domingo, 29 de agosto de 2010

A Emulsão Scott e o Elixir do Pajé: história e política brasileiras sob um véu de alegoria

O PSDB, que não é qualquer partidozinho de meia-tigela (governou o País por oito anos, e governa o estado de São Paulo há quase dezesseis – com os resultados
que todos sabem) desempenhou um curiosíssimo papel nos últimos meses. Sua busca por um nome para vice do Chirico beirou às raias da farsa, ou da tragicomédia: um poema herói-cômico, com pouco heroísmo e quase nenhuma poesia. O partido parecia aquele homem de cara amarrada, que carrega o bacalhau no rótulo da Emulsão Scott. Vergado ante ao fardo, tenta “vender seu peixe”, sabendo que ele custa caro, é salgado, se mal preparado torna-se um horror e que o óleo de seu fígado é sinônimo de amargor. Como o homem tristonho do rótulo, sabe que não é fácil empurrar ao público um tal acepipe. Mas ao contrário do que se vê no rótulo, o partido só tinha para oferecer a cabeça do bacalhau – esta que todos juram nunca ter visto. Faltava-lhe, pois, o corpo. E saiu a pescá-lo por águas desconhecidas, algumas, inclusive, turvas.
lo por águas desconhecidas, algumas, inclusive, turvas.
O primeiro pescado, já caído na rede e içado, revelou-se, à beira já da água, “impróprio para o consumo”, graças a sua dieta de panetones. E rejeitaram o Arruda. Depois, cogitaram a deputada Kátia Abreu, líder da bancada ruralista. Mas latifundiário, no Brasil, é sinônimo de tubarão, e não fica bem o corpo de um esqualo debaixo de uma cabeça de bacalhau. Alguns outros peixes miúdos também foram apanhados na rede. Mas de tão pequenos, escaparam por entre suas malhas. Tão fugaz foi sua presença ali, que mal foram identificados. Até que um peixe do Rio Paraná saltou para dentro da canoa e, olhando bem, ainda que não fosse da mesma espécie, era bem parecido. Juntando um ao outro, formava-se um todo, senão harmonioso, um bocado melhor do que aquelas sereias falsas que se fabricam com a parte de cima de um macaco e, a de baixo, de um peixe.
Mas um bando de caciques aliados daqueles pescadores – estes também caciques – não gostaram do que viram. Lembraram que bacalhau se pesca no mar, não em água de rio, seja do Centro-oeste ou do Sul. Conduziram o barco até a Costa, atiraram o peixe que para dentro dele saltara, e a cacicada esperta colocou em seu lugar um índio.
Quem foi comunicado de tal sucesso – a maioria do povo brasileiro, além de todo o resto da tripulação daquele barco, a qual não deu um pio, nem foi consultada – achou a solução um bocado estranha. Afinal, cabeça de bacalhau com corpo de índio cria uma monstruosidade infernal aos olhos. A própria fronte do bicho, aliás, já era um bocado assustadora. Mas os caciques aliados logo se apressaram a explicar: o índio entrava não para a montagem do todo, mas no lugar do homem que carregava a carcaça – alegoricamente, é claro. Caberia a ele, e aos seus jovens músculos, a responsabilidade de erguê-la em seus ombros, de vender o peixe seco e tentar convencer a todos que óleo de fígado de bacalhau é refresco. Juntava-se, assim, o vigor mercadológico dos Fogos Caramuru à combalida propaganda da tradicional emulsão e criava-se, deste modo, um eficiente genérico: o Elixir do Pajé sabor tubaína, capaz de levantar qualquer campanha ou candidato, murcho e cabisbaixo, sumido entre as tretas marqueteiras, mole, rolando por ladeira abaixo! E ao som das inúbias, ao som do boré, saudaram o índio que punha a campanha, deitada, de pé.
De nossa parte – e nesta se incluem algo em torno de uma centena e muitos milhões de eleitores –, pouco sabemos deste índio da costa fluminense, responsável pelos tais milagrosos efeitos que julgam seus confrades. A história nos conta que os silvícolas que habitavam aquela porção do litoral eram todos do tronco Tupinambá e dividiam-se em diversos grupos, inimigos entre si, cujos mais conhecidos eram os Terminiós e os Tamoios. Os primeiros, aliados dos portugueses (ou da Situação), e os segundos, dos franceses (membros da Oposição). Objetivo das lutas? O controle da Baía da Guanabara e adjacências (hoje, o terceiro maior colégio eleitoral do país).
Como a história nos mostra, os Tamoios (a Oposição) foram completamente desbaratados pela Situação, ou melhor, pela aliança entre o governo e os naturais da terra. E o jovem líder dos Tamoios, Aimberê, que se julgou oprimido pelos paulistas, terminou massacrado. Mas enterrado, piamente, pelo paulista por adoção, Padre José de Anchieta.
Portanto, é ver se este novo Aimberê – sem a pena de um Gonçalves de Magalhães que o embeleze – logrará sua vitória, ou será logrado pela fortuna, expirando, qual mártir equivocado, como o primeiro.
Finalmente nos ocorre que justamente este primeiro era de Niterói. E o atual é da Zona Sul carioca. Nada temos contra isso ou contra ele – visto que dele praticamente nada se sabe. Portanto, a sina de seu predecessor talvez não se confirme: pode ser derrotado, mas não massacrado: um grande prêmio por sustentar, sozinho, uma carcaça – alegoricamente falando, é claro.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia,de Leme, São Paulo, em 3 de julho de 2010].

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