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sábado, 24 de dezembro de 2011

Notas praieiras – Parte II: A Ignorância do Mundo em quinze dias à beira-mar

Na antiga Grécia, e provavelmente em muitas outras culturas, até mesmo naquelas chamadas “primitivas”, inumeráveis são os rios e riachos, lagoas, montes, colinas, montanhas e pântanos aos quais são relacionados os mais diversos mitos. Ou, no mínimo, são merecedores de um nome que os distingua, o que é algo muito mais importante do que se pensa. Pois nada existe sem um nome. Ainda que, na natureza encontrem-se, de fato, um número incalculável de animais, plantas e minerais ainda desconhecidos, é a partir do momento em que são nomeados que se tornam relevantes. Dar nome às coisas, é sabedoria e poder. Conhecimento e domínio.
Antes de sermos um país, quando ainda éramos uma colônia portuguesa – melhor dizendo, um arquipélago de vilas, cidades e fazendas, isoladas pela mata – boa parte da topografia brasílica já havia sido nomeada pelos ameríndios, ainda que em pequena escala, geralmente regional (relativa aos deslocamentos das tribos num âmbito relativamente estreito). E, o que era pior, conhecidos por pequenos grupamentos: as informações, então, não circulavam muito entre gentes sempre em pé de guerra umas com as outras. Havia, entretanto, formidáveis exceções, como as lagoas do Vapabuçu e do Paraupava, cujos nomes eram familiares a diversas etnias, mas cujo lugar real permanece incerto (especula-se que a lagoa da Paraupava, que apareceu em diversos mapas europeus dos séculos XVI a XVIII, ora ao Norte, ora ao Nordeste ou mesmo no Centro Oeste, trate-se, na verdade, do Pantanal Matogrossense). Sem falar na utópica “Terra sem mal” (Yvi Mara Ey ). Mas devem-se aos navegadores (como no caso do Monte Pascoal cabralino), aos jesuítas (Pedro Lozano, no século dezoito, foi o primeiro a chamar de Caminho do Peabiru a rota indígena que ligava o litoral Sul-Sudeste brasileiro ao Paraguai e ao Peru) e aos bandeirantes (que não só incorporaram muitos hábitos dos silvícolas, como também a sua própria língua), devem-se a estes, portanto, o real batismo de muitos acidentes geográficos de nosso território.
A ocorrência de muitos nomes idênticos, quer de origem indígena ou já portuguesa, designando este ou aquele rio, morro, lagoa, nos mais variados cantos desta terra, explica-se justamente pelo relativo isolamento das comunidades do passado. Daí termos tantos rios chamados de Grande, Feio, Turvo, Pardo, Paraibuna e Piracicaba, por exemplo: ou os dois de nome Paraíba, um emprestando seu nome ao Estado nordestino, outro recebendo o acréscimo de “do Sul”, muito posteriormente à sua descoberta, no vale paulista e fluminense). O mesmo não vale para as incontáveis cachoeiras ou cascatas que receberam o nome de “véu-de-noiva” ou “véu-da-noiva”: neste caso é, pura e simplesmente pobreza de imaginação.
Já no que se refere aos morros e montes, a ânsia de nomeá-los parece ter sido sempre meio preguiçosa por aqui. O grande historiador mineiro Diogo de Vasconcelos (1843-1927) quando trata das expedições dos bandeirantes pela terra mineira, diz que aqueles bravos avançaram por ela “servindo-lhes de norte o pico de algumas serras, que eram os faróis na penetração dos densíssimos matos..”. Assim, aos picos couberam alguns nomes, aos demais morros, quase nada, salvo se em locais relativamente planos. Estes são nomeados por sua condição estranha à paisagem. Mas no meio de uma serra, a maior parte deles permanece anônima e pagã. O que em grande parte parece até justificável, em nosso território de dimensões continentais. Haja nome para tanta coisa! Mas inquieta-me por que tantos habitantes locais, ao longo dos séculos, sequer se interessaram por chamar seus morros e montes disto ou daquilo.
Não conheço os Alpes e sua toponímia em pormenores. Nem preciso. Posso abrir um mapa confiável e ler como são chamados seus inúmeros picos, montes, vales, platôs, passagens, geleiras, etc. Os rios, cascatas, passagens, o que for. Ali estão nomeados com precisão. Se recorro a uma carta topográfica, além dos nomes, tenho acesso às altitudes máximas, médias, mínimas e intermediárias daqueles terrenos. Mas tente-se fazer o mesmo em nosso país! Encontramos altitudes, está certo. Nomes? Nem em sonhos.
A mesma coisa vale para as ilhas, cabos, rochedos, promontórios e o que mais se deita pelo mar da nossa pátria. Os mapas, em geral, silenciam quase completamente quanto a eles. Se buscarmos alguma informação mais profunda neste assunto, temos de recorrer às cartas náuticas, dificílimas de serem encontradas, quando não caríssimas, em muitos casos. Então, diante de tais obstáculos, pensamos: vamos recorrer ao conhecimento local. Mas que desilusão! Ninguém sabe dizer nada de nada.
Passei, recentemente, quase quinze dias percorrendo o extenso litoral de Ubatuba e Paraty. Conversei com gente que ali vivia, das mais diversas origens; mas, no caso em questão, com vistas ao que pesquisava, preferencialmente ouvindo a conversa de caiçaras, ou seus urbanizados descendentes: em suma, tratei com os nativos. Pois bem, não encontrei vivalma que me dissesse o nome – não falo nem dos montes e pontais – das ilhas que povoam aquelas praias e que, dia após dia podem vê-las plantadas diante deles. Senti tal comportamento não só como fruto da simples ignorância, mas, antes, de uma presunçosa ignorância. Só encontrei similar atestado de preguiça mental nalgumas vezes em que, visitando tal ou qual cidade, perguntei a alguns moradores dali, vizinhos de uma igreja, qual era o santo ali reverenciado, qual era o seu orago. E, para minha surpresa, ouvi a resposta: “Não sei. Sou evangélico!”. Ouvi isto de gente moça e velha. É de pasmar que certa incivilidade atinja tais níveis que acabe por voluntariamente ignorar a simples paisagem que se revela, quotidianamente, diante dos olhos locais.
Pois bem, na praia é a mesma coisa. O indivíduo passa, dia após dia, por mais de vinte anos, diante de uma ilha que se apresenta à sua frente. Trabalha, por outros tantos anos, defronte à mesma. E se perguntamos o nome dela, ignora-o completamente. Tenta-se outro informante, mais velho: o mesmo resultado. Com muita sorte, depara-se com algum pescador que ainda se lembre de alguma coisa. No mais, reina a mais profunda ignorância. Mas que não se invoque, como causa disto tudo, o eterno e retornável mito da suposta indolência do caiçara. O problema é de outro natureza, e grave: ninguém quer aprender mais nada, esta é a verdade. Contentam-se com o trivial, com as banalidades, com o que se pode adquirir e consumir, e tão só. Este é o novo mundo em que estamos mergulhando de cabeça e que não poupa sequer os românticos moradores do litoral, imersos em sua inocência e simplicidade, como julgam muitos, muito erroneamente, ainda hoje. Pois o “bom selvagem” morreu de tédio lendo Iracema no Ensino Médio. Índio não quer mais apito, espelho e miçangas: quer celular, tênis de marca e roupa de grife – o quê, no fundo, no fundo, é a mesma coisa...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de dezembro de 2011].

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Crônicas Baianas – Parte IV: O Oxalá eucarístico, ou o Cristo demonizado

Pouca gente atenta para a etimologia das palavras, ainda menos se latinas, e ainda em menor número aos nomes científicos que, para muitos, parecem existentes desde sempre, quando não ditados por um Deus absoluto, ou pelo tagarela Adão, louco para nomear o tudo e o nada. Assim como o Primeiro teria dito Fiat lux (“faça-se a luz”) et facta est lux (“e a luz se fez”), o segundo, no julgar de muitos, provavelmente também exclamara, num momento desprezado pelos cronistas bíblicos, fiat camelus dromedarius, e o dromedário se fez, pronto e acabado, com nome científico e tudo, e à mesma feição de hoje em dia. Ou, como pensam outros, atendo-se às fontes, Javé fez o o bicho tal como ainda o vemos: coube ao ignaro Adão dar um nome à besta. Quanto ao idioma escolhido para nomeá-lo, séculos de estudos sobre o tema jamais chegaram a um ponto pacífico. Mas os fundamentalistas norte-americanos têm convicção de que a língua era a inglesa...
Assim, portanto, não é uma surpresa para muitos o significado da palavra passiflora, que denomina um gênero botânico de cerca de 500 espécies que tem no maracujá a mais conhecida delas. Um etimólogo tresloucado, falsamente estribando-se na lógica, explicaria a origem da seguinte maneira: “ora, o suco de maracujá acalma, torna a pessoa pacífica, passiva, ou apaziguada, portanto passiflora deve significar a flor (daí flora) e seu fruto, que traz a paz... ou algo assim”. Uma explicação tão bonita quanto errada, ainda que muita gente acredite piamente nisto. Pois passiflora significa, literalmente, “flor da paixão”. É por este motivo, aliás que, em francês, o fruto do maracujá se chama fruit de la passion (“fruto da paixão”). O mesmo etimólogo amalucado juntaria os termos “francês” e “paixão” (quem sabe se lembrando de que a expressão dá nome a uma marca de roupas íntimas femininas), e pensaria em arrebatadoras cenas românticas, quando não fortemente carnais, envolvendo sedas, champanhe, cama, etc., e até convertendo o maracujá em afrodisíaco, quem sabe.
O que pouquíssimas pessoas sabem – e que o nosso amigo meio passado das ideias jamais descobrirá – é que a paixão a que se refere o nome da flor vem a ser a Paixão de Cristo. E tal se deve ao fato das pretensas semelhanças encontradas, por missionários jesuítas da América do Sul, entre a flor do maracujá e elementos do martírio de Jesus: pois, segundo eles, o pistilo, os desenhos da corola e várias peças florais assemelhavam-se à coroa de espinhos, ao martelo e aos pregos da Crucificação – e a cor roxa do interior delas, à do luto litúrgico católico. Nascia, assim, a passifora, cujo primeiro registro encontra-se na Historia medicinal de las cosas que se traen de nuestras Indias Occidentales (1565-1574), do botânico espanhol Nicolás Monardes (1493-1588).
Outra fruta associada a Cristo é o abacaxi, ou ananás. “O quê?! Comparar o Salvador a um abacaxi!”, gritaria o nosso doido amigo supracitado. Pois é isto mesmo. Diversos religiosos nos séculos XVII e XVIII, e mesmo leigos católicos, viam naquele fruto um resumo alegórico de Jesus. Em primeiro lugar, por ambos terem um coroa de espinhos. A casca grossa tanto poderia significar Seu corpo flagelado, como, por seu aspecto, lembrar diamantes, símbolos da magnitude e incorruptível pureza de Sua Pessoa, ou ainda a excelsa recompensa que receberiam Seus seguidores. Considerando-se a casca e as dificuldades de rompê-la, estas remeteriam ao fato de que seguir Seu caminho não é fácil, mas o resultado é doce e certo e um alento para alma: um verdadeiro refresco às tribulações do mundo. Mas e se o abacaxi for azedo? Ácido também foi Cristo quanto aos pecadores, mas doce, no fundo, quanto à Humanidade. E se seu interior for branco? A candura do Cordeiro de Deus, então, se manifesta. E se for amarelo? O ouro, o supremo ouro, que outro melhor não poderia representar o Salvador.
Outra fruta associada a Cristo é o abacaxi, ou ananás. “O quê?! Comparar o Salvador a um abacaxi!”, gritaria o nosso doido amigo supracitado. Pois é isto mesmo. Diversos religiosos nos séculos XVII e XVIII, e mesmo leigos católicos, viam naquele fruto um resumo alegórico de Jesus. Em primeiro lugar, por ambos terem um coroa de espinhos. A casca grossa tanto poderia significar Seu corpo flagelado, como, por seu aspecto, lembrar diamantes, símbolos da magnitude e incorruptível pureza de Sua Pessoa, ou ainda a excelsa recompensa que receberiam Seus seguidores. Considerando-se a casca e as dificuldades de rompê-la, estas remeteriam ao fato de que seguir Seu caminho não é fácil, mas o resultado é doce e certo e um alento para alma: um verdadeiro refresco às tribulações do mundo. Mas e se o abacaxi for azedo? Ácido também foi Cristo quanto aos pecadores, mas doce, no fundo, quanto à Humanidade. E se seu interior for branco? A candura do Cordeiro de Deus, então, se manifesta. E se for amarelo? O ouro, o supremo ouro, que outro melhor não poderia representar o Salvador.
O leitor deve estar se perguntando o que quero dizer com tudo isto. Pois bem, minha intenção é revelar um mundo não muito distante em que tudo era encantado, o mesmo que permitiu ao poeta Cláudio Manuel da Costa vislumbrar na banana o fruto da Árvore do Conhecimento: pois, afinal, ao se cortar uma banana em rodelas, vemos, em seu interior, uma cruz. Em suma, mesmo na queda do Homem, já estava prevista a sua Salvação, como pregam as tradições religiosa e literária.
Na Bahia, esse encantamento do mundo ainda é, em boa parte, presente. Daí que o Cristo, ou o Senhor do Bonfim , é representado no candomblé pelo coco. Trata-se de uma adaptação realmente engenhosa e altamente lírica. Pois sem conhecerem a ideia do Livro de Deus (a Bíblia) e do Livro da Vida (o mundo), e suas correspondência (uma noção que justifica o tratamento dado outrora aos já citados maracujá, abacaxi e banana), sem conhecerem a escolástica, nem Alain de Lille (c. 1128-1202) e seu Rhythmus de incarnatione Christi, nem São Boaventura de Bagnoreggio (1221-1274) e seu Breviloquium, nem mesmo nada de Roger Bacon (1214-1294), procuraram a confirmação das Escrituras nas coisas do mundo, de seu mundo próximo e tangível. E, assim, a carne e o sangue da Eucaristia (Lc 22:19-20, Mt 26;26-29, Mc 14:22-25 e I Co 11:23-26), converteram-se na polpa e na água do coco! Desnecessário é dizer que o coco confunde-se com o crânio humano e, pronto, temos a referência ao Calvário e ao crânio de Adão sepultado em seu sopé. E depois chamam isto de sincretismo... Qual o quê! É pura interpretação alegórica, aplicada aos elementos que estavam à mão. Além de sumamente inspirado. Não tenho dúvidas, apesar da falta de registros, de que os jesuítas, excelentes pedagogos no passado – que celebraram missas em que as hóstias eram feitas de farinha de mandioca, no Brasil, e de arroz, na China, pelo profundo significado cultural que possuiam tais alimentos em tais ambientes –, se não referendassem a apropriação do coco como símbolo eucarístico, ao menos o tolerassem com benevolência.
Hoje em dia há seitas, proclamadas igrejas que, numa espécie de teologia reversa, na falta de uma própria, subvertem as de outrem, empregando termos alheios com sentido trocado, por sua incapacidade intelectual de formular os seus, para não dizer que tal se dá graças ao mutismo do Espírito Santo, que não lhes assopra ao ouvido nada de novo (mas este não é o meu campo). Estas congregações religiosas afirmam que os rituais afrobrasileiros são ditados pelo demônio. Segundo elas, todos os orixás seriam diabos. Assim, Oxalá, a interpretação africana do Senhor do Bonfim, seria, na verdade, uma criatura infernal! Ora, já vi, ou li, diversos tratamentos dados a Jesus – diábolos, foi um deles, na medida em que Ele acusava os erros anteriores e lançava uma nova Ordem; e Lúcifer também, por trazer a verdadeira luz aos seus fiéis – mas vê-lo passível de ser tratado, segundo a capenga teologia de algumas seitas, como uma espécie de demonhão africano, esta é de pasmar! E é de se perguntar: como uma visão tão natural e bela da Eucaristia, no coco, poderia ser inspirada por algum ser infernal?! Só na cabeça de gente sem ideias, sem compaixão nem reflexão: algumas das quais, por sinal, reunem-se num suntuoso templo que, em Salvador, é apelidado de “Casa da Moeda”...
Das ruínas de Salvador, uma fênix pode se levantar, já que nem tudo está perdido por lá. Certa tolerância, para não dizer um quase ecumenismo, ainda prevalece ali. Que as reflexões do grande Volney (citado em crônica anterior) finquem raízes. Que os povos as leiam. Que os fanáticos retratem-se. Que as ruínas, todas elas, recuem.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de novembro de 2011].

