir um armário, console, ou o que for, que combine com a mesa de jantar. Ou que nem sequer combine, e que seja, por sua vez, diferente. O trabalho é o mesmo... E nisto perdem dinheiro os fabricantes de móveis. Pela concorrência do antigo ou do aleatório que suprem as carências de ocupação de espaço? Exatamente. Se o objetivo é vender o máximo para as massas, que se passe um projeto completo. Cabal. Que não se abram tais brechas à concorrência. Mas a visão dos empresários de certos setores é muito obtusa. E não esperemos deles tais reflexões. Às voltas, que vivem, com acrobacias contábeis e malandrices fiscais, têm eles pouco tempo para pensarem na produção. Melhor é lesar o fisco, “meter o pau” no governo (seja ele qual for), arrochar os empregados e seguir fazendo o mesmo que sempre foi feito. Seguir a tendência: fabricar cópias de cópias, por que assim o mercado quer...
Mas qual mercado, cara-pálida? Amanhã estaremos comprando noutro fornecedor, noutros meios, noutras fontes do belo, contra a mesmice de praxe que nos empurram goela abaixo.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 20 de agosto de 2011].

Machos medrosos não são bons para a continuação da espécie

O Dia do Orgulho Heterossexual é a maior aberração política, social e cultural que já vi em toda a minha vida. Declaro isto solidamente plantado na minha condição de homem, heterossexual, historiador, leitor e pesquisador, culturalmente católico e, como tal, aberto à tolerância e à inclusão – em suma: jamais um defensor dos preconceitos.
São Paulo se jacta de sua modernidade, de sua riqueza, de seus avanços e, no entanto, muitas vezes se comporta como uma vila dos grotões, elegendo umas figuras arcaicas, metidas a coronelões, ou párocos de antigamente, destes que só devem existir ainda em reprises de telenovelas. E não é só na cidade, não. Nosso Estado vem sendo governado e representado (na Assembléia Legislativa e na Câmara dos Deputados) por umas criaturas que parecem ter saído de uma trama de Dias Gomes ou Aguinaldo Silva. A única diferença é o sotaque. Trata-se do triunfo da caipirice naquilo que esta tem de pior: uma atração por invencionices novidadeiras que ofuscam a visão do verdadeiro atraso em que se vive. Pensa-se Nova Iorque, mas não passa da Itaoca criada por Monteiro Lobato. Ou uma Síria metida à França. Pois esse tal de “Dia do Machão” parece coisa de fundamentalista islâmico, gente de um livro só, pronto para ser invocado – ou sacado, como um revólver – diante de cada episódio da vida, e aplicado na sua inteira literalidade.
Talvez mesmo se tratem de fundamentalistas, mas de outras igrejas, os que estavam por trás – ops! – da referida lei. Quais serão as novas conquistas sociais, por força de normas, que tentarão nos empurrar? O apedrejamento de blasfemos (Levítico 24:22-23) ou de mulheres que não cheguem virgens ao casamento (Deuteronômio 22:20-21)? Ou ainda um “Dia do Orgulho Careca”, em que será celebrada a intervenção de Deus, na forma de dois ursos, que despedaçaram quarenta e dois meninos, os quais teriam zombado da calva do profeta Eliseu (2 Reis 2: 23-25)? Terá direito à marcha pela Avenida Paulista e carro alegórico, puxado por um cordão de carecas, onde vermos os ursos, o profeta e as crianças em pedaços?
Brincadeiras à parte (brincadeiras bem sérias, diga-se de passagem), este monstro parido por vinte e oito homens e três mulheres, concebido sabe-se lá como, é algo de horrorizar por um motivo muito claro. Ele se apoia falsamente na ideia de que numa democracia todos têm o direito de manifestação pública de seus pensamentos e defesa e acolhimento das mesmas pelas instituições. Valendo-se deste preceito, o nazismo, o racismo e a xenofobia poderiam também se fazer ouvidos, acatados, defendidos, etc. Algo do que até uma pessoa de poucas luzes, mas bondosa e honesta, discordaria.
Claro que nem todo heterossexual é preconceituoso, pelo contrário, dentre eles este que vos escreve. Mas a criação de uma data para celebrar o seu orgulho soa à provocação e desconsideração por parte dos que não se incluem nesta categoria. O que é muito diferente dos casos de um Dia da Mulher, do Orgulho Negro ou do Orgulho Gay, estes sim, vítimas de preconceitos e violências de homens heterossexuais (ou que assim dizem ser) e brancos. Ora, parafraseando uma música de Caetano Velloso, mas conservando o seu sentido original, “o macho adulto branco” não esteve sempre no comando? Então por que agora ele parece se sentir acuado? Ui, que meda...
Esta questão de orgulho cheira mal também por uma outra coisa. Sempre acreditei que um indivíduo só pode se orgulhar de algo que tenha conquistado por si próprio. Ninguém se orgulha de ser honesto ou virtuoso. A pessoa é simplesmente honesta ou virtuosa, ou não. Possuir tal conceito de si mesmo é hipocrisia, santarronice, farisaísmo. Pois seguir tais comportamentos, ou preceitos, não é mais do que a obrigação de cada um. É certo alguém se orgulhar, por exemplo, de ter atingido um bom padrão de vida. Mas um herdeiro milionário que se jactasse desta sua condição, no mínimo provocaria, ou deveria provocar, risos e censuras. E, portanto, orgulhar-se de uma condição ditada pela natureza – como a Ciência vem demonstrando nos últimos tempos, no que se refere a homossexuais e heterossexuais – têm sentido apenas para os segundos. Porque estes são criados e educados para seguirem práticas e hábitos que contrariam seus instintos e, portanto, quando assumem sua condição homossexual, de fato conquistaram algo em suas vidas. Já uma pessoa é heterossexual sem qualquer esforço, e tudo o favorece neste sentido. Se ela tem dificuldades, neste ponto, é porque realmente não é aquilo que gostaria de ser.
Os machões que aprovaram a lei e que a endossam será que estão tendo dificuldades quanto a serem machos? Sentem-se fragilizados, temerosos, ou o quê? Pelo que me consta não têm sido eles espancados nas ruas por grupos de gays adeptos da heterofobia (veja-se, aliás, que existe o termo homofobia, mas não aquele que lhe seria análogo, porque este realmente não existe sequer como prática). Trata-se de um discurso destes senhores que, me parece, acaba soando mais ou menos assim: “Olhem, apesar de todas as tentações e fraquezas, de nossa vontade em contrário, continuamos heterossexuais, por isso nos orgulhamos tanto disto. Deixem-nos em paz, sim? Parem de nos seduzir. Estamos com medo”. Isto, realmente, é de lascar...
Portanto, senhoras e senhoritas, tomem cuidado. Se estes medrosos machos serão os perpetuadores de nossa espécie, se precavenham deles. Boa coisa não há de sair desta semente.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de agosto de 2011].

Uma nova face do terror ou mais um maluco rancoroso?

Os atentados terroristas, tal como os conhecemos, foram criados no Ocidente no século XIX. Perpetrados por anarquistas, nacionalistas e nihilistas – radicais russos que, frente a um estado tirânico, preconizavam uma redução ao “nada” (nihil, em latim) de tudo aquilo que eram contra, para, enfim, partindo do zero, poderem construir o que achavam justo – os ataques se caracterizavam por alguns tipos clássicos de ações: o assassínio puro e simples de uma autoridade, de forma pessoal (tiro ou facada) ou de maneira pública (bomba); havia também alguns casos, raros, de ataques a certos símbolos do poder. Assim foi a tentativa de explosão do Observatório de Greenwich, cuja destruição, alegoricamente, seria também a do horário internacional (e do trabalho) relacionado ao local. Um episódio maravilhosamente aproveitado, e adaptado, num romance (O Agente secreto) do sempre excelente escritor Joseph Conrad (1857-1924).
É claro que o assassinato de tal ou qual líder, como tentativa de se impedir esta ou aquela política, é tão velho quanto o mundo. Marco Bruto (85-42 a.C.) – o assassino de Júlio César (100-44 a.C.) e de sua intenção de se tornar Imperador – gostava de ser relacionado a Tarquínio (535-509 a.C.), um seu antepassado, responsável ele próprio pela morte de um rei, Sérvio Túlio (séc. VI a.C.). O profeta Maomé (c.570-632) também escapou de umas tantas ameaças contra a sua vida. Houve também a Ordem de Assassinos, uma seita fundada por Hassan ibn Sabbah (1034-1124), mais conhecido como O Velho da montanha, que eliminava as autoridades contrárias aos seus objetivos, através de uma rede de fanáticos suicidas. No Renascimento, é impossível compreender a política (civil e papal) da Itália, sem ignorar o homicídio de pessoas ilustres como prática de poder. No século XVII, houve um católico, Guy (ou Guido) Fawkes (1570-1606), membro da chamada “Conspiração da Pólvora” (Gunpowder Plot) que pretendia assassinar o rei protestante Jaime I (1566-1625) da Inglaterra, juntamente com todos os membros do parlamento, durante uma sessão em 1606, através da explosão do prédio onde aqueles senhores se encontravam, visando, com tal ato, a iniciar um levante católico. Um episódio tão terrível para os ingleses que geraria toda uma série de cantigas populares, e até curiosos poemas escritos em latim por John Milton (1608-1674) – o autor do magistral Paraíso Perdido – iniciados por In Proditionem Bombardicam. Guy, ou Guido, Fawkes, ainda é tão execrado na Inglaterra que, no dia 5 de dezembro de todos os anos, desde a sua execução em 1606, um boneco parecido com ele é malhado e queimado, qual um Judas em sábado de Aleluia. E, por fim, poderíamos, tratar ainda da eliminação física de líderes políticos mencionando os casos de Marat (1743-1793), Robespierre (1758-1794), os atentados, infrutíferos, contra Napoleão Bonaparte (1769-1821), etc.
Mas voltando ao modelo de terrorismo moderno, tal como o conhecemos no século XX, sempre pudemos dizer, até recentemente, que ele era perpetrado ou por fanatismo, ou por pragmatismo/oportunismo, ou ainda por uma espécie de idealismo torto. Isto, sem falar nos atos de um ou outro tresloucado, que por sua natureza errática escapam de qualquer classificação possível. Um exemplo de fanatismo temos no caso, fortemente simbólico, do ataque às Torres Gêmeas de Nova Iorque. De pragmatismo/oportunismo, no incêndio do Reichstag, de Berlim, em 1933: os nazistas pondo fogo no Parlamanto burguês e transferindo a culpa do atentado aos comunistas, para consolidarem seu poder e terem mais um espantalho (vermelho) para assombrar o povo e as classes dirigentes. E no que se refere ao idealismo torto, servem de lição as mortes do Arquiduque Francisco Ferdinando (1863-1914), estopim da Primeira Guerra Mundial, e do Mahatma Gandhi (1869-1948), início de uma corrupção sem par na Índia até pouco tempo atrás. Triunfaram as causas por trás de tais atos? Não. Daí falarmos, justamente, em idealismo torto. E, acrescente-se, mal sucedido, dos pontos de vista teóricos e práticos.
Já no que se refere ao massacre e ao atentado à bomba na Noruega, estes surpreendem por sua absoluta falta de paixão (fanatismo, idealismo torto) e de razão (pragmatismo/oportunismo). Pois não há uma religião ou ideologia consistente por trás de tais atos. Nem, por outro lado, um grupo político, minimamente coeso, ao qual se vincule o agressor. Na aparência, tudo o que parecemos ter à nossa frente é um sujeito tresloucado que se fundamenta em supostos valores rasos e reacionários – esoterismo e xenofobia de internet – mas que, ainda assim, foi capaz de um êxito surpreendente em sua ação infame. Fica a pergunta: um doidivanas seria capaz de tudo aquilo? Um maluco seria suficientemente hábil para lograr tais resultados? É sábido que todo lunático é metódico e que, frequentemente, há método na loucura. Seria este o caso do norueguês? Não acredito.
Uma das coisas que mais me espantaram frente ao episódio foi a face serena do agressor depois de capturado. Não havia ódio em seu semblante, nem laivos de heroísmo, ou ares de mártir de uma causa. Sua expressão era a mesma de quem acaba de realizar a faxina da casa, ou arrumação de um armário. Fria, seca e, ao mesmo tempo, plácida. Quase indiferente.
Será este o novo perfil dos terroristas? Ou uma nova modalidade de terrorismo, banal, aleatório, pueril, e, portanto, indecifrável, até que se manifeste em sua violência? Devemos começar a identificar, rastrear, traçar perfis de cada maluquinho da rede que se proclama seguidor, ou continuador, dos Templários, ou de qualquer outro grupo conspiratório, real ou imaginário, como o fez o terrorista da Noruega? Confesso que não sei. O que sei, ou antes, creio, é que gente de bem evita grupelhos: é pluralista, ampla, não sectária e, portanto, longe de um discurso político ou religioso que exclua e hostilize todos aqueles que não comunguem, ou supostamente não possam comungar da mesma fé ou princípios.
Se há alguma coisa útil que possa ser dita, em todos os tempos, é que o respeito (platônico) ou o amor (cristão, e decorrente daquele conceito platônico) ao próximo, apesar das diferenças entre uns e outros, deva ser, acredito, a suprema ordem a governar o mundo. E não falsas teorias de superioridade raciais, patrióticas, religiosas, etc. Tudo isto se dissolve no nada, ou no todo. Mas se dissolve, mesmo assim, ao fim das coisas. O problema é o meio disto, no qual pode vicejar toda sorte de criminosos da humanidade pretensamente fundamentados em supostos valores que valem menos do que nada.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 6 de agosto de 2011].

