Li recentemente, e com bastante assombro, que os programas humorísticos da televisão em breve irão censurar piadas e não mais fazer paródias de candidatos às próximas eleições. Tudo isto por causa da interpretação feita pelas emissoras da resolução 23.191./2009 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Pois segundo o Artigo 28, da dita resolução, a partir de 1º de julho de 2010 fica “vedado às emissoras de rádio e televisão, em sua programação normal e noticiário [...] usar trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que, de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido político ou coligação, bem como produzir ou veicular programa com esse efeito” e “[...] veicular ou divulgar filmes, novelas, minisséries ou qualquer outro programa com alusão ou crítica a candidato ou partido político, mesmo que dissimuladamente, exceto programas jornalísticos ou debates políticos”. Em suma: meteram uma camisa-de-força no humorismo.
Por outro lado, é curioso notar que o TSE aceita candidaturas “humorísticas”: estão aí os postulantes a deputado federal Obama Brasil (na verdade, o pastor Ananias Rodrigues da Silva, do PTB), Binladen (o motoboy Diodálio Rocha, do PTN) e Maradona do Brasil (Gilberto de Castro Carmo, também do PTB – quem diria: o partido que já foi de Getúlio e Jango e hoje é de Roberto Jefferson, Collor, Campos Machado e Romeu Tuma...).
O humorismo, como se sabe, muitas vezes, é involuntário. Apresenta-se espontaneamente quer pelo nome, quer pela aparência, quer porque ambos remetem a imagens e situações cômicas. Noutros casos, ele é produzido a partir da caricatura – pelo exagero – de tais ou quais características de uma pessoa, grupo, classe, sexo, etc. Mas sua intenção, todavia, não é degradar ninguém e, sim, ridicularizar, no sentido estrito da palavra: “causar riso”, “submeter o objeto ao riso”. As más intenções não residem na piada, mas no ouvido de quem a escuta.
É, portanto, uma lástima que um Tribunal democrático meta-se a legislar num assunto diante do qual até as várias ditaduras brasileiras (Floriano, Getúlio e a militar) foram lenientes: há centenas de cartuns, caricaturas e piadas registrando como isto se deu, brincando com a efígie dos poderosos de então, ridicularizando as políticas do passado e por aí vai. Provas inequívocas de que mesmo os algozes tinham um certo senso de humor.
Mas o TSE não pensa assim. Quer cassar o riso em todo país. Não podemos mais nos divertir às custas da feiúra de um candidato, da rusticidade de outro, etc. Entretanto, ficamos sujeitos a ver uma leva de gente mal-intencionada, bisonha ou marota, exibindo seus apelidos paroquiais, suas supostas semelhanças com esta ou aquela personalidade (sob o mesmo nome daquela, ou quase), suas minúsculas egolatrias como sustentáculo de uma ambição política desmedida. E tudo isto garantido por partidos que se dizem sérios.
O que se observa, mais uma vez, é a ausência de seriedade por via inversa. Confunde-se autoridade com sisudez: ser sério é visto como ser mal-humorado. Permite-se o cômico, mas não podemos rir dele. De fato, seria mesmo ridículo tal comportamento, se visto isoladamente. Mas o espírito que o anima e suas consequências não são em momento algum motivos para riso.
[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, em 31 de julho de 2010].
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