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Eco no Cemitério

Umberto Eco é um estudioso de alta relevância, cujos escritos teóricos, e mesmo de divulgação, muito admiro. Suas considerações sobre o processo indutivo de Peirce, que ela adapta como abdutivo, tomadas como referências, ajudaram muito no campo metodológico de minha dissertação de mestrado – hoje, entretanto, encaminho-me um pouco mais para Schelling (e sua noção de fragmentos) e Vitor Serrão (e sua cripto-história da arte). Mas os ensaios e artigos do erudito italiano, além de impecavelmente escritos, por vezes beiram o hilário em sua ironia, e a sua atualidade é flagrante (ainda que vários deles remontem ainda aos distantes anos 1980), sobretudo frente aos brasileiros deslumbrados com as novas tecnologias, novos hábitos de consumo, etc.
Quanto aos seus romances, já não me entusiasmam muito. O Nome da Rosa, aparentemente o mais difícil, é o que se revela mais límpido e mais bem entretecido, permanecendo ainda como o meu favorito. O Pêndulo de Foucault parece-me demasiado palavroso. É fantástico demais A Ilha do dia anterior, ainda que divertidíssimo para quem aprecie o Barroco. Tenho postergado a leitura de Baudolino, e confesso que A Misteriosa chama da rainha Loana deixei pela metade. O último e recém lançado, O Cemitério de Praga, entretanto, é mais envolvente que o anterior, mas meio frouxo. Parte da tentativa da reconstrução da memória de um narrador em primeira pessoa e vale-se de alguns princípios clássicos, como a possibilidade de um duplo do protagonista para o efeito cômico, e o início in media res. Mas o ritmo folhetinesco, vertiginoso, pretendido pelo autor, não é atingido. E a psicologia do narrador-protagonista (ou semi-narrador, ou ainda narrador intruso, pois há outro e nunca é muito claro como este teve acesso aos eventos, já que o primeiro, em seu diário, não os registra) é muito mal formulada. Seu anti-semitismo é patente, seu horror ao convívio humano – masculino ou feminino (misantropia e misoginia) – são até redundantes, assim como sua idolatria à boa mesa, brindando-nos o narrador, em cada capítulo, com diversas receitas ou descrições de pratos da culinária francesa e italiana – o que, cá entre nós, lembra por demais certas “encheções de lingüiça” das antigas telenovelas de Aguinaldo Silva. Mas, salvo se o protagonista seja um verdadeiro psicopata, não há nada que justifique um falsário, dúbio e covarde, chegar à violência de rasgar o ventre, com uma faca, de um antagonista meramente eventual, numa “limpeza de arquivo”. Literatura criminológica nenhuma do mundo diria ser isto possível, muito menos por volta de 1860, época em que se passa boa parte da trama, encerrada em 1897.
Assim, pois, o tema principal são as aventuras e desventuras de um falsificador de documentos, um autêntico forjicador. Trata-se de um indivíduo que inicia sua carreira fabricando testamentos em nome de pessoas que nunca os fizeram, e evolui a um tal ponto que acaba por se tornar o verdadeiro autor – curioso o emprego desta expressão, no caso – dos infamemente célebres Protocolos dos Sábios do Sião. Para quem não se lembra deles – tratamos rapidamente do assunto em crônica de 26 de março deste ano – tais documentos seriam uma espécie de ata de reunião dos (supostos) líderes judeus de diversas partes do mundo na qual explicitariam seus planos de dominação global. Uma bobagem já desmascarada, mas que foi tomada por muita gente como algo sério e, por conta disto, causou enormes desgraças – os nazistas, por exemplo, acreditavam em sua veracidade e fizeram o que fizeram, em parte, por tal crença. E não duvido que outros grupos não adotaram os Protocolos como uma espécie de cartilha a ser seguida.
Mas a leitura me foi de interesse – como, acredito, também o será para outros admiradores de Eco –, porque quem leu seus últimos livros aqui publicados teve o privilégio de acompanhar quase que o itinerário de construção deste romance. Seu interesse pelo folhetim (especialmente os de Alexandre Dumas e Eugène Sue), pelos Protocolos e por outras supostas conspirações relacionadas (maçônicas e jesuíticas), já se encontram patentes em Sobre a Literatura (2003), Seis Passeios pelos bosques da ficção (2004), Entre a mentira e a ironia (2006), Não contem com o fim do livro (2010) e A Memória vegetal (2010). Nestes dois últimos, aliás, estão mais bem explicitados os interesses recentes de seu autor. No primeiro, que é uma entrevista concedida juntamente com Jean-Claude Carrière a um jornalista, todos os pontos principais de sua atual trama romanesca surgem quase que no mesmo encadeamento posterior. E o segundo apresenta uma série de livros esdrúxulos, embora reais, dentre eles o que contém certas considerações sobre as diferenças fisiológicas entre franceses e alemães, expressas no primeiro capítulo do Cemitério.
Longe de mim julgar que um autor está impedido de reescrever seus pensamentos, ou de achar que é interdito transpor um assunto quiçá tratado em qualquer ocasião ou meio, para as páginas de ficção. Pelo contrário. Todavia, como os textos que precederam seu romance foram bastante didáticos quanto aos temas abordados – os quais serão o principal motivo da intriga do Cemitério – a leitura deste acaba tendo um certo ar de déjà vu, ou, quem sabe, e melhor, de déjà lu. Ou, utilizando de mais um trocadilho, de uma natureza detestada pelo autor (o que ele expressa em O Segundo diário mínimo, 1993), e nem um pouco sendo banal, o problema daquele Cemitério é o excesso de Eco, a repetição da mesma voz já ouvida anteriormente e noutros lugares.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 29 de outubro de 2011.].

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Caçando lobisomens – Parte II , e, espero, final

Continuando a prestar o meu tributo ao mês do folclore, já extinto – pois se louva melhor, e mais desinteressadamente, aos mortos que aos vivos – conto agora um causo recolhido que versa sobre o mesmo tema tratado na semana passada.
A primeira história de lobisomens que li em minha vida encontrei-a num livro didático, do qual fazia parte um conto de minha saudosa madrinha, Helena Silveira, uma escritora notável, mestra da crônica e do conto como poucas (ou poucos) vi igual. E gentilíssima pessoa e firme em suas ideias. Uma figura sem par que, infelizmente, não deixou herdeiros literários, apesar de seu grande talento, nem seguidores leais de sua elevadíssima reputação e convicção ética, apesar de uns tantos pseudo-discípulos, que rodeavam à sua volta, não como planetas ao redor de um astro, e sim como mariposas tontas que, incapazes de compreenderem o luar, trocavam-no pelo brilho fugaz de uma lâmpada.
Li a referida história de lobisomem, reproduzida no livro, lá por volta dos meus sete ou oito anos, em casa de minha madrinha, creio que ao anoitecer – longe das horas mortas, portanto – e o meu pavor foi tal, que esqueci o nome do autor e do conto, de tal maneira era este realista! Jamais esquecerei de minha primeira impressão frente a tal leitura, na qual se contava um ataque de um lobisomem a uma mulher e seu filho, a fera tentando morder a cabeça da criança (envolta numa manta de baeta vermelha), que era defendida com ardor pela sua mãe. Conclui-se a história com a visita do pai e marido das vítimas a um compadre, para contar o caso, e mal o anfitrião abre e a boca, o amigo vê os fios de baeta vermelha entre os dentes do padrinho da criança. Era ele o lobisomem!
Não muito mais tarde, descobri que esta história era contada no país inteiro, variando apenas a cor da baeta (de vermelho para azul ou amarelo), mas sempre, em todos os lugares, se tratava de uma manta de baeta, talvez por ser mais comum no passado. Duvido que, hoje em dia, o grosso das pessoas identifique uma manta de baeta, ou sequer tenha uma. Em todo caso, ao identificar um tema recorrente nestas histórias, vi que se tratava, puramente, de um causo, ou, como hoje os chamamos, ou quase, de uma lenda urbana: rígida quanto à meia dúzia de elementos da trama, mas que podem se passar em Piracicaba, Varginha, Araruama, Três Lagoas, Itatiaia ou em qualquer outro lugar. E assim superei meu medo inicial.
Mas o fato é que as histórias de terror, mesmo as de origem popular e, por muitas vezes conhecidas só de forma oral, são pequenas obras-primas narrativas. Pois são curtas, possuem um encadeamento envolvente, por seus mistérios e pelo desenrolar da trama, que são apenas resolvidos no parágrafo final. São, portanto, a súmula do conto perfeito! E, a tal ponto, que, se me perguntarem o que hoje leio nos meus momentos de descanso, declaro a plenos pulmões: “Histórias de terror!” São muito mais instigantes, enquanto trama, e muito melhor acabadas, quanto à “carpintaria do texto”, que a maioria das novelas, romances ou coletâneas de contos publicadas hoje em dia, geralmente centradas num personagem urbano, de classe média ou média alta, sufocado pela cidade grande onde vive, e sem um destino nem sequer avistável, patético marionete numa narrativa que termina sem um final claro. E tal recurso é feito graças a uma suposta relativização das verdades ditas absolutas no plano literário? Que nada! Puro modismo. Parece-se mais sábio deixando as coisas em aberto. Enquanto observa-se, na verdade, que tudo ficou em aberto, porque o autor não sabia como concluir a coisa. Como vemos, dia após dia, autor após autor. Daí uma certa preguiça minha e de outros frente a tais relatos. Pois, como diz um amigo, ainda paulistano: “por que ler fulano ou beltrano? Se quisesse ler uma história em que nada acontece, leria o meu diário”!
Voltando ao tema inicial, creio que O Coronel e o lobisomem (1964), de José Cândido de Carvalho (1914-1989), foi a única grande obra nacional que abordou o tema de que estamos tratando, salvo engano (cartas ou e-mail para este autor!). Trata-se de um livro que começa de maneira magistral, passa a manquejar lá pela metade, e tropeça numa vala em seu final, ou para aquela foi conduzida pela claudicação do autor. Pois, enquanto linguagem e estilo, é soberbo; já enquanto desenvolvimento e conclusão, mereceria um tratamento melhor. E o lugar que ocupa no panteão nacional, içada que foi por seus confrades cariocas, geralmente acostumados a leituras ligeiras, creio ainda ser periclitante.
Concluindo, em relação ao assunto – lobisomens – salvo os casos eruditos citados em nossa literatura e estudos do folclore (Gilberto Freyre, fala de uns fidalgos pernambucanos muito pálidos que cumpririam aquele fado), são raros os testemunhos de supostos atestadores de lubis-homens que os identifiquem como pessoas normais no dia a dia e monstros, somente, de quinta para sexta, ou sexta para sábado. Em geral o que se observa são relatos referentes a tipos rústicos, meio que tornados selvagens, quer metidos no mato, quer em plena cidade grande. Homens paupérrimos, cobertos de andrajos e barbas longas, geralmente seguidos por uma pequena matilha, em geral dócil. Um suposto lobisomem, desta categoria, me foi apontado, há vinte anos atrás, por uma série de motoristas e cobradores de ônibus, do ponto final da Rua Itacolomi, perto do cemitério da Consolação, em São Paulo. Um sujeito com ares inofensivos, exceto por um certo estranho brilho no olhar, e que cumpria à risca o figurino previsto pelos observadores populares: barbas imensas, cabeludo, imundo e rodeado por cães.
Pergunto-me se tais criaturas ainda circulam por aí, estes monstrengos, em geral pobres diabos, tão diferentes dos personagens do cinema. Tenho, aqui comigo, que não. O sonho, e sua contraface, o pesadelo, não granjeiam mais por aqui. A bruta realidade nos ataca dia a dia. Até os monstros devem estar fugindo com medo.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de setembro de 2011].

