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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Alguns roteiros e um destino

Um amigo português, há pouco tempo, descreveu-me o seguinte plano de viagem e o justificou. Dizia ele que, depois de visitar boa parte dos sítios históricos de seu país, gostaria de empreender uma visita ao Brasil, mas não em busca das principais construções históricas de nossa pátria tropical, que ele já conhecia, e, sim, precisamente, de um roteiro diferente: um roteiro literário, que abrangesse não só as casas dos grandes vultos de nossa literatura — e, convenhamos, por mais de trezentos anos, da literatura dele também — bem como, se possível, os cenários e as paisagens descritas por nossos maiores autores.
No primeiro instante senti-me, como era de se esperar, extremamente envaidecido. Como se ouvisse rufar aos meus ouvidos aquele velho — e patético — chavão, outrora repetido em nosso país, em timbre triunfante, acerca de tudo e acerca de nada, que dizia que “a Europa irá se curvar ante ao Brasil” ... etc., etc., etc. Mas depois, acordando do breve e injustificável letargo ufanista, considerei nossas condições e passei a ponderar com o amigo.
Em primeiro lugar, adverti, aqui não é como a Inglaterra, que não só tem um “roteiro literário” para Londres, visitando as casas de Charles Dickens, W. M. Thackeray e Conan Doyle, bem como os cenários em que seus vários personagens, como David Copperfield, o Sr. Pickwyck, Betty Sharp e Sherlock Holmes percorreram, com direito a placas afixadas às ruas onde “viveram”. Igualmente não temos um roteiro como o do Distrito dos Lagos, visitando as moradias dos poetas românticos Wordsworth, Coleridge, e Southey — autor também de um dos primeiros (ótimo aliás) compêndios da História do Brasil —, ou do polígrafo Thomas de Quincey, ou do grande crítico e filósofo da arte John Ruskin, autor das imortais “Pedras de Veneza”, dentre outros talentos que viveram na região.
Longe estamos de Paris, que anuncia a cada canto a morada deste ou daquele poeta, escritor ou filósofo, com direito a placas de indicação plantadas em plena rua e outras comemorativas nos lugares que, de uma maneira ou outra, figuraram em suas obras. O turista quer conhecer a casa de Victor Hugo, Verlaine, Rimbaud, Gide ? É simples, basta seguir a placa: e por esta indicação, conhece quase todas as moradias dos escritores franceses, os cenários por onde passaram e os quais descreveram. Paris, neste tipo de roteiro, é tão rica que se dá ao luxo de indicar até mesmo as moradias de escritores das mais diversas nacionalidades que ali habitaram, desde o russo Turgeuniev ao nicaragüense Rubén Darío, passando pelos americanos Gertrude Stein, Hemingway e Scott Fitzgerald
Da mesma maneira, não possuímos a variedade de roteiros que, por exemplo, o distrito de Concord, Massachussets, Estados Unidos, se dá ao luxo não só de apresentar, como apresentá-los aos montes, quer seja enfocando as construções coloniais, ou os campos de batalha da Guerra da Independência, e ainda, principalmente, as casas de moradia e as paisagens descritas por Henry David Thoreau, Louisa May Alcott, Ralph Waldo Emerson, Nathaniel Hawthorne e Margaret Fuller, que valem não só por uma verdadeira aula de literatura americana de meados do século XIX, como pelo fato destes autores serem os fundamentos da literatura norte-americana moderna.
Nem mesmo, senti-me obrigado a reconhecer, temos as indicações como as que Portugal pontuou em seu mapa, as vastas indicações à casa de Camilo Castelo Branco, em Vila Nova de Famalicão, ou a de Guerra Junqueiro naquele rincão cujo nome é tão belo quanto uma poesia épica: Freixo de Espada-à-Cinta. Ou como as da casa de José Régio, em Portalegre.
Nem temos indicações em nossas cidades, da moradia dos grandes vultos das letras e das artes pátrias. A casa de Mário de Andrade, em São Paulo, só meia dúzia de pessoas a conhecem. A casa onde viveu Guilherme de Almeida, que até já foi museu, menos gente ainda. E no Rio de Janeiro e Recife, a coisa não é muito melhor. Não só faltam indicações, quando faltam mesmo as próprias casas, devoradas pela voragem das grandes cidades e seu apetite por arranha-céus.
A solução, ponderei com o amigo, é Ouro Preto: lá estão ainda de pé não só as casas onde viveram os poetas árcades Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto, como também a moradia a do tribuno conservador Bernardo Pereira de Vasconcelos, do escritor romântico Bernardo Guimarães, do poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens e do parnasiano Augusto de Lima.
Mas meu amigo riu, gostosamente, e disse, brincalhão: “Ouro Preto não vale, Pedro. Para você, a solução, sempre passará por Ouro Preto...”.
E depois, dizem que ninguém sabe do destino alheio.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 28 de maio de 2005].

