quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O Carnaval do MacGyver

Prometi a mim mesmo que não escreveria uma só linha sobre o Carnaval até o ano que vem. Acredito mesmo que todos já devem estar fartos deste assunto. Todavia, mais uma vez, não pude me conter. E o principal motivo foi o desfile da escola de samba paulistana Acadêmicos de Tucuruvi, homenageando Ouro Preto.
“Ai, meu Deus, ele vai falar de Ouro Preto de novo!”, deve ter pensado algum leitor mais impaciente. Pois é, confesso que resisti. Minha primeira intenção foi tratar da reforma ortográfica. Mas empaquei no segundo parágrafo. Não me acostumei ainda quanto a grafar, em lugar de lingüística, um reles linguística. Convenhamos, não parece língua estica? Tem ares de trava-língua. Ou melhor, travalíngua, segundo a reforma. Esquisito, não acham? Ainda assim, perseverei, firme, em meu intento, até que novo baque me sobreveio enquanto escrevia “A legislação recém-aprovada...”. Alto lá! Terei que grafar recenhaprovada? Que monstrengo é este? Não parece resenha aprovada? Como vêem – perdão, como veem – não daria muito certo.
Prometo que, na próxima, trato deste assunto que, em minha opinião, se já dá muito trabalho hoje em dia, imaginem daqui a alguns anos, quando toda uma geração for alfabetizada sob estes novos preceitos... Podem dizer, por ora, que a nova ortografia não altera a pronúncia. Balela! O que veremos, creio, será de estarrecer. Podem anotar. Aliás, cabe aqui uma nota – em lugar de escrever balela, estava pronto a usar o bom e velho duvide-o-dó. Mas a forma, nova, duvideodó paralisou minhas mãos frente ao teclado...
De modo que voltemos ao Carnaval, aos Acadêmicos de Tucuruvi e à sua homenageada, Ouro Preto: sem antes, todavia, darmos um pequeno salto no tempo e no espaço. O que não tem nada de errado. As agremiações carnavalescas dão saltos muito maiores. É verdade que se estatelam, quando caem na realidade. Mas prometo que me safo.
Lembro-me de ter assistido, muitos anos lá se vão, um episódio da conhecida série norte-americana de televisão MacGyver, em nosso país rebatizada como Profissão: Perigo e exibida entre os anos 1980 e 90. Não lembro nada da trama do tal episódio, apenas que ela se passaria no Brasil (governado por um Presidente cujo nome era Ramirez, Rodriguez, Alonzo, ou outro nome espanhol qualquer) durante o Carnaval (uma cópia dos desfiles de Nova Orleãs, só que embalada ao som de uma caliente rumba). Num dado momento, o herói vê-se diante de uma cerca, num beco, que ostenta uma placa de alerta, na qual está escrito, em letras garrafais, ِ¡ PELIGRO !, em lugar da brasileiríssima PERIGO!
Pois bem, a Ouro Preto das Acadêmicos de Tucuruvi me lembrou o Brasil do filme do MacGyver. Havia alguma coisa de real, mas debaixo de camadas e camadas de simplificações, estereótipos, fantasias das mais tresloucadas e de uma ignorância patente. Sem falar no deboche: não sou lá um exemplo de devoção, não sou muito mariano, mas, francamente, colocar Nossa Senhora dançando numa comissão de frente de desfile carnavalesco, convenhamos, é de lascar! Até meu amigo anarquista concordou comigo, achando que era falta de decoro. Imagino o que os membros de outras religiões, ou de seitas cristãs, vão dizer dos católicos do Brasil! Sem falar que a Nossa Senhora do Pilar, a homenageada do enredo, era indistinguível da mexicana Nossa Senhora de Guadalupe...
Religião à parte, o fato é que todo o resto mostrou-se uma barafunda lamentável. Fantasias pobrinhas, anjos acrobatas que não faziam acrobacias; reproduções razoáveis de fachadas de igrejas, que eram desmentidas em todo o resto; a demagogia de sempre travestida de “crítica social”. E por aí vai. O mais triste foi a pretensão de reproduzir “o esplendor do ouro” e, ao mesmo tempo, verem-se tão poucos dourados em todo o desfile.
Pode-se argumentar, como muitos o fizeram, que este é o primeiro Carnaval sob os rigores da nova grande crise econômica mundial. Que, por isto, as escolas não tiveram patrocinadores, e que o improviso foi a tônica da vez. Pode ser. Daí o título que pensamos para esta crônica: O Carnaval do MacGyver. Como deve se lembrar quem assistia à série, o grande trunfo do protagonista era improvisar toda e qualquer solução à base de um canivete suíço, fita adesiva e qualquer coisa que tivesse à mão. E, não tenho dúvidas, foi exatamente isto o que vimos neste ano, não somente nos Acadêmicos de Tucuruvi, como em quase todas as outras, de São Paulo e Rio: uma série de improvisos, cujo resultado muito pouco se aproxima do satisfatório – eficiente, mas não memorável (“não façam isto em casa, crianças, sem a supervisão de um adulto”) – e sem a menor verossimilhança, sem um pé, sequer, na realidade.
Do jeito que vão as coisas, aguardemos, leitores o próximo ano. No centenário de nascimento de Tancredo Neves, teremos, certamente uma grande homenagem a ele, personificado por algum louro ator global maquilado de careca, que desfilará no alto de montanhas mineiras que lembrem os Alpes e rodeado de mulatas em minúsculas fantasias. Fantasias? Sim. Para quem cria e para quem as vê. Mas que tipo de fantasias...? Bem, basta por hoje. Não exploraremos mais o leitor neste resto de semana de cinzas.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 28 de fevereiro de 2009].

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