sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Solidariedade de papel

Em razão do meu horário de atividades desde alguns anos, praticamente não assisto à televisão aberta. E quando o faço, tenho o hábito de apertar a tecla “mudo” tão logo têm início os intervalos comerciais. De modo que se as empresas que anunciam pela televisão dependessem unicamente de mim como consumidor de seus produtos, certamente elas teriam aberto falência há muito tempo. Pois não me lembro de uma vez sequer em que tenha comprado o que quer que fosse porque o vi na tela. Mas de vez em quando, é claro, não é possível deixar de observar alguma coisa que se passa no vídeo. E foi, portanto, por acaso, e um tanto quanto distraído, que me deparei neste mês com a antecipação da campanha “Criança Esperança”, da Rede Globo, que tradicionalmente se dava em Outubro, o qual o mercado intitulou “Mês da Criança”.
Como eu dizia, estava com a televisão ligada, e sem som, quando vi um ator, vestido de branco, surgindo de um fundo indefinível — algo entre uma idéia vulgar do que seja o Paraíso Celeste e uma asséptica enfermaria. Pensei, pelas alvíssimas e imaculadas roupas daquele ator, quais as de um menino em sua Primeira Comunhão, que se tratasse de uma exortação ao cumprimento deste santo sacramento. Mas, refletindo melhor, lembrei que a Igreja não se dá a este tipo de desfrute: propaganda sim, no que está certa, mas não da mesma maneira como fazem os vendedores de sabão em pó e automóveis. Depois, pensei que, talvez, fosse um anúncio de algum Centro ou Federação Espírita, ou mesmo de algum Terreiro ou Federação de Umbanda, Candomblé ou outra confissão do gênero. Mas me lembrei de que tais agremiações, parcas de recursos como geralmente costumam ser, não disporiam de fundos para anunciar em cadeia nacional, muito menos numa emissora que defende majoritariamente o Catolicismo, ainda que só quando este lhe convém.
Descartadas tais possibilidades, pensei: deve se tratar de um anúncio de vitaminas ou de planos de saúde. Pois é comum que atores se passem por aquilo que não são em propagandas para um público sonso, que não distingue ator de personagem — daí vermos tantos anúncios de banco nos quais os atores não têm conta, abstêmios fazendo propaganda de cerveja — Bussunda não bebia e Juliana Paes não deve suas formas, certamente, ao consumo diário da “Boa” —, e idosos anunciando planos de crédito para aposentados: só os muito incautos podem acreditar que Nicete Bruno, Paulo Goulart, Nair Belo e Hebe Camargo necessitam dos empréstimos que anunciam...
Então, finalmente, vi que se tratava da velha campanha “Criança Esperança”. Ou seja, a facada era mais profunda e mais baixa, como veremos.
O ator vem caminhando, solitário e sorridente — e eles são sempre sorridentes, não importa o que anunciem, seja uma nova marca de biscoitos, seja um candidato às eleições e seu partido — até que se junta a um grupo. Mas não se trata de um grupo de pessoas, de gente de carne e osso. Ele se aproxima de uma série de figuras de papelão, de várias cores, à semelhança daquele brinquedo de dobraduras e recortes de papel, formando uma corrente, que aprendemos a fazer na infância. Então, toma a mão de um boneco, simbolizando, muito mal, aliás, o cuidado com a infância. E à medida que a câmera se afasta, vemos que além dos bonecos existem algumas crianças salpicadas no meio daquilo, além de outros atores, com seus sorrisos eternos, e meio perdidos em todo o conjunto de imagens.
O curioso da campanha é que ela prega a solidariedade, claramente traduzida no gesto de dar a mão ao próximo. Mas, ao contrário do que prega, nenhum ator dá a mão a um parceiro ou a qualquer das crianças que aparecem na tela. Todos eles tocam apenas as figuras de papel.
O que isto quer dizer? Que a responsabilidade de alguém, que doe qualquer valor para a campanha, se resume ao simples fato do dispêndio de dinheiro? Pois a campanha, tal como é feita, parece dizer: “olhem, nós temos um bando de miseráveis para cuidar, e para poupar você de ver tantas tristezas, e de ter contato físico com estes desgraçados da vida, submeta tão somente a sua doação por telefone, que ela será bem empregada. Depois, quando os pobrezinhos estiverem limpos, um pouco mais gordinhos, e cheios de gratidão pela esmola que você mandou, nós os exibiremos na telona, para que você possa se regozijar da sua conduta. É certo que isto implica uma taxa cobrada pelas empresas telefônicas e num certo custo de nossa administração, para que os donativos cheguem a entidades das quais o doador nunca ouviu falar, mas que, garantimos, são as melhores. Assim, em troca de pouparmos você, doador, do espetáculo de muitas crianças doentes, subnutridas, banguelas e analfabetas, mande seu dinheiro. O contato que terá com elas será somente mais tarde, indireto, e quando os pobrezinhos estiverem mais aceitáveis.
A caridade, incluindo-se nela a benemerência, é um imperativo de todas as religiões. Os católicos sempre a praticaram, bem como judeus, muçulmanos, espíritas, praticantes de afro-religiões e protestantes tradicionais. Também os movimentos neo-pentecostais, vez ou outra, a exercem, conquanto enfatizem que “não se deve dar o peixe, mas ensinar a pescar”, em nove entre dez cultos religiosos. De modo que é um dever de todo ser humano que tem compaixão pelo próximo, esteja este próximo no mesmo quarteirão, numa outra cidade ou noutro continente. E um dever de solidariedade implica, justamente, o conhecimento das dificuldades e necessidades pelas quais ele passa, não a leitura posterior de um relatório quanto ao destino dos fundos. Pois tal prática não seria caridade, mas, sim, cínico investimento. Portanto, olhemos mais pelas entidades ao nosso redor, e menos às boas, conquanto longínquas e, muitas vezes, inverificáveis intenções mediadas por outrem. Do contrário, a solidariedade será somente de papel, e efêmera, portanto. Ou de papel-moeda, como querem seus atravessadores.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de agosto de 2006].

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