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Meio-dia no cemitério

O título da crônica desta semana sugere uma paródia às histórias ou filmes de terror. Porém não se trata disso. Está mais para um apólogo moral, ainda que com ares de anedota. E, o que é mais curioso, inteiramente verídico. Mas vamos à história.
Tudo aconteceu no último domingo, nas idas e vindas de uma pesquisa que eu realizava, numa gélida e escura sacristia de uma igreja de Ouro Preto, debruçado sobre um missal de 1798, fazia já umas duas horas. Para desentorpecer um pouco as pernas e aquecer-me um pouco ao sol, saí para o adro, acendi um cigarro e pus-me a pensar na vida. Mas antes de que qualquer idéia me viesse à mente, eis que um conhecido, professor universitário de Goiás, de quem não tinha notícias havia certo tempo, surge, como se do nada, à minha frente. A conversa correu lindamente, ele contando-me suas descobertas, e eu alguns modestos achados, a ponto de quase ter me esquecido do que tinha ido fazer ali. Despedimo-nos e retornei aos meus afazeres. Mas quando retorno à sacristia, dou com a cara na porta. Bato nela. Nada. Espio pelas vidraças e vejo apenas o missal sobre o arcaz, com minha lupa e meu caderno de notas ao lado. Nenhum sinal do Presidente da Irmandade, meu anfitrião. Quando já pensava em ir procurá-lo em sua casa, vi seu vulto acenando-me do cemitério, contíguo à igreja. E fui até ele.
Encontrei-o conversando com um velho paroquiano, que conhecia de vista, tratando de assuntos pontuais da confraria, assuntos que, absolutamente não me diziam respeito, mas dos quais não declinei de participar: é, de fato, uma espécie de honraria, para alguém de fora, ser admitido em tais palestras. E enquanto discorríamos sobre uma nova reforma do cemitério, aproximou-se de nós o coveiro da irmandade, trazendo numa das mãos um saco plástico, de cujo conteúdo, no mesmo instante, intuí a natureza: não havia dúvida de que se tratava de uma ossada. Entre a estranheza e o decoro, por educação e piedade, contemplamos, todos, aquele macabro invólucro. Mas o velho paroquiano não se conteve e perguntou ao coveiro:
– Ô, Félix, quem é que está aí?
– É o Seu Cesário.
– O Cesário? Nossa... E como é que ele está?
– Até que está bem. Quer ver?
E, sem a menor desfaçatez, nem qualquer incentivo de nossa parte, o Félix, o coveiro, enfiou a mão dentro do saco, meteu um dedo na cavidade que envolvera o olho esquerdo do falecido, como se a mesma fosse uma espécie de alça, e expôs o crânio descarnado do falecido seu Cesário perante nós, sob o pleno sol do meio-dia.
Não sou pessoa de assustar-me à toa, de enojar-me com facilidade, ou de surpreender-me por bobagens. Mas, confesso, a visão de uma ossada não é, nem de longe, algo agradável, ou curioso: há uma infinita distância entre os corpos de uma aula de anatomia e a coisa real, recém-tirada de uma cova. Dizer que é algo meramente desagradável é muito pouco. E, homens, e cristãos, como éramos todos ali, não se podem dar à leviandade de se recusar a enfrentar uma semelhante visão. Ainda que com desconforto.
Assim, aceitando com toda a dignidade que de nós era esperada, no momento, aquela situação, eis que o Félix nos surpreendeu, mais uma vez, com seus comentários:
– Olhem só, ele está muito bem, não é verdade? E vocês não imaginam o quanto. O osso da bacia, depois de alguns anos, geralmente é encontrado quebrado. Mas vejam como o dele está inteirinho – e enfia novamente a mão no saco plástico e exibe para nós os ossos do quadril do Seu Cesário.
Para nós, porém, foi a gota-d’água. Fizemos o sinal-da-cruz e despedimo-nos do coveiro.
Ao deixarmos o cemitério, o velho paroquiano nos confidenciou algo que, no fundo, todos sentíramos:
– Não deixa de ser engraçado. Somos pessoas de fé. E, ao mesmo tempo, vivemos na era da ciência. Tive a curiosidade de ver o que restou de um velho amigo, achando que olharia seus ossos como olharia para uma ossada de um animal ou para uma espécie de manequim. Mas a humanidade, a humanidade reside ainda em cada centímetro daqueles restos.
De minha parte, tão constrangido estava quanto o homem, acrescentei, sem notar um certo grau de impiedade em minhas palavras, frente a uma pessoa idosa:
– Uma humanidade que é tênue, e eterna como nós sabemos. O que nós vimos, e o que nos dói, é o que todo mundo sabe há séculos: um vislumbre do nosso verdadeiro futuro.
– Do rei ao mendigo. Do jovem ao velho. O meu futuro, o de vocês e o daquele menino ali, empinando seu papagaio, e o de seus netos e dos netos de seus netos – respondeu ele.
E nos separamos: ele rumo à sua casa. Eu, para minhas pesquisas.
Tudo do que tratei nesta crônica não traz, essencialmente, algo de novo. Registro tais fatos porque se deram, literalmente, como ocorreram e para além de qualquer imaginação. Foi tão verdadeiro quanto a moralidade que este episódio encerra e exemplifica. Como, também, tão perturbador, em sua absoluta simplicidade.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 19 de julho de 2008].

Um novo exílio da Sagrada Família

O cenário onde se desenrolaram os fatos narrados na presente crônica é quase idêntico ao da semana passada [19 de julho de 2008]. Os motivos que me levaram até lá foram, também, os mesmos. E idêntica era minha mesa de trabalho. Novamente, eis que me encontrava numa sacristia de capela, pesquisando velhos livros e documentos ainda mais antigos, dispostos sobre uma imensa cômoda de jacarandá, quando os fatos vieram ao meu encontro. Devo dizer, entretanto, que, nessa ocasião, a luz era bem melhor, o frio muito menos intenso, mas, por sua vez, meu anfitrião, o zelador, era muito mais loquaz. Foi difícil conciliar minhas pesquisas com a vontade de conversar que o homem tinha, interrompendo-me a todo instante. Compreendi, naquele lugar, porque muitas pessoas preferem o silêncio dos arquivos à busca de documentos em seus locais de origem. Mas, ainda assim, não justifico tal escolha. É no convívio com os velhos guardiões de papéis e igrejas que se descobre o melhor, seja das pesquisas, seja da vida.
Estava, então, como dizia, consultando antigos documentos de uma irmandade quando, fui interrompido, mais uma vez, pelo zelador. Ele arrumava um grande armário quase às minhas costas, retirando toda sorte de objetos e dispondo-os sobre toda e qualquer superfície elevada e plana da sacristia. E já sem ter onde depô-los, passou a acumulá-los sobre a minha mesa de trabalho. Por todo o cômodo viam-se velhos castiçais, santinhos impressos, cadernos de contas, folhas e folhas de papel, incontáveis velas, de todos os tamanhos, descorados paramentos litúrgicos, equilibrados sobre mesas, cadeiras, baús. Mas, sobre a cômoda, e quase à minha frente, quis o homem deixar uma grande imagem de gesso da Sagrada Família.
Dizer que uma imagem é feia, sobretudo uma imagem sacra, pode parecer pouco caridoso. E, sobretudo, bastante ímpio. Isto é verdade quando aplicamos tal juízo ao tema representado. Entretanto, nada nos proíbe de considerá-la feia em razão de sua execução, do resultado final da obra ante aos nossos olhos. A Igreja, aliás, recomenda que as imagens conservem sempre uma relação, não necessariamente de beleza, mas de decoro, de conveniência, entre a peça e o assunto que a motivou. Mas nada disso se encontrava ali. A imagem era tremendamente feia, quase ridícula, enorme, e, ao mesmo tempo, desproporcionada. O São José lembrava um macaco. Nossa Senhora parecia sofrer de algum grave distúrbio nos olhos e o Menino Jesus de sérias dificuldades de locomoção.
Assombrado frente a possibilidade de que tão medonha peça pudesse vir a ser exibida num dos belíssimos altares barrocos da capela, não me contive e indaguei do zelador sobre a origem e o destino que pensava dar àquele objeto. E contou-me, então, o seguinte.
Havia certo tempo, celebrara-se, ali, um casamento e a imagem fora um presente aos noivos. Como estes partiram no mesmo dia, carregados de bagagem, alegaram não poder levar a peça na ocasião, pediram que fosse guardada na capela e que a retirariam tão logo voltassem. A questão é que, de fato, eles retornaram à cidade, mas nunca mais apareceram para resgatar a imagem. E assim ela dormitava, esquecida, fazia meses, ali. O zelador, um tanto bisonhamente, acreditava que seus donos a levariam para casa, mais dia menos dia. Da minha parte, olhando bem para ela, conclui que, involuntariamente, a capela acabara de ganhar mais uma peça para o seu acervo...
E, então, dei-me conta da terrível ironia de toda aquela situação. Um casal, no início da vida, ganha uma imagem que representa uma família num recomeço de vida. Aceita-o? Não. Dão as costas aos recém-chegados do exílio, remetendo-os a uma nova errância, desta vez, do armário para a cômoda de uma sacristia, e vice-versa. Vá lá que a peça seja tremendamente feia. Ainda, assim, acho que merecia um melhor acolhimento: não se põe porta afora quem acabou de chegar...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de Julho de 2008].

