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sábado, 24 de dezembro de 2011

Notas praieiras – Parte II: A Ignorância do Mundo em quinze dias à beira-mar

Na antiga Grécia, e provavelmente em muitas outras culturas, até mesmo naquelas chamadas “primitivas”, inumeráveis são os rios e riachos, lagoas, montes, colinas, montanhas e pântanos aos quais são relacionados os mais diversos mitos. Ou, no mínimo, são merecedores de um nome que os distingua, o que é algo muito mais importante do que se pensa. Pois nada existe sem um nome. Ainda que, na natureza encontrem-se, de fato, um número incalculável de animais, plantas e minerais ainda desconhecidos, é a partir do momento em que são nomeados que se tornam relevantes. Dar nome às coisas, é sabedoria e poder. Conhecimento e domínio.
Antes de sermos um país, quando ainda éramos uma colônia portuguesa – melhor dizendo, um arquipélago de vilas, cidades e fazendas, isoladas pela mata – boa parte da topografia brasílica já havia sido nomeada pelos ameríndios, ainda que em pequena escala, geralmente regional (relativa aos deslocamentos das tribos num âmbito relativamente estreito). E, o que era pior, conhecidos por pequenos grupamentos: as informações, então, não circulavam muito entre gentes sempre em pé de guerra umas com as outras. Havia, entretanto, formidáveis exceções, como as lagoas do Vapabuçu e do Paraupava, cujos nomes eram familiares a diversas etnias, mas cujo lugar real permanece incerto (especula-se que a lagoa da Paraupava, que apareceu em diversos mapas europeus dos séculos XVI a XVIII, ora ao Norte, ora ao Nordeste ou mesmo no Centro Oeste, trate-se, na verdade, do Pantanal Matogrossense). Sem falar na utópica “Terra sem mal” (Yvi Mara Ey ). Mas devem-se aos navegadores (como no caso do Monte Pascoal cabralino), aos jesuítas (Pedro Lozano, no século dezoito, foi o primeiro a chamar de Caminho do Peabiru a rota indígena que ligava o litoral Sul-Sudeste brasileiro ao Paraguai e ao Peru) e aos bandeirantes (que não só incorporaram muitos hábitos dos silvícolas, como também a sua própria língua), devem-se a estes, portanto, o real batismo de muitos acidentes geográficos de nosso território.
A ocorrência de muitos nomes idênticos, quer de origem indígena ou já portuguesa, designando este ou aquele rio, morro, lagoa, nos mais variados cantos desta terra, explica-se justamente pelo relativo isolamento das comunidades do passado. Daí termos tantos rios chamados de Grande, Feio, Turvo, Pardo, Paraibuna e Piracicaba, por exemplo: ou os dois de nome Paraíba, um emprestando seu nome ao Estado nordestino, outro recebendo o acréscimo de “do Sul”, muito posteriormente à sua descoberta, no vale paulista e fluminense). O mesmo não vale para as incontáveis cachoeiras ou cascatas que receberam o nome de “véu-de-noiva” ou “véu-da-noiva”: neste caso é, pura e simplesmente pobreza de imaginação.
Já no que se refere aos morros e montes, a ânsia de nomeá-los parece ter sido sempre meio preguiçosa por aqui. O grande historiador mineiro Diogo de Vasconcelos (1843-1927) quando trata das expedições dos bandeirantes pela terra mineira, diz que aqueles bravos avançaram por ela “servindo-lhes de norte o pico de algumas serras, que eram os faróis na penetração dos densíssimos matos..”. Assim, aos picos couberam alguns nomes, aos demais morros, quase nada, salvo se em locais relativamente planos. Estes são nomeados por sua condição estranha à paisagem. Mas no meio de uma serra, a maior parte deles permanece anônima e pagã. O que em grande parte parece até justificável, em nosso território de dimensões continentais. Haja nome para tanta coisa! Mas inquieta-me por que tantos habitantes locais, ao longo dos séculos, sequer se interessaram por chamar seus morros e montes disto ou daquilo.