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Caçando lobisomens – Parte I

Agosto tem o dia do Folclore, data que prezo, e que me escapou neste ano. Mas como nunca é tarde demais para certas coisas, seguem aqui uns causos, não de ouvir falar, mas de ler em boa letra impressa. Causos de lobisomem, esta figura do folclore, como aprendemos, ainda que exista quem jure de pés juntos que já viu um. Lembro-me de um velho conhecido meu, hoje Doutor pela USP, que me garantia por a + b que seu pai não só caçara lobisomens, lá pelas bandas do Mato Grosso do Sul, como teria várias fotografias dos mesmos. Não duvido, apesar da ausência de provas documentais. Pois o irmão daquele meu antigo confrade, doutorando pela Unicamp, não é de hoje que tem publicado artigos sobre os monstros na Literatura em influentes revistas universitárias: em suma, aquela família tem lá os seus segredos. Mas antes de tratarmos dos referidos causos, que os leitores me permitam um intróito.
O Cavaleiro de Oliveira, nom de plume de Francisco Xavier de Oliveira (1702-1783), que era, de fato, Cavaleiro da Ordem de Cristo, entra na história literária portuguesa meio que a golpe de espada. Pois ele não foi, assim, um grande escritor de seu tempo e hoje mesmo ele é, aqui e ali, um pouco enfadonho. Mas teve a sorte de viver numa grande época e foi, em seus escritos, o mais próximo de um literato libertino que Portugal seria capaz de produzir. Discorreu sobre muitos temas modernos à época, quase revolucionários, ao mesmo tempo em que cultuava as musas e os valores clássicos como qualquer outro conservador de seu tempo. Foi diplomata, ocupando postos relativamente inferiores, em Viena e Haia, lugares onde granjeou a fama de namorador e pequeno estróina, sempre afundado em dívidas. Casou-se três vezes, e na corte do Imperador austríaco foi amigo do Príncipe da Valáquia e Moldávia (na atual Romênia) e amante da mulher deste, considerada então a mulher mais bela de Viena. Como foi padrinho de um dos filhos do casal, especula-se que o rebento na verdade era seu. Depois levou uma vida meio errante, procurou apoio para suas eternas demandas contra o Estado junto ao embaixador português em Londres, Sebastião José de Carvalho e Melo (o futuro e bem conhecido Marquês de Pombal) e, naquela cidade, abjurou o Catolicismo e se converteu ao Anglicanismo. Por conta disto, e por alguns de seus escritos, foi condenado à morte pela Inquisição portuguesa, em 1761, mas como não conseguiram por as mãos nele, foi “queimado em efígie”, ou seja, queimaram um retrato seu num auto-de-fé, junto com outras pessoas – estas, sim, arderam em praça pública.
Este longo intróito é porque tenho muitas simpatias pelo Cavaleiro de Oliveira, que, em minha opinião, foi o único exemplar de um cavaleiro da fortuna, ou de indústrias, em Portugal: um real aventureiro, dos muitos que vicejaram naquele tempo, ainda que só nos lembremos de Giacomo Casanova, de José Bálsamo (soi disant Conde de Cagliostro) ou mesmo daquele velho pilantra que também se auto-intitulava Conde e profeta, o Sr. Claude-Louis de Saint-Germain.
Pois bem, o nosso Cavaleiro conta que, quando jovem, saía às ruas de Lisboa, à noite, espetando cães briguentos para ver se, de supostos lobisomens que poderiam ser, retornariam, pelos golpes, à forma humana. Cometeu, confessa, tais violências, das quais se arrependeu pelo resto da vida, motivado por um dever cristão – romper o fado daquelas amaldiçoadas criaturas – e animado pelos muitos casos de lobisomens que se contavam pela cidade. Mas, segundo ele, dois homens que conheceu tinham a reputação de serem lubis-homem (como grafa Camilo Castelo Branco), ou homem-lobo, homem-diabo ou Lusbel-homem (preciosa dica etimológica, já que Lusbel é uma das variações do nome Lúcifer, o do anjo caído, e que pode indicar mais o aspecto demoníaco do ser do que sua semelhança com um lobo, uma fera muito rara em Portugal – e inexistente no Brasil, daí alguns autores, como Câmara Cascudo e Gilberto Freyre tratarem de lobisomens que, na verdade, se transformavam em porcos... como os confrades de Ulisses...). Mas voltemos aos causos do Cavaleiro. Dizia ele que toda a gente em Lisboa apontava um conselheiro da Rainha (D. Maria Ana de Áustria, mulher de D. João V) e procurador da coroa, de nome Belchior do Rego de Andrade (que teve a honra de ser louvado num elogio fúnebre, impresso em 1738, de autoria do Marquês de Valença), um tipo “esquelético, desabrido no temperamento, hediondo de figura” e que, no entanto, “passava justamente por homem de bem, juiz íntegro, zeloso e desinteressado”. Mas nosso Cavaleiro fugia dele sempre que podia, conquanto fosse seu vizinho e amigo de seu pai, e somente quando lhe foi possível, ao Cavaleiro, portar espada, é que aceitou travar relações com o homem. Ou com o lobisomem.
O outro indivíduo, este, ilustríssimo, que na opinião de nosso herói, bem como na de “outros portugueses que o conheceram e a quem não é estranha a significação do Lupus-homo” e que pensavam como ele, era nenhum outro que não D. Luís da Cunha (1662-1749), “um grande senhor; um grande ministro por sua sabedoria; mas lá pela cara é um dos perfeitos lobisomens de Lisboa”, como pensou o Cavaleiro tão logo conheceu o embaixador português em Haia, em 1734. D. Luís da Cunha, quem diria! Ministro plenipotenciário de Portugal em Londres, Utreque, Haia e Paris! O homem de agudíssima visão que não só apadrinhou Sebastião José (o futuro Pombal) como ministro, como até sugeriu a transferência da corte portuguesa para o Brasil! Extremamente culto, grand seigneur, e que aos oitenta anos tinha como amante uma jovem belíssima, apresentada a todos como, quase, uma companheira ungida pelos sacramentos – e, pasmem, cristã-nova, senão professando o judaísmo em segredo!
Por conta dessas informações, pensei em caçar, por brincadeira, supostos lobisomens dentre pessoas notáveis. Os avanços foram poucos até agora, mesmo porque tenho coisas mais sérias para fazer. Mas, por que não jogar este jogo nos meus momentos de lazer? É muito mais divertido que videogame... E, dando tratos à bola, e pesquisando aqui e ali, encontrei um candidato notável ao posto de “lobisomem ilustre”. Trata-se, pois, de ninguém menos do que o poeta, ouvidor de Vila Rica e inconfidente Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810).
“O quê? Gonzaga, lobisomem? Heresia! Vergonha! Crime de lesa-pátria!” É o que, certamente, muitos pensarão, e já advirto que, de nossa parte, não passa de uma brincadeira, um exercício de criação literária. Vá lá que ele fosse o sétimo filho depois de seis irmãs (condição para o nascimento de um lobisomem presente em nove entre dez estudos sobre o tema no Brasil). E que nasceu em Agosto (“mês de cachorro louco”, aqui e em Portugal, onde ele veio à luz), e, mais ainda, no dia 11 daquele, segundo os registros (mas é de se crer que, se tivesse nascido no aziago 13 de agosto, seus pais o registrassem noutra data). Só faltava ser uma sexta-feira 13, para seu fado de lobisomem ser completo! Mas os calendários registram que, naquele ano de 1744, houve uma sexta-feira caindo em 14 de agosto. Porém, há uma diferença cabal nas contagens das horas oficiais, como as que seguimos hoje, e as litúrgicas, à Liturgia das Horas, que imperava no quotidiano de muita gente então. De modo que, nascendo ainda numa quinta-feira 13, o horário poderia já pertencer à sexta-feira – as Completas, não se celebram necessariamente à meia-noite, e criam um vínculo entre um dia e outro. E, quanto ao homem, parece que era igualmente taful e mundano como D. Luís da Cunha. Tal exercício de suposições não passa de uma brincadeira, é claro. Acho mesmo que renderia umas historietas bem curiosas, e de divertida leitura. Pois já não escreveram até uma A Escrava Isaura e o Vampiro, uma Ana Karenina Andróide, um Orgulho e Preconceito e Zumbis? Por que não um Marília de Dirceu, o Lobisomem?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de setembro de 2011].

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O Caleidoscópico Shakespeare: porque nele cada um enxerga o que quiser ver...