Mais uma semana difícil

Noutras ocasiões tratei, neste espaço, do desequilíbrio que rege os acontecimentos do mundo e o prazo de envio desta minha contribuição semanal aos editores responsáveis pelo texto que os leitores ora têm em mão. Ninguém tem culpa disto, só os fastos, os tempos, etc. A única vantagem desta discrepância entre o calor dos acontecimentos e o prazo necessário para a publicação de um comentário relativo aos mesmos é que, neste intervalo, temos condição de refletir quanto a tais ou quais fatos. Como agora.
No final da semana passada a economia norte-americana entrava numa crise sem precedentes na história mundial. A maior potência econômica e militar do mundo manifestava – como ainda manifesta – suficientes indícios de que poderia pedir uma moratória: uma extensão no prazo do pagamento de sua dívida, aquilo que Sarney fez no Brasil nos anos 1980 e que provocou, então, histéricas reações cá e lá. O atual presidente do Senado nós conhecemos bem. Nunca pensei que diria algo do gênero, mas parece-me, hoje, que aquele pedido de moratória foi a melhor coisa que ele fez em toda sua vida pública. Entretanto, à época, era o Brasil terceiro-mundista, quebrado, preguiçoso, viciado. Muito diferente dos Estados Unidos de hoje que, apesar de estar quebrado, preguiçoso e viciado, ainda é uma potência. O desenrolar desta história é algo que deve nos preocupar, diuturnamente, até seu desfecho.
Do outro lado do Atlântico, no mesmíssimo final de semana, um horrendo episódio desenrolou-se na Noruega, um país verdadeiramente civilizado. Ali os direitos civis e políticos de seus cidadãos, naturais ou imigrantes, são respeitados de uma maneira quase sem similar na face da Terra. Saúde, Educação, Lazer, Cultura, preservação do Ambiente, direitos trabalhistas, Previdência pública, apoio à velhice e à juventude, respeito às diversidades várias são uma tônica na política nacional dali. A Noruega (assim como a Suécia, a Dinamarca e a Finlândia) só não é (como as outras nações há pouco mencionadas) uma espécie de “Paraíso terreno”, porque faz frio demais ali. No resto, quanto às imensas garantias sociais (não são privilégios de poucos) de que gozam seus habitantes, aquelas fariam de tal terra, sim, uma lugar ideal para as pessoas de bem e mérito. Mas neste quase idílico local, um de seus cidadãos abateu, friamente, quase cem de seus conterrâneos, estribado na mais vulgar das ideologias, na suposta teoria das raças superiores que devem preceder as ditas inferiores. E fez isto matando seus irmãos de uma maneira quase “darwiniana”: interpretando mal as teorias do sábio inglês, o assassino pretendeu abater “os mais fracos” de seu próprio grupo, para que sobrevivessem “os mais fortes”. Uma limpeza genética e moral, parece ter pretendido. E hoje, mais uma vez, por conta de sua escolaridade e direitos gozados desde a infância, críticos do mundo todo encontram razões para atacar a social democracia escandinava, um modelo até ontem, por um desvio de quem usufruía dela.
Mas, é claro, o mundo não parou por conta destes fatos. Porque, para a mídia graúda, a reflexão não interessa. Só a paixão. É esta que vende jornal, que arrebanha a atenção do vulgo. E, por isso, só ouvimos falar, durante quase uma semana, da morte da cantorinha inglesa cujo “modelo de vida” já anunciava o seu “prazo de validade”. Em suma, os Estados Unidos estavam à beira da bancarrota, um assassino violento ceifou quase uma centena de vidas num dos melhores países do mundo, e só se ouvia falar em Amy, Amy, Amy...
Confesso que gostava de sua voz, a qual, de fato, era muito boa. Seu repertório, por outro lado, ainda que muito agradável, levava-me a crer que ela não passasse de uma boa crooner, reinterpretando quase arqueologicamente ritmos como o soul e a black music, hits do passado pouco conhecidos. Depois vim a saber que eram de sua própria lavra, o que fez com que meu respeito por ela aumentasse. Mas, convenhamos, quando uma bomba-relógio anunciada e identificada explode, ela nos choca, mas não deveria nos comover em demasia nem roubar nossa atenção de tudo o mais. O que ora ocorre nos Estados Unidos e o que se deu na Noruega são fatos muitíssimos mais terríveis do que o drama pessoal de uma jovem confusa, conquanto talentosa. Lembram bombardeios covardes, implosões misteriosas. O terror inaudito.
Em suma, pranteio a morte da cantora. Porém problemas muito maiores do que este rondaram o horizonte mundial na última semana. E não tiveram o mesmo enfoque. O que só nos leva a pensar uma coisa: diante de outras crises gravíssimas, seremos mais uma vez sutilmente alienados delas por motivos de menor importância?

P.S. Na próxima semana, salvo assunto de força maior, tratarei desta bobagem que alguns chamam de “a maldição dos 27 anos”.

P.P.S. Fiquei feliz em notar que o crítico de cinema do Estado de S. Paulo reconheceu a mesma filiação que eu próprio havia identificado entre o novo Capitão América e Bastardos Inglórios. Ainda mais por que ele assistiu ao filme, e eu não, quando escrevi minha crônica com uma semana de antecedência. Nada contra ele, o crítico. Pelo contrário. É que este gênero de filmes e os motivos pelos quais são produzidos, e suas linguagens, são muito previsíveis. Fazer o quê?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 30 de julho de 2011].

Um impostor dos quadrinhos: o Capitão América... do Norte

A história dos quadrinhos, ou ainda a história das histórias em quadrinhos, traz curiosidades maiores do que se pensa à primeira vista.
Este gênero de produção (cultural? De entretenimento? Alguém arrisca um classificação convincente?), que é sem dúvida de massa e para elas destinada, teve um início bastante pueril na virada do século XIX para o XX. E com esse cariz permaneceu pelos anos 1910 a, mais ou menos, 1940, comportando temáticas bem variadas. Tinha-se histórias declaradamente voltadas para o público infantil (Buster Brown, rebatizado como Chiquinho, na revista brasileira O Tico-tico, lançada em 1905; ou ainda Os Sobrinhos do Capitão, e as primeiras histórias de Mickey Mouse e sua turma), infanto-juvenil (pensemos em todos os super-heróis), e mesmo adulto, porém, inicialmente, satírico (Pafúncio e Marocas, Mutt e Jeff, etc.).
A partir dos anos 1930, 1940, vão surgindo histórias mais calcadas na aventura, lançando mão de certa violência e erotismo, muitas vezes combinados com o terror sobrenatural. Neste mesmo período, também, alguns personagens saltam das páginas de jornais e revistas e ganham as telas do cinema, em produções baratas que faziam a alegria dos jovens de então e eram solenemente desconsiderados pelos adultos e pela crítica, incapaz de perceber qualquer valor no Super-Homem, Buck Rogers, Flash Gordon e outros confrades. Mas aquele era o período da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial, e as pessoas precisavam esvaziar suas cabeças dos temores de então.
Nos anos 1950 e 1970, especialistas de toda natureza e do mundo inteiro se levantarão contra as histórias em quadrinhos, considerando-as perniciosas à juventude (um dano para a educação e péssima influência sobre a psicologia dos seus leitores), relacionando-as as delinqüência juvenil, estupros, gravidez adolescente, e coisas do gênero. Mas em fins dos anos 1970 e 1980, com o conceito norte-americano das graphic novels, a crítica se interessou pelos quadrinhos, julgando-a quase uma arte. Nos anos 1990 sobreveio uma crise no meio – o público leitor migrou para outras mídias – e desde então se os quadrinhos já não vendem tão bem, produzem lucrativas franquias cinematográficas, de brinquedos, games e toda sorte de mercadorias para crianças e adultos. É o que explica, por exemplo, o lançamento de mais uma adaptação do Capitão América para os cinemas.
Desconheço o grau de sucesso de tal personagem nas versões para o cinema e televisão em décadas anteriores. Lembro de uma adaptação de 1990 que foi um retumbante fracasso. E não sei o que esperar da nova, a ser lançada por estes dias. Mas se há algo a dizer sobre o Capitão América é que ele me parece um dos mais antipáticos e chauvinistas personagens de quadrinhos que já vi. É verdade que é ótimo torcer por ele. Afinal, ele enfrenta os terríveis nazistas, pelos quais não se pode ter nenhuma simpatia e contra os quais se pode devotar todo o ódio e desejo de vingança possíveis (como o fez aquele Tarantino em seu Bastardos Inglórios – talvez mais pai do novo filme que os quadrinhos que lhe deram origem). Depois, é meio inócuo, hoje em dia, bater em nazistas. Os originais, salvo um outro nonagenário que não mete medo em ninguém, estão todos mortos. Queria ver se os produtores teriam coragem de mandar o Capitão América enfrentar os japoneses... Aí seria bem diferente. Porque eles foram quase tão cruéis quanto os primeiros, a dinastia reinante de seu país é a mesma daqueles dias, mas são um dos povos que mais consumem a tralha produzida nos Estados Unidos. Teriam os produtores peito para afrontar tal mercado consumidor? Duvido.
Outra coisa que me faz desgostar do Capitão América é seu aspecto ultrapatrioteiro. Ele é sempre norte-americano demais, certinho demais, caipira demais, “Cinturão da Bíblia” demais. Só pelos americanos ele se bate, e por mais ninguém? Lutou na França? Ah, mas era porque seus compatriotas estavam lá. É de se presumir que sequer conseguisse apontar num mapa onde fica a França.
E, por fim, o que acho o pior no que diz respeito a esse herói: metê-lo em situações reais, num contexto histórico. Porque nenhum super-herói lutou na Segunda Guerra e, sim, homens comuns, heróicos sem dúvida, gente de carne e osso que se arriscou e morreu por lá sem contar com a ajuda de qualquer impostor vestido em uniforme de cores berrantes. E transportar para aquele tempo e lugar a ação providencial de alguém que nunca existiu, é, em minha opinião, uma grave ofensa à memória de todos aqueles que de fato lá estiveram, dando o seu sangue contra o inimigo.
Stendhal e Tolstoi criaram homens comuns que, em seus livros, participaram de batalhas nas guerras napoleônicas. Sem qualquer impacto real sobre elas. Algo amplamente válido num gênero maior que é o romance. Que gêneros menores, como os quadrinhos, ou o cinema de entretenimento, queiram reescrever a história, colocando marmanjos mascarados, que vestem a cueca por cima das calças, batendo-se contra o nazismo, aí já não se trata de uma licença artística: é uma pouca vergonha mesmo.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 23 de julho de 2011].

