O leitor apressado que me desculpe, mas esta crônica será um pouco mais extensa do que de costume. Ainda assim, seu tamanho será infinitamente menor do que o espaço que a grande imprensa dedicou a dois episódios recentes, dos quais trataremos, depois de uma introdução histórica quanto ao assunto e que, acredito, fundamenta meu ponto de vista. Muitas vezes, é impossível falar dos filhos, sem antes contar quem são os pais.
Como todo mundo sabe, o ritmo conhecido como rock’n’roll teve início nos anos 1950, pelas mãos e pelas vozes de músicos norte-americanos negros cujos nomes só os especialistas recordam. Era a princípio uma música para ser cantada e dançada, meio brincalhona, maliciosa, que se apropriava do blues (tipicamente negro, e “maldito”) misturado a uma variante mais animada do swing (branco e da classe-média comportada) e que resultava numa batida bem simples, tosca, quase infantil na sua leitura daqueles dois gêneros. Seus primeiros admiradores eram moças e rapazes pobres do sul dos Estados Unidos, com pouco estudo e estreitos horizontes. Foi graças a um destes rapazes, pobre, um bocado ignorante, mas branco, que o rock rompeu os limites do gueto e foi adotado pelo resto da sociedade. O nome dele era Elvis Presley; o resto, é história.
O ambiente onde tudo se deu é também um fator bastante relevante para compreender o imenso sucesso que o gênero musical conheceu desde cedo. Lembremos que o território dos Estados Unidos foi poupado de ataques durante toda a Segunda Guerra (vá lá, houve Pearl Harbor, mas pouco mais era do que uma base militar perdida no meio do Oceano Pacífico). De modo que a indústria norte-americana permaneceu intacta, e aprendeu a produzir em quantidades e velocidades nunca antes vistas. Os pesados investimentos em pesquisa produziram novas e mais baratas tecnologias que seriam reaproveitadas e redimensionadas nos tempos de paz. Técnicas cirúrgicas, anestésicas, a popularização da Penicilina e outros avanços mais, não só diminuíram a taxa de mortalidade quanto aumentaram a de natalidade.
Dessa maneira, o país durante os anos 1950-60, conheceu a maior expansão econômica de toda sua história. Muita gente ficou de fora dele, é verdade, mas o conforto material estendeu-se por vastas camadas da população, criando uma imensa classe-média e com ela a idéia do american way of life (“o modo americano de vida”, numa tradução literal) que procuramos copiar até hoje, ainda que apenas na aparência. Foi a época das moradias baratas que grassavam nos subúrbios, com seus gramados na frente e uma garagem para um carrão rabo-de-peixe; com suas cozinhas amplas o bastante para abrigarem todos os eletrodomésticos que a publicidade da época afirmasse ser indispensável a toda boa dona-de-casa; daquelas casas onde a televisão já ia se tornando onipresente, berrando o nascente rock’n’roll que se sobrepunha ao rosnar mecânico do ar-refrigerado. Não foi por acaso que o polêmico escritor norte-americano Henry Miller intuíra aquela época de uniformização, massificação e infantilização crescente de seu país, já em 1941, quando escreveu seu livro The Air-Conditioned Nightmare (que sem a sutileza do original, pode ser traduzido como “O Pesadelo com ar-condicionado”): os adeptos do conformismo e da nostalgia do impossível chamam aquela época de “Os Anos dourados”, ou “a época em que a América era inocente”.
Ao lado disso, nunca até então, em lugar nenhum do mundo, tanta comida e tão variada chegara às casas das pessoas como nos Estados Unidos daquele período. E como boa alimentação, segurança social e certo conforto, aliados aos avanços da medicina, fazem parte da receita da idéia de ter filhos, da fertilidade e da queda da mortalidade infantil, os anos entre o fim da guerra e os da década de 1950 ficaram conhecidos como o Baby Boom (a “explosão dos bebês”). Foram estes meninos e meninas criados na fartura, educados pela dupla de babás eletrônicas composta pelo rádio e pela televisão, que, ao atingirem a adolescência (uma faixa etária inventada no século XX), um período de alterações hormonais confundidas com inquietações morais, se tornaram o grande público para aquelas cançonetas cujas letras exortavam à rebeldia comportamental, à negação da alta cultura e à adoção do tatibitati como forma de um discurso que defendia um mundo cujo centro não eram mais as mentes, mas o umbigo de cada um. Os excluídos de sempre, bem como os novos, incluídos entre estes os jovens veteranos de guerra sem espaço na sociedade, somaram-se àqueles no consumo do novo ritmo e nas propostas de mudanças meramente superficiais contidas nas letras e músicas. Basta lembrarmos daqueles tantos filmes, nomes e rostos da “juventude transviada” e seu vazio absoluto de propostas ou sentido.
