Quando alguém quer ridicularizar a organização dos esportes no Brasil, costuma contar um causo de um nadador brasileiro sem braço que teria participado da Olimpíada de 1920, em Antuérpia. Trata-se de um exagero, é verdade, mas parece aquele tipo de piada pronta, e irresistível, diante da qual ninguém verifica os fatos. Aceita-se, porque o chiste é ótimo, mesmo que inexato.
Mas, na verdade, não era bem assim. O atleta que hoje se tornou alvo involuntário e imerecido de galhofas foi, no passado, um dos maiores nomes da natação brasileira. Chamava-se Abraão Saliture, foi o primeiro campeão brasileiro dos 1.500 m, nado livre, no mar, em 1898, e venceu diversos campeonatos, vários deles internacionais, entre os anos de 1901 a 1906 e 1909 a 1920, o ano da Olimpíada. A qual, aliás, não seria a sua última: participou ainda da Olimpíada de Los Angeles, de 1932, com 49 anos de idade. Quanto ao seu problema físico, ele era, na verdade, um defeito no braço, adquirido na infância, resultado de uma doença não diagnosticada então. O que não o impediu de competir, naqueles jogos de 1920, para além da natação, e também no remo e no pólo aquático. Infelizmente, pouco mais se conhece deste intrépido herói: não encontramos registros de seu nascimento (presumivelmente 1883), origem, vida após os Jogos Olímpicos, ou de sua morte. Seus dados pessoais que chegaram até nós em pouco diferem do que sabemos dos antigos atletas gregos: um nome, uma participação olímpica, e pouco mais.
O leitor, ao cabo das linhas acima, deve ter ficado absurdado com a longevidade profissional, atlética, do bravo Abraão Saliture. “Competindo, ainda, aos 49 anos? E com um defeito no braço?”, deve ter pensado. Pois é. E, ao que tudo indica, cumpriu muito bem o que se esperava dele. Assim como o remador Amir Klink, com um defeito na mão, e 29 anos nas costas (em termos esportivos já não poderia ser considerado um jovem) cruzou sozinho o Atlântico, sem contar outras façanhas que fez depois. Sem falarmos nos intrépidos atletas paraolímpicos brasileiros, muitos deles já meio passados da idade, em comparação aos seus êmulos ditos normais, e que triunfam sobre suas desvantagens de forma briosa, quase mágica, e trazem muito mais medalhas das competições que a média dos ditos perfeitos.
Mais uma questão a ser colocada. O primeiro ouro olímpico brasileiro, a primeira prata e o primeiro bronze, couberam, respectivamente, a Guilherme Paraense, Afrânio da Costa e à equipe brasileira de tiro, à qual os dois primeiros pertenciam. Um pormenor curioso da trajetória deles pode ser verificado nos percalços que sofreram até chegarem a Antuérpia. Viajando às suas próprias expensas, tiveram de desembarcar, do navio que os levaria até a Bélgica, ainda em Lisboa, informados que foram de que o mesmo não chegaria a tempo para as provas. Seguindo de trem, tiveram parte das armas e da munição roubadas. Chegando a