Uma proposta modesta

Passando, recentemente, por Sorocaba, notei alguns aspectos curiosos ali revelados no que diz respeito ao paisagismo e ao respeito à natureza. Para quem não conhece a cidade, digo que ela é atravessada por um rio – o Sorocaba – que não é muito largo, mas é bem caudaloso. Uma de suas margens encontra-se plenamente urbanizada, com uma ciclovia, uma avenida e construções sem grande interesse. A outra teve sua flora nativa preservada e, por conta disso, muitos animais são para ali atraídos. E não só garças – que estas vivem até mesmo no esgoto. Avistei também mergulhões e, mais raros, paturis e jabutis. Tudo isto em pleno centro da cidade. E o mais interessante: vêem-se, às suas margens, inúmeros pescadores, dedicando-se a uma boa forma de lazer e, repito, isto em pleno centro da cidade. Além do mais, pelo que tudo indica, a pesca deve ser boa naquele rio, tal a quantidade dos amantes do esporte ali encontrada.
Em Londrina, graças ao complexo de lagos do Igapó, cujas margens têm boa parte da vegetação preservada, bem como, percebe-se, um belo paisagismo em seu entorno, observa-se algo parecido. Se, por um lado, a fauna não é tão rica quanto à de Sorocaba, ela está longe de ser medíocre. Se a arborização, em certos trechos, parece mais planejada do que conservada, a mesma é, ainda assim, abundante e agradável à vista. Da mesma maneira, percebe-se um certo empenho por parte da prefeitura – ou melhor, de muitas administrações, ao longo do tempo – em não permitir a instalação, nas suas margens, de fábricas, depósitos, comércio de atacado e demais atividades notórias por sua feia arquitetura. Em suma, criou-se um ambiente belo aos olhos, sombreado, saudável, que atrai pescadores, casais enamorados, praticantes de caminhadas e outras atividades esportivas.
Americana, por outro lado, tem as condições ideais de criar algo do gênero, mas não cria. Cortada pelo rio Quilombo, bem sombreado, diga-se, poderia em suas margens criar um belo parque, um complexo de lazer, mas insiste em manter aquele curso d’água como uma fossa a céu aberto, fedorenta, imunda, em cujas margens só encontram guarida gente marginalizada e capivaras infestadas de carrapatos. E em pleno coração da cidade.
Ouro Preto tem o córrego dos Contos. Estreito, tranqüilo, com trechos esquecidos no meio de um mato que ali se encontra somente porque o terreno era íngreme demais para a construção do que quer que fosse. Quando seu entorno mostra-se mais plano, é cercado, de ambos os lados, por construções. Entrou para a história pelo ouro encontrado em suas margens. No início do século XIX, foi planejado, sem todavia sair do papel, o primeiro Horto Botânico do Estado do Brasil, que ali seria estabelecido – antes mesmo do Jardim Botânico do Rio de Janeiro – este é de 1808, o ouropretano, de 1801. E, mais tarde, tiveram aquelas margens certo renome porque ali se plantou chá, em larga escala. Até que ele se tornou num simples esgoto ao ar livre, e pior, o esgoto não só de muitas moradias, como também da Santa Casa de Misericórdia. Ou seja, mais um foco de doenças do que um riacho. Mas até mesmo em Ouro Preto, onde para se mudar alguma coisa são necessárias décadas, quando não séculos, inverteu-se a situação, salvando-se o córrego dos Contos. Hoje, suas margens tornaram-se um parque, com alamedas, quadras de esporte, quiosques, bancos, iluminação. O esgoto foi, em sua maioria, banido. Tornou-se, enfim, um lugar aprazível para moradores e turistas.
Quero dizer, com tudo isto, que é uma vergonha o que muitas cidades fizeram, e ainda fazem, com o seu patrimônio ambiental. Não sou nenhum ecologista radical, pelo contrário, mas convenhamos, um ambiente limpo, saudável e bonito não é somente bom para a Natureza: é bom para os cidadãos, para o turismo, para o comércio, para os esportes, para a auto-estima da cidade. Um amigo de Presidente Prudente contou do que aconteceu por lá depois que se limpou um rio que cruza a cidade e se urbanizaram suas margens. O local virou um ponto de atração para gente de toda parte, de lazer para seus moradores, e de orgulho para seus habitantes. Disse-me ele que atualmente, quando chega alguém de fora, o primeiro local apresentado, com satisfação, pelos moradores, é justamente as margens daquele rio, arborizadas, onde se abriga o Parque do Trabalhador, há praças, aparelhos de ginástica, pistas de corrida, brinquedos infantis e águas limpas. É, portanto, uma vergonha que cidades grandes como São Paulo, Campinas, Belo Horizonte, para ficar entre algumas que conheço bem, não façam a mesma coisa. Uma vergonha não ouvir as mudanças ocorridas em tantas cidades médias e pequenas. Como também é vergonhoso que tantas, dentre estas, não sigam os modelos apresentados por suas irmãs.
No caso de Leme, acho que algo de bom poderia ser feito neste sentido. Não falo do Serelepe, paralelo à Avenida Carlo Bonfanti. Creio que o melhor que se possa fazer por ele é canalizá-lo, limpá-lo (para que não vire um imenso criadouro de ratos e outras pragas) e, sobre ele, alargar-se a avenida, dotá-la de um canteiro central arborizado. Já no que diz respeito ao córrego Constantino, algo mais pode ser feito. Por que não, depois de impedir a emissão de poluentes em suas águas, encher suas margens de árvores – irrigadas, não deixadas ao deus-dará, valendo-se dos recursos despendidos para aquela bizarra decoração natalina de outros tempos? Por que não construir espaços de lazer, belos, agradáveis, um motivo de orgulho para toda a cidade e região? É uma proposta modesta. Mas, acredito, muito boa. Algo a se pensar. Não acham?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de outubro de 2008].