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Aviso aos navegantes da Barca de São Pedro

Uma noite insone diante dos canais de TV abertos revela, ou explicita, aspectos aparentemente inacreditáveis de nosso país no que tange ao devocionário popular e aos pastores a guiarem um imenso rebanho, saltitante e sempre em expansão, rumo a cada vez mais diferentes apriscos.
Sintoniza-se um canal e assiste-se ao bispo Xis da Igreja Universal Disto. Ou o apóstolo Ypsilon da Igreja Mundial Disso. Ou o pastor Zê da Igreja Internacional Daquilo. Sem falar em todos os demais, tão variados quanto as outras letras do alfabeto, porta vozes de um número equivalente, se não superior de (auto)denominações religiosas.
Compreendo tal necessidade de espaço privilegiado para a divulgação de suas mensagens. Devem ser tantas as diferenças entre estas agremiações devocionais, que, acredito, torna-se imprescindível um canal de televisão para cada uma delas. Fico imaginando as sutilíssimas questões teológicas que as separam uma das outras. As complicadíssimas querelas quanto à exegese bíblica e a concordância entre Antigo e Novo Testamento. As polêmicas quanto à Patrística e a História do Cristianismo. As nuanças gradativas quanto ao afastamento ou aproximação entre o Luteranismo, o Calvinismo, o Metodismo, o Anglicanismo, etc. Suas visões, decerto conflitantes, quanto à Angeologia ou à Demonologia. Ou ainda o equilíbrio entre a Tradição e a Revelação. Ou entre a Predestinação e seus óbvios critérios de exclusão, e o Batismo no Espírito Santo, como forma de ampla inclusão de todos. Ou ainda se a Glossolalia é epifânica, acidental ou inexistente, se comum, rara ou impossível – para não dizer imaginária e inócua. Estas, e muitas outras particularidades de profunda matéria teologal e doxológica, que, presumo, separam tantas igrejas cristãs umas das outras, faz-me acreditar que, de fato, cada uma delas necessite de seus próprios canais para a difusão de suas mensagens, únicas e verdadeiras.
A situação muda um bocado de figura, entretanto, quando vemos dois canais televisivos transmitindo conteúdo essencialmente católico; e, mais ainda, quando se sabe que ambos são diretamente relacionados à Igreja. Fosse um ligado a ela, e outro, por exemplo, a uma irmandade, confraria ou associação de leigos, creio que contribuiria bastante para o diálogo intrarreligioso. Mas os dois, estreita, umbilicalmente relacionados à ortodoxia e à hierarquia clerical, parece, no mínimo, uma redundância. Ou um desperdício de dinheiro. Ou um claro sinal de que as divisões internas da “monolítica” Santa Madre Igreja são muito maiores do que avalia o vulgo.
Ora, se aquela magnífica instituição cuja sede localiza-se em Roma é una e indivisível, por que vários canais de comunicação, ao invés de um único? Se a Barca de São Pedro é uma só, como um só é seu Capitão, por que dois Pilotos? Acaso pensa-se em acrescentar mais um leme à nave? Não se pensa no risco de rachar a embarcação ao meio? Ou ela já está rachada, a tripulação dividida entre si e os passageiros em conflito uns com os outros?
O que, entretanto, causou-me um enorme espanto foi a oferta de um certo “Carnê da Esperança”, por meio do qual a caridade – um dever, mas que só tem sentido se realizado de forma espontânea – se converteria numa obrigação, com data de vencimento e tudo. O que nos leva a duas perguntas: o não pagamento da parcela implicaria o quê? Protesto em cartório? Ou busca e apreensão (judicial?) da mercadoria entregue ao inadimplente? A outra pergunta se dá quanto à quitação do mesmo carnê: pois se a Esperança é a última que morre, a contribuição passaria a ser compulsória, se não hereditária, e presumivelmente deveria ser honrada até o Dia do Juízo Final! Algo em que nem Júlio II, com suas escandalosas indulgências, teria pensado em instituir...
E, para cúmulo dos cúmulos, valeu-se a propaganda televisiva do referido carnê de um expediente inacreditável para vendê-lo, lançando-nos a seguinte, e tronitroante, mensagem: “Jesus Cristo precisa de sua ajuda!”. Insisto em repetir o bordão do “Carnê da Esperança”, agora em letras garrafais: “JESUS CRISTO PRECISA DE SUA AJUDA”! Era só o que faltava...
Reconheço que não tenho frequentado a missa há certo tempo. Não sou um leitor assíduo do L’Osservatorio Romano, nem prestei muita atenção às últimas declarações do Sumo Pontífice. Mas até onde sei – ou acredito que sei – Jesus Cristo ainda é, para os católicos, uma das Pessoas da Santíssima Trindade, e junto com o Deus Pai e o Espírito Santo, Ele também Deus único: três em Um e Um só. Que Jesus – enquanto Homem, antes de morto, ressuscitado e ascendido aos Céus – necessitasse da ajuda dos homens em sua dolorosa via ao Calvário, é compreensível e os Evangelhos, os apócrifos e um bocado de lendas dão conta disto. Mas depois de morto por nossos pecados, ressuscitado, triunfante, unido indissoluvelmente ao Pai, Criador de tudo e de todos, onipotente, portanto, que ele ainda precise de nossa ajuda, soa-me como uma tremenda ofensa aos fiéis. Quando não uma blasfêmia das grossas, se não uma completa heresia. E,o que é pior, proclamadas por um canal católico.
Ora, pois, se o Pantocrator necessita de ajuda, e nós? Se Deus anda tão debilitado, o que estes reles, ínfimos pecadores poderíamos fazer por Ele? Que nos digam que Ele “nos exorta” a contribuir para a Sua obra; ou que “nos convida”; ou ainda que “nos ordena”. Mas que o ajudemos? Francamente, quem imagina uma campanha desta merece ser sabatinado pelo bispo. E o bispo que a autorizou, pelo arcebispo. E este pelo Papa. São inacreditáveis as bobagens que a Igreja, ou certos setores dela, tem cometido nos últimos tempos.
Portanto, aviso aos navegantes da Barca de São Pedro: cuidado com a viagem, pois os pilotos parecem não entrar num acordo e vão guiando a nau para águas ignotas...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 16 de julho de 2011].

O Caleidoscópico Shakespeare: porque nele cada um enxerga o que quiser ver...

