sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Um caso exemplar de egoísmo e maldade

O episódio foi visto pelo Brasil inteiro e por parte do mundo também. Um pequeno grupo de pessoas, filmado por um cinegrafista, passeia às margens da Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, até que alguém vê um saco de lixo boiando nas águas da lagoa. Um desses sacos comuns, de plástico preto, para os quais não vemos outra função que não a de recolher detritos e outras coisas sem serventia. Entretanto, eis que se ouve um som vagamente humano vindo daquela embalagem — as pessoas disseram, mais tarde, que pensaram se tratar de um miado, já que é comum a prática, horrenda, aliás, de afogar filhotes de gatos. Então, movidos pela compaixão frente àquela cruel sentença de morte que não se daria sequer a um animal, resgatam o saco, trazem-no à terra, rasgam-no, e revelam o seu conteúdo: uma criança, uma menina recém-nascida.
Nenhum argumento pode se utilizado na defesa da mãe que seja aceito pela Moral e pela Justiça — compreendendo-se por Moral aqueles modos e valores que nos diferenciam dos animais, e que, dentre outros aspectos, nos conferem a faculdade de identificarmos o que é certo e errado naturalmente, ainda que a hipocrisia e o oportunismo, bem como os maus costumes atuais, procurem nos afastar tão amiúde de tais princípios; e, por Justiça, não o simples ordenamento jurídico e suas práticas processuais, porque estas acolhem, por definição da lei, os argumentos da defesa, por mais incríveis que possam parecer, mas, sim, aquela noção maior, íntegra e universal que nos diz o que é verdadeiramente justo, o que pode ser perdoado e o que deve ser execrado para a formação, exemplo, ou castigo de todos.
Pois a morte da menina foi planejada. Não foi, obviamente, um caso de privação de sentidos próprio ao estado puerperal — aquela demência passageira que pode acometer certas mulheres logo após o parto, a ponto de matar o próprio filho. Foi, isto sim, premeditada. A ocultação da gravidez já foi uma prova do quanto a mãe repudiava a criança. Por fim, eis que a criminosa retira a filha do hospital dando todas as indicações de que dela cuidaria — lembremos das roupinhas e dos sapatos cor-de-rosa da pobre vítima salva da morte. E, no entanto, entrega-a a um fim muito mais do que cruel.
Não cabe diante do caso, nem para uma mentalidade desvairada, estabelecer um paralelo entre o funesto episódio ocorrido em Belo Horizonte e, digamos, o que se sucedeu ao patriarca Moisés, deixado à beira do Rio Nilo num cesto por sua mãe, Joquebede, para colocá-lo a salvo da vontade do faraó, que ordenara o morticínio dos filhos homens dos hebreus, que deveriam ser lançados às águas daquele rio (Ex. 1.22). Tampouco com Medéia, a personagem da mitologia grega que envenenou os filhos para vingar-se do amante, Jasão, que a abandonara e à prole. Um correlação possível, certamente, seria o daqueles infanticídios, tão comuns no Extremo Oriente, que ainda ocorrem, para a vergonha da Humanidade, mas cujo exemplo máximo dava-se na China, até meados do século XX: os pais, descontentes por terem filhas — visto que a mão-de-obra feminina sempre foi injustamente desvalorizada e, portanto, julgada não rentável, bem como pela necessidade de se constituir um dote para casá-las, privando os pais de tempo e dinheiro — simplesmente atiravam aquelas crianças às águas dos rios e à morte.
De fato, a correspondência entre o que se fazia na China e o que aconteceu com a pobre menina salva da lagoa da Pampulha é quase completa — sem falar nos inúmeros outros casos de violências contra crianças descobertos pelo país afora, que a grande imprensa, ave carniceira sem plumas, não investigou, mas, simplesmente, explorou: os índices de audiência (IBOPE, etc.) que o digam. Pois todas estas aberrações contra o instinto maternal nada mais são do que a prova definitiva de um imenso egoísmo. Trata-se da velha e falsa alegação de que uma vida seria sacrificada (a da mãe) se um outra vida (a da criança) viesse à luz. O mesmo argumento torpe, e frágil, que alguns levantam para defender o aborto. Pois a eventual pobreza, as dificuldades que envolvem a criação de um filho, o preconceito da sociedade diante de certos casos, a “imaturidade” ou os “empecilhos a uma carreira” não são desculpa, nem atenuantes, do assassinato frio de um inocente, de um indefeso.
A menina de Belo Horizonte foi salva, sem dúvida, graças a um milagre. Outras centenas de crianças talvez estejam sendo mortas neste exato momento. Por incapacidade de Deus de coibir tais horrores? Não. Pois o que pode Ele quando o egoísmo e a maldade mais profunda se instauram nos corações e nas vontades humanas?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 11 de fevereiro de 2006].

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