Ouro Preto enlutada

Na última terça-feira, Ouro Preto foi abalada por um forte baque espiritual e sentimental: morria o Padre José Feliciano da Costa Simões, o Padre Simões, pároco da Igreja de Nossa Senhora do Pilar, uma das mais antigas da cidade. Mas este episódio pouco parece ter a dizer para quem não conheceu aquele homem e aquela terra. Pois sua importância, ali, foi muito maior do que se possa imaginar, tanto para os habitantes locais quanto ao nosso país.
Mais do que um sacerdote de uma veneranda igreja, ele era um profundo conhecedor e defensor da história e do patrimônio artístico ouropretano, esta verdadeira jóia colonial que deslumbra nossos olhos até hoje.
Contava-se, por exemplo, uma história incrível a respeito dele. Dizia-se que, na década de 60, o Padre teria recuperado dezoito peças de arte sacra roubadas das igrejas históricas, por meios mais próprios de um romance detetivesco, não faltando, sequer, o uso de um disfarce: um insólito bigode postiço, capa e chapéu preto. Ria-se muito disto, mas o fato é que ele logrou seu intento.
À testa daquela paróquia havia mais de trinta anos, graças as seus esforços todas as igrejas sob sua jurisdição mantiveram-se a salvo das intervenções desastrosas, dos modismos, da demagogia, das bizarrices midiáticas que alguns chamam de renovação... E o mesmo se aplica à cidade: era um incansável crítico das reformas oportunistas, da descaracterização do ambiente, dos maus usos e abusos que nela queriam praticar.
De gênio forte, não era uma unanimidade local, pelo contrário: era tão admirado quanto detestado, mas mesmo quem o detestava o respeitava. Era, naturalmente, uma autoridade. Uma referência. Dizia-se mesmo que, em Ouro Preto, sua palavra tinha mais peso que a do Arcebispo de Mariana. Brincava-se, aliás, que era D. Luciano Mendes (1930-2006) quem beijava a mão do Padre Simões, e não o contrário. De fato, inúmeras historias corriam ao seu respeito.
De minha parte flagrei dois curiosíssimos feitos seus, ocorridos em diferentes missas, e, justamente, durante os sermões. No primeiro, ao reconhecer alguns viajantes franceses assistindo à cerimônia, proferiu todo o resto de sua prédica alternando entre aquele idioma, falado com fluência por ele, e nossa língua. Noutro, assisti a uma longa, barroca, refinada e graciosa digressão sua, numa sonolenta missa matutina, justificando, então, um gesto seu durante a consagração. Disse ele que, antes que o censurassem pela ligeira alteração de seu gestual, como uma tentativa de “inventar uma moda” ou “chamar a atenção”, se daquela maneira procedia era devido a uma pequena dor nas costas. Para logo em seguida relembrar as diferentes formas como muitos outros prelados locais erguiam o cálice na celebração. Brilhante! Quase hilário. E, no entanto, solene.
Era, de fato, um homem barroco: culto, corajoso, igualmente moderno e tradicional, quando tais qualidades eram necessárias. E, claro, um tanto quanto teatral. Foi-o até em seu último cortejo. Seu corpo foi conduzido pelas ruas da cidade pelo mesmo trajeto percorrido, há quase três séculos, pela procissão do Triunfo Eucarístico, talvez a maior cerimônia barroca ocorrida no Brasil. Em seu último cortejo, recebeu todas as pompas que lhe eram devidas e que seriam gratas ao seu temperamento: as janelas e sacadas cobertas por panos roxos e negros, o triste dobrar dos sinos de todas as igrejas, moças vestidas de anjos acompanhando seu corpo, Dragões da Inconfidência servindo-lhe de escolta. Até a natureza homenageou-o: a neblina encobriu a cidade, na véspera; a chuva caiu durante o dia todo, cessando apenas na hora da saída de sua fúnebre procissão. Se o céu local chorou por ele, estancou suas lágrimas, para não embaraçar a última cerimônia do Padre Simões.
Mas minhas palavras não dão conta para descrever o homem em toda a sua estatura. Assim, farei uso de algumas palavras suas que, creio, revelam seu vulto. Numa missa de uma Semana Santa de muitos anos atrás, ele argumentou, gravemente, que todos os homens são pecadores. Ele mesmo o era, acrescentou. E, brandamente, disse: “Assim, não posso dizer que não pequem, mas que procurem não pecar”. Se isto não demonstra grandeza, humanidade e compreensão, não sei o que possa demonstrar, nem o que devemos chamar de compreensão, humanidade e grandeza.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de janeiro de 2009].

Nem sempre o tempo é um bom conselheiro


A imagem acima é do Grande Hotel de Ouro Preto, projetado por Oscar Niemeyer no final dos anos 1930, e erguido no princípio dos 1940. Conta-se que na planta original todas as janelas seriam como a que se vê no canto esquerdo, octogonais, e a cobertura seria uma laje com um espécie de jardim-suspenso – só quem conhece muito pouco a cidade pensaria em algo assim, com pouca ventilação e com risco certo de infiltração (chove uma barbaridade, o ano todo). Coube ao arquiteto e urbanista Lúcio Costa (1902-1998), um modernista que entendia muito de patrimônio histórico, demover seu confrade daqueles planos, sugerindo o emprego das varandas de madeira e da cobertura de telhas, como se vê em toda a cidade. E, felizmente, logrou seu intento. Se, para muitos, ainda hoje, é um susto vê-lo em meio ao casario colonial, com o tempo acostuma-se com ele. Percebe-se que não é tão discrepante assim: o original seria muito pior. Mas Niemeyer nunca ficou satisfeito com isto. Tanto que bastou seu companheiro de ofício morrer, e ele voltou à carga, conseguindo que pelo menos uma das varandas fosse alterada, convertendo-a na janela mencionada. E teria prosseguido, não fosse o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) ter embargado a continuação da obra.
Em São Paulo, recentemente, quiseram reformar o prédio do Detran, em frente ao Parque do Ibirapuera, para transformá-lo num museu. Como a construção também é um projeto de Niemeyer, chamaram-no para que propusesse as alterações. E, de imediato, o que ele planejou: que se fechassem todas as vidraças, substituindo-as por uma imensa superfície branca, sem janelas. Até o governador José Serra de Chirico viu que não tinha cabimento ter-se uma construção em frente a um parque fechada para este. E tiraram o velho “guia genial da arquitetura dos povos” da frente dos trabalhos.
A última do grande arquiteto – não confundam com “o Grande Arquiteto” – deu-se em Brasília, na qual a lei determina que Oscar Niemeyer, e só ele, pode mexer na arquitetura pública da capital, “do toldo do Itamaraty à churrasqueira do Alvorada”, como se brinca. Ali intentou construir uma Praça da Soberania em plena Esplanada dos Ministérios. E na tal praça, ergueria um prédio, chamado de Memorial dos Presidentes, com um obelisco de cento e cinquenta metros de altura, e um estacionamento para três mil automóveis. Com exceção das empreiteiras e dos fabricantes de cimento, ninguém gostou da idéia. A geringonça, disseram, acabaria servindo como uma espécie de tapume, obstruindo a visão do prédio do Congresso Nacional. Houve até quem arriscasse que muitos congressistas apreciaram a idéia: nada como um tapume na frente para que ninguém veja o que se faz atrás...Outro aspecto levantado seria uma certa impropriedade na homenagem aos presidentes, como um todo. Houve gente de bem, primeiro no Palácio do Catete e até no Alvorada, como, também, um povinho que passou por lá que melhor seria se não tivéssemos de recordá-lo, e que não merece, certamente, um monumento. Mas a pá de cal na coisa toda foi dar o nome de Praça da Soberania a um estacionamento para milhares de automóveis. Começa-se assim. Depois, abole-se a palavra “cidadãos” e institui-se, em seu lugar “motoristas”. Termina-se por se chamar o Presidente da República em “Excelentíssimo Senhor Guardador de Carros”...
Niemeyer tem um legado arquitetônico tão vasto quanto os seus anos de vida. Não deveria maculá-lo com arroubos juvenis estando já mais do que centenário. Que desenhe. Que projete. Mas que não queira que aceitemos tudo que vem de seu lápis como a verdade transposta em linhas. Há mais gente na área que produz muita coisa boa e com mais sentido. É necessário que as velhas e imensas árvores tombem para que as mais jovens, à sua sombra, possam crescer.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 7 de fevereiro de 2009].