William Shakespeare (c.1564-c.1616), o Bardo Imortal, foi um ator e dramaturgo inglês relativamente obscuro durante o tempo em que viveu. Sabe-se que algumas de suas peças fizeram sucesso à época em que foram encenadas, descobriu-se uma pintura que seria o seu retrato – copiada em diversas gravuras – e até uma casa e uma cidade foram indicadas como o local de seu nascimento. Sua fama mundial, entretanto, surge somente depois dos elogios que Voltaire (1694-1778) fez à sua obra, no século XVIII, e os de Victor Hugo (1802-1885), no XIX.
Tudo o mais que se sabe a respeito dele é muito pouco. De modo que poderíamos nos sentir forçados a dizer que o maior testemunho de sua vida seria a sua obra. Mas mesmo esta é cercada de dúvidas. A autenticidade dos célebres folios, que trazem suas peças e poemas, é, há mais de um século contestada, sobretudo no que diz respeito à sua dramaturgia. Pois se questiona o quanto dele está ali, o quanto foi interpolado pelos atores e mais ainda o que foi revisto pelos editores. Não nego – longe disto – a excepcionalidade, a magnitude da obra shakesperiana, a qual admiro desde o fim de minha infância e cada vez mais com melhor apreensão e deleite. Mas a sua “autoria”, em tempos modernos, é altamente questionável. Já se levantou, por exemplo, que o latim de Shakespeare seria muito débil – prova inequívoca, para o seu tempo, de que tivera uma má educação formal. E, no entanto, seu Júlio César e Antônio e Cleópatra reproduzem, textualmente, diversas passagens das Vidas Paralelas, do historiador grego Plutarco (c. 46-120 d.C.), só àquela época vertidas para o latim, e para nenhuma outra língua moderna... Por este motivo e por outros, vários estudiosos chegaram a supor que o homem Shakespeare jamais existiu. Seria o pseudônimo, o nom de plume, de alguém mais vivido e mais instruído. Alguns supuseram que, sob o nome de Shakespeare, escondiam-se, na verdade: 1) Edward de Vere (1550-1604), 17º conde de Oxford; 2) Francis Bacon (1561-1626), estadista, filósofo, jurista, escritor e cientista, reivindicado como um membro ativo de dez entre dez sociedades secretas (ou discretas), e metido à força em outras tantas teorias da conspiração; e, por fim, 3) Christopher Marlowe (c. 1564-1593), este, também, um excelente dramaturgo – autor de um Fausto (1589) que serviria de modelo para o drama de mesmo título (1806) do maior poeta alemão, Goethe (1749-1823), quase dois séculos depois. Há, aliás, muita gente que aposte suas fichas nesta última interpretação: o prematuramente morto Marlowe (meros 29 anos), um promissor dramaturgo, teria desaparecido, na verdade, e assumido uma nova vida como o “personagem Shakespeare”.
Nunca dei muito crédito a estas interpretações, até que li um livro escrito por Fernando Martínez Lainez, cujo título é Escritores e espiões (com sérios defeitos de tradução, se não de estilo), no qual o autor, baseado nuns tantos documentos, indica a suspeição de que outros dramaturgos/atores (prática comum então) seriam espiões a soldo de seus reis. E um deles seria, justamente, Christopher Marlowe...
De modo que a recente notícia publicada pela EFE, no último de junho, de que um historiador americano de nome Vincente Bridges teria encontrado indícios de que Shakespeare teria estado em Praga (antiga Boêmia, atual República Tcheca) em diversas ocasiões, prestando serviços de espionagem para Isabel I de Inglaterra, levou-me a algumas inquirições. Mas vamos, primeiro, a uma síntese da matéria.
Bridges afirma estar totalmente convencido de que o Bardo esteve em Praga, e “declarou ter suporte documentário e temático na própria obra de Shakespeare para apoiar sua tese”. Tal estada ter-se-ia dado entre os anos de 1585, quando ele desapareceu de sua cidade natal, Stratford-upon-Avon, sem deixar rastro, “e quase uma década depois”, quando “ressurgiu na cena teatral londrina”.
O mesmo autor reconhece que a presença de Shakespeare “em terras da Boêmia não está documentada, pois não foi encontrada menção alguma nas crônicas ou registros civis”, mas que sua hipótese baseia-se, também, na análise de certas obras do Bardo que guardariam relação com a região: no Conto de Inverno, em que aparece o nome de Polixena (uma possível referência a Polixena de Lobkowicz, influente dama da corte de Praga de então). E prossegue a matéria dizendo que o “especialista também viu reminiscências tchecas em O Mercador de Veneza, Sonho de Uma Noite de Verão e até em passagens de Romeu e Julieta.”
Não sou especialista em Shakespeare, mas conheço, de maneira aplicada, boa parte de sua obra. E tenho conhecimentos, para além de medianos, acerca do período em que ele viveu, tanto do ponto de vista histórico, quanto artístico e estético, e a respeito de, seguramente, uns dois séculos depois dele. Dizer que uma personagem chamada Polixena remete a uma pessoa real de mesmo nome equivaleria dizer que a Marília, de Dirceu (o árcade luso-brasileiro Tomás Antônio Gonzaga) chamava-se, de fato, Marília, ou ainda que todos os poemas da época que trazem uma heroína de mesmo nome seriam da lavra de Gonzaga: o que é um absurdo, Polixena e Marília são topoi poéticos árcades (um de primeira, outro de segunda mão), e não pessoas reais ou “índices de determinação de autoria”.
Em suma, não posso criticar, in toto, um trabalho que ainda não li. Mas percebo seus indícios, o que ele pode vir a supor e que, em minha opinião, seria a velha pendência quanto ao real nome por trás da obra: um renascimento da polêmica que quer ver Marlowe transmudado em Shakespeare, sob a chancela – possível, em relação ao primeiro; especulativa, muito especulativa, em torno ao segundo – de secretos documentos de estado, que mal ocultariam uma organização de espionagem.
Tudo isto me cheira a um anacronismo dos brabos – o qual, aliás, permeia a maioria das interpretações da vida e obra do Bardo. Veremos no que dá. E, se for o caso, retornaremos ao tema.

[publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de junho de 2011].

Sensibilidade, carência, Porsches, maiôs e Ferraris

Na quinta-feira passada, desci para comprar cigarros e dei uma espiada nas revistas à venda na loja de conveniência. Com exceção de uma ou outra, eram, em sua maioria, daquele tipo de publicações que se prestam mais a serem vistas do que lidas, o que é um tanto paradoxal já que, para imagens, temos a televisão. Todos conhecem tal gênero de jornalismo, sempre disponível em abundância nas salas de espera de consultórios e que não aliviam nem um pouco a expectativa, não ajudam a passar o tempo, porque seus textos são ralos, rasos e banais, dedicados às platitudes de sempre, dessa ou daquela celebridade. Numa destas revistas, aliás, a que vi na quinta-feira, constava na capa uma jovem e bela atriz (o rosto é meio irregular, a boca muito grande, mas o conjunto e os olhos consertam o todo), que ora surpreende num folhetim global. E a chamada do semanário trazia as seguintes palavras, de autoria da moça: “Sou sensível e carente”. Notável...
Até onde me lembro, todos os seres vivos, das amebas ao Homem, dos corais aos periquitos, dos elefantes às araucárias, são sensíveis – isto é têm a capacidade de sentir, de reagir aos estímulos externos ou internos nos campos do tato, olfato, visão, audição, paladar, calor ou frio, luz ou ausência dela, em maior ou menor grau, e mesmo que alguns deles não disponham de uma destas sensibilidades, alguma das outras certamente não lhes é desconhecida. E, sobretudo no caso dos humanos, se compreendermos a sensibilidade como uma natural disposição a ser influenciado por impressões, sentimentos e emoções.
Mas deixemos a mocinha de lado: é jovem e é bonita, e a beleza e a juventude desculpam quase tudo. O problema está em publicar uma matéria na qual nada se diz e a ninguém importa.
Volto para casa, abro o computador, entro na rede e vejo as seguintes chamadas: “Fulana – aquela tão onipresente em cartazes e outros meios quanto um ditador comunista – posa de maiô para revista”; “Beltrano compra Porsche”; e sob o título Uma Ferrari como meta de vida, somos informados de que “Cicrano tem praticamente tudo da escuderia italiana, menos um carro de verdade”. E abrindo-se qualquer uma daquelas notícias, somos remetidos a informações preciosíssimas, indispensáveis, quanto à vida íntima de modelos, jogadores de futebol e das ditas mulheres-frutas. Mulheres-frutas! Constranjo-me, já de antemão, pelo nosso tempo e país, frente aos historiadores do futuro, quando se depararem com este fenômeno nacional e olharem para nós certamente nos julgando como um bando de cabeças ocas.
Quanto ao Beltrano que comprou um automóvel da marca Porsche, um cantor dublê de ator que viveu como sem teto (há não muito tempo era o mesmo que mendigo) por três anos, não há como deixar de notar um certo tom preconceituoso na matéria. Como se dissessem: “Olhem só o negão, que diz ser alternativo: na primeira chance, compra um carrão”, e por aí vai.
Já no que se refere ao Cicrano que tem tudo da Ferrari, menos um carro, lembra-me um tipo que adorava aviões, colecionava quepes de pilotos e restos de aeronaves e, evidentemente, não tinha um avião. Sua apreciação por este tipo de coisas, desligadas do objeto concreto, era chamada de parafilia, e seu comportamento, como beirando o esquizofrênico. Em suma, tudo que acima foi reproduzido é nada. O mais completo vazio. É uma vergonha que revistas de circulação nacional dediquem-se a este tipo de divulgação de inutilidadees. E que exista um público ávido por isto. Em que mundo estamos, afinal? Na Terra Prometida dos boçais? Se for o caos, acertamos em cheio.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 11 de junho de 2011].

Breve comentário acerca do casamento de Sua Alteza Real, Guilherme de Gales

Todas as nações do mundo têm um hábito, fortemente construído pela tradição, que é o de traduzir os nomes dos reis e príncipes de outras terras, para o correspondente na língua pátria de cada uma delas. O Brasil já integrou estas fileiras, por séculos, mas sabe-se lá por que motivo, deu para, desde umas décadas atrás, inverter o tratamento. Nestas nossas plagas, nunca se falou em Rainha Victoria, ou Kayser Willelm II, ou ainda Czar, ou Tzar Nikolai II, ou Nicholas II, por exemplo. Aqui sempre valeu a regra Rainha Vitória, Kaiser Guilherme II e Czar, ou Tzar, Nicolau II. Regra que perdurou, sobretudo no caso inglês – a última grande monarquia preservada na Europa – com os reis Eduardo VII (1841 – 1901 -1910), Jorge V (1865 - 1911 - 1936), Eduardo VIII (1894 – 1936-1936 – 1972) e Jorge VI (1895- 1936 -1952) – os itálicos se referem ao ano da coroação e, no caso de Eduardo VIII, ao tempo de seu reinado, do qual abdicou, como é vastamente conhecido o porquê e o como.
Porém, quando Isabel II (1926 -1952 -...) foi coroada, ela passou a ser chamada pela imprensa brasileira de Elizabeth II, rompendo, portanto, a tradição. E, a partir daí, seus filhos foram tratados, nas páginas dos jornais e revistas nacionais, pelos seus nomes originais, não mais traduzidos. Um amigo meu, que pesquisa este tipo de coisas, diz que foi uma tentativa de revistas como Manchete e Cruzeiro de fazer uma média com seus leitores. Algo parecido com o que as Caras, etc., etc., fazem hoje em dia, mencionando celebridades em suas manchetes apenas pelo primeiro nome, como se tal expediente fosse capaz de produzir um imediato e próximo contato entre o leitor e seu modelo. Daí lermos até hoje, Príncipe Charles, Princesa Anne, Princesa Diana (vulgo, em alto e bom som Daiana), e, agora, Príncipe William (Guilherme, e se assumir o trono, futuro rei Guilherme V) e sua consorte Kate (Catarina) Middleton (“Medianeira”? “Mediana”? “Medíocre”? “Meridiana é um melhor termo para uma futura rainha). É, aliás, plenamente compreensível o emprego da forma inglesa dos nomes em detrimento de sua tradução: basbaques que são, em geral, os brasileiros, não se sentem à vontade, ou não se consideram dignos de verter, com toda autonomia, os nomes estrangeiros ao vernáculo quotidiano. “Príncipe William é o correto, não pode ser rebaixado a um simples Guilherme”, creio que muitas pessoas pensam. O que é uma pena.
Mas a pior coisa desta marmota que é o casamento deste príncipe britânico, que, em princípio, só diz respeito à corte inglesa, é o fato da transformação do evento num fenômeno mundial de mídia. Vá lá, o espetáculo há de ser bonito – lembrando que escrevo esta crônica e submeto-a à publicação na quinta-feira, antes, portanto, do evento em si – mas, há que se perguntar, o que muda na vida de qualquer brasileiro o fato de Guilherme casar-se com Catarina? Tal episódio inflará os sentimentos monarquistas nacionais a ponto de rompermos com a República, reinstalarmos a Monarquia, para podermos celebrar algo do gênero? Certamente não.
É assustador observar como a grande imprensa – que neste episódio revela como seu papel é muito mais o de entreter o público e jogar pipocas aos macacos do que realmente informá-lo – tem tratado a coisa como uma espécie de folhetim que, por outro lado, nunca se cumpriu da maneira de costume, sujeito a embaraços vários e complicações mútuas. Pois o enlace principesco, ora em tela, deu-se pelo consentimento mútuo de seus envolvidos. Não houve razão de Estado, interesses nacionais, ou qualquer outro aspecto grave relacionado à questão: Guilherminho gostou de Catarininha, e como diria Totò Mattoli, "punto e basta"!
E, portanto, basta de especulações quanto a quem deveria ser convidado ou não para o enlace. Isto é fofoca, não é fato para jornalistas que pretendem fazer jus à sua profissão.
Que coisa mais patética este desfile de especialistas para analisarem o casamento! Que prova mais cabal de nossa exclusão de tal evento, qual o das crianças pobres da Itália do pós-guerra, que por desconhecerem o sabor de um sorvete, eram levadas pelos pais para verem as crianças ricas apreciá-los, mas por detrás das vidraças das sorveterias, e sem fazer muito alarde. Resumindo, que papelão: transformar um casamento numa façanha e um circo numa epopeia!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 30 de abril de 2011].