William Shakespeare (c.1564-c.1616), o Bardo Imortal, foi um ator e dramaturgo inglês relativamente obscuro durante o tempo em que viveu. Sabe-se que algumas de suas peças fizeram sucesso à época em que foram encenadas, descobriu-se uma pintura que seria o seu retrato – copiada em diversas gravuras – e até uma casa e uma cidade foram indicadas como o local de seu nascimento. Sua fama mundial, entretanto, surge somente depois dos elogios que Voltaire (1694-1778) fez à sua obra, no século XVIII, e os de Victor Hugo (1802-1885), no XIX.
Tudo o mais que se sabe a respeito dele é muito pouco. De modo que poderíamos nos sentir forçados a dizer que o maior testemunho de sua vida seria a sua obra. Mas mesmo esta é cercada de dúvidas. A autenticidade dos célebres folios, que trazem suas peças e poemas, é, há mais de um século contestada, sobretudo no que diz respeito à sua dramaturgia. Pois se questiona o quanto dele está ali, o quanto foi interpolado pelos atores e mais ainda o que foi revisto pelos editores. Não nego – longe disto – a excepcionalidade, a magnitude da obra shakesperiana, a qual admiro desde o fim de minha infância e cada vez mais com melhor apreensão e deleite. Mas a sua “autoria”, em tempos modernos, é altamente questionável. Já se levantou, por exemplo, que o latim de Shakespeare seria muito débil – prova inequívoca, para o seu tempo, de que tivera uma má educação formal. E, no entanto, seu Júlio César e Antônio e Cleópatra reproduzem, textualmente, diversas passagens das Vidas Paralelas, do historiador grego Plutarco (c. 46-120 d.C.), só àquela época vertidas para o latim, e para nenhuma outra língua moderna... Por este motivo e por outros, vários estudiosos chegaram a supor que o homem Shakespeare jamais existiu. Seria o pseudônimo, o nom de plume, de alguém mais vivido e mais instruído. Alguns supuseram que, sob o nome de Shakespeare, escondiam-se, na verdade: 1) Edward de Vere (1550-1604), 17º conde de Oxford; 2) Francis Bacon (1561-1626), estadista, filósofo, jurista, escritor e cientista, reivindicado como um membro ativo de dez entre dez sociedades secretas (ou discretas), e metido à força em outras tantas teorias da conspiração; e, por fim, 3) Christopher Marlowe (c. 1564-1593), este, também, um excelente dramaturgo – autor de um Fausto (1589) que serviria de modelo para o drama de mesmo título (1806) do maior poeta alemão, Goethe (1749-1823), quase dois séculos depois. Há, aliás, muita gente que aposte suas fichas nesta última interpretação: o prematuramente morto Marlowe (meros 29 anos), um promissor dramaturgo, teria desaparecido, na verdade, e assumido uma nova vida como o “personagem Shakespeare”.
Nunca dei muito crédito a estas interpretações, até que li um livro escrito por Fernando Martínez Lainez, cujo título é Escritores e espiões (com sérios defeitos de tradução, se não de estilo), no qual o autor, baseado nuns tantos documentos, indica a suspeição de que outros dramaturgos/atores (prática comum então) seriam espiões a soldo de seus reis. E um deles seria, justamente, Christopher Marlowe...
De modo que a recente notícia publicada pela EFE, no último de junho, de que um historiador americano de nome Vincente Bridges teria encontrado indícios de que Shakespeare teria estado em Praga (antiga Boêmia, atual República Tcheca) em diversas ocasiões, prestando serviços de espionagem para Isabel I de Inglaterra, levou-me a algumas inquirições. Mas vamos, primeiro, a uma síntese da matéria.
Bridges afirma estar totalmente convencido de que o Bardo esteve em Praga, e “declarou ter suporte documentário e temático na própria obra de Shakespeare para apoiar sua tese”. Tal estada ter-se-ia dado entre os anos de 1585, quando ele desapareceu de sua cidade natal, Stratford-upon-Avon, sem deixar rastro, “e quase uma década depois”, quando “ressurgiu na cena teatral londrina”.
O mesmo autor reconhece que a presença de Shakespeare “em terras da Boêmia não está documentada, pois não foi encontrada menção alguma nas crônicas ou registros civis”, mas que sua hipótese baseia-se, também, na análise de certas obras do Bardo que guardariam relação com a região: no Conto de Inverno, em que aparece o nome de Polixena (uma possível referência a Polixena de Lobkowicz, influente dama da corte de Praga de então). E prossegue a matéria dizendo que o “especialista também viu reminiscências tchecas em O Mercador de Veneza, Sonho de Uma Noite de Verão e até em passagens de Romeu e Julieta.”
Não sou especialista em Shakespeare, mas conheço, de maneira aplicada, boa parte de sua obra. E tenho conhecimentos, para além de medianos, acerca do período em que ele viveu, tanto do ponto de vista histórico, quanto artístico e estético, e a respeito de, seguramente, uns dois séculos depois dele. Dizer que uma personagem chamada Polixena remete a uma pessoa real de mesmo nome equivaleria dizer que a Marília, de Dirceu (o árcade luso-brasileiro Tomás Antônio Gonzaga) chamava-se, de fato, Marília, ou ainda que todos os poemas da época que trazem uma heroína de mesmo nome seriam da lavra de Gonzaga: o que é um absurdo, Polixena e Marília são topoi poéticos árcades (um de primeira, outro de segunda mão), e não pessoas reais ou “índices de determinação de autoria”.
Em suma, não posso criticar, in toto, um trabalho que ainda não li. Mas percebo seus indícios, o que ele pode vir a supor e que, em minha opinião, seria a velha pendência quanto ao real nome por trás da obra: um renascimento da polêmica que quer ver Marlowe transmudado em Shakespeare, sob a chancela – possível, em relação ao primeiro; especulativa, muito especulativa, em torno ao segundo – de secretos documentos de estado, que mal ocultariam uma organização de espionagem.
Tudo isto me cheira a um anacronismo dos brabos – o qual, aliás, permeia a maioria das interpretações da vida e obra do Bardo. Veremos no que dá. E, se for o caso, retornaremos ao tema.

[publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de junho de 2011].

domingo, 12 de junho de 2011

Viagem sentimental à roda de meus livros – V – Os salvados de naufrágios

Acredito que uma das principais funções de um historiador, ou interessado na História, é não tanto conhecer, em minúcias, o mundo em que vivem, mas, sim, o mundo que os precedeu. Explicando melhor: de que adianta saber das mais novas descobertas da Física, por exemplo – que podem vir a ser questionadas na próxima semana, no mês vindouro ou no ano que vem – se desconhecemos todo o cabedal que a precedeu, por décadas, séculos, milênios? É muitíssimo mais útil ao estudioso da História, portanto, compreender a Física aristotélica e ptolomaica, bem como a longa vigência das mesmas e, destas, à sua passagem para as teorias de Copérnico, Galileu, Kepler e Newton (bem como a repercussão de suas obras no tempo em que se tornaram públicas) do que, pontualmente, conhecer a mais nova teoria em vigor. Saber que estrelas, satélites e planetas foram, mui antigamente, vistos como deuses, depois como corpos celestes não muito diferentes da Terra, presos a esferas fixas de cristal (os globos armilares, equivocadamente chamados de astrolábios pelos decoradores, que adornam tantas são reflexos ainda deste pensamento), interessa muito mais a um estudioso dos fatos passados, e da cultura que estes geraram, do que a massa de Marte, a órbita de Saturno e se Plutão deve ou não ser considerado um planeta: estes são assuntos para os historiadores do Futuro.
Assim, retornar às fontes, desentranhar o passado por meio de seus testemunhos documentais e compreender a repercussão dos mesmos em seu período, é a verdadeira função do historiador ou do estudioso da História. Além de, é claro, situar o âmbito de certas influências. Por mais moderno que possa ter sido um texto, no passado, se ele pouco circulou, evidentemente não pode ser tomado como súmula do pensamento de toda uma época, como um formador de opiniões. São indícios, não índices. O mesmo vale para certas teorias que, de tão polêmicas, foram rechaçadas em seu nascedouro, sendo somente adotadas séculos depois: sinalizam, de fato, tais ou quais correntes de pensamento num dado período, mas, evidentemente, não são provas de que todos compartilhavam delas. A importância de um livro, portanto, é muito mais útil quando sabemos de seu impacto em seu tempo, do que por acharmos que o mesmo já antevia algo de nossa própria época. Ou, pior ainda, quando julgamos que ele já nasceu como um clássico, foi lido e relido por séculos, num contínuo até os dias atuais.
Tive a feliz oportunidade de adquirir, há poucos anos, um famoso livro do qual somente ouvira falar. Trata-se de uma versão espanhola moderna (Madri: Editora Nacional, 1983 929p.: il.) da "Genealogia dos deuses pagãos" (Genealogia Deorum gentilium, 1374), de Giovanni Boccaccio (1313-1375), autor do célebre Decamerão (1371). O livro é um verdadeiro manual de mitologia grega e romana, que reúne os principais deuses e heróis daquelas culturas – ou melhor dizendo, da cultura clássica e, obviamente, ocidental. E graças ao seu índice remissivo, moderno, funciona também como uma espécie de dicionário. Nele, Bocaccio não só compõe um resumo daquelas antigas deidades, como revela duas importantes informações. A primeira é que, apesar de Homero ter sido a base da educação moral e gramatical dos antigos gregos, suas obras não foram traduzidas para o Latim. E as cópias no idioma original que circularam no Ocidente, desapareceram com a queda do Império Romano Ocidental (476 d.C). Ou seja, desde então, e por quase toda a Idade Média, sabia-se de Homero, da "Ilíada" e da "Odisséia", mas ninguém mais o lera na íntegra, só excertos, mal e mal traduzidos. E, em segundo lugar, que a primeira versão latina – considerada péssima, aliás – devia-se justamente a Bocaccio e ao seu professor de Grego, o calabrês que viveu na Grécia, ou ateniense de nascimento, Leôncio Pilato – o qual, até onde sei, nada tem a ver com aquele que entrou à força no Credo.
Por outro lado, outras fontes preciosas quanto à mitologia greco-romana puderam sobreviver aos séculos. Foi o caso d’A Argonáutica, de Apolônio de Rodes (c. 295-230 a.C.), texto em grego que sabe-se lá porque foi conservado; das Metamorfoses, do latino romano Ovídio (43 a.C.-17 ou 18 d.C) – talvez o maior bestseller de todos os tempos, em virtude de suas inúmeras cópias, impressões e reimpressões por quase dois mil anos; e também da obra do romano Cícero (106-43 a.C) – Sobre a natureza dos deuses – , supremo mestre da língua latina, cuja influência apavorou tanto Santo Agostinho (354-430), quanto São Jerônimo (347-420), que por vezes se consideravam, quanto aos seus escritos, como mais de origem ciceroniana do que provinda do Verbo Divino. E ambos estavam entre os primeiros Doutores da Igreja, e ao último coube, nada mais nada menos do que a versão da Bíblia, do grego e hebraico, para o latim. Sinta-se, daí, a importância de Cícero.
Um caso ainda mais interessante quanto à sobrevivência de certos documentos, que tinham tudo para desaparecer, é o que envolve o filósofo grego Celso (séc. II d.C.), e sua obra Discurso verdadeiro, que passou para a posteridade como Contra os cristãos. A versão original de seu texto – no qual ataca as crenças dos judeus e dos cristãos (estes, vistos como pertencentes a uma mera seita judaica, cismática: quase prevendo a futura piada que diz que, onde há dois judeus, há três sinagogas) e tece horripilantes comentários acerca da origem de Jesus e do caráter dos apóstolos – foi não só pouco lida em sua época, como desapareceu por completo. Todavia, suas principais ideias, quase que palavra por palavra, foram guardadas para a posteridade por Orígenes (c.185-253), Padre da Igreja, numa obra intitulada, justamente, Contra Celso. Ou seja, com o fim de combater Celso, Orígenes acabou, paradoxal e ingenuamente, conservando as teorias de seu opositor!
Já li, e conservo, as obras aqui citadas, com exceção da última, de Orígenes, da qual conheço somente alguns excertos. Não me sinto à vontade para endossar muitas das idéias do Discurso verdadeiro – como o fez Voltaire, citando-o quase textualmente em seu Dicionário filosófico e nas Questões sobre os milagres, já mencionadas – mas até onde as compulsei, salvo algumas terribilíssimas suposições de Celso que não cabem aqui, concordo que seu discurso é essencialmente lógico, passível de ser aceito como uma contraprova histórica às provas religiosas, cujo fundamento é todo teológico. Mas é preciso ler Orígenes, portanto, chega de especulações.
O curioso nestas circunstâncias é que tudo parece retornar ao Logos, à palavra, ao discurso. Seja ele lógico, adquirido e aperfeiçoado pelo Homem, ou teológico, ditado por Deus, e apreendido pelos homens sabe-se lá de que forma. E depois dizem que as ciências exatas é que são as verdadeiras adversárias da religião...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de março de 2011].

Viagem sentimental à roda de meus livros – IV – Editores à força

Na semana passada, tratei de sebos, físicos e virtuais, que têm ótimos acervos, enriquecidos por muitos títulos. São, todos eles, alternativas eficientes para quem procura verdadeiras raridades, ou até livros mais comuns, e não têm como pagar por eles, nem acesso à bibliotecas que os emprestem, até mesmo por não terem exemplares da referida obra.
Mas aqueles que procuram raridades fora de catálogo, devem recorrer a sítios interessantes como o www.books.google.com e o – na minha opinião, muito melhor – www.archive.org. O primeiro tem dois defeitos: um de natureza moral, outro de natureza técnica. Do ponto de vista moral porque sua ação sobre os acervos, e seu critério de cópia, são altamente excludentes e monopolistas. Robert Darnton, historiador americano que é, atualmente diretor da biblioteca da prestigiadíssima Universidade Harvard, tem falado exaustivamente quanto a isto. E, do ponto de vista técnico, ressente-se, o books.google, do fato de que muitos dos livros que anuncia só podem ser visualizados (por que não lidos?) parcialmente. Já o segundo, além das riquíssimas obras que possui, tem uma apresentação impecável e total dos volumes, que podem ser baixados de várias maneiras. A ponto de, para quem tenha certa preguiça ou desconforto em ler na tela do computador, poder imprimi-las e, quem sabe, encaderná-las, rumo à coleção incompleta que grita nostálgica da estante. Ou, também, a uma nova a ser criada, naquele nicho onde se abrigavam Ian Fleming, a Enciclopédia do Comércio, etc.
Caso alguém queira optar pelas reimpressões, elas não saem muito caras, graças às novas técnicas e à concorrência entre quem oferece tais serviços. Há, inclusive, uma editora norte-americana – Kessinger Publising Rare Prints (www.kessinger.net) – que publica um sem fim de raridades, a grande maioria em língua inglesa, as quais podem ser adquiridas pelo próprio sítio ou por outras de importação. Mas o preço sobe às alturas, graças ao envio e à tributação. O irônico da coisa toda é que muito do que eles publicam é retirado diretamente do Google books, imagem por imagem, e com as falhas que este sistema de cópias de livros reproduz ad nauseam.
Neste ponto poderia ser concedida uma trégua aos pesquisadores. Eu mesmo já me meti em arquivos, fotografando livros, cujas condições eram das mais infelizes. Tente-se manusear um livro de trezentos anos, calçado de luvas cirúrgicas. No rosto, uma máscara de mesma função. A temperatura ambiente elevada, fazendo a testa porejar o suor adquirido durante dias de má alimentação e pior hospedagem. O tempo correndo até o quase sempre iminente fechamento do acervo – decorrente da espera, interminável, até que se encontrem a obra, e do horário do almoço dos funcionários, sempre dilatável. A mesa, ou atril, onde o volume que nos é exposto, não correspondendo às mínimas noções de ergonometria ou conforto. E a iluminação, parca. Misture tudo isso e acrescentem a dificuldade no manejo de uma sensível câmera fotográfica digital, pelas mãos cujo tato foi prejudicado pelas luvas . Sem falar que não se manuseiam livros tão antigos como se fossem uma lista telefônica. Moral da história: passado um certo tempo, qualquer um pensa em se dedicar a outro ramo de atividades. São raros, aliás, os pesquisadores de acervos religiosos que não se tornem ateus ou agnósticos – e violentamente anticlericais – depois de um certo tempo, tal o montante de imposições, restrições e suspeições que são levantadas em torno de quem pesquisa. Os poucos que se livram de tais achaques são os membros da famiglia. Mas pouca gente lê o que eles escrevem, tal o aspecto ínfimo de seus trabalhos, em geral sonsas e soníferas cronologias das ordens religiosas, encômios a um Frei Fulano ou Bispo Beltrano de quem ninguém mais lembra e só.
Porém, retornando aos sítios provedores de obras raras, as quais são essenciais para o conhecimento geral de nossa cultura ocidental, recomendo a todos que busquem tais fontes. Um sem fim de documentos encontram-se ali, à nossa disposição. A bibliografia mais rara, os estudos mais distintos e vários, encontram-se ao alcance de poucos “cliques”.
Não há, portanto, qualquer motivo para que se diga, em nosso país, que os livros são inacessíveis pelo seu custo. Que compreendam isto os leitores, mais ou menos relapsos, os professores preguiçosos, os bibliotecários ineptos e os administradores da coisa pública iletrados, diante das verbas que têm de gastar nas pastas de “Educação e Cultura”. Livros são caros apenas para aqueles que não gostam de ler. Quem gosta, de fato, troca a picanha e a cervejada por eles. Um bom livro é melhor do que a melhor iguaria servida à mesa, e sustenta uma pessoa, moralmente, muitíssimo mais do que mil porcos no rolete, destes que são assados em cerimônias políticas, para o contento do eleitorado...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 05 de março de 2011].