De novo, os trotes

Há poucos dias, em Ouro Preto, conversava com um amigo que morou por muitos anos numa das repúblicas de estudantes mais antigas da cidade. Discutíamos o trote universitário e suas várias modalidades na cidade e no país. Ali, como é sabido, a coisa funciona mais ou menos como uma brincadeira. Obriga-se o calouro a vestir uma roupa ridícula e a pendurar no pescoço uma placa com o seu apelido e a informação “batalho uma vaga na República X”, ou Y, ou Z. Com esta indumentária e adereço, ele tem de circular pelas ruas durante um mês, pouco mais ou pouco menos. E enquanto o novato ou novatos não forem substituídos por um outro recém-chegado, são eles uma espécie de garçom, office-boy e lavador de pratos de todos os veteranos. Pode parecer meio pesado, à primeira vista, mas como dizia meu amigo, tais práticas não só socializam o calouro junto à comunidade, como também o ensinam a viver numa moradia coletiva. “Menino mimado aprende, rapidinho, a se virar aqui”, completou meu confrade.
Parece tudo muito idílico, falando assim. Todavia, às vezes, as punições podem ser pesadas, como no caso de um novato cometer alguma infração (o não cumprimento de uma tarefa na casa). Aí, ele tem de pagar. Quer seja “levando um vento” (quando os veteranos invadem o seu quarto e deixam tudo, literalmente, de pernas para o ar), quer tomando pinga para além do que ele agüenta, servida por todos na república – isto, sim, é violento e perigoso, mas sei de muita gente que adorou, apesar da ressaca.
Os trotes são uma modalidade de aceitação de um indivíduo num grupo. Uma espécie de ritual de passagem. Podem ser divertidos, até mesmo para quem o sofre, é claro, mas traz em si um componente inequívoco de humilhação e violência que, com freqüência, extrapola seus limites. São notórios os casos ocorridos em tradicionais instituições de ensino, civis e militares, nas quais a selvageria prevaleceu sobre o aspecto lúdico ou ritualístico de tais episódios. E nada justifica tais procedimentos: nem a longa tradição das escolas, nem o fato de serem disputadíssimas pelos alunos, por sua notável qualidade de ensino. Seja numa ESALQ, seja numa faculdade de beira de estrada, seja numa POLI ou numa universidade onde é maior o número de vagas do que o de inscritos, tais fatos não devem, jamais, ocorrer.
Nesta semana acompanhamos dois lastimáveis episódios desta natureza. O primeiro em Leme, vitimando um jovem estudante de Iracemápolis. Forçado a beber para além do que toleraria, a se arrastar por uma mistura de urina e excrementos animais, foi ainda espancado e arremessado na sarjeta por um psicopata – é este o termo, e não outro – quando chegou a bater a cabeça e perder os sentidos. Depois disto, foi internado como indigente. O segundo, mais recente, deu-se em Santa Fé do Sul. Lá uma moça, grávida, foi queimada com tíner e creolina, por uma veterana de Pedagogia (anotem: pedagogia! Que bela profissional será esta senhorita no futuro!). E paremos por aqui. A semana ainda não terminou, mas, com certeza, novas violências serão cometidas.
O curioso nisto tudo é que, ano após ano, tais violências ocorrem sem que ninguém faça nada para coibi-las. Muitas, nas próprias instalações universitárias. Outras, a poucos metros das mesmas. Todas, às vistas de qualquer passante, em locais bem conhecidos. Se a polícia, tão ocupada noutros casos, não quer intervir, até compreendo. Mas o que custa para as direções das faculdades destacarem um ou mais funcionários para, pelo menos, espiarem o que ocorre? Intimidarem, com suas presenças, os excessos? Identificarem, com mais prontidão, os agressores? Creio que todos os bons alunos e professores destas instituições agradeceriam qualquer esforço feito para que suas faculdades e universidades não tivessem seus nomes lançados à lama por meia dúzia de degenerados.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 14 de fevereiro de 2009].