Quinta-Feira Santa ou Quarta-Feira Santa?

Nesta semana, tão venerável aos católicos, uma notícia publicada pela agência internacional de notícias Reuters – e pavorosamente mal-traduzida por sites confiáveis em nosso país – causou um certo alarde em diversos meios. Trata-se daquela referente à hipótese de que a derradeira Ceia de Cristo, na qual Ele instituiu a Eucaristia, teria ocorrido numa quarta-feira, ao invés da tradicional Quinta-Feira Santa.
Tal é o que sustenta o professor Colin Humphreys, pesquisador da Universidade de Cambridge, Inglaterra, um declarado cristão e físico aclamado (além de Cavaleiro do Império Britânico – um Sir, portanto – ) que estuda o assunto desde 1983. Segundo ele, que se dedica a resolver algumas das várias contradições da Bíblia, a discrepância em relação à data do acontecimento seria resultante do emprego de diferentes referências por parte dos Evangelistas: Mateus, Marcos e Lucas dataram a última Ceia com base no calendário mosaico, lunar, e João, situou o acontecimento a partir do calendário oficial então em curso na Palestina (o texto não fala, mas, indagamos: por acaso não seria o Calendário Juliano?), o que permitiria tal variação para o estabelecimento do dia correto. E, de acordo com o mesmo Sir Colin, para reconstruir o calendário referente ao ano de 33 d.C, e para chegar às conclusões que chegou, teria o mesmo se valido da ajuda de um astrônomo e de seus cálculos precisos. Finalmente, comenta o referido professor:

“[...] Eu estava intrigado com as histórias bíblicas sobre a última semana de Jesus, nas quais ninguém consegue encontrar nenhuma menção de quarta-feira. É chamado de um dia perdido [...] Mas isso parecia ser tão improvável: afinal de contas Jesus era um homem muito ocupado.”

De fato, sempre me pareceu que a conta não fechava muito bem naqueles movimentadíssimos dias que vão do Domingo de Ramos até a Ressurreição. E, sobretudo, no que dizia respeito ao desenlace final. Situar a Ceia, o sono dos apóstolos, a traição de Judas, a prisão de Cristo, o processo movido contra Ele, os suplícios que Lhe foram impostos, Seu julgamento, a Via Crucis, a Crucificação, a Agonia no Calvário e a Sua Morte, além de todos aqueles outros eventos intermediários dos quais tanto se falou ao longo dos séculos, e tudo isto em menos de vinte e quatro horas, é um tanto inconcebível. A justiça romana tinha lá a sua práxis. E por mais que fosse aquele um caso de exceção, urgente, a burocracia, com seus eternos entraves, retardaria todo o episódio. Sem falar que tal vertiginosa, variada e terrível sucessão de acontecimentos não poderia ter se iniciado na madrugada de uma sexta-feira e ser concluída às seis horas da tarde do mesmo dia. E é de se espantar como os jesuítas, por exemplo, que meditaram tão profundamente, emotiva e vivamente, sobre o assunto, nunca pareceram ter pensado nisto... Pois, convenhamos, nunca tanto poderia ter acontecido em tão pouco tempo. Nem mesmo para um Deus, sobretudo, como no caso, um Deus sujeito às vagarosas e imperfeitas ações humanas.
A teoria de Sir Collins, portanto, em minha opinião, é bastante válida em muitos pontos. Só me intriga porque acolheu, para sua base de cálculo, o ano de 33 – tradicional, evidentemente, mas do ponto de vista histórico, cada vez mais questionado, da mesma maneira que o ano 1, como os limites da vida de Jesus. Não, não pretendo supor que Ele sobreviveu à cruz e foi pregar no Tibete, como querem alguns. Pelo contrário. Mas não é de hoje que se levantam convincentes dúvidas quanto ao ano de Seu Nascimento e de Sua Morte, um intervalo que poderia ser situado entre os anos de 7 e 2 a.C, e 30 e 36 d.C., pela cronologia romana, pela do cronista judeu Flávio Josefo (37-100 d.C), e em relação à vida de Herodes, o Grande (sic). De modo que, neste campo, parece que o sábio inglês parece ter seguido mais a tradição, oriunda da escolástica, e a convenção, relacionada à sua crença manifesta, do que o método científico, ou a investigação, o que é uma pena, e uma surpresa, de algum da Física...
Pois bem, como historiador, e pesando bem a situação, gostaria de dizer que a precisão quanto às datas são extremamente importantes, nalguns casos, e absolutamente irrelevantes, noutros. Desde que não se confunda uma década com outra, que não se situe uma conseqüência como anterior ao fato que a produziu, não se erra muito em história. Datas são, na maioria dos casos, balizas, para que não se perca a visão de conjunto. Ninguém pode dizer, por exemplo, que Cabral avistou o Monte Pascoal em 1499 ou 1501. Sabemos que tal se deu em 1500. Mas qual foi o dia exato? Segundo o Calendário Juliano, vigente à época do avistamento, era o dia 22 de abril. Mas quando passou a vigorar o Calendário Juliano, em 1582, pelo qual foram descontados 10 dias, a celebração de tal episódio deveria passar a ser comemorada em 2 de maio.
Em suma, o que eu queria dizer é que pouco deve importar, a todos que creem Nele, se Jesus, o Cristo, nasceu antes ou depois da data convencional do ano 1, ou se morreu antes ou depois do ano 33. Por mais que Sua presença histórica tenha de ser continuamente declarada – vide o Credo, com aquele Pilatos muito fragilmente citado na historiografia romana, mas largamente mencionado em diversos Apócrifos que, certamente, ajudaram a constituir o cânone, ainda que fossem mais tarde rejeitados – qualquer pessoa de bom senso há de concordar que a importância de Jesus, o Cristo, se dá por Sua Pessoa, ensinamentos, palavras, e não por uma suposta exatidão cronológica a ser encontrada nos Evangelhos, esta obra coletiva, coligida sabe-se lá por quantas mãos, traduzida sabemos muito bem como, e que tantas edições conheceu, ampliadas e reduzidas, não só quanto ao tamanho, mas quanto à essência, também.
Concluindo, reitero minha simpatia à nova cronologia da Semana-Santa proposta por Sir Colin Humphreys. Tal justifica e santifica a quarta-feira e permite compreender o desenrolar dos fatos posteriores numa sequência possível: permite mais tempo a todos aqueles terríveis acontecimentos que envolveram Jesus e seu martírio. Penso até em retornar a este assunto noutra ocasião. Mas, para que não digam que sou um desmancha-prazeres, um impenitente ou demasiado ácido, o que não sou, quero desejar, do fundo de meu coração, isento de maus humores eventuais, uma Feliz Páscoa a todos os colaboradores, funcionários e leitores d’A Notícia e seus familiares, e mesmo para aqueles que não têm a oportunidade de ler este bravo jornal (o quê é uma pena). Uma Feliz Páscoa, com menos ovos de chocolate e mais espírito ecumênico, fraterno, humano.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 21 de abril de 2011].

O Louco menino do Rio

Dizem que a origem do nome do bairro carioca do Realengo deve-se ao fato dele ter se formado ao longo da linha de bondes, ainda puxados por burros, que levava ao Real Engenho, abreviado na tabuleta do alto dos carros como Real Engº. E, até quinze dias atrás, parecia ser esse o único aspecto de interesse no que se referia àquela localidade. Mas, desde então, como é público e notório, o bairro entrará para a história – não sei por quanto tempo – por nele ter se desenrolado aquele tristíssimo episódio no qual doze crianças perderam a vida pelas mãos de um desatinado.
O fato, verdadeiro motivo de desespero para os familiares e amigos das vítimas, e de profunda consternação para todo o país, foi, por outro lado, uma típica festa para a grande imprensa e para meia dúzia de especialistas ávidos pelos holofotes da mídia. Poucas vezes tornou-se mais evidente um certo desserviço prestado pelos meios de comunicação quanto neste caso. O crime tornou-se um espetáculo, a investigação jornalística foi substituída por um impressionismo sensacionalista, quando não abertamente fantasioso, e sempre hidrófobo, espumando pelo canto da boca e clamando por sangue.
Fosse Lula ainda presidente, alguns jornalões e revistas de grande tiragem diriam até, na falta de se poder culpar alguém, que a responsabilidade seria do Governo Federal. Mas não foi, é claro. E nem se pode falar, num caso destes, de completa responsabilidade de quem quer que seja. Pois tudo indica que o moço que matou aquelas crianças era um completo demente e, como sabemos, loucos são inimputáveis, ou, melhor dizendo: como doidos não sabem o que fazem, a lei não pode considerá-los iguais aos sãos – vale o mesmo com os menores de idade, cuja capacidade de conhecimento da realidade, muitas vezes, corresponde à daqueles, aos olhos da legislação. Além disso, ainda há uma outra questão que em grande parte exime as autoridades de segurança quanto ao que ocorreu. Lembro-me de uma entrevista lida lá pelos anos 1980, pouco depois do atentado sofrido pelo então presidente norte-americano Ronald Reagan, em que um ex-membro da CIA – a principal agência de informação daquele país – dizia, para quem quisesse ouvir, algo mais ou menos assim: “quando um louco, ou até uma pessoa qualquer, pretende matar alguém e está disposto a morrer por isto, ninguém consegue detê-lo”. Os inúmeros homens-bomba, a todo o momento confirmam tal teoria. O jovem carioca, também.
Os sabujos da grande imprensa – convertidos em animadores dos ódios mais extremados e das paixões mais vis em prol dos níveis de audiência – não deram trégua, portanto, ao assunto, explorando-o de uma maneira que, antigamente, cabia apenas à chamada imprensa marrom, ou aos antigos jornais “espreme-sai-sangue”. E, secundando-lhes as opiniões disparatadas, toda uma récua de peritos nisto e naquilo, quais vivandeiras abastecendo a malta dos espectadores do horror. Os quais alegaram que o motivo da atitude do jovem seria uma vingança por ter sofrido bullying, o assédio escolar; que, se louco, deveria ser medicado; e até de radical islâmico foi chamado, aquele infeliz!
Bem, é verdade que o bullying vem crescendo em gênero, número e grau. Em grande parte tolerado pelos ouvidos moucos dos pais dos agressores, e em maior parte ainda estimulado por filmes norte-americanos que retratam a vida escolar de uma maneira em que tal agressão é tão previsível e quotidiana quanto o horário das aulas e do lanche entre elas. Todavia, ele não é um fenômeno recente, pelo contrário. Quem leu o romance de Raul Pompéia, O Ateneu, de 1888, lembra-se de tais práticas ocorridas dentre os muros do colégio do Professor Aristarco, e os sonhos de vingança do protagonista.
Quanto à necessidade de medicação de pessoas com problemas mentais, é claro que ela é imprescindível. Mas é muito fácil falar. Pois como se convence, pela lógica, uma pessoa em parte alienada da lógica, a fazer isto ou aquilo? Se em casos mais leves, ou menos antissociais – depressão, bipolaridade, etc. – já é um custo fazer com que o paciente tome seus remédios, que dizer nos casos de esquizofrenia ou piores? Voltaremos às práticas dos grandes hospícios, verdadeiras máquinas de moer gente? O de Barbacena, por exemplo, célebre em prosa e verso, por trás de suas intenções humanitárias e sanitaristas, tinha uma média de mortalidade anual que não devia nada a certos campos de concentração nazistas – uma grande amiga, cujo pai tinha um sítio ao pé do morro daquela instituição contou-me como, depois de uma chuva e do deslizamento de terra da encosta, foram vistos incontáveis esqueletos sem identificação qualquer, descendo pela enxurrada, rolando pelos roçados. É isto que queremos?
Por fim, a questão religiosa. Argumentou-se, a princípio, que o moço do Rio era um fanático muçulmano. Todavia, nos vários depoimentos que deixou gravados, mencionava a todo momento o nome de Jesus, a necessidade de pureza, ou purificação, e coisas que tais. Então, a grande mídia silenciou. Curioso, muito curioso... Não falo que a crença em Jesus Cristo leve às pessoas, necessariamente, a atos insanos contra o próximo, apesar dos exemplos históricos dos donatistas, valdenses, bogomilos, dentre tantos outros hereges que se consideravam autênticos cristãos e não pensavam duas vezes antes de derramar o sangue dos impuros. O mesmo valeria para os cruzados, para os dominicanos, para a conquista da América pelos espanhóis, etc. Tais horrores de então se justificavam, em parte, pela própria época violenta em que se deram. Não possuíam a mesma sensibilidade de hoje. Não tinham formulado uma Declaração Universal dos Direitos Humanos como a temos desde fins dos anos 1940.
Pois bem, salto para o começo desta semana, depois que o infelicíssimo episódio do Realengo tornou-se conhecido no mundo inteiro. Conforme me contou uma amiga professora, dois alunos seus – do ensino médio, um casal de irmãos de classe média alta, ele de aspecto normal, nem feio nem bonito, ela com vastos e belos cabelos – voltam de um retiro espiritual num acampamento – que tenho quase a absoluta certeza de que não seja católico – com os cabelos completamente tosados, raspados à máquina zero. Indagados do porquê de terem feito aquilo, ela obteve a seguinte resposta: “Porque Jesus nos ordenou!”. Assustador...
Defendo o Estado Laico na exata e igual medida em que defendo o Ecumenismo e a liberdade de qualquer pessoa a abraçar a religião que for de seu desejo ou, se assim o achar, fruto de uma Revelação, quiçá. Preocupa-me, entretanto, esta nova e violenta militância religiosa, que ignora as várias experiências religiosas e, qual numa nova Cruzada, só enxerga infiéis naqueles que não rezem em seus – verbi gratia – “catecismos”. Precisamos de paz e inclusão, e não sectarismo e intransigência. Pois se o Homem foi feito à imagem de Deus, ele há de ter um pouco da misericórdia d’Aquele. E por ser criatura, e não Criador, não deve se considerar o derradeiro Juiz. Tampouco Seu mensageiro privilegiado. Nem, muito menos, os carrascos do Altíssimo. Como, assim parece, julgou-se ser o louco menino do Rio.