Viagem sentimental à roda de meus livros – III: De Sebos e afins

O sítio de buscas Estante Virtual (www.estantevirtual.com) é uma ótima oportunidade para quem procura livros usados, baratos ou raros, ou ainda semi-novos por um bom preço. Graças a ele completei diversas coleções ou séries que, havia anos, lançavam-me sorrisos banguelas das prateleiras. Tal se deu com as obras completas de Gil Vicente, as Reminiscências da Academia, de Almeida Nogueira, os Autos da Devassa da Inconfidência Mineira, o Palmeirim de Inglaterra e As Vidas de Vasari – incompleta na tradução. Hoje ostentam um belo sorriso colgate lá das seções em que se encontram. Exagero. Livros novos, ou bem cuidados, ao lado de velhos, brilham quais dentes postiços numa boca veneranda.
Por meio do referido serviço virtual ainda quero conseguir os volumes que faltam do Movimento Academicista Brasileiro, já mencionado, da minha própria L’art de connaitre les hommes par la physionomie (citada anteriormente, da qual tenho cinco dos oito volumes, da primeira edição), os números que ainda me faltam da revista Barroco (quase impossíveis, sobretudo o 6, 7, 9 e 11), bem como do Correio Braziliense ou Armazém Literário, de Hipólito José da Costa. Sem falar no Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, já que o Brasileiro, de Sacramento Blake, é impossível de se encontrar. Os Voluntários da Pátria na Guerra do Paraguai estão a três cliques de se formarem em ordem unida numa estante de casa. E minha História da Caricatura no Brasil, deixará em breve de se apresentar, caricatamente, sem o primeiro volume.
Tanta praticidade tem seus custos.
O primeiro é uma certa perda no prazer do garimpo em sebos, quando vislumbramos, sob pilhas de livros pouco interessantes, a obra, aquela que procuramos há décadas, ou de cuja existência meramente suspeitávamos, quando não desconhecêssemos novas edições para além das primeiras, inencontráveis. Um caso destes, de grande felicidade, ocorreu-me quando encontrei uma edição portuguesa de 1942 do Palito Métrico e correlativa Macarrónea latino portuguesa (em 1792 encontrava-se já na quarta edição). Trata-se de um coletânea de poemas em português e latim aportuguesado (macarrônico) escritos pelos estudantes de Coimbra, no século XVIII, muito conhecida na história da literatura e, todavia, pouco lida, junto à qual, possivelmente, nossos poetas árcades mineiros Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Silva Alvarenga, Alvarenga Peixoto e Francisco de Melo Franco, deixaram suas contribuições – ou foram influenciados por ela.
Já o segundo custo é no bolso mesmo. Como vários sebos são cadastrados no sítio, tão logo um deles encontre um livro com ar de raridade, põe-se a pesquisar os preços do mesmo junto à concorrência. E daí inflacionam-se os custos e deflaciona-se a sorte do leitor que busca por uma raridade por uma pechincha – o que não se trata de má-fé, mas de regra do jogo. Uma situação destas ocorreu-me há menos de um mês num sebo desorganizado e mal gerido. Descobri, numa pilha de livros em petição de miséria, junto ao chão, uma primeira edição do romance Caetés (então grafado Cahetés), de Graciliano Ramos. Dado o desleixo à que o volume fora relegado, pensei que desconhecessem o seu valor, e que poderia pagar uns vinte ou trinta reais, se tanto. De fato, ignoravam completamente do que se tratava, mas depois de uma consulta ao referido sítio de buscas, ofereceram-me o livro por 400 reais, muito além do que vale. Ou seja, uma boa parte do prazer da descoberta dissipou-se no ar. Só não lamentei mais porque já li livro e não sou bibliófilo. E por tal valor encomendo verdadeiras raridades da Europa e que me são de fato úteis e proveitosas. E sem fetiche: plenas na sua utilização.
O mesmo ocorre com alguns livros nem tão raros assim de Direito. Declaro que esta não é a minha praia, felizmente, há muitos anos, mas, para uma melhor compreensão de como pensavam, e o que liam, por exemplo, os poetas-bacharéis do século XVIII, achei por bem possuir algum conhecimento a respeito. E procurem-se nomes como Heineccius, ou Pufendorf – celebrados como modelos de pensamento jurídico depois da reforma pombalina da Universidade de Coimbra (1772), e vejam-se os preços que atingem suas obras – geralmente disponíveis em traduções não muito fiéis do alemão para o francês. Chegam aos milhares de reais. Fico pensando quem compra tais livros, frente ao estado geral das leis, da jurisprudência, e da qualidade teórica e estilística que se nota nos processos em geral. Acredito que devam ser advogados e juízes aposentados, todos eles milionários, por volta dos 89 e 120 anos de idade – alguns, talvez, graças à maquilagem e outros reforços da química, ainda na lide.
Mas é um fato que, no quadro geral, o ônus submete-se ao bônus. Pois a possibilidade de se encontrar o mais procurado dos títulos se torna real, sem termos de percorrer corredores escuros, estantes mal arrumadas, erros na classificação das áreas de interesse, etc.
Desde há muito tempo, por exemplo, eu procurava um guia de viagens Baedeker – em vários países da Europa, Baedeker é tão sinônimo de guia de viagens quanto Gillete é de lâmina de barbear. Mas eu queria um anterior à Primeira Guerra Mundial, pelo menos. Vaguei anos entre poeira e mofo atrás de algum. E, graças ao site, basta digitar Baedeker, e me apresentam todas as ocorrências. Pense, portanto, o leitor, no título mais esdrúxulo ou raro, e tente a sorte ali. Dificilmente não há de encontrá-lo.
Um outro aspecto curioso, que se verifica tanto nos sebos reais quanto virtuais, é seu aparente desconhecimento de que o brasileiro letrado não é mais monoglota. Dessa maneira, livros em outras línguas, em geral, são vendidos a preço de banana. Procure-se uma tradução, até mesmo do inglês, que quase toda gente lê desde os anos 1980, e veja-se o preço da versão original. Já vi, estas, serem vendidas por um terço do que era pedido pela obra traduzida.
Em suma, para quem gosta de livros, há várias possibilidades de adquiri-los, sem ter que pagar por eles os olhos da cara. Não há mais motivo, portanto, para certos leitores alegarem que não compram livros porque são caros demais ou por morarem longe das capitais: as obras de estudo e trabalho tem seus preços cada vez mais baixos, assim como certos bestsellers – que, passado algum tempo, servem apenas para calço de porta, desde que sejam graúdos.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de fevereiro de 2001].

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Viagem sentimental à roda de meus livros – I

Quem me conhece, ou lê minhas crônicas, sabe que gosto de livros. Todavia, digo de antemão, não me considero um bibliófilo, ao contrário. Pois, na verdade, tenho sincero horror a esta palavra, que me soa como uma espécie de patologia sexual, uma parafilia, como chamam os especialistas a certas manias naquele campo. Porque, na maioria dos casos, diga-se, os bibliófilos são meio que voyeurs dos livros, fetichistas em busca de um objeto mais por sua procedência ou aspecto do que por seu conteúdo. Para muitos, aliás, este sequer interessa. Vejamos alguns casos.
Conheci um, por exemplo, que colecionava livros do século XVII independentemente dos assuntos. Em sua biblioteca, em lugar de destaque, viam-se diversos in-planos (livros cujo tamanho de página mede por volta dos 60 x 90 cm) em latim (língua que ele ignorava totalmente) e versando sobre teologia (assunto que lhe era absolutamente estranho). E que, claro, jazeriam para sempre sem serem lidos.
Outros têm o fetiche da primeira edição. Só vale esta, e nenhuma outra. Se vier autografada ou com alguma anotação ou ex-libris de uma pessoa ilustre, então seu gozo é incomensurável. Não critico, mas acho meio besta. Primeiras edições têm grande valor econômico, são um tremendo pé-de-meia, sobretudo com autógrafos ou marca de pertencimento a alguém conhecido, mas, em geral, e graças aos cochilos dos tipógrafos, vêm cobertas de erros, que seriam corrigidos na segunda, às vezes terceira edição. Em suma, como costumo dizer, são cadeiras de museu: lindas de se ver e impróprias para sentar, para usar.
Já um outro escolhia seus livros pela encadernação. Fosse ela bonita, adquiria a obra, não importando se o tema fosse jardinagem, pediatria ou jurisprudência. Soube ultimamente que anda passando por apuros para continuar sua coleção, visto que agora os sebos e alfarrábios têm seções específicas de “belas encadernações”, vendidas aos metros para decoradores e pessoas que querem ostentar às visitas seu “apreço pela leitura”. Em suma, tornaram-se disputadíssimos os seus objetos de desejo.
Há outros, da mesma linha, que enchem suas estantes com livros norte-americanos e ingleses, de editoras especializadas em “belos livros” (a Folio Society – www.foliosociety.com – é uma delas), preenchendo suas estantes com belas lombadas e ignorando completamente o que há dentro delas. Algo não muito diferente do que faz uma certa associação de bibliófilos daqui de Pindorama, reeditando em capa dura, com gravuras especiais, monumentos literários como Gabriela, cravo e canela, ou raridades como Iracema, vendidos a preços escorchantes e com a garantia de serem poucos e numerados os exemplares: ou seja, é mais apego ao sentido de grife, exclusiva, do que amor ao livro – que comprem cães com pedigree ou obras literárias dá no mesmo.
E há ainda aqueles cuja volúpia se projeta sobre os livros intonsos, muito comuns até algumas décadas, sobretudo em Portugal, cujos cadernos vinham unidos pelas bordas, sendo necessária uma faca ou régua para separar as páginas (intonso remete à tonsura, o corte de cabelo no alto da cabeça dos clérigos: ou seja, “não cortado”). Um caso que, como se vê, grita aos céus sua proximidade com alguma parafilia.
Não digo, entretanto, que todos os bibliófilos sejam condenáveis. Os que doam seus acervos para instituições públicas merecem um lugarzinho no Céu. Os que vendem, com sorte, acredito, hão de ganhar uma quitinete no Purgatório. Há os que abrem seus acervos para consultas e estudos – merecedores de um apartamento digno junto ao Altíssimo – e os que não só permitem o acesso, mas também publicam fac-símiles de obras raras, ou monografias interessantes à bibliografia e à história dos livros, ou ainda estudos sobre a circulação e divulgação das obras (como foi o caso do excelente Rubens Borba de Moraes), que merecem habitar as mansões celestes com vista para o mar. Já todos aqueles que contam, ou contavam, com uma legião de empregados ou bajuladores, ávidos no garimpo de obras raras em prol de seus senhores, que entesouram, ou entesouravam livros para seu único deleite, retirando-os do contato dos leitores honestos, aqueles, e seus acólitos, não tenho dúvida, hão de residir em barracos no Inferno, vizinhos do próprio Satanás.
Meu amor pelos livros, entretanto, não ignora nenhum dos delitos acima. Simplesmente ele não é exclusivista nos detalhes, nos quais, dizem, é onde o Diabo espreita ou mora. Gosto de livros bem encadernados, com belas estampas ou tipos. De livros antigos e raros. Mas, principalmente, do conteúdo dos mesmos. Que pode relacionar-se, também, com os fatores antes mencionados. Um caso flagrante é o das Fábulas, de Jean de La Fontaine (1621-1695), que todo mundo conhece. Pessoalmente, tenho quatro edições da mesma obra. Uma bilíngue (péssima, aliás, mas como tem o texto em francês, vale como fonte), outra com ilustrações do insuperável mestre do desenho Gustave Doré (1832-1883) – gravadas pelo ótimo Adolphe-François Pannemaker (1822- 1900) –, com traduções das fábulas por Bocage (1765-1805) e demais literatos, outra ainda com uma definição mais nítida das estampas e em tamanho maior, e uma cópia desta para empréstimo. Sim, tenho, nalguns casos, duplicatas de ótimos livros para emprestar aos amigos, o que é uma dupla garantia de não perder nem o livro, nem o amigo.
Também não me furto ao gosto pelos livros de papel de linho ou seda, mas não sou capaz de depreciar um outro impresso naquela péssima celulose dos anos 1940-50 (cujas páginas literalmente se quebram com o passar do tempo) enquanto objeto: seu conteúdo é o que me fez comprá-lo, não sua apresentação. Se a única maneira que tenho de ler suas informações é aquela, que seja!
Meus livros são, portanto, em sua imensa maioria, objetos reais de pesquisa, trabalho e lazer. Gosto de saber que os tenho – ainda que alguns deles só sejam lidos meses depois de sua compra – ao alcance de minha mão, na hora que desejar, sem ter que procurá-los em bibliotecas públicas desorganizadas, ou que não permitem a consulta ou empréstimo de certos títulos; ou ainda tentar comprá-los e descobrir que estão esgotados, que viraram raridades, ou que simplesmente desapareceram – o que, pasmem, é muito mais real do que se imagina: que o diga quem procura, assim como eu, o 2º volume do 2º Tomo d’O Movimento Academicista no Brasil–1641-1820/1822.
E pretendo contar alguns episódios curiosos relacionados a eles, ao comércio livreiro e às antigas edições nas próximas crônicas. Salvo, é claro, se ocorrer algum outro desastre, ou quedas de governos, ou efemérides incontornáveis. Aguardem.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de fevereiro de 2011].