O Carnaval do MacGyver

Prometi a mim mesmo que não escreveria uma só linha sobre o Carnaval até o ano que vem. Acredito mesmo que todos já devem estar fartos deste assunto. Todavia, mais uma vez, não pude me conter. E o principal motivo foi o desfile da escola de samba paulistana Acadêmicos de Tucuruvi, homenageando Ouro Preto.
“Ai, meu Deus, ele vai falar de Ouro Preto de novo!”, deve ter pensado algum leitor mais impaciente. Pois é, confesso que resisti. Minha primeira intenção foi tratar da reforma ortográfica. Mas empaquei no segundo parágrafo. Não me acostumei ainda quanto a grafar, em lugar de lingüística, um reles linguística. Convenhamos, não parece língua estica? Tem ares de trava-língua. Ou melhor, travalíngua, segundo a reforma. Esquisito, não acham? Ainda assim, perseverei, firme, em meu intento, até que novo baque me sobreveio enquanto escrevia “A legislação recém-aprovada...”. Alto lá! Terei que grafar recenhaprovada? Que monstrengo é este? Não parece resenha aprovada? Como vêem – perdão, como veem – não daria muito certo.
Prometo que, na próxima, trato deste assunto que, em minha opinião, se já dá muito trabalho hoje em dia, imaginem daqui a alguns anos, quando toda uma geração for alfabetizada sob estes novos preceitos... Podem dizer, por ora, que a nova ortografia não altera a pronúncia. Balela! O que veremos, creio, será de estarrecer. Podem anotar. Aliás, cabe aqui uma nota – em lugar de escrever balela, estava pronto a usar o bom e velho duvide-o-dó. Mas a forma, nova, duvideodó paralisou minhas mãos frente ao teclado...
De modo que voltemos ao Carnaval, aos Acadêmicos de Tucuruvi e à sua homenageada, Ouro Preto: sem antes, todavia, darmos um pequeno salto no tempo e no espaço. O que não tem nada de errado. As agremiações carnavalescas dão saltos muito maiores. É verdade que se estatelam, quando caem na realidade. Mas prometo que me safo.
Lembro-me de ter assistido, muitos anos lá se vão, um episódio da conhecida série norte-americana de televisão MacGyver, em nosso país rebatizada como Profissão: Perigo e exibida entre os anos 1980 e 90. Não lembro nada da trama do tal episódio, apenas que ela se passaria no Brasil (governado por um Presidente cujo nome era Ramirez, Rodriguez, Alonzo, ou outro nome espanhol qualquer) durante o Carnaval (uma cópia dos desfiles de Nova Orleãs, só que embalada ao som de uma caliente rumba). Num dado momento, o herói vê-se diante de uma cerca, num beco, que ostenta uma placa de alerta, na qual está escrito, em letras garrafais, ِ¡ PELIGRO !, em lugar da brasileiríssima PERIGO!
Pois bem, a Ouro Preto das Acadêmicos de Tucuruvi me lembrou o Brasil do filme do MacGyver. Havia alguma coisa de real, mas debaixo de camadas e camadas de simplificações, estereótipos, fantasias das mais tresloucadas e de uma ignorância patente. Sem falar no deboche: não sou lá um exemplo de devoção, não sou muito mariano, mas, francamente, colocar Nossa Senhora dançando numa comissão de frente de desfile carnavalesco, convenhamos, é de lascar! Até meu amigo anarquista concordou comigo, achando que era falta de decoro. Imagino o que os membros de outras religiões, ou de seitas cristãs, vão dizer dos católicos do Brasil! Sem falar que a Nossa Senhora do Pilar, a homenageada do enredo, era indistinguível da mexicana Nossa Senhora de Guadalupe...
Religião à parte, o fato é que todo o resto mostrou-se uma barafunda lamentável. Fantasias pobrinhas, anjos acrobatas que não faziam acrobacias; reproduções razoáveis de fachadas de igrejas, que eram desmentidas em todo o resto; a demagogia de sempre travestida de “crítica social”. E por aí vai. O mais triste foi a pretensão de reproduzir “o esplendor do ouro” e, ao mesmo tempo, verem-se tão poucos dourados em todo o desfile.
Pode-se argumentar, como muitos o fizeram, que este é o primeiro Carnaval sob os rigores da nova grande crise econômica mundial. Que, por isto, as escolas não tiveram patrocinadores, e que o improviso foi a tônica da vez. Pode ser. Daí o título que pensamos para esta crônica: O Carnaval do MacGyver. Como deve se lembrar quem assistia à série, o grande trunfo do protagonista era improvisar toda e qualquer solução à base de um canivete suíço, fita adesiva e qualquer coisa que tivesse à mão. E, não tenho dúvidas, foi exatamente isto o que vimos neste ano, não somente nos Acadêmicos de Tucuruvi, como em quase todas as outras, de São Paulo e Rio: uma série de improvisos, cujo resultado muito pouco se aproxima do satisfatório – eficiente, mas não memorável (“não façam isto em casa, crianças, sem a supervisão de um adulto”) – e sem a menor verossimilhança, sem um pé, sequer, na realidade.
Do jeito que vão as coisas, aguardemos, leitores o próximo ano. No centenário de nascimento de Tancredo Neves, teremos, certamente uma grande homenagem a ele, personificado por algum louro ator global maquilado de careca, que desfilará no alto de montanhas mineiras que lembrem os Alpes e rodeado de mulatas em minúsculas fantasias. Fantasias? Sim. Para quem cria e para quem as vê. Mas que tipo de fantasias...? Bem, basta por hoje. Não exploraremos mais o leitor neste resto de semana de cinzas.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 28 de fevereiro de 2009].

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A Bela Senhora do Deserto

A cidade de Santana do Deserto, em Minas Gerais, nada tem de deserto e pouco tem de cidade. Ela localiza-se no chuvoso vale do Paraíba mineiro, foi grande produtora de café no século XIX e hoje vive da criação de gado e do turismo rural. Ouvi dizer que tem alguns belos casarões de fazenda e uma igreja matriz antiga. Mas ela e seus menos de quatro mil moradores mal estão no mapa. Mineiros, diz a tradição, estão em toda parte. Mas não tenho notícias de ninguém que tenha se avistado com um morador de lá, ainda que transplantado. Eu, pessoalmente, não conheço ninguém de lá. Ou melhor, conheço sim. Aliás, trata-se de sua moradora mais importante: ninguém menos do que a imagem de Nossa Senhora Santana do Deserto, a padroeira do lugar.
Quis o destino que eu a visse sendo restaurada no consistório da matriz do Pilar em Ouro Preto em julho passado. Pelas hábeis mãos de duas amigas restauradoras, a velha e feia pintura foi retirada, as antigas e belas cores vieram à luz e os seus douramentos, poucos, foram reavivados. Tudo para a festa da padroeira, no dia 26 de julho. Mas não só para aquele único dia. A imagem, antes de voltar para o trono do altar mor, percorreria, como é tradição por lá, todos os bairros rurais do município, acompanhada de círios, orações, banda de música e comemorações. Só então voltaria ao seu lugar de direito, na data exata da celebração.
E com que expectativa a aguardavam! Segundo me contaram, dia sim, dia não, alguém da paróquia telefonava para Ouro Preto, para saber do andamento do restauro. O próprio pároco, em duas ocasiões, se abalara até ali, com o fim de apressar os trabalhos e resgatar a padroeira. Mas como tal não era obra que se faz de maneira açodada, teve que engolir seus sacerdotais brios de dono da imagem, e voltar de mãos abanando.
Ainda que seja muito má educação criticar a aparência de uma senhora, e muito pior ainda de uma dama tão ilustre, devo dizer que a Santana do Deserto não é propriamente uma bela imagem. Seu executor não foi muito hábil. Os traços são demasiado rudes, os ângulos e as arestas muito agudos. Em suma, de uma maneira geral, não louvaríamos suas qualidades estéticas.
Por outro lado, se a intenção do artista anônimo era acentuar as dores e os sofrimentos de uma mulher idosa, a tarefa foi realizada com muito acerto. Parecemos ver a mãe de Maria, do alto de seus muitos anos, ensinando as Escrituras à Filha que, atenta, se prepara para sua dolorosa vida. Dor, contenção, mistério e graça, inegavelmente, irradiam das duas Senhoras, de uma já tão velha, de outra ainda uma criança. Desde o nascimento humilde, a perseguição aos primogênitos e a fuga para o Egito, toda a Paixão do Senhor já parece prefigurada em seus rostos, em seus olhos, em seus gestos.
Em suma, é bela, porque é sofrida. É elegante porque é sábia. É grandiosa porque é humilde. É um paradoxo porque é verdadeira.
Desculpe, Senhora Santana do Deserto, por não ter percebido, de imediato, sua beleza tão rara. Mil desculpas.