Não conheço os Alpes e sua toponímia em pormenores. Nem preciso. Posso abrir um mapa confiável e ler como são chamados seus inúmeros picos, montes, vales, platôs, passagens, geleiras, etc. Os rios, cascatas, passagens, o que for. Ali estão nomeados com precisão. Se recorro a uma carta topográfica, além dos nomes, tenho acesso às altitudes máximas, médias, mínimas e intermediárias daqueles terrenos. Mas tente-se fazer o mesmo em nosso país! Encontramos altitudes, está certo. Nomes? Nem em sonhos.
A mesma coisa vale para as ilhas, cabos, rochedos, promontórios e o que mais se deita pelo mar da nossa pátria. Os mapas, em geral, silenciam quase completamente quanto a eles. Se buscarmos alguma informação mais profunda neste assunto, temos de recorrer às cartas náuticas, dificílimas de serem encontradas, quando não caríssimas, em muitos casos. Então, diante de tais obstáculos, pensamos: vamos recorrer ao conhecimento local. Mas que desilusão! Ninguém sabe dizer nada de nada.
Passei, recentemente, quase quinze dias percorrendo o extenso litoral de Ubatuba e Paraty. Conversei com gente que ali vivia, das mais diversas origens; mas, no caso em questão, com vistas ao que pesquisava, preferencialmente ouvindo a conversa de caiçaras, ou seus urbanizados descendentes: em suma, tratei com os nativos. Pois bem, não encontrei vivalma que me dissesse o nome – não falo nem dos montes e pontais – das ilhas que povoam aquelas praias e que, dia após dia podem vê-las plantadas diante deles. Senti tal comportamento não só como fruto da simples ignorância, mas, antes, de uma presunçosa ignorância. Só encontrei similar atestado de preguiça mental nalgumas vezes em que, visitando tal ou qual cidade, perguntei a alguns moradores dali, vizinhos de uma igreja, qual era o santo ali reverenciado, qual era o seu orago. E, para minha surpresa, ouvi a resposta: “Não sei. Sou evangélico!”. Ouvi isto de gente moça e velha. É de pasmar que certa incivilidade atinja tais níveis que acabe por voluntariamente ignorar a simples paisagem que se revela, quotidianamente, diante dos olhos locais.
Pois bem, na praia é a mesma coisa. O indivíduo passa, dia após dia, por mais de vinte anos, diante de uma ilha que se apresenta à sua frente. Trabalha, por outros tantos anos, defronte à mesma. E se perguntamos o nome dela, ignora-o completamente. Tenta-se outro informante, mais velho: o mesmo resultado. Com muita sorte, depara-se com algum pescador que ainda se lembre de alguma coisa. No mais, reina a mais profunda ignorância. Mas que não se invoque, como causa disto tudo, o eterno e retornável mito da suposta indolência do caiçara. O problema é de outro natureza, e grave: ninguém quer aprender mais nada, esta é a verdade. Contentam-se com o trivial, com as banalidades, com o que se pode adquirir e consumir, e tão só. Este é o novo mundo em que estamos mergulhando de cabeça e que não poupa sequer os românticos moradores do litoral, imersos em sua inocência e simplicidade, como julgam muitos, muito erroneamente, ainda hoje. Pois o “bom selvagem” morreu de tédio lendo Iracema no Ensino Médio. Índio não quer mais apito, espelho e miçangas: quer celular, tênis de marca e roupa de grife – o quê, no fundo, no fundo, é a mesma coisa...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de dezembro de 2011].

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Notas praieiras – Parte I: A História do Mundo em três horas à beira-mar

A praia do pontal, em Paraty, não é a menina dos olhos dos fanáticos por mar, sol e areia. A água não parece muito limpa, e o mesmo, diria, das areias, freqüentadas por um número de cães muito maior do que o desejável. Os quiosques também não são lá grande coisa, à primeira vista – mas garanto que a segunda melhor caipirinha da cidade é servida ali. A paisagem também não é empolgante para os obsedados por praias oceânicas. Ela não passa de umas poucas centenas de metros, contida por um molhe de pedras, ao Sul, e por um morro, ao Norte, onde se encontra, oculto pela vegetação, o Forte Defensor Perpétuo. Mas nas fraldas deste morro, imersas no mar, encontram-se grandes e belas pedras, cobertas de cipós que parecem aparados com precisão por um hábil jardineiro e, no entanto, todo este efeito se dá pela água salgada, que àqueles dá tal feição e que não erode os rochedos locais, mas, antes, parece acariciá-los com brandura. Para o Oeste, há umas casas meio feias, pousadas não muito elegantes, e até mesmo um camping. Porém, olhando mais para o interior, um espesso arvoredo se eleva, ocupa o espaço, sobe por um desses morretes praianos meio raros em São Paulo ou no Rio de Janeiro – mais à feição dos Guararapes, em Recife, ou do outeiro do Carmo, em Olinda – em cujo topo assentam-se, imaculados sob a luz do sol, a capela e o cruzeiro do cemitério local, como numa paisagem de Guignard: um tanto brejeira, muito agradável e pitoresca, mas um tanto quanto insólita. Já para o Leste, lá estão as ilhas, os barcos e o mar absoluto.