domingo, 29 de agosto de 2010

Vinhos raros salvados de adegas velhas

Durante uma campanha eleitoral, com a magnitude desta que ocorre, é muito difícil tratar de outro tema que não este: quem pode ganhar, quem pode perder, e seus satélites erráticos gravitando ao redor dos astros, são temas que não nos saem da cabeça.
Mas, em respeito aos leitores que não aguentam mais o assunto – como, de minha parte, também me incluo neste, rol – procurarei tratar de outras questões. Que fiquem as eleições para as próximas semanas.
Em razão disto, resolvi proporcionar àqueles que, aqui, me acompanham, duas passagens literárias, com as quais só recentemente tive contato, e que, em minha modesta opinião, são das melhores coisas que já li em toda minha vida. Os leitores, evidentemente, podem discordar de minha escolha ou da, aparentemente, superlativa avaliação que faço das mesmas. Pode ser. Mas quem me é mais próximo – e dentre eles incluo meus leitores mais atentos – sabem o quão parcimonioso sou quanto a elogios. E não por natural inclinação à crítica, seja áspera ou não, mas por uma questão de medidas. Acredito que o que é bom, é bom; o que é médio, é médio; e o que é ruim, é ruim. Mas, antes que me taxem de tautológico, e sem remeter os críticos ao velho Antístenes de Atenas, solicito apenas a atenção dos leitores para os delicados versos que se seguem, convenientemente editados para melhor tolerância do leitor. E vejamos se alguém adivinha a autoria. Uma última observação: as serras mencionadas no fragmento do poema aqui transposto remetem puramente às serranias, ao mundo agreste como interpretado pela poesia: qualquer alusão a alguma figura pública de nome semelhante é totalmente inválida, porque antipoética em essência, norma e forma. E como me chamo Leite e não reivindico a posse dos laticínios nacionais, que outros não vejam aqui uma palavra que pertence a todos aplicada a uma única criatura. Mas vamos aos versos:

Pastora dos olhos negros,/ que guardas brancas ovelhas,/ E deixas tantos em branco,/ Com uma ventura tão negra./ Tu que na serra pareces/ Quando menos uma Estrela, / E no vale a quem te adora, / Então lhes parece serra. // Tu que no monte e no prado/ Dás que dizer às mais belas, /Umas por te ter amor/ Outras por te ter inveja. // Esse teu negro cabelo, / Porque aos olhos se pareça, / a muitas vidas é vida, / a muitas almas é pena. // Dele forma amor Menino/ Arco [Cupido], e juntamente seta, / Aquele com que faz tiro,/ Estoutra, com que atravessa. // A boca quem quer dirá / quando a vir toda vermelha, / Que se é Rubim [rubi] pela cor,/ É Rubim pelo pequena [...]”.

Quem se arrisca a desvendar a autoria destes versos formidáveis, com seus ares de Fernando Pessoa e Cecília Meirelles? Pertenceriam ao primeiro? Ou à segunda? Vago engano, mas justificável. Trata-se de um membro da mesma família literária de ambos, que como em todas as famílias, para melhor produtividade de seus membros, não exige, necessariamente, um contato pessoal. O autor dos versos acima é António Barbosa Bacelar (1610-1663), parente espiritual dos bardos acima mencionados.
Falta ainda uma segunda referência literária, esta em prosa, mas que também merece atenção, transposta na ortografia corrente, para que não horrorize o comum dos leitores:

Estando esta máquina natural e compassada arquitetura do Universo na mente do supremo Artífice, em que as coisas tiveram ab eterno [“ desde sempre e para sempre”] ser eminente, e chegado o ponto em que determinava comunicar sua bondade infinita, obrou esta excelente pintura do mundo, conforme ao perfeitíssimo dibuxo [“desenho”] de sua Ideia [...]”.

E como se lê esta maviosa passagem? Como a de alguém, de fumos maçônicos, escrevendo a origem do mundo onde vivemos, para uma comunicação aos seus neófitos, lá pelos idos de 1930? Não, trata-se de um bom e velho católico, o Frei Bernardo de Brito (1569-1617), que em sua Monarchia Lusitana (1597-1609) cantou os reis portugueses, em poesia feita em prosa, desde a criação do mundo até seus dias de monge cisterciense. Esta é a origem de tão poética e pictórica paisagem, tão alusiva aos mistérios daquele livro do mundo do qual somente Deus tem o conhecimento: um mundo que existe em Sua ideia, visto que o nosso seria mera cópia (“pintura” e “dibuxo”), ou melhor, mímese, afinal, todos os católicos somos, em maior ou menor grau, aristotélicos.
Ofereço estes dois belos exemplares da mais elaborada poesia e prosa portuguesas como um alívio aos duros castigos que estamos sofrendo diante de tantas nulidades que, graças a um golpe (vá lá que de pena), nos ferem com suas sandices, verbais e políticas, quando não ambas, simultaneamente.
E se estes versos e linhas não cheiram como a um bom vinho – “são velhos”, dirão uns, “o gosto deles não agrada ao meu paladar”, dirão outros – e mais se aproximam de um vinagre (ruínas, e nem um pouco menos honradas dos castelos, ou seja, dos vinhos, que lhe deram origem), que fique ao menos uma lição, aprendidos noutros tempos. Tempos em que a cavalaria era uma ameaça presente, e que investia contra os cidadãos de bem (quando discordávamos de conceitos dos quais aquela tropa não era, sequer, capaz de formular): vinagre, embebido num pano, e este, levado junto ao nariz, é um antídoto muito eficiente às bombas de gás lacrimogêneo.
Mas, é claro, não lidamos, aqui, nem com vinagre, nem com políticas de contenção de massas. Que o bom e velho vinho, dos versos e frases acima, salvados de velhas adegas, refresquem e perfumem um ambiente saturado de ares mefíticos.

[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 28 de agosto de 2010].

A Emulsão Scott e o Elixir do Pajé: história e política brasileiras sob um véu de alegoria

O PSDB, que não é qualquer partidozinho de meia-tigela (governou o País por oito anos, e governa o estado de São Paulo há quase dezesseis – com os resultados
que todos sabem) desempenhou um curiosíssimo papel nos últimos meses. Sua busca por um nome para vice do Chirico beirou às raias da farsa, ou da tragicomédia: um poema herói-cômico, com pouco heroísmo e quase nenhuma poesia. O partido parecia aquele homem de cara amarrada, que carrega o bacalhau no rótulo da Emulsão Scott. Vergado ante ao fardo, tenta “vender seu peixe”, sabendo que ele custa caro, é salgado, se mal preparado torna-se um horror e que o óleo de seu fígado é sinônimo de amargor. Como o homem tristonho do rótulo, sabe que não é fácil empurrar ao público um tal acepipe. Mas ao contrário do que se vê no rótulo, o partido só tinha para oferecer a cabeça do bacalhau – esta que todos juram nunca ter visto. Faltava-lhe, pois, o corpo. E saiu a pescá-lo por águas desconhecidas, algumas, inclusive, turvas.
lo por águas desconhecidas, algumas, inclusive, turvas.
O primeiro pescado, já caído na rede e içado, revelou-se, à beira já da água, “impróprio para o consumo”, graças a sua dieta de panetones. E rejeitaram o Arruda. Depois, cogitaram a deputada Kátia Abreu, líder da bancada ruralista. Mas latifundiário, no Brasil, é sinônimo de tubarão, e não fica bem o corpo de um esqualo debaixo de uma cabeça de bacalhau. Alguns outros peixes miúdos também foram apanhados na rede. Mas de tão pequenos, escaparam por entre suas malhas. Tão fugaz foi sua presença ali, que mal foram identificados. Até que um peixe do Rio Paraná saltou para dentro da canoa e, olhando bem, ainda que não fosse da mesma espécie, era bem parecido. Juntando um ao outro, formava-se um todo, senão harmonioso, um bocado melhor do que aquelas sereias falsas que se fabricam com a parte de cima de um macaco e, a de baixo, de um peixe.
Mas um bando de caciques aliados daqueles pescadores – estes também caciques – não gostaram do que viram. Lembraram que bacalhau se pesca no mar, não em água de rio, seja do Centro-oeste ou do Sul. Conduziram o barco até a Costa, atiraram o peixe que para dentro dele saltara, e a cacicada esperta colocou em seu lugar um índio.
Quem foi comunicado de tal sucesso – a maioria do povo brasileiro, além de todo o resto da tripulação daquele barco, a qual não deu um pio, nem foi consultada – achou a solução um bocado estranha. Afinal, cabeça de bacalhau com corpo de índio cria uma monstruosidade infernal aos olhos. A própria fronte do bicho, aliás, já era um bocado assustadora. Mas os caciques aliados logo se apressaram a explicar: o índio entrava não para a montagem do todo, mas no lugar do homem que carregava a carcaça – alegoricamente, é claro. Caberia a ele, e aos seus jovens músculos, a responsabilidade de erguê-la em seus ombros, de vender o peixe seco e tentar convencer a todos que óleo de fígado de bacalhau é refresco. Juntava-se, assim, o vigor mercadológico dos Fogos Caramuru à combalida propaganda da tradicional emulsão e criava-se, deste modo, um eficiente genérico: o Elixir do Pajé sabor tubaína, capaz de levantar qualquer campanha ou candidato, murcho e cabisbaixo, sumido entre as tretas marqueteiras, mole, rolando por ladeira abaixo! E ao som das inúbias, ao som do boré, saudaram o índio que punha a campanha, deitada, de pé.
De nossa parte – e nesta se incluem algo em torno de uma centena e muitos milhões de eleitores –, pouco sabemos deste índio da costa fluminense, responsável pelos tais milagrosos efeitos que julgam seus confrades. A história nos conta que os silvícolas que habitavam aquela porção do litoral eram todos do tronco Tupinambá e dividiam-se em diversos grupos, inimigos entre si, cujos mais conhecidos eram os Terminiós e os Tamoios. Os primeiros, aliados dos portugueses (ou da Situação), e os segundos, dos franceses (membros da Oposição). Objetivo das lutas? O controle da Baía da Guanabara e adjacências (hoje, o terceiro maior colégio eleitoral do país).
Como a história nos mostra, os Tamoios (a Oposição) foram completamente desbaratados pela Situação, ou melhor, pela aliança entre o governo e os naturais da terra. E o jovem líder dos Tamoios, Aimberê, que se julgou oprimido pelos paulistas, terminou massacrado. Mas enterrado, piamente, pelo paulista por adoção, Padre José de Anchieta.
Portanto, é ver se este novo Aimberê – sem a pena de um Gonçalves de Magalhães que o embeleze – logrará sua vitória, ou será logrado pela fortuna, expirando, qual mártir equivocado, como o primeiro.
Finalmente nos ocorre que justamente este primeiro era de Niterói. E o atual é da Zona Sul carioca. Nada temos contra isso ou contra ele – visto que dele praticamente nada se sabe. Portanto, a sina de seu predecessor talvez não se confirme: pode ser derrotado, mas não massacrado: um grande prêmio por sustentar, sozinho, uma carcaça – alegoricamente falando, é claro.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia,de Leme, São Paulo, em 3 de julho de 2010].