[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de agosto de 2009]

domingo, 26 de julho de 2009

Festival ou funeral?

O Festival de Inverno de Ouro Preto foi, por décadas, um dos eventos culturais de maior importância no país. Para ele vinham artistas e público das mais diversas partes do Brasil e do exterior. Algumas apresentações, peças e oficinas tornaram-se lendárias, e o número de inscritos para muitas atividades superava em muito o de vagas. Este quadro durou, seguramente, até alguns poucos anos atrás, quando a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), que cuidava do festival, desentendeu-se sabe lá com quem e montou um outro evento em Diamantina. De lá para cá, a decadência mostrou-se visível, ainda que não acentuada. E, neste ano, a situação revelou-se traumática. Poucos espetáculos, muitos artistas desconhecidos, oficinas entre passáveis e sofríveis e um sensível esvaziamento de espectadores e participantes.
O motivo, alegado, para a edição deste ano ter sido muito abaixo de passável, foi, segundo os organizadores, a crise mundial. Poucas empresas teriam encampado o patrocínio e dado menos dinheiro que o esperado. Vá lá que isto seja verdade. Todavia nada justifica o fato de que a programação completa somente foi divulgada no exato primeiro dia do festival. Assim, nem quem quisesse vir poderia estar por aqui. Faltou-se apenas culpar a gripe H1N1, a outra vilã da vez, pelo pouco comparecimento de público e artistas...
Está bem, não sejamos tão duros. Se faltou dinheiro, poderiam caprichar nos cuidados gerais, certo? Na valorização dos artistas regionais, etc. Pois é, isto também não ocorreu.
O som era péssimo, a ponto dos próprios técnicos queixarem, bem como da acústica do local e do palco. Em suma, ou tinha-se barulho, ou uma chiadeira miserável. Num espetáculo de dança, por sinal, o som foi interrompido durante toda uma cena!
Os sanitários químicos eram insuficientes, mesmo com a reduzida audiência – e neste ponto, até que foi bom: não quero nem imaginar o resultado de uma multidão tendo a seu dispor apenas doze cabines.
Quanto aos artistas locais e regionais, que são muitos, não tiveram o destaque que mereciam. Nem mesmo quando eram as estrelas da noite. Ou apresentavam-se longe do palco principal, em horários inexequíveis, ou tinham ordem de deixar o palco logo depois do espetáculo, sem bisar uma vez sequer. E, à meia-noite, pouco mais ou pouco menos, encerrava-se completamente o espetáculo, quando, pela tradição, o evento estendia-se madrugada a fora.
Os únicos pontos positivos a serem destacados foram três. Em primeiro lugar, a mudança do palco principal, da combalida Praça Tiradentes para a nova Praça da UFOP, junto ao centro de convenções, no Pilar. Uma boa medida para preservar os monumentos do centro da invasão de uma massa saltitante, gritante e dançante. O segundo ponto foi a ótima apresentação daquele estupendo grupo teatral que é o Galpão, adaptando de maneira circense a história de Till Eulenspiegel, uma mistura de Pedro Malasartes e Macunaíma alemão. Ótimos, como sempre, e brindando a cidade com uma encenação que recém estreou em Belo Horizonte. E, por fim, a apresentação daquele jovem mestre do violão que é Yamandú Costa. Perfeito, simpático, brilhante.
No mais, foi tudo muito fraco e triste. O ácido bom humor ouropretano sequer poupou, em represália, o nome do festival. Era comum ouvir as pessoas perguntarem umas às outras o que estavam achando do “Funeral de Inverno”.
Esperemos que fique só na blague, pois o Festival, quando bem feito, é ótimo. Mas o clima geral era de melancolia. Fim de festa. Quase velório. O que é uma pena...

[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de julho de 2009]