[Publicado orginalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 14 de abril de 2011].

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Papai Noel subiu no telhado...

Por iniciativa de uma entidade assistencial ligada à Confederação dos Bispos da Alemanha, foi criada uma campanha intitulada “Zona livre de Papai Noel”. Seu objetivo é o de resgatar São Nicolau, bispo de Mira (atual Turquia), no século IV, que, por ajudar as pessoas pobres e ser um amigo das crianças, serviu de inspiração para o símbolo do Natal. E a causa do resgate de seu culto relacionado a tal data é bem simples: porque este santo sempre foi o símbolo da celebração natalina naquele país (ao lado do Presépio, é claro, o primeiro e mais importante) e porque se pretende combater o “consumismo” nas festas de fim de ano, identificado com o “Bom Velhinho”. A pequena cidade alemã de Fluorn-Winzeln aderiu ao apelo da campanha e declarou seu território, portanto, uma “Zona livre de Papai Noel”: as escolas e os comerciantes retiraram as decorações relativas ao recém-banido Noel, e colaram, nas vitrines e muros da região, adesivos com um sinal de “proibido”. E cartazes com o rosto do personagem atravessado por uma faixa vermelha, semelhante às placas de trânsito de “proibido estacionar” podem ser vistos no interior de lojas, repartições públicas e junto à sinalização que marca as entradas do município. Especula-se que outras municipalidades irão aderir ao movimento.
Já na Argentina, o bispo católico Fabriciano Sigampa, da diocese de Resistencia, capital da Província do Chaco, além de banir o velho Noel da decoração natalina, vem exigindo a “oficialização pública da inexistência do ‘Bom Velhinho’”, pois, segundo ele, Papai Noel faz “concorrência direta” com Jesus Cristo no tocante ao Natal. Ele exorta aos pais, em programas de rádio, canais de TV locais e missas, que digam a seus filhos a verdade. Se estão acatando suas instruções, não sabemos ainda. Mas, para evitar as críticas do bispo, os comerciantes de Resistencia, sem qualquer resistência, vêm retirando a figura de Noel de suas vitrines.
Estas temporadas de caça ao velho barbudo não são novidades – já tratei do tema numa crônica de 24 de dezembro de 2008, intitulada “Dissecando o Papai Noel”, por ocasião do lançamento do ótimo livro de Claude Lévi-Strauss O Suplício do Papai Noel, em que trata de um episódio ocorrido em Dijon, França, em 1951. Permitam, aliás, uma curta transcrição:

“Diante de uma platéia formada por algumas centenas de crianças internadas em orfanatos, um boneco representando Papai Noel foi enforcado e incendiado por padres católicos. A justificativa para tal ato sustentava-se, segundo os organizadores do auto-de-fé estilizado, no fato de que aquela figura natalina seria, na verdade, a representação de um deus pagão e, portanto, anti-cristão. De acordo com o manifesto divulgado por eles ‘não se tratou de um espetáculo, e sim de um gesto simbólico. Papai Noel foi sacrificado em holocausto. De fato, a mentira não pode despertar o sentimento religioso na criança e não é, de modo algum, um método educativo’”.

É, parece que Papai Noel subiu no telhado, não necessariamente para entregar presentes pela chaminé, porém mais de acordo com uma velha piada... Pois a verdade é que, como ora podemos verificar, alterou-se o motivo da condenação à sua figura. Não mais o associam a uma entidade pagã e, sim, à sua substituição como símbolo da festa natalina, usurpando a própria Pessoa de Jesus (causa primeira, indiscutivelmente da celebração do Natal: um fato tão óbvio que nem muçulmanos, nem judeus, nem budistas, nem umbandistas, nem praticantes do candomblé, nem espíritas, nem ateus e nem agnósticos podem discordar, até por uma questão de lógica). Afinal, a data celebra o Advento de Jesus, Salvador dos Cristãos, e não a chegada do Papai Noel – o que é evidente, mas nunca é demais frisar. E, também, atualmente, vem se vinculando o velho alvirrubro à personificação do consumismo desenfreado, um patrono das compras vertiginosas em detrimento de um presente simbólico. Pois como Papai Noel daria, e não compraria, seus presentes, seria possível montar-se uma farsa, um álibi, aos consumidores, confundindo-se a graciosidade de um regalo com a ilusória ideia de que os mesmos seriam “de graça”, sem custo a ninguém – ou em suavíssimas prestações que o bolso nem sentiria...
Mas que o Papai Noel é um símbolo do consumo, ninguém tem dúvida. E a prova vem direto da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo que, em campanha recente, mostra uma menina perguntando, sentada no colo do velho Noel, se é ele quem compra – frise-se, compra – todos os presentes que dá (veja-se que a ideia de dom, de gratuidade, que o sustenta enquanto símbolo, é racionalmente, convenhamos, mas um tanto quanto cinicamente, banida). E ante a assertiva do rubicundo idoso, a menina concluiu que se tal o faz é somente para gozar da devolução de tributos pela Nota Fiscal Paulista!
Celebrar o Natal, portanto, tornou-se um sinônimo, e quase rima, de comprar a se fartar. O velho gordo e bem vestido será sempre muito melhor garoto propaganda que o pobre menino nascido em Belém. O Mercado o demonstra e o Estado paulista o endossa, na sua peça de realpolitik natalina.
Acredito, entretanto, que nem todos pensem assim. Que não sucumbem aos súcubos da luxúria de gastos. Que celebrem, ou procurem celebrar, o nascimento de Cristo em lugar da ditadura sazonal de Noel. A estes poucos e bravos eu desejo um Feliz Natal. Aliás, aos outros, também. Mas que reflitam um pouco quanto aos seus gastos e quanto ao que, de fato, estão celebrando.


[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de dezembro de 2010].

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A Volta dos mortos-vivos, mais uma vez