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O Centenário de morte de Mark Twain

No último dia 21 de abril celebrou-se o centenário de morte do escritor norte-americano Mark Twain (pseudônimo que consagrou Samuel Langhorne Clemens, 1835-1910). Cem anos... Nem acredito!
Sua importância para a literatura daquele país foi enorme. Os aclamados escritores William Faulkner (1897-1962), e Ernest Hemingway (1899-1961), inclusive, a respeito dele disseram: “[ele] foi o primeiro escritor verdadeiramente americano, e todos nós desde então somos seus herdeiros” (W.F.); e “[...] toda a literatura moderna americana adveio de um único livro de Mark Twain, chamado Huckleberry Finn [...]. Não havia nada antes. Não houve nada tão bom desde então” (E.H).
De fato, o livro As Aventuras de Huckleberry Finn (1884), no Brasil mais conhecido como As Aventuras de Huck, não só é divertidíssimo como muito bem escrito. Trata-se de uma espécie de clássico moderno, mais com aspecto do que seria criado a partir dos anos 1910 e 1920 (ou mesmo 1930), do que um fruto natural de sua época. E, ao mesmo tempo, um retrato curiosíssimo a respeito da escravidão, que Mark Twain conhecera em seu país. Pois a relação de camaradagem entre o jovem Huck e o escravo foragido Jim vale por mais de uma centena de teses acadêmicas sobre o trato entre homens livres, ainda que um rapazola, no caso de Huck, e cativos, mesmo que adultos, como no caso de Jim. São páginas tão reveladoras quanto só se leriam, mais tarde, no Casa-grande & Senzala (1933), este nosso clássico de Gilberto Freyre (1900-1987). O qual, certamente, conheceu a obra ainda em sua juventude, no original, ou no colégio americano em que estudou no Recife, ou na Universidade Colúmbia, de Nova Iorque. Não descarto a possibilidade, aliás, que a curiosa relação entre os dois personagens do romance tenha, em certos aspectos, influenciado sua opus magna.
Mas a questão do tratamento afável e justo que o jovem Huck dedica ao foragido Jim, que conhece desde há muito, foi sobremodo espicaçada pelos adeptos do politicamente correto nos EUA, que chegaram a proibir a leitura da obra em muitas escolas daquele país. Tudo por conta do emprego da expressão “nigger” para se referir a Jim. O termo, hoje, é considerado ofensivo e racista. Corresponde ao nosso “preto” ou “crioulo” em lugar de quem hoje chamamos de “negros”. Mas quem tem mais de trinta anos sabe muito bem que, num passado bem próximo, chamar alguém de “negro” é que era realmente ofensivo. Então, dizia-se, com respeito, que fulano era “um preto”, ou “preto”. “Negro” era, como se lembravam os mais velhos, e a história o comprova, o tratamento dado pelos senhores aos seus escravos. Mas certas militâncias, em geral, quando não desconhecem a História, procuram ajustá-la aos seus fins. Fazer o quê...
Voltando à copiosa obra de Mark Twain, sua qualidade e atualidade são notáveis. Relendo alguns fragmentos seus, publicados recentemente sob o título Patriotas e Traidores (Fundação Perseu Abramo, 2003), não deixei de me quedar surpreso, aqui e ali, com a acuidade de seus pensamentos políticos e de sua visão de mundo. E a leitura de qualquer um de seus contos, primorosos, é de rolar de rir. O Roubo do Elefante Branco, por exemplo, é uma sátira à polícia e à sociedade de seu tempo – seria somente daquele tempo? – como poucas vezes se viu. E o Diário de Adão e Eva, uma das mais finas ironias da relação entre homem e mulher que já li. Mas é difícil mencionar dois contos dentro da jovial, lúcida e excelente obra de Mark Twain e deixar tantos outros de lado. Além de sua influência na cultura moderna, graças às adaptações cinematográficas que pelo menos duas de suas obras receberam: falo de O Príncipe e o Plebeu (1882) e Um Ianque na Corte do Rei Artur (1889). Quando assistirem um filme no qual um menino ou menina rica troca de lugar e vida com uma criança pobre, que é identica a ela fisionomicante, saibam que a fonte é a primeira obra. Ou quando a trama mostra um homem moderno que regressa ao passado e, entre desconfortos e incompreensões mútuas, faz valer sua vontade moderna, tenham ciência que a origem encontra-se na segunda.
Finalizando, recomendo a todos que nunca o leram, que leiam-no. E aqueles que o conhecem, que o releiam de vez em quando. Mark Twain continua ótimo, atual e vivo mesmo depois de cem anos de sua morte.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de maio de 2010].

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O retorno de Zeus

Como objetos esquecidos no fundo de um armário, adormecidos no escuro de um poeirento sótão ou porão, que se vêem retirados por um novo ditame do gosto, ou por saudade ou curiosidade, eis que uma antiga categoria de personagens começa a ensaiar novos passos rumo à luz. E não se trata de telefones de baquelite, mobiliário pé-de-palito, sapatos de saltos plataforma, calças boca-de-sino, presilhas de cabelo ou cartazes e camisetas com o rosto de Che Guevara. Não. Tratamos de personagens, e não de quinquilharias sujeitas a um gosto duvidoso ou à completa ausência deste. São personagens, não de carne e osso, que estes nada duram, mas de pano, papel, tinta, mármore, sonhos, anseios, desejos e terrores, pois tudo isto é o que, ao final, permanece. Falo, pois, dos antigos deuses e heróis da mitologia clássica, que depois de décadas de esquecimento fazem sua reestréia nas atenções do público brasileiro.
Uma rápida pesquisa nas livrarias mostra uma infinidade de títulos. Desde a Teogonia, de Hesíodo, o mais antigo do gênero e em edição bilíngüe, até as mais variadas adaptações para jovens ou adultos preguiçosos. Na última Bienal do Livro, por exemplo, O Livro de Ouro da Mitologia, de Thomas Bulfinch (Ediouro), uma seleção de meados do século XIX, tornou-se um grande sucesso de vendas e continua em tal patamar, desde a edição mais barata à mais cara, ilustrada em cores e de capa dura. Tamanho sucesso, aliado ao (bom) modismo dos 100 melhores contos disto ou daquilo, motivou a publicação, pela mesma casa editorial, dos 13 dos melhores contos da mitologia da literatura universal, em que grandes autores utilizam-se dos antigos temas. Há até uma editora que quase se pode dizer que é especializada no assunto, apropriadamente chamada Odysseus, e que publicou uma bem cuidada versão de alguns dos principais mitos. Sem falar em toda a vasta literatura lançada que tenta analisar os mitos e os deuses dos gregos e romanos.
Não sei se o fato de este ser um ano de Olimpíadas e delas justamente ocorrerem em Atenas contribuiu um pouco pela volta do interesse sobre o assunto. E, pelo menos no caso do Brasil, se toda a divulgação do filme Tróia não influenciou ainda o seu tanto. Mas se este for o caso, se tais forem os últimos motivos, ainda assim sejam louvados! Reintroduzir, pelo menos por estas plagas, um dos principais fundamentos da cultura ocidental no convívio da juventude, geralmente tão preguiçozinha e ignorantezinha, é uma obra e tanto.
Sob o pretexto que os antigos heróis e deuses não existiram, de que eram culto de uma gente morta e acabada, ninguém mais se ocupava do assunto. Vá lá, a religião dos gregos e romanos está morta, mas não suas influências. Qualquer estudo não muito superficial centrado nas representações de Heracles (o Hércules dos romanos, grande herói e semideus, filho de Zeus e de uma mortal) e Dioniso, qualquer estudo, dizia, revelará o quanto dos atributos destes personagens foram utilizados na construção histórica da imagem de Cristo, ao longo dos séculos. Se, lingüisticamente, e a língua é uma maneira das mais fortes de se urdir conceitos e mentalidades, a palavra “Deus” está muito mais próxima de “Zeus” (em grego, numa transliteração Diaus), do que o hebraico “Javé” ou “Jeová”, é de se perguntar o quanto daquele antigo deus clássico não migrou para a imagem da divindade cristã pelas mãos e idéias dos gregos e romanos — nunca é demais lembrar que Santo Agostinho, pilar do Cristianismo, foi um cultíssimo adorador de Júpiter e todo seu panteão.
Influências que atravessaram toda a Idade Média, a despeito do que geralmente se diz. E aqui fiquemos num só exemplo, e máximo: a Divina Comédia, de Dante, tem tantos personagens retirados da mitologia greco-romana quantos da tradição judaico-cristã, pouco mais ou pouco menos. A partir do Renascimento, então, abrem-se totalmente as comportas do vasto rio da tradição clássica. Os cupidos se tornam anjinhos (putti), Miguel Ângelo pinta a Criação do Homem, no teto da Capela Sistina, figurando um Deus que é mais Zeus que qualquer outro. Para cada grande de Espanha ou Nossa Senhora que saem dos pincéis de um Ticiano, sai um Apolo, uma Afrodite. E a lista é infindável, sucessiva, ininterrupta e abrangendo todos os ramos da arte e todos os períodos. Até a modernidade dela se impregnou: pois Jean Cocteau não fez sua releitura de Orfeu? Picasso não fez sua versão do minotauro?
Fechar os olhos ante a mitologia clássica é fechar os olhos a quase tudo o que de melhor as artes do Ocidente produziram. Tornam-se incompreensíveis, um código sem a senha. São prazeres, imensos, que deixam de ser desfrutados, coisa que a maior parte das pessoas não percebem. Perde-se a oportunidade de enriquecer a vida com modelos, idéias, saberes. Perde-se mesmo uma vaga na universidade, porque dos Lusíadas só se compreende, muitas vezes, que “havia um tal de Gama, não sei por que chamado Lusitano, e um monte de deuses que não existiram, fazendo não sei o quê”, como já ouvi de alguém.
Que voltem os velhos deuses, não como objeto de culto, mas de cultura. Que a juventude herde este tesouro tão vilipendiado e compreenda-o, dele descubra novos usos. Que Zeus e sua assembléia retornem, e que sejam bem-vindos. Evoé!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em data que não me recordo, mas anterior a agosto de 2004].

