Aproxima-se uma nova lista de livros cuja leitura será exigida dos vestibulandos de USP e Unicamp. Tal mudança implica uma série de consequências, mais ou menos curiosas. Em primeiro lugar, os títulos descartados irão inundar as prateleiras dos sebos e alfarrábios, vendidos por uma ninharia. Em segundo lugar, os novos sairão a peso de ouro, e pequenas editoras publicarão exemplares de obras cujos direitos já caíram em domínio público, com as costumeiras deficiências de sempre: edições mal cuidadas, notas pueris, análises claudicantes, etc. Em terceiro lugar, as comissões avaliadoras dos vestibulares, responsáveis pela mudança, receberão uma chuva de impropérios e anátemas dos professores preguiçosos de cursinho e ensino médio, visto que estes terão de reler (quando não ler pela primeira vez) o tal “clássico” que ora adentra na relação. Mas, em terceiro lugar, as supraditas comissões serão envolvidas por uma nuvem de bons votos, emanados de todos aqueles profissionais que não aguentam mais repetir as mesmas análises, os mesmos discursos, sobre as mesmas obras, já lá se vão três anos.
Minha cunhada, que é professora de Literatura, e eu, que gosto da área e mais ainda quanto à me manifestar sobre este assunto, trocamos algumas ideias sobre o que viria na futura lista. Apostamos, por alto, que virá algum livro do Drummond e da Clarice Lispector (está na moda); São Bernardo, do Graciliano Ramos; nos retornos d’A Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente, das Memórias Póstumas de Brás Cubas, do Machado, e d’O Primo Basílio, ou d’O Crime do Padre Amaro, do Eça, sem falar em Marília de Dirceu, do Tomás Antônio Gonzaga. Arriscamos ainda algo do Castro Alves e do Guimarães Rosa. Mas são meras suposições, evidentemente.
O que nos inquieta é a eterna recorrência dos mesmos títulos e autores, como se a literatura brasileira não tivesse outros nomes e obras. E assim retorno a um tema caro, que já tratei numa crônica de 15 de novembro de 2008. Trata-se do resgate de certos clássicos, relegados pelas autoridades a um papel menor e da necessidade de salvá-los do esquecimento. E uma das melhores maneiras para tal seria sua leitura e debate.
Por que, só para ficarmos na antiga literatura portuguesa, não entram na lista Francisco Sá de Miranda, ou O Lima (1594), de Diogo Bernardes? Ou ainda a poesia, ou o teatro, ou os apólogos dialogais de D. Francisco Manuel de Melo, cujo Hospital das Letras, de 1657, é tido como a primeira obra de crítica literária consistente escrita em português? Sem falar na Fênix Renascida e no Postilhão de Apolo, compilações dos melhores poemas barrocos portugueses. Ou, mais para frente no tempo, em excertos da Nova Floresta (1710-1728), do Pe. Manuel Bernardes?
Por que não, quanto ao período colonial, uma peça do Padre Anchieta ou uma do Antônio José da Silva, o judeu? Ou as Reflexões sobre a Vaidade dos Homens (1752), do paulista Matias Aires, considerado por muitos o maior nome da filosofia de língua portuguesa no século XVIII? Ou o romance Aventuras de Diófanes (1777), da também paulista (irmã de Matias Aires) Teresa Margarida da Silva e Orta, reputada como a primeira mulher a escrever ficção em nosso idioma? O orgulho pátrio não seria exaltado com a escolha de tais obras? A preeminência e pioneirismo das mesmas não valeria a sua divulgação?
Bocage é ótimo. Mas por que todo o resto do arcadismo português é repelido?
Lembremos d’O Retrato de Vênus (1821), de Almeida Garrett. Um curto poema que se confunde com uma análise estética da pintura de Rafael Sanzio (1483-1520), e que causa uma verdadeira e extensa polêmica artística no Portugal de seu tempo. Diz-se que é com Camões (1825), que Garrett instaura o romantismo em terras lusas. Sou mais favorável ao Retrato para este papel. E como ambos são ignorados?
Ainda dentre os portugueses, não compreendo por que rejeitam A Velhice do Padre Eterno (1885), de Guerra Junqueiro. Para além das suas qualidades literárias foi, certamente, a fonte de onde beberam – e ainda bebem, mas tais águas, nos últimos tempos, foram engarrafadas por outrem – nove entre dez ateus ou projetos de ateus falantes do português. É, portanto, literatura cara e de fácil compreensão para a juventude universitária, naturalmente questionadora.
No que se refere à literatura brasileira (posterior à Independência), as lacunas permanecem de dimensões oceânicas. Aceita-se o chatíssimo Macedo d’A Moreninha (1844), e rejeita-se o ótimo Memórias da Rua do Ouvidor (1878), em essência tão romântico como aquele, só que retardatário no tempo, qual o Aleijadinho esculpindo anjos barrocos já no Classicismo. Foge-se, qual o diabo da cruz, d’O Guesa (1884), de Sousândrade. Abrenunciam-se a todos os romances simbolistas, dentre eles o ótimo Mocidade Morta (1899), de Gonzaga Duque. Afonso Arinos, o velho, e João do Rio, são escolhidos quase com a mesma periodicidade da passagem do Cometa Halley. E já que falamos em alegorias estelares, é de se perguntar o caso de Monteiro Lobato: seria sua obra uma anã branca, uma supernova ou um buraco negro? Porque ele está sempre presente e, no entanto, quase invisível. E, por fim, se somos eternamente obrigados a louvar a glória de José de Alencar, por que não passarmos às ótimas crônicas de Ao Correr da pena (1874), ao invés dos purgantes indigenistas de sempre? E por que não se estudar certas traduções ou transcriações? O que Odorico Mendes fez, nas suas versões da Eneida (1864), da Ilíada e da Odisséia (publicadas após sua morte, em 1874 e 1928, respectivamente), diz muito mais sobre as potencialidades do lavor poético de então do que a obra das vacas sagradas pela crítica, de ontem e de hoje.
Mas só se escolhem os mesmos e velhos nomes, que são ótimos, mas não são os únicos. Às vezes dá vontade de bradar, como o protagonista do Falatório do Ruzante de volta da Guerra (c.1529), de Angelo Beolco: Cancaro ai campi e à la guera e ai soldè, e ai soldè e à la guera! (“Raios partam os campos [de batalha], a guerra, os soldados e os soldados e a guerra!”). Ou, ante a presente questão, “que se danem as comissões avaliadoras, as listas, os livros escolhidos e os livros escolhidos e as listas”. E se me permitem uma paráfrase do Ruzante, em complemento, “a mim é que não me apanham mais: vou mais é ler o que não li, e me fartar destes livros até rebentar”!
Pois não é o que todos temos vontade de fazer? Portanto, vestibulando, leia o que lhe impingirem para a prova. Mas leia, também, muito e muito mais. A bagagem que se leva para os exames é leve, e limitada no tempo. Já a que se adquire por conta própria, às vezes é pesada, mas é de valia, e prazer, para a vida inteira.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de agosto de 2011].
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