Nos anos 1980, foi exibido um filme de terror com o mesmo título desta crônica. Ou, melhor seria dizer: esta crônica que o leitor tem em mãos leva o idêntico título de um filme dos anos 1980. Não o assisti, e me parece que foi uma bobagem. Sua trama tomava como referência uma produção dos anos 1960, A Noite dos mortos-vivos (Night of the living deads, EUA, 1968), de George A. Romero, independente e que foi bastante cultuada pela crítica. Era uma trama envolvendo zumbis, e que foi aclamada à época como uma velada crítica à falta de bom-senso e ao comodismo dos norte-americanos de então, que não pareciam mais pensar por suas próprias cabeças e que seriam contrários a quem assim procedesse. Para quem não lembra o que são zumbis, tratam-se estes de criaturas amaldiçoadas, num estado entre a vida e a morte, pertencentes ao folclore caribenho – especialmente haitiano. No cinema, tornaram-se criaturas em estado de decomposição que se alimentam de carne humana viva, infectando suas vítimas com o mal que sofrem: vagar, sem força de vontade, boçalizados, em busca de comida. A temática dos zumbis nunca fez muito sucesso entre o público brasileiro: veja-se, por exemplo, a pouca acolhida que um filme tratando do mesmo tema – Zumbilândia (Zombieland, EUA, 2009) obteve junto ao nosso público. Uma infeliz adaptação do clássico romance inglês Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice, Inglaterra, 1813), de Jane Austen (1775-1817), que mescla esta trama original àquelas criaturas imbecis – Orgulho e Preconceito e Zumbis (Pride and Prejudice and Zombies, EUA, 2009) parece ter granjeado alguns leitores. Mas seus efeitos, à primeira vista, parecem irrelevantes.
Mas o título desta crônica refere-se menos a filmes e livros e mais a uma expressão cunhada lá por fins dos anos 1980, meados dos 1990 e de vez em quando resgatada desde então. E que se referia ao ressurgimento de alguns políticos, cujas carreiras pareciam já encerradas por esgotamento e cansaço, nas disputas eleitorais daquelas ocasiões. Quem ficou, por muito tempo, particularmente marcado enquanto um morto-vivo, foi um ora candidato a senador por São Paulo, da coligação governista paulista. Um outro postulante ao mesmo cargo, nas atuais eleições, que se encontra misteriosamente desaparecido nas suas próprias campanhas televisivas, também compartilhou da alcunha. Ressalve-se, entretanto, que são homens bastante idosos e, de alguma maneira, tiveram uma trajetória política de peso. E desse modo, portanto, a volta dos mortos-vivos a que nos referimos, que parece ser a nova e mais forte tônica das presentes eleições, sobretudo em São Paulo, relaciona-se diretamente aos esquecidos da mídia, a uma quase que confraria dos ex-alguma coisa, que procuram um espaço na política.
Nunca vi uma leva tão grande de ex-atletas, ex-apresentadores de televisão, ex-locutores de rádio, ex-cantores, ex-celebridades instantâneas se candidatando ao Senado, à Assembléia Legislativa e à Câmara dos Deputados quanto agora. Até um costureiro de vestidos de noivas, famoso por ter sido pego roubando um vaso de mármore de um túmulo, que já participou de um programa televiso, investe-se como tribuno do povo, defensor dos humildes, ou nova e desbocada voz no plenário do Congresso. Isto sem falar nos famosos de um passado não tanto remoto, mas igualmente esquecido, que procuram nos empurrar seus filhos, maridos, mulheres, etc., como salvadores da Pátria.
Então as nossas casas legislativas estão a virar asilos dos deserdados da mídia, dos rejeitados pelos holofotes, dos extenuados talentos de um parvo e isolado mérito – por vezes questionável – de um passado pouco notável? E os partidos políticos, um misto de museu de cera, cemitério de navios e agência de empregos para desajustados? A representação política está se tornando um abrigo da obsolescência?
O que é de pasmar é que tais zumbis estejam despertando justamente em São Paulo, um estado que, tradicionalmente, apresentava uma certa lucidez política. Serão indícios de um novo – e horrível tempo – ou a consolidação de um conduta, de uma visão de mundo, que nos últimos anos passou meio despercebida, e que irrompe, para nosso horror, justamente nesses dias de campanha eleitoral? Os pleitos se transformarem num misto de Big Brother e Show de Calouros, ou Recordar é Viver e Vale a pena ver de novo, fazem bem para a democracia? Tenho absoluta certeza que não.

[Crônica originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, em 4 de setembro de 2010].

domingo, 29 de agosto de 2010

Zé Chirico, o argentinito e popular, e sua trupe

O defuncto governador de São Paulo, José Serra Chirico, deu agora, em sua campanha, de anunciar suas origens humildes, um aspecto nada desabonador na vida de qualquer um, pelo contrário, mas que o mesmo parece ter omitido o quanto pôde e quis, e que só agora vem à tona, e a público. Tudo isto porque está interessado em pegar uma carona – deve ser no bagageiro – de Lula: se este tem sua biografia de homem humilde como um fator relevante em seu prestígio, o Chirico resolveu dizer que também é de extração baixa, trabalhador, filho de um vendedor de frutas no Mercado da Cantareira: o Zé, em suma, em mais um lance demagógico.
Tínhamos já conhecimento de sua origem familiar e, inclusive, dela tratamos numa crônica publicada em 17 de setembro de 2005, intitulada Uma idéia do Chirico, na qual fizemos alusão a seus pais. Relendo-a, aliás, dei-me conta da estranha situação de seu nome. Se sua mãe chamava-se Serafina Chirico, e seu pai Francisco Serra, por que a Folha de S. Paulo grafou o nome do então prefeito paulistano, na edição de 1º de janeiro de 2005, como José Serra Chirico? Estranho, muito estranho...
E já que o supracitado Chirico passa por momentos de confissões biográficas quanto à sua origem, não entendo por que omite o fato de ser neto de uma argentina – Dona Carmela – e de que o portunhol foi a primeira língua que ele aprendeu (informação que consta na página 31 do livro O Sonhador que faz: A vida, a trajetória política e as idéias de José Serra. Entrevista a Teodomiro Braga. Rio de Janeiro: Record, 2002. 307 p.:il). Seria preconceito com nossos vizinhos e hermanos? Ou medo de ser tido como um argentinito? Ou ambos, pela sua omissão de tais informações? Nada tenho contra os argentinos, pelo contrário. São eles, em geral, cultos e cosmopolitas. Quem parece ter algo contra eles é o Chirico, que de tão bairrista, tão paroquial, tão natural da Mooca e palmeirense, tenta negar seu passado quase bonairense, seus laivos de um quase torcedor do Boca Juniors. Será que nesta nova vertente de sua campanha, o supradito Chirico, para provar que é humilde, falará também errado, trocando o jargão dos estádios, sua tônica comum, por um portunhol arrevesado? Veremos.
Pergunto-me se ele contava essas histórias nos sarais suntuosos que frequentava, cortejando a nata e a borra da sociedade paulista. Tenho lá minhas dúvidas. Ressuscita-as por mero oportunismo político: que é de seu costume, aliás, sempre saltando de um cargo para outro. Pois é popular somente quando lhe convém. E elitista , com pretensos fumos nobiliárquicos, em todo o resto, com seus ares de sócio do Clube São Paulo – no qual só entraria, sem os cargos que ocupou, no máximo, como contador.
Mas se “ a César, o que é de César”, e a Chirico, o que é de Chirico, e como ele, apesar de sua guinada popular, já é cachorro morto, no qual não se bate mais, não batamos mais, portanto, em sua carcaça. Pois o que sobremodo inquieta a qualquer paulista de bons princípios é a altíssima expectativa de voto em Geraldo Alckmin, o picolé de chuchu, o rei dos presídios e senhor do sucateamento da Segurança e Educação no Estado de São Paulo.
Assistindo ao debate dos candidatos a governador de nosso estado, foi possível verificar que todos os proponentes ao cargo, da oposição, tinham propostas muitíssimo melhores do que Alckmin. Vimos, por suas exposições, o superfaturamento de obras nas quase eternas gestões do PSDB frente ao estado, o descalabro nas áreas sócias, a diminuição de empregos, o êxodo das empresas, os contratos maravilhosos para as empresas administradoras de rodovia e seus altíssimos custos para quem tem que transitar por elas, a virtual privatização da Saúde e da Educação – quem tem dinheiro não usa hospital ou escola pública, salvo para se cadastrar no ENEM, que é do governo federal, frise-se. E o carinho destinado aos funcionários públicos estaduais é vergonhoso: os delegados de polícia de nosso riquíssimo e pujante estado, locomotiva da Federação, recebem menos que os do paupérrimo Piauí.
E ainda assim o dito cujo quer ser eleito, e provavelmente o será, com folgadas margens de votos, no que será a apoteose do picolé de chuchu!
Dizem que o candidato Álckmin é ligado à Opus Dei, poderosa organização religiosa que se situa à direita do Papa, e mais reacionária que o Sumo Pontífice em seus momentos de mau humor. Tanto que os membros da dita organização se proclamam pertencentes ao Opus Dei (“aparelho de Deus”) em detrimento de um nome mais amplo, que seria “a obra de Deus”. Vejam os senhores com quem estamos lidando: gente que procura “aparelhar” o Estado, servindo-se deste para a ocupação de cargos advindos daquele prelazia, e copiando e invertendo um dos vieses do comunismo mais xucro, o aparelhamento, só que travestido, metido numa batina mal-costurada e pretensamente católica. Um Estado, declaradamente laico, pode admitir uma coisa destas? Os evangélicos, por outro lado, aceitam tranquilamente as pretensões deste senhor e do grupo que ele representa?
Pobre eleitorado paulista, que insiste no erro, na burrice, no continuísmo e na mesmice, aceitando representantes e governantes de quinta categoria. Iguala-se aos currais eleitorais do sertão nordestino, que tanto depreca. E, por isso, é capaz de dividir o mesmo destino daqueles: viver num estado atrasado, e achar ainda que tudo está bem.
Viva Alckmim! Viva o Opus Dei! Viva o comodismo e o atraso! São Paulo agora saberá como é viver no vicioso e retardatário Nordeste, no que ele tem de pior! Porque o Nordeste tem coisas ótimas, também, mas não as teremos com mais um mandato de caciquismo peessedebista. Ave, Alckmin! Ave, eleitorado paulista! Os que vão morrer, de vergonha , vos saúdam!

[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 21 de agosto de 2010].

Violência policial francesa?

Um casal de amigos viajou, recentemente, para um “lugar paradisíaco”, o tipo de destino turístico que me causa arrepios. Pelos motivos lógicos, aliás: pois, como no Paraíso, não tem água encanada, luz elétrica, vivalma, e há toda sorte de animais – sobretudo insetos, que superam em número todas as demais classes de seres vivos não vegetais – que nos lembram, minuto a minuto, de sua existência e de sua maioria numérica sobre nós. Depois, lembremos: no Paraíso tinha ao menos uma serpente: nos lugares paradisíacos, geralmente, são várias; neles não há soro antiofídico nem médico, nem um sequer, para tratar de uma insolação, machucado causado por queda de cachoeira, ou coisa que tais.
Pois bem, contou-me o dito casal que, ao chegarem de ônibus na cidade mais próxima do destino, rumaram para uma praça onde os turistas que buscavam o tal lugar paradisíaco eram recebidos por alguns jipes que os deixariam no novo e terrenal Éden. Além do já mencionados marido e mulher, já bem passados dos trinta anos, estavam mais dois casais, um na casa dos vinte e poucos anos, outro mal chegado àquela década, como revelavam suas roupas espalhafatosas, seus cabelos com dreadlocks: para quem não sabe, são aqueles cachos copiados dos rastafaris. Pois bem, estavam ali, todos, esperando a condução, quando uma patrulha policial militar aborda todo o grupo, formado à revelia de seus membros. Meus amigos foram então informados, muito gentilmente, que suas bagagens seriam inspecionadas, “que quem não deve não teme”, e que era ordem do comando, etc., etc. O mesmo se deu com o outro casal dos vinte e poucos anos, ou melhor, quase o mesmo: a polidez fora francamente diminuída, no caso deles. Quando chegou a vez dos jovens de dreadlocks, então, todo o verniz de educação, ou correto procedimento policial, pareceu evaporar por completo. Foram maltratados, abertamente tratados como suspeitos, sob uma chusma de palavras que não posso reproduzir neste espaço. Chegou-se ao cúmulo de um agente homem tentar revistar a moça e de outro, frente, à justa indignação do parceiro daquela, sacar de sua arma para intimidá-lo. Só não houve um desastre porque o outro casal – não o dos meus amigos – eram advogados, identificaram-se enquanto tais e impediram que tudo desandasse. Os policiais engoliram sua fúria, revistaram as malas dos jovens e foram embora.
O grupo então rumou para o tão almejado destino e se divertiram por alguns dias. O casal mais jovem, entretanto, partiu mais cedo. Quando meus amigos e os outros retornaram à cidade, souberam do destino dos outros, pelas páginas do semanário local: presos por posses de drogas.
Meus amigos e o outro casal então refletiram: visto que nada foi encontrado na bagagem dos jovens quando da primeira vistoria; visto que o grupo não se avistou com ninguém desde então; visto que certas drogas não brotam naturalmente no mato e precisam de processamento químico; visto ainda que foram presos justamente ao voltarem: era lógico que foram vítimas de uma armação. E os advogados procuraram o jovem casal na delegacia local. E os encontraram, bastante machucados.
Tudo isto se deu num estado de nossa República Federativa que investe somas consideráveis em propaganda que decante suas belezas naturais e a simpatia de seu povo.
Saltemos para esta semana, e para o noticiário. Nele, vimos que um vídeo gravado por um amador, no qual estava registrado um flagrante de violência policial ocorrido na França, contra imigrantes, teria chocado os habitantes daquele país e de outros lugares do mundo. Talvez os belgas, os holandeses, os islandeses, os escandinavos em geral e os canadenses tenham, de fato, considerado o episódio violentíssimo. Para quem, entretanto, não vive naqueles países, versões ricas do paraíso terrestre, até que achou o comportamento dos policiais franceses bastante polido. Pois estamos tão acostumados com a violência em nosso próprio quintal que até já se disse alhures: “pobre só vai pra frente quando o cacetete acerta a nuca”.
O que mais causou espécie, entretanto, foi o comportamento de certos conterrâneos achando o que ocorreu na França “violentíssimo”, “inominável”. Não defendo, evidentemente, o que ali se deu, mas se olharmos para o nosso terreiro, temos exemplos muitíssimos mais violentos, de fato chocantes e indesculpáveis. Vi, por exemplo, no mês passado, oito policiais militares, de arma em punho, em Belo Horizonte – capital de um estado governado por um partido que odeia mendigos – desalojarem três miseráveis sem-tetos de uma marquise e atirarem seus míseros pertences – mas seus únicos bens e, por isso, seus tesouros – no Córrego Arrudas, sem possibilidade de recuperação. E a simples visão das margens cimentadas daquele córrego revela ser aquela uma prática comum, dada a quantidade de roupas e colchões – decerto ganhos nas Campanhas do Agasalho, para as quais todos doamos – apodrecendo ali.
Violência policial francesa? Olhem para seus pés, ó pavões...

