quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Cuba, libre?

Depois de quarenta e nove anos no poder, Fidel Castro afasta-se da liderança de Cuba por livre e espontânea vontade. As centenas de atentados que sofreu, a tentativa frustrada de invasão da ilha pela Baía dos Porcos, a crise dos mísseis, as pressões internas, sobretudo as externas, a Guerra Fria e o fim dela, nada disso conseguiu derrubá-lo: nem o seu regime. Apeou quando quis e porque quis. Passa a ser um dos raríssimos casos de ditadores que deixaram ainda vivos o comando de seus países sem serem derrubados pelas armas ou por alguma conspiração. Os outros casos? Pinochet, alguns de nossos ditadores e os argentinos — mas para a queda destes últimos, a derrota da Guerra das Falklands muito pesou. Assim, não deixa de ser irônico ver em que companhia Fidel se meteu com seu gesto... Por outro lado, ele está certo em ter feito o que fez. Sua longa experiência ensinou-lhe os males que assolavam a sociedade soviética, por exemplo, com seus ditadores agonizantes, a despeito das notícias oficiais, e que paralisavam toda a nação.
Mas que o fato tem um ar de ineditismo e, certamente, de inesperado, não há dúvidas. E por ser algo impensável que se tornou real do dia para a noite, torna-se mais claro o quanto ainda é cedo para arriscar qualquer prognóstico quanto ao destino de Cuba. Seria mais um exercício para futurólogos do que para historiadores. Algumas possibilidades aparecem aqui e ali, mas todas parecem muito frágeis.
Cuba tentará seguir o caminho aberto pela China, capitalista na forma e comunista na essência? Por outro lado, é possível comparar a pequena ilha do Caribe ao quase continente asiático? Poderia a malemolência tropical ser tão produtiva quanto a rigidez oriental? Isto é assunto para muita discussão. Entretanto, lembremos, os latinos possuem uma noção de solidariedade, digamos assim, e para o bem e para o mal, que os norteiam, em vários campos de atuação, a qual se choca de frente com o individualismo hierarquizado dos chineses. Nossa herança católica — que pode ser negada na prática, mas que é vivida intensamente, porque fundou nossa cultura, nosso jeito de ser — faz com que pensamos sempre no próximo (seja amigo, conhecido, parente, compadre e até confrade político) e, ao mesmo tempo, que desprezemos, ao menos em público, o lucro, sobretudo em demasia. A herança confucionista — que não conseguiu ser varrida pelo maoísmo, que, antes, valeu-se de alguns de seus conceitos — é toda calcada no indivíduo, numa hierarquia rígida e em amealhar o maior número possível de riquezas. Em suma, é imenso o conflito entre uma e outra formas de ver o mundo. Depois, para se produzir, é preciso ter mercado e matéria-prima. Ora, a China é quase um continente, com ferro, carvão, petróleo, potencial hídrico imenso, hidrelétricas, siderúrgicas, tecnologia nuclear e espacial e infinitas fábricas de todo o tipo de bens duráveis ou não. Cuba vive de turismo, rum, açúcar e charutos. Sua energia vem de termelétricas que funcionam à base de petróleo, que a ilha não tem, Hidrelétricas não existem porque não tem rios capazes para comportá-las. E seu parque industrial, ainda que fabrique ótimos remédios, deve ser equivalente ao do Paraguai. Concluindo: é possível comparar ambos os países?
Por outro lado, é quase uma certeza que Cuba não volte a ser como era antes, uma espécie de parque de diversões etílico-erótico dos norte-americanos, controlado pela máfia e administrado por funcionários tão violentos quanto corruptos. Para quem quiser ter uma idéia do que eram aqueles tempos “nostálgicos”, leia aquele ótimo livro de Graham Greene, Nosso homem em Havana, um retrato sem retoques de tal época. Mas pressões neste sentido certamente haverá. Por outro lado, quem conhece o povo cubano, e a dignidade que soube construir na adversidade, vivendo numa mistura de estoicismo e quase franciscanismo, garante que não, de maneira nenhuma: não se voltará ao que era.
Resta saber qual o papel da oposição neste novo enredo. Mas que tipo de oposição deverá existir na ilha caribenha? Veremos surgir, de um lado, socialistas moderados, de outro, capitalistas ferrenhos, e, no centro, social-democratas (de verdade, não de fachada, como se vê tão amiúde) e democratas-cristãos? Ou veremos nascer, aqui, movimentos nacionalistas tacanhos, ali, defensores da linha mais dura do comunismo, e, por toda parte, agremiações folclóricas, partidos mínimos cujas plataformas teriam a mesma densidade de seus pitorescos nomes, verdadeiras marcas-de-fantasia? Pois depois de quarenta e nove anos de discurso único, exílios, deportações, prisões, fuzilamentos, qual a possibilidade de existir, internamente, uma oposição articulada?
Como dizia, é ainda muito cedo para especulações. Atente-se ao fato: el Comandante deixou o poder. Qual será seu papel agora? Também não sabemos. Talvez se dedique ao repouso, tão próprio a alguém de sua idade e cuja saúde não é das melhores. Talvez procure pôr-se em bons termos com sua consciência que, certamente, não deve ser leve. Todavia, para tal questão já tinha ele formulado sua reposta. Fidel cunhou, há muito tempo, uma frase célebre: “A História me absolverá”, disse ele certa vez, numa espécie de resumo de sua trajetória, escolhas, erros e acertos. Logo em seguida veio a paródia à frase, obra de seus críticos, internos, inclusive: “Sim, sim, a História o absorverá”. A piada é boa, mas é falsa. Pois se pode restar alguma dúvida quanto a ele ser absolvido pela História, ninguém pode negar que seu nome ainda será lembrado por muito tempo.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 23 de fevereiro de 2008].

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