O Dia do Orgulho Heterossexual é a maior aberração política, social e cultural que já vi em toda a minha vida. Declaro isto solidamente plantado na minha condição de homem, heterossexual, historiador, leitor e pesquisador, culturalmente católico e, como tal, aberto à tolerância e à inclusão – em suma: jamais um defensor dos preconceitos.
São Paulo se jacta de sua modernidade, de sua riqueza, de seus avanços e, no entanto, muitas vezes se comporta como uma vila dos grotões, elegendo umas figuras arcaicas, metidas a coronelões, ou párocos de antigamente, destes que só devem existir ainda em reprises de telenovelas. E não é só na cidade, não. Nosso Estado vem sendo governado e representado (na Assembléia Legislativa e na Câmara dos Deputados) por umas criaturas que parecem ter saído de uma trama de Dias Gomes ou Aguinaldo Silva. A única diferença é o sotaque. Trata-se do triunfo da caipirice naquilo que esta tem de pior: uma atração por invencionices novidadeiras que ofuscam a visão do verdadeiro atraso em que se vive. Pensa-se Nova Iorque, mas não passa da Itaoca criada por Monteiro Lobato. Ou uma Síria metida à França. Pois esse tal de “Dia do Machão” parece coisa de fundamentalista islâmico, gente de um livro só, pronto para ser invocado – ou sacado, como um revólver – diante de cada episódio da vida, e aplicado na sua inteira literalidade.
Talvez mesmo se tratem de fundamentalistas, mas de outras igrejas, os que estavam por trás – ops! – da referida lei. Quais serão as novas conquistas sociais, por força de normas, que tentarão nos empurrar? O apedrejamento de blasfemos (Levítico 24:22-23) ou de mulheres que não cheguem virgens ao casamento (Deuteronômio 22:20-21)? Ou ainda um “Dia do Orgulho Careca”, em que será celebrada a intervenção de Deus, na forma de dois ursos, que despedaçaram quarenta e dois meninos, os quais teriam zombado da calva do profeta Eliseu (2 Reis 2: 23-25)? Terá direito à marcha pela Avenida Paulista e carro alegórico, puxado por um cordão de carecas, onde vermos os ursos, o profeta e as crianças em pedaços?
Brincadeiras à parte (brincadeiras bem sérias, diga-se de passagem), este monstro parido por vinte e oito homens e três mulheres, concebido sabe-se lá como, é algo de horrorizar por um motivo muito claro. Ele se apoia falsamente na ideia de que numa democracia todos têm o direito de manifestação pública de seus pensamentos e defesa e acolhimento das mesmas pelas instituições. Valendo-se deste preceito, o nazismo, o racismo e a xenofobia poderiam também se fazer ouvidos, acatados, defendidos, etc. Algo do que até uma pessoa de poucas luzes, mas bondosa e honesta, discordaria.
Claro que nem todo heterossexual é preconceituoso, pelo contrário, dentre eles este que vos escreve. Mas a criação de uma data para celebrar o seu orgulho soa à provocação e desconsideração por parte dos que não se incluem nesta categoria. O que é muito diferente dos casos de um Dia da Mulher, do Orgulho Negro ou do Orgulho Gay, estes sim, vítimas de preconceitos e violências de homens heterossexuais (ou que assim dizem ser) e brancos. Ora, parafraseando uma música de Caetano Velloso, mas conservando o seu sentido original, “o macho adulto branco” não esteve sempre no comando? Então por que agora ele parece se sentir acuado? Ui, que meda...
Esta questão de orgulho cheira mal também por uma outra coisa. Sempre acreditei que um indivíduo só pode se orgulhar de algo que tenha conquistado por si próprio. Ninguém se orgulha de ser honesto ou virtuoso. A pessoa é simplesmente honesta ou virtuosa, ou não. Possuir tal conceito de si mesmo é hipocrisia, santarronice, farisaísmo. Pois seguir tais comportamentos, ou preceitos, não é mais do que a obrigação de cada um. É certo alguém se orgulhar, por exemplo, de ter atingido um bom padrão de vida. Mas um herdeiro milionário que se jactasse desta sua condição, no mínimo provocaria, ou deveria provocar, risos e censuras. E, portanto, orgulhar-se de uma condição ditada pela natureza – como a Ciência vem demonstrando nos últimos tempos, no que se refere a homossexuais e heterossexuais – têm sentido apenas para os segundos. Porque estes são criados e educados para seguirem práticas e hábitos que contrariam seus instintos e, portanto, quando assumem sua condição homossexual, de fato conquistaram algo em suas vidas. Já uma pessoa é heterossexual sem qualquer esforço, e tudo o favorece neste sentido. Se ela tem dificuldades, neste ponto, é porque realmente não é aquilo que gostaria de ser.
Os machões que aprovaram a lei e que a endossam será que estão tendo dificuldades quanto a serem machos? Sentem-se fragilizados, temerosos, ou o quê? Pelo que me consta não têm sido eles espancados nas ruas por grupos de gays adeptos da heterofobia (veja-se, aliás, que existe o termo homofobia, mas não aquele que lhe seria análogo, porque este realmente não existe sequer como prática). Trata-se de um discurso destes senhores que, me parece, acaba soando mais ou menos assim: “Olhem, apesar de todas as tentações e fraquezas, de nossa vontade em contrário, continuamos heterossexuais, por isso nos orgulhamos tanto disto. Deixem-nos em paz, sim? Parem de nos seduzir. Estamos com medo”. Isto, realmente, é de lascar...
Portanto, senhoras e senhoritas, tomem cuidado. Se estes medrosos machos serão os perpetuadores de nossa espécie, se precavenham deles. Boa coisa não há de sair desta semente.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de agosto de 2011].
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