[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 7 de agosto de 2010].

Permissão para rir

Li recentemente, e com bastante assombro, que os programas humorísticos da televisão em breve irão censurar piadas e não mais fazer paródias de candidatos às próximas eleições. Tudo isto por causa da interpretação feita pelas emissoras da resolução 23.191./2009 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Pois segundo o Artigo 28, da dita resolução, a partir de 1º de julho de 2010 fica “vedado às emissoras de rádio e televisão, em sua programação normal e noticiário [...] usar trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que, de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido político ou coligação, bem como produzir ou veicular programa com esse efeito” e “[...] veicular ou divulgar filmes, novelas, minisséries ou qualquer outro programa com alusão ou crítica a candidato ou partido político, mesmo que dissimuladamente, exceto programas jornalísticos ou debates políticos”. Em suma: meteram uma camisa-de-força no humorismo.
Por outro lado, é curioso notar que o TSE aceita candidaturas “humorísticas”: estão aí os postulantes a deputado federal Obama Brasil (na verdade, o pastor Ananias Rodrigues da Silva, do PTB), Binladen (o motoboy Diodálio Rocha, do PTN) e Maradona do Brasil (Gilberto de Castro Carmo, também do PTB – quem diria: o partido que já foi de Getúlio e Jango e hoje é de Roberto Jefferson, Collor, Campos Machado e Romeu Tuma...).
O humorismo, como se sabe, muitas vezes, é involuntário. Apresenta-se espontaneamente quer pelo nome, quer pela aparência, quer porque ambos remetem a imagens e situações cômicas. Noutros casos, ele é produzido a partir da caricatura – pelo exagero – de tais ou quais características de uma pessoa, grupo, classe, sexo, etc. Mas sua intenção, todavia, não é degradar ninguém e, sim, ridicularizar, no sentido estrito da palavra: “causar riso”, “submeter o objeto ao riso”. As más intenções não residem na piada, mas no ouvido de quem a escuta.
É, portanto, uma lástima que um Tribunal democrático meta-se a legislar num assunto diante do qual até as várias ditaduras brasileiras (Floriano, Getúlio e a militar) foram lenientes: há centenas de cartuns, caricaturas e piadas registrando como isto se deu, brincando com a efígie dos poderosos de então, ridicularizando as políticas do passado e por aí vai. Provas inequívocas de que mesmo os algozes tinham um certo senso de humor.
Mas o TSE não pensa assim. Quer cassar o riso em todo país. Não podemos mais nos divertir às custas da feiúra de um candidato, da rusticidade de outro, etc. Entretanto, ficamos sujeitos a ver uma leva de gente mal-intencionada, bisonha ou marota, exibindo seus apelidos paroquiais, suas supostas semelhanças com esta ou aquela personalidade (sob o mesmo nome daquela, ou quase), suas minúsculas egolatrias como sustentáculo de uma ambição política desmedida. E tudo isto garantido por partidos que se dizem sérios.
O que se observa, mais uma vez, é a ausência de seriedade por via inversa. Confunde-se autoridade com sisudez: ser sério é visto como ser mal-humorado. Permite-se o cômico, mas não podemos rir dele. De fato, seria mesmo ridículo tal comportamento, se visto isoladamente. Mas o espírito que o anima e suas consequências não são em momento algum motivos para riso.

[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, em 31 de julho de 2010].

Citazione

Há décadas, para dizermos pouco, muitos alegam que nenhuma história, enquanto trama, narrativa, é essencialmente original.
O venerável patriarca Noé, o do Dilúvio, descrito no Livro de Gênesis, segundo muitos sérios estudiosos, ninguém mais seria que uma versão hebréia de Utnapishtim, herói sumério da Epopéia de Gilgamexe, ao qual suscederam quase iguais aventuras. Pois lembremos que os sumérios, habitantes da Mesopotâmia, já constituíam um povo poderoso em 3.000 a.C., e os hebreus só entraram para a História quase mil anos depois: mais ou menos como os índios, frente aos europeus, depois de Colombo – as semelhanças cessam aí, pois assimilamos o Gênesis e não a descrição da criação do mundo segundo os tupis.
Em Homero, através da Ilíada, temos a origem de todas as tramas de guerra, duelos, aparecimento do herói para elucidação do enredo, rapto da mulher amada para a constituição de um novo casamento baseado no amor, lealdade filial, loucura causada pela arrogância, redenção da alma pela morte, e mais um sem fim de situações que não caberiam em milhares de crônicas como esta. O mesmo se aplica a também homérica Odisséia. E não se trata apenas do Ulisses, a inventiva apropriação do tema escrita por James Joyce no começo do século XX: até a mais ínfima musiquinha que trate dos percalços de um homem, da saída do trabalho, até chegar à sua casa, com as tentações que lhe ocorrem entre uma e outra, quando finalmente encontra o amor de sua mulhar – ela também vítima de certas tentações – traz, ainda que sem saber, incontáveis ecos do épico homérico.
Quem é fã de romances policiais, que segue avidamente pequenas pistas para a elucidação do crime, saiba que igual procedimento foi adotado por pelo rei Édipo, na tragédia de Sófocles (497-405 a.C) e, com resultados menos desastrosos, por Zadig, protagonista da novela de mesmo nome escrita por Voltaire (1694-1778).
Tudo isto nos vem à mente quando assistimos a, pelo menos, uma semana da telenovela Global das vinte e uma horas.
O telenovelista Sílvio de Abreu é um hábil combinador de enredos. Seu texto possui, evidentemente, grandes qualidades – diálogos rápidos, pouca ou nenhuma embromação, personagens que, em grande parte, param de pé. Por outro lado, suas citações de temas cinematográficos, sobretudo norteamericanas, às vezes parecem meio excessivas. E a atual telenovela das nove horas atingiu o ápice nesta questão. Estão ali misturadas, com pequenas nuanças, nada menos do que, à primeira vista, três filmes.
Há incontornáveis traços de Sabrina, filme de 1954, fundidos e ampliados. Se, na trama original, era a filha de um chofer que arrebatava o coração de dois herdeiros (um, playboy, outro executivo), na telenovela atual, a jovem se torna um homem, que é o executivo, a disputar com seu quase irmão (ou meio irmão?), o amor de “J. Pinto Fernandes”, perdão, de uma moça, mas que, como na Quadrilha de Carlos Drummond de Andrade, “não tinha entrado na história”, não a original.
Por sua vez, o playboy rejeitando a jovem mulher (evidentemente arrasado pela perda de um amor juvenil e do contato com a filha que daquele resultou), ainda mais andando de muletas, remete à Gata em teto de zinco quente, de 1958. Mesmo que os atuais protagonistas naõ sejam páreo para Elizabethe Taylor no auge da beleza ou do jovem Paul Newman. É até covardia a comparação, mas os indícios estão lá.
Existe também o envolvimento de um jovem com uma mulher mais velha e, posteriormente, sem que o mesmo saiba, com a filha daquela. Quem nunca assistiu a A Primeira noite de um homem, de 1967, certamente deve achar tal circunstância uma novidade e um assombro...
Como o telenovelista é culto, e a trama envolve alguns personagens italianos, também a cinematografia daquele povo entra na história. De uma maneira um tanto quanto forçada, é verdade, porque os italianos de seu folhetim se comportam da mesma maneira que personagens dos anos 1950, pouco mais ou pouco menos, do chamado neoralismo italiano.
E, também, ali existe um carteiro apaixonado que rouba as cartas de seu amor (O Carteiro e o Poeta, de 1995) e uma vaga referência aos Ladrões de Bicicleta, de 1948: no caso brasileiro atual, o suposto alvo de uma injustiça não procurará roubar uma bicicleta, mas a fábrica que as produz. Desta vez, entretento, nesta trajetória, não age o vindicador por desespero, mas por cálculo: à semelhança, difusa, de um arrivista, vagamente aparentado (abram os olhos!) dos poderosos, como se viu nos Deuses Malditos, de 1969 – este filme, talvez, uma das chaves para muitas das cenas, temáticas e personagens da telenovela.
Tal procedimento não diminui, muito, a qualidade da trama. Mas, utilizado em demasia, nos faz duvidar um tanto dos méritos do autor. Não há nada errado em reaquecer histórias esfriadas pela mudança do paladar dos tempos. Só que muitas delas estão ainda mornas, ou mesmo quentes para muitos. Pois, mais um pouco, o que teremos? Casablanca ambientado em Casa Branca, no lugar dos alemães, os mineiros, e o americano vivido por Humphrey Bogart convertido num acreano emigrado, dono de um cabaré, durante a Revolução Constitucionalista? Pode até ser divertido, mas, convenhamos, muito menos do que original. Em todo caso, acredito, serviria muito bem para uma minissérie, nos moldes da global televisão...

P.S. Se alguém encontrar mais referências cinematográficas, concretas, na trama desta telenovela, mande-as para o meu e-mail. Se bem embasadas, o colaborador receberá a menção de seu nome neste espaço – salvo se não o queira – e a de seu achado. Além de um sorvete de uvaia, quando chegada a estação.

[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 20 de julho de 2010].