quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Um impostor dos quadrinhos: o Capitão América... do Norte

A história dos quadrinhos, ou ainda a história das histórias em quadrinhos, traz curiosidades maiores do que se pensa à primeira vista.
Este gênero de produção (cultural? De entretenimento? Alguém arrisca um classificação convincente?), que é sem dúvida de massa e para elas destinada, teve um início bastante pueril na virada do século XIX para o XX. E com esse cariz permaneceu pelos anos 1910 a, mais ou menos, 1940, comportando temáticas bem variadas. Tinha-se histórias declaradamente voltadas para o público infantil (Buster Brown, rebatizado como Chiquinho, na revista brasileira O Tico-tico, lançada em 1905; ou ainda Os Sobrinhos do Capitão, e as primeiras histórias de Mickey Mouse e sua turma), infanto-juvenil (pensemos em todos os super-heróis), e mesmo adulto, porém, inicialmente, satírico (Pafúncio e Marocas, Mutt e Jeff, etc.).
A partir dos anos 1930, 1940, vão surgindo histórias mais calcadas na aventura, lançando mão de certa violência e erotismo, muitas vezes combinados com o terror sobrenatural. Neste mesmo período, também, alguns personagens saltam das páginas de jornais e revistas e ganham as telas do cinema, em produções baratas que faziam a alegria dos jovens de então e eram solenemente desconsiderados pelos adultos e pela crítica, incapaz de perceber qualquer valor no Super-Homem, Buck Rogers, Flash Gordon e outros confrades. Mas aquele era o período da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial, e as pessoas precisavam esvaziar suas cabeças dos temores de então.
Nos anos 1950 e 1970, especialistas de toda natureza e do mundo inteiro se levantarão contra as histórias em quadrinhos, considerando-as perniciosas à juventude (um dano para a educação e péssima influência sobre a psicologia dos seus leitores), relacionando-as as delinqüência juvenil, estupros, gravidez adolescente, e coisas do gênero. Mas em fins dos anos 1970 e 1980, com o conceito norte-americano das graphic novels, a crítica se interessou pelos quadrinhos, julgando-a quase uma arte. Nos anos 1990 sobreveio uma crise no meio – o público leitor migrou para outras mídias – e desde então se os quadrinhos já não vendem tão bem, produzem lucrativas franquias cinematográficas, de brinquedos, games e toda sorte de mercadorias para crianças e adultos. É o que explica, por exemplo, o lançamento de mais uma adaptação do Capitão América para os cinemas.
Desconheço o grau de sucesso de tal personagem nas versões para o cinema e televisão em décadas anteriores. Lembro de uma adaptação de 1990 que foi um retumbante fracasso. E não sei o que esperar da nova, a ser lançada por estes dias. Mas se há algo a dizer sobre o Capitão América é que ele me parece um dos mais antipáticos e chauvinistas personagens de quadrinhos que já vi. É verdade que é ótimo torcer por ele. Afinal, ele enfrenta os terríveis nazistas, pelos quais não se pode ter nenhuma simpatia e contra os quais se pode devotar todo o ódio e desejo de vingança possíveis (como o fez aquele Tarantino em seu Bastardos Inglórios – talvez mais pai do novo filme que os quadrinhos que lhe deram origem). Depois, é meio inócuo, hoje em dia, bater em nazistas. Os originais, salvo um outro nonagenário que não mete medo em ninguém, estão todos mortos. Queria ver se os produtores teriam coragem de mandar o Capitão América enfrentar os japoneses... Aí seria bem diferente. Porque eles foram quase tão cruéis quanto os primeiros, a dinastia reinante de seu país é a mesma daqueles dias, mas são um dos povos que mais consumem a tralha produzida nos Estados Unidos. Teriam os produtores peito para afrontar tal mercado consumidor? Duvido.
Outra coisa que me faz desgostar do Capitão América é seu aspecto ultrapatrioteiro. Ele é sempre norte-americano demais, certinho demais, caipira demais, “Cinturão da Bíblia” demais. Só pelos americanos ele se bate, e por mais ninguém? Lutou na França? Ah, mas era porque seus compatriotas estavam lá. É de se presumir que sequer conseguisse apontar num mapa onde fica a França.
E, por fim, o que acho o pior no que diz respeito a esse herói: metê-lo em situações reais, num contexto histórico. Porque nenhum super-herói lutou na Segunda Guerra e, sim, homens comuns, heróicos sem dúvida, gente de carne e osso que se arriscou e morreu por lá sem contar com a ajuda de qualquer impostor vestido em uniforme de cores berrantes. E transportar para aquele tempo e lugar a ação providencial de alguém que nunca existiu, é, em minha opinião, uma grave ofensa à memória de todos aqueles que de fato lá estiveram, dando o seu sangue contra o inimigo.
Stendhal e Tolstoi criaram homens comuns que, em seus livros, participaram de batalhas nas guerras napoleônicas. Sem qualquer impacto real sobre elas. Algo amplamente válido num gênero maior que é o romance. Que gêneros menores, como os quadrinhos, ou o cinema de entretenimento, queiram reescrever a história, colocando marmanjos mascarados, que vestem a cueca por cima das calças, batendo-se contra o nazismo, aí já não se trata de uma licença artística: é uma pouca vergonha mesmo.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 23 de julho de 2011].

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