Pois bem, este é o cenário. Vejamos alguns de seus personagens.
Numa tarde de quarta-feira, assim como noutras, anteriores e posteriores, minha mulher e eu estávamos ali, movidos pela necessidade de uma saudável mudança de ares. A poucos metros de nós, havia um jovem casal de canadenses: ele muito esguio; dela, se dissesse que era obesa, tal seria uma gentileza, pois sua enormidade era verdadeiramente colossal. Pouco adiante, um sujeito com ares de velho lobo do mar relegado à terra e a contragosto, tendo por companhia seu bem cuidado cão, um english springer spaniel, adestrado não para a caça de tiro, mas para arrancar mariscos dos fundo das areias, as quais escavava até quase nelas desaparecer: dele avistava-se apenas a cauda castanha, oscilante, tão logo intuía sua presa. Noutra direção, um casal da modernidade, ou da pós-modernidade, composto por dois rapazes: um chinês, ao sol, acompanhando-se sabe-se lá o que em seu tablet; e um belga, refugiando-se na sombra, entretido com um bom, velho, prosaico e insubstituível livro.
Minha mulher e eu, ao contrário de muitos compatriotas, temos verdadeiro horror à bajulação de estrangeiros em solo pátrio, esta perversão do conceito de hospitalidade em que se comprazem muitos, tratando por meio de verdadeiras micagens, quando não rebaixamento de conduta, qualquer estrangeiro que por aqui aporte. De modo que não demos muita atenção àqueles personagens. Preferimos nos voltar à divertida tarefa de recolher conchas da areia, para a futura montagem de um arranjo decorativo. Para matar o tempo antes que ele nos mate. Nesta divertida faina, em que nos revezávamos, uma menina, moreninha, e seu irmão, com ares de maranhenses ou caiçaras, se aproximam de minha mulher e lhe dizem algumas palavras incompreensíveis, mas nem tanto, a ponto de percebermos se tratarem de pequenos hindus. E num inglês meio estranho – do pensar em português para a versão inglesa, da parte de dois adultos, e do hindi, ou sabe-se lá que língua, para o inglês, por duas crianças – acabamos por nos entender e juntos colhemos conchas à beira do mar.
As horas se passaram, voltamo-nos a outros interesses, como as crianças, às suas brincadeiras. Quando delas nos despedimos, estavam, o menino e a menina, cobrindo de areia, tapando mesmo o buraco que aquele cachorro de linhas atrás cavara horas antes.
Diante do que vimos não houve como deixar de pensar se a História, esta mesma, a História, com “H” maiúsculo, não o seu registro, mas a sucessão dos fatos, também não se daria como nesta série de inocentes eventos praianos: numa terra distante, ocupada por um povo, outros vêm, das mais variadas origens, e tomam seu lugar; ainda outros passam apenas por ali; e as obras e trabalhos de uns sucumbem, sob uma simples diversão alheia, e de tudo, nada restando, sequer o testemunho. Refreio meu impulso de afirmar que a História poderia ser traduzida como “um buraco na areia feito por um cão inglês numa praia brasileira, e depois fechado por duas crianças hindus, algo feito à vista de todos e por todos esquecido”. Não divirjo completamente desta teoria, mas não a afirmo na íntegra. Acho que, sempre, existe algo mais a ser visto, em toda parte. Quer nos anais históricos, quer numa simples tarde de praia.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de dezembro de 2011].