A triste sina de Tomás Antônio Gonzaga

Peço a licença do leitor, mas hoje não trataremos da Olimpíada de Atenas. Muita água há de correr ainda debaixo desta ponte entre a antiga Grécia e os dias atuais e, portanto, hoje este espaço tenta reparar uma tradição meio esquecida. Trata-se de fazer uma justa menção a um vulto do passado no dia de seu aniversário de nascimento (ou o mais próximo possível do dia). Pois sabia o leitor que no último dia 11 de agosto celebraram-se exatos 260 anos do nascimento do poeta e inconfidente Tomás Antônio Gonzaga? E alguém, por acaso, leu alguma linha a respeito? Ou se lembra de alguma celebração feita há dez anos? E, convenhamos, 250 ou 260 anos, em se tratando de América, é muita coisa — não me ocorre um poeta de tanto peso quanto ele em todo o continente e em tempo tão recuado. Foi pensando nisso que procurei pesquisar todas as homenagens feitas a ele nos últimos dois séculos. E o resultado foi estarrecedor, como o leitor verá.
A primeira grande homenagem deu-se justamente num 11 de agosto, o de 1827, em que foram criados os dois cursos de Direito no Império do Brasil, o de São Paulo e o de Olinda, data escolhida em razão do aniversário do poeta e por ter ele idealizado a primeira faculdade no Brasil. E qual a retribuição dos estudantes de Direito? No dia 11 de agosto celebram Gonzaga? Que nada, dão calotes na praça!
A segunda foi grande e auspiciosa: Gonzaga, ou a Revolução de Minas, peça do poeta Castro Alves, estreou em 1867 com muito sucesso, sendo a consagração do jovem poeta baiano. Grande mesmo, apesar de alguns deslizes ou de certo excesso de imaginação do autor de Espumas Flutuantes: na cena final um visionário Tomás Antônio Gonzaga profetiza o aparecimento de Napoleão Bonaparte no cenário mundial, ao som dos primeiros acordes do Hino Nacional, que só seria composto trinta anos depois da trama encenada no palco...
A terceira ocorreu em 1897, quando o nome de Gonzaga foi escolhido como patrono da cadeira número 37 da Academia Brasileira de Letras — bem atrás de nomes como Adelino Fontoura (Adelino quem?), cadeira número1, Artur de Oliveira (Artur de quê?), na cadeira número 3; vá lá que seus contemporâneos Basílio da Gama e Cláudio Manuel da Costa estejam entre os primeiros (cadeiras número 4 e número 8, respectivamente), mas por que Gonzaga está tão longe? Por que não a de número nove, ou doze, por exemplo?
A quarta veio a ser — alguns dizem que precisamente, outros, indiretamente — na escolha do nome do centro acadêmico da Faculdade de Direito de S. Paulo, e deu-se em 1903. Precisamente, querem alguns, por ser a escolha do nome do centro acadêmico uma homenagem ao natalício do poeta. Indiretamente, pretendem outros, por que então já quase ninguém mais se lembrava do inconfidente: entrava o onze de agosto mais como aniversário da criação do curso que homenagem ao antigo vate.
Já em 1909, em Juiz de Fora, foi nomeado patrono da cadeira número 27 (atual número 34) da Academia Mineira de Letras. Esta é realmente de espantar! Por mais que Minas Gerais seja pródiga em literatos, colocar 26 nomes antes de Gonzaga é um prodígio! Meterem-lhe ainda mais sete no meio, então...
No ano do bicentenário de seu nascimento, 1944, finalmente, uma grande homenagem. Inaugura-se o Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. Vasculharam-se também alguns cemitérios da África e do Brasil e com os restos dos inconfidentes que acharam, o de Gonzaga inclusive, naquele belíssimo monumento criaram o Panteão da Inconfidência, um espaço, no mínimo, comovente. Mas uma ironia paira por sobre esta homenagem: há quem diga que os ossos não são do poeta, mas de um seu neto africano de mesmo nome.
Quatro anos depois, outra celebração, de cunho mais popular: Carmen Santos, portuguesa de nascimento e grande atriz brasileira, dirige o filme Inconfidência Mineira, que conseguiu ser um raro caso de fracasso de público e de crítica no Brasil. Um filme que levou onze anos para ser terminado, que ficou desaparecido por algumas décadas e que até hoje pouca gente viu ou se lembra. Nele, ao que consta, os protagonistas seriam os personagens de Tomás Antônio Gonzaga, Dirceu, e de sua noiva e musa Marília, Maria Dorotéia de Seixas. Que o poeta não se deu bem no cinema, prova-o o fato de que seu vulto só retornou à tela em dois filmes, Os Inconfidentes, de Joaquim Pedro de Andrade, de 1972, e Tiradentes, de 1998, dirigido por Oswaldo Caldeira, impiedosamente malhados pela crítica e, quanto ao último, até mesmo por historiadores.
E entre estas datas, que homenagens recebeu o poeta?
Em 1953, talvez a maior delas. São os belos versos dedicados a ele por Cecília Meireles no seu Romanceiro da Inconfidência. Incontestavelmente a maior homenagem e sem um senão a ela relacionada. Mas em 1978, virou nome de rua no Jardim Tango (bairro nada conhecido), em São Paulo. E em 1994, os Correios lançaram um selo comemorativo aos 250 anos de nascimento do poeta. Francamente!
E hoje, quem se lembra? Quem lhe mostra gratidão? Matou-se o dia de Gonzaga. Que viva o Dia do Pendura! Isto lá é homenagem que se preste? Triste, triste a sina de Gonzaga...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em data que não me recordo, mas por volta do 11 agosto de 2004].

Alguns roteiros e um destino

Um amigo português, há pouco tempo, descreveu-me o seguinte plano de viagem e o justificou. Dizia ele que, depois de visitar boa parte dos sítios históricos de seu país, gostaria de empreender uma visita ao Brasil, mas não em busca das principais construções históricas de nossa pátria tropical, que ele já conhecia, e, sim, precisamente, de um roteiro diferente: um roteiro literário, que abrangesse não só as casas dos grandes vultos de nossa literatura — e, convenhamos, por mais de trezentos anos, da literatura dele também — bem como, se possível, os cenários e as paisagens descritas por nossos maiores autores.
No primeiro instante senti-me, como era de se esperar, extremamente envaidecido. Como se ouvisse rufar aos meus ouvidos aquele velho — e patético — chavão, outrora repetido em nosso país, em timbre triunfante, acerca de tudo e acerca de nada, que dizia que “a Europa irá se curvar ante ao Brasil” ... etc., etc., etc. Mas depois, acordando do breve e injustificável letargo ufanista, considerei nossas condições e passei a ponderar com o amigo.
Em primeiro lugar, adverti, aqui não é como a Inglaterra, que não só tem um “roteiro literário” para Londres, visitando as casas de Charles Dickens, W. M. Thackeray e Conan Doyle, bem como os cenários em que seus vários personagens, como David Copperfield, o Sr. Pickwyck, Betty Sharp e Sherlock Holmes percorreram, com direito a placas afixadas às ruas onde “viveram”. Igualmente não temos um roteiro como o do Distrito dos Lagos, visitando as moradias dos poetas românticos Wordsworth, Coleridge, e Southey — autor também de um dos primeiros (ótimo aliás) compêndios da História do Brasil —, ou do polígrafo Thomas de Quincey, ou do grande crítico e filósofo da arte John Ruskin, autor das imortais “Pedras de Veneza”, dentre outros talentos que viveram na região.
Longe estamos de Paris, que anuncia a cada canto a morada deste ou daquele poeta, escritor ou filósofo, com direito a placas de indicação plantadas em plena rua e outras comemorativas nos lugares que, de uma maneira ou outra, figuraram em suas obras. O turista quer conhecer a casa de Victor Hugo, Verlaine, Rimbaud, Gide ? É simples, basta seguir a placa: e por esta indicação, conhece quase todas as moradias dos escritores franceses, os cenários por onde passaram e os quais descreveram. Paris, neste tipo de roteiro, é tão rica que se dá ao luxo de indicar até mesmo as moradias de escritores das mais diversas nacionalidades que ali habitaram, desde o russo Turgeuniev ao nicaragüense Rubén Darío, passando pelos americanos Gertrude Stein, Hemingway e Scott Fitzgerald
Da mesma maneira, não possuímos a variedade de roteiros que, por exemplo, o distrito de Concord, Massachussets, Estados Unidos, se dá ao luxo não só de apresentar, como apresentá-los aos montes, quer seja enfocando as construções coloniais, ou os campos de batalha da Guerra da Independência, e ainda, principalmente, as casas de moradia e as paisagens descritas por Henry David Thoreau, Louisa May Alcott, Ralph Waldo Emerson, Nathaniel Hawthorne e Margaret Fuller, que valem não só por uma verdadeira aula de literatura americana de meados do século XIX, como pelo fato destes autores serem os fundamentos da literatura norte-americana moderna.
Nem mesmo, senti-me obrigado a reconhecer, temos as indicações como as que Portugal pontuou em seu mapa, as vastas indicações à casa de Camilo Castelo Branco, em Vila Nova de Famalicão, ou a de Guerra Junqueiro naquele rincão cujo nome é tão belo quanto uma poesia épica: Freixo de Espada-à-Cinta. Ou como as da casa de José Régio, em Portalegre.
Nem temos indicações em nossas cidades, da moradia dos grandes vultos das letras e das artes pátrias. A casa de Mário de Andrade, em São Paulo, só meia dúzia de pessoas a conhecem. A casa onde viveu Guilherme de Almeida, que até já foi museu, menos gente ainda. E no Rio de Janeiro e Recife, a coisa não é muito melhor. Não só faltam indicações, quando faltam mesmo as próprias casas, devoradas pela voragem das grandes cidades e seu apetite por arranha-céus.
A solução, ponderei com o amigo, é Ouro Preto: lá estão ainda de pé não só as casas onde viveram os poetas árcades Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto, como também a moradia a do tribuno conservador Bernardo Pereira de Vasconcelos, do escritor romântico Bernardo Guimarães, do poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens e do parnasiano Augusto de Lima.
Mas meu amigo riu, gostosamente, e disse, brincalhão: “Ouro Preto não vale, Pedro. Para você, a solução, sempre passará por Ouro Preto...”.
E depois, dizem que ninguém sabe do destino alheio.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 28 de maio de 2005].

Os Livros da juventude

Tenho um conhecido de quem compro muitos livros, na maioria usados, por meio de sua loja virtual. Vez ou outra estendemos nossos contatos pela Internet para além da mera compra e venda de um determinado livro, e conversamos sobre outros assuntos, principalmente... livros, é claro. Assim ele me conta das dificuldades do mercado, da quase impossibilidade de se encontrar alguma raridade à venda por um preço baixo — coisa que já foi possível, há não muito tempo atrás — e outros temas afins. E eis que, dia desses, convidou-me para participar de um grupo virtual voltado para a busca de livros e trocas de informações. De pronto, aceitei, porque morando longe dos grandes centros e de seus sebos e alfarrábios, quase não há alternativa que não procurar o que me interessa pela rede. E são tantos os endereços e lojas eletrônicas que surgem e desaparecem, que buscar um a um acaba por ser tarefa demoradíssima. Fazendo parte de um grupo que está sempre em contato e sempre pesquisando, acreditei, reduziria tempo e cansaço. Assim, cadastrei-me, e como as comunicações de uns para outros acabam sendo de conhecimento de todos, acabei por conhecer os interesses dos demais participantes.
Já fazia idéia, é claro, que não encontraria gente procurando eruditíssimos tratados do século XVII, nas edições originais. Ou primeiras edições, ou autografadas, de Machado, Alencar, Guimarães Rosa, etc. Nem, muito menos, ardentes admiradores de qualquer autor de best-sellers, atuais ou não, que tal tipo de livros podem ser comprados praticamente aos quilos em qualquer sebo, mesmo nos menores. O que eu não contava era com os gostos predominantes daqueles novos “confrades”, por assim dizer. Pois a imensa maioria das comunicações era de gente procurando livros sobre alquimia, feitiçaria e coisas do gênero, quando não pedindo aos demais indicações de leituras “imprescindíveis” sobre aqueles temas. É de se pensar o que se passa na cabeça destes jovens — pela maneira como se apresentavam ao grupo e mesmo pelo que diziam de si próprios, eram, indiscutivelmente muito jovens.
É uma matéria digna de ser pensada também porque desmente, sob alguns aspectos, uma certa idéia fixa de que o jovem brasileiro não lê. Ao que tudo indica ele está lendo sim, talvez não o que o grosso do público costuma ler; nem, também, necessariamente, compre muitos livros novos. Mas tem se dedicado à leitura. E que leitura!
Não condenarei, aqui, qualquer tipo de conhecimento, por mais que tenha reservas quanto a alguns deles. As pessoas são livres para lerem o que lhes der na veneta, e isto é ótimo. Nem serei ingênuo o bastante para dizer que tal ou qual leitura possa alterar radicalmente o comportamento de uma pessoa, para o bem ou para o mal. Acontece, é verdade, mas bem menos que se imagina. Do contrário, os jornais estampariam inúmeros casos de leitores de romances policiais cometendo os mais variados crimes. Ou hordas de revolucionários marchando por nossas ruas só porque leram um fragmento aqui, outro ali, de Marx, Bakhunin, etc. A Bíblia continua sendo um dos livros mais lidos de todos os tempos e, nem por isso, vemos hoje as pessoas largando tudo pela Fé ou querendo impor algumas daquelas práticas bizarras que vemos no Antigo Testamento, como escravizar ou matar quem pensasse e agisse diferentemente dos “escolhidos”. Mas um pouco de critério não mataria ninguém.
Há quem veja nestas leituras reflexos de fatos mais pontuais, ou seja, um puro modismo iniciado pelo livro “O Código da Vinci” e suas réplicas, tréplicas, continuações e cópias. Todavia esse gosto pelo obscuro, pelo macabro, por grupelhos iniciáticos, pela necromancia e demais práticas mágicas não é tão recente, quanto parece à maioria das pessoas. É raro encontrar algum adolescente, hoje em dia, que não desfie várias histórias de vampiros, feiticeiras e ordens místicas, e as mais disparatadas, como se tratassem de grandes e graves verdades. Uma busca na Internet por temas como “bruxaria” — e sua variante moderna de nem um século, a chamada “wicca” — ou sobre “satanismo”, “paganismo”, e que tais, surpreenderia a qualquer incauto, pelo imenso número de ocorrências. É um fenômeno que, pelo menos no Brasil, já data de uma década.
E o que se pode fazer? Queimar os livros? Os leitores? Impedir a leitura? Claro que não. Ainda que boa parte desses jovens sonhem com uma Idade Média muito mais mítica do que real, jamais aplicaríamos a eles um “remédio” daqueles tempos. Ainda que se deixem levar por informações sem qualquer rigor quanto aos verdadeiros fatos, quanto às origens históricas de tal ou qual prática, ainda que na sua pretensa fuga aos dogmas acabem por aceitar novos e exóticos dogmas, a coisa há de mudar. Novos e bons livros vêm surgindo, pondo os pingos nos is, revelando o que são lendas insensatas, o que é má-fé, e afirmando o que é verdade histórica, crítica. No final, veremos que tudo não passou de uma febre momentânea, mas que talvez deixe um estranho legado para a posteridade: é bem possível que, no futuro, julguem a juventude de nossos dias como a mais crédula, simplória e supersticiosa do milênio.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de junho de 2005].