São João del Rei, que visito pela quarta vez (mas, desta, com calma), é uma cidade com aspectos muito curiosos. Como eles gostam de dizer por aqui, este é o lugar onde o “barroco encontra o moderno”, e coisas que tais. De fato, da janela do hotel onde me hospedo, vejo, quase alinhados, uma ponte de pedras de 1797, um casarão colonial do mesmo período. Este, ladeado por um prédio dos anos 1920 e outro dos 1930. À esquerda do primeiro, um outro dos anos 1950, e, logo por detrás dele, as torres – neoclássicas, pombalinas – da Matriz do Pilar. A um quarteirão de onde estou, há um sobrado colonial dos mais típicos que há, com balcões de ferro e hastes de lampiões de intrincados arabescos: e quase defronte a ele, um moderno mini-shopping center. É de espantar. Acho que, em termos brasileiros, somente no Rio de Janeiro se vai de um extremo ao outro tão rapidamente: penso na Praça XV de novembro, com o Arco do Teles, o chafariz de Mestre Valentim e o Paço dos Governadores (todos do século XVIII), a Estação das Barcas (do XIX para o XX) e as torres modernas de escritórios (anos 1970 ou 80).
Mas a população tem seus traços pitorescos também. Há quase todo instante se encontra uma freira, se topa com um soldado (aliás, foi aqui que avistei pela primeira vez uma soldada, que não a Maria Quitéria dos livros escolares), ou se cruza com um grupo de estudantes – estes, aliás, muito mais evidentes atualmente em São João del Rei do que em Ouro Preto. Todavia, os de cá parecem menos boêmios... Minha mulher e eu nos aboletamos num café (na verdade uma chopperia, que também serve café, e que meteu a bebida da rubiácea no seu nome) por volta das seis da tarde. Estivéssemos em Mariana ou Ouro Preto (ou nas cercanias da Esalq, em Piracicaba, ou da Unicamp, em Barão Geraldo), e teríamos como vizinhos de mesa pelo menos uma dezena de estudantes. Aqui o que víamos eram dúzias de jovens com trajes de ginástica, deixando uma academia ou rumo a elas. E, dado curioso, todas as moças, rigorosamente todas, usando compridas meias brancas sobre as calças, como, pelo que me lembro, parece que foi moda em São Paulo há uns dez anos atrás. Quando elas passam por algum prédio colonial dão, por instantes, a impressão de vislumbrarmos trajes dos homens do século dezoito, usando meias de seda até os joelhos. Já quando atingem outra construção mais moderna, nosso equívoco, nossa breve ilusão se desfaz: o anacronismo do acessório, como acabamos percebendo, é de uma década, e não de dois séculos...
Nos primeiros dias chamou-se a atenção também um certo culto à memória de Tancredo Neves (1910-1985) quase com ares de adoração ou veneração de santo. A toda hora parece que nos deparamos com uma avenida ou Praça, Casa de Saúde ou Escola, que levam o seu nome ou homenageiam sua mulher, Dª. Risoleta. Há uma praça onde uma estátua de Tiradentes olha diretamente para outra de Tancredo, posta em frente. E no Memorial Tancredo Neves, com seu busto no átrio, encontra-se outra estátua sua, sentada num banco na calçada, para que os turistas tirem fotografias ao seu lado (e pelo grau de luzimento do bronze do braço, percebe-se que muitos sentam-se junto a ele: o nariz também brilha de dourado, mas não me perguntem o porquê). Fiquei pensando nisto alguns dias, nesta Tancredolatria dos sanjoanenses, até que refleti melhor, lembrando que, afinal, não só o homem era natural daqui, como foi deputado estadual, federal, governador, ministro de Estado, Primeiro-ministro e Presidente da República (eleito). Tinha, portanto, uma senhora trajetória política. Bem diferente de certos senhores de São Paulo, que com bem menos cargos políticos, com histórias de vida bem mais provincianas, paroquiais quase, andam dando nome a tudo que é logradouro público do Estado, só faltando cemitério e sanitário público. Mas, talvez, seja só uma questão de tempo...
Fiz meu mea culpa: felizes os sanjoanenses por terem de quem se orgulhar!
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 3 de setembro de 2011].
Bolinhas feito pérolas
Há uma semana
Adoro seu jeito de escrever, Pedro!
ResponderExcluirTão seu!...