Gringos

Há alguns dias, um antigo professor meu, que se tornou um grande amigo, convidou-me a acompanhá-lo numa visita a algumas igrejas de Ouro Preto. Ele estava recebendo um grupo de universitários norte-americanos em visita ao Brasil, estudantes de português que quiseram testar seus conhecimentos da nossa língua in loco. E, ao mesmo tempo, conhecer um pouco do país. O grupo era capitaneado pelo professor deles, que organizara a viagem segundo um método bastante incomum para nós. Geralmente, nestes casos, os alunos são hospedados num único lugar, pousada, hotel ou albergue, e sua interação com os habitantes locais acaba bastante reduzida. Talvez prevendo tal possibilidade, o que ele propôs era algo diferente: dividiu-os em duplas e cada uma delas deveria se hospedar numa república estudantil diferente. E, mais do que isto, deveria atuar de alguma maneira na cidade. Como, nestes dias, está ocorrendo o Festival de Inverno, não foi difícil arrumarem algo para fazer, e se inscreveram como monitores nalgumas das atividades propostas pela organização do festival. Resumindo: a redoma que geralmente é posta sobre os estudantes em viagem, isolando-os do resto do mundo, foi estilhaçada. Vê-se, portanto, o quão arrojada foi a aposta.
Naquela tarde de caminhadas e visitas, o professor norte-americano confidenciou-nos que sua boa intenção não se cobrira dos êxitos que imaginara. Se, por um lado, a fluência em nossa língua melhorara, e o contato com a população local tornara-se efetivo, a familiaridade com a mesma, digamos, assim, tornara-se excessiva: alguns namoricos começaram a surgir, as bebedeiras noturnas ficaram a cada dia mais comuns, e o cronograma das atividades se ressentia disto: não se galga uma ladeira com facilidade e rapidez quando o corpo padece dos excessos de uma noitada. E a atenção e a concentração vão para o espaço. Em suma, o tiro não saiu pela culatra, mas a expulsão do cartucho feriu o atirador...
Sua principal queixa era ante ao fato de que o que deveria ser uma viagem de estudos estava se convertendo numa espécie de Spring Break Vacation (“férias de primavera”, em tradução livre), aquela semana ou duas em que os estudantes norte-americanos vão ao México ou ao Caribe atrás de festas, noitadas, bebidas, drogas e sexo, como muitos filmes mostram. O mesmo que nossos estudantes secundaristas fazem em Porto Seguro, BA, na “semana do saco cheio”. Ou melhor, são os nossos que os copiam, com os mesmos resultados. Mas com uma grande diferença. Lá, são universitários, maiores de idade, livres para fazerem o que bem entendem. Aqui, secundaristas e menores de idade, deixados livres por seus pais, mas não pela lei, que, todavia, nada faz para coibir excessos. E, depois, os norte-americanos é que são hipócritas...
Voltando ao grupo em visita, chamaram-me a atenção dois fatos. Em primeiro lugar, a extrema variedade étnica e cultural dos seus componentes. Dos quatorze rapazes e moças, somente dois eram gringos legítimos. Os demais eram negros, mulatos, hispânicos, ítalo-americanos. E havia até mesmo um rapaz de marcadas características árabes, além de um pouco de sotaque. Em suma, o registro de uma diversidade que raramente vemos por aqui, em nossas universidades. E eles é que são racistas!
Em segundo lugar, impressionou-me o aspecto quase infantil de todos eles. Havia momentos em que pensava estar lidando com meninos e meninas do primeiro ou segundo ano do ensino médio: o mesmo olhar meio perdido, o mesmo ar preguiçoso, o mesmo desinteresse por tudo, ou quase tudo, que não sejam eles próprios. E aquela crassa ignorância de todas as coisas que não surgiram no mundo junto com sua geração, ou pouco depois.
Neste ponto, até que fiquei animado. Nossos universitários, se não são mais maduros, pelo menos procuram ser. Ou fingem muito bem. Afetam mais conhecimentos, elaboram discursos mais articulados, povoam de jargões os seus diálogos. E fazem poses meditativas, sérias, inquiridoras. Por isso, poderíamos até dizer que, na aparência pelo menos, os nossos se saem melhor que os deles.
Portanto, devemos comemorar! Pelo menos nesta matéria tão pequena, podemos ver os Estados Unidos se curvar ao Brasil...

[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de julho de 2009]

A Biblioteca de Alphonsus

Quem visita a confortável casa do poeta Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), o Pobre Alphonsus, em Mariana, percorrendo suas salas e quartos transformados em museu, observando os móveis, os adornos, imaginando como fora a sua vida e a da família, muitas vezes não percebe uma preciosidade, meio oculta, em meio às antiqualhas quotidianas, ainda que de um passado nem tão remoto. Entre os muitos cômodos daquele solar, existe uma antiga alcova, que encerra, aos olhos dos mortais comuns, a biblioteca do autor de Ismália. Ali estão as fontes, mais do que a da vida, do Parnaso e dos botequins dos quais ele bebeu.
Soube, por gente confiável, que sua biblioteca encontra-se inteiramente catalogada. Quanto ao acesso ao público, não conheço suas regras. Em todo caso, acredito que ela deva se tornar mais conhecida, pois, certamente, o estudo daquele acervo daria ótimos frutos a todos os interessados na vida e na obra do poeta. É claro que tal empreita rodeia-se de alguns problemas. Acervos familiares, geralmente, são desbaratados. Neste caso, as dificuldades se agravam em razão da vasta prole que teve o poeta: vai um livro para um filho, outro para uma filha, um se perde na mudança, outro emprestou-se ninguém sabe a quem. Muitas vezes, uma leitura passageira imortaliza-se numa estante. Noutras, a referência capital de uma vida desaparece sem deixar rastro. Entretanto, há uma grande possibilidade de que muitas leituras que inspiraram Alphonsus ainda estejam por ali.
Assim, pergunto-me, por que não cotejarmos os livros, os anos em que vieram ao prelo, frente à produção coetânea do poeta? O que, por exemplo, ele teria lido, ou supostamente lido, à época da publicação do Setenário das Dores de Nossa Senhora, Câmara ardente ou Dona mística? Quais livros se juntaram ao seu acervo antes que Kyriale e Mendigos fossem publicados? Em suma, o que lia Alphonsus enquanto produzia sua obra?
Tais questões, à primeira vista, parecem um preciosismo. Um luxo para pesquisadores desocupados, locatários da torre ebúrnea onde vivem os poetas. Todavia elas são, de fato, a chave para a compreensão de todo o pensar e fazer poéticos de Alphonsus. Pois assim como um pintor retrata aquilo que vê (pelos olhos de outros seus confrades e nem tanto pelo que observa a olho nu), que um músico compõe a partir do que escuta ( mais dos mestres e de seus contemporâneos, menos do ramerrão das ruas), um homem de letras escreve, justamente, a partir delas próprias, daquilo que lê. Assim foi e assim sempre será. As ásperas paisagens cantadas por Cláudio Manoel da Costa, eram as da Arcádia, mítica e literária: um registro poético universal, não um relatório topográfico local. E as musas de Gonzaga – antes de Marília, contam-se outras – eram muito mais um tema, do que uma verdade, plena e plana: um recurso da poesia, não um retrato de uma senhorinha local. E o mesmo se aplica a quem se queira, de Homero a Basílio da Gama, de Virgílio a Santa Rita Durão, de Ovídio a Silva Alvarenga, de Catulo a Alvarenga Peixoto, dentre muitos outros, em tempos e países para além das Minas dos setecentos.
Conhecer a biblioteca de Alphonsus é conhecer Alphonsus e sua obra. E, portanto, espero que alguma alma curiosa esteja se ocupando daquele importante acervo. Em todo caso, não custa sugerir. Fica, aqui, assim, este manifesto de ouro: que venham outros, com suas ferramentas referencias e teóricas, extrair o que se encontra oculto entre as prateleiras de uma velha casa marianense. O povo anseia pelos resultados.

[Esta crônica foi originalmente publicada nos jornais A Notícia, de Leme, SP, em 11 de julho de 2009, e O Inconfidente, de Ouro Preto, MG, em 25 de julho de 2009 (www.oinconfidente.com.br/website/Text.aspx?id=443), edição online]