No anos 1960, as coisas mudam um pouco. Os Beatles e os Rolling Stones, vindos do meio operário inglês ou da baixa classe média, parecem conferir uma maior legitimidade aos protestos e críticas ao conformismo. Mas aquela era uma época de contestações em toda a face da Terra, o momento da dita “revolução sexual”, da experiência com drogas como pretensa fonte de conhecimento, das críticas à cultura oficial e da apresentação de um novo projeto de cultura, rebaixada, à toda humanidade. Até a monolítica China comunista rejeitou as tradições e os valores da civilização para impor uma nova visão dogmática e rasa das artes e do saber. E, no Brasil, sob o nome de iê-iê-iê, macaqueávamos ritmos e aclamávamos um “rei”, que com sua “corte” espalhava banalidades do Oiapoque ao Chuí.
Vieram os anos 1970, em que a politização de alguns rejeitava o rock, ao mesmo tempo que este avançava livre e solto, quer na forma de baladas melosas, quer repetindo os mesmo protestos de sempre, quer ainda mergulhando em formas herméticas, produto de devaneios lisérgicos. Para não falar em centenas de “tendências”. Houve também o punk rock britânico, pretensamente anárquico e certamente ineficaz para qualquer tomada de consciência: a prova cabal é que nos anos seguintes Margareth Tatcher impôs com toda facilidade o neo-liberalismo no Reino Unido.
Então, eis que nos anos 1980 torna-se mundialmente conhecido um conjunto musical da próspera cidade de Dublin, República da Irlanda, um grupinho simpático de jovens católicos contestadores, cujo vocalista era um certo Bono Vox.
Brasil, fevereiro de 2006. O rock’n’roll domina o mercado mundial há mais tempo do que Fidel Castro domina a pequena ilha de Cuba — e todos concordam que, no caso dele, é tempo demais. Os Rolling Stones comemoram quarenta e dois anos de existência e o conjunto U2 os seus trinta, desde a fundação. O “rebelde” Mick Jagger, além de multimilionário, e esperto como todo grande capitalista, é cavaleiro da Rainha (“Sir”), título recebido anos antes pelos “contestadores” Beatles, que eram só milionários. Bono, também multimilionário, tem um hotel em Dublin que se tornou centro de peregrinação, uma villa no caríssimo balneário de Èze, na Riviera Francesa, uma grife de roupas e sabe-se lá o que mais. Nos últimos quinze dias o inglês sexagenário e o quase cinqüentão irlandês se apresentaram neste país, mobilizando a grande imprensa — que cada vez se mostra menos informativa e mais comercial: se exibir uma cabeça humana separada do corpo for capaz de vender mais jornal, ela há de ansiar por ao menos uma decapitação semanal em qualquer parte do mundo — e o público — cujo fervor fanático só encontra paralelo no Ocidente com aqueles verificados nos grandes comícios de Hitler em Nuremberg: lá se reunia uma multidão de basbaques para ouvir “a Voz” (que, aliás, também protestava contra uma porção de coisas, ao som de música, com microfones e alto-falantes potentes e iluminado por holofotes especiais).
Pois bem, o tempo passa, o mundo fica a cada dia pior e a única mudança positiva que a “rebeldia” do rock produziu, foi nas finanças de seus intérpretes. Mas a grande contradição disto tudo, não é tanto o espetáculo patético de homens de meia-idade “protestando”, gritando e rebolando num palco como se tivessem vinte anos, e fossem tão ignorantes das coisas do mundo quanto a maior parte de seus ouvintes. A grande contradição não é a de que milhões de pessoas ainda lhes dêem ouvido, mas sim de que acreditem que eles realmente têm algo a dizer...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 4 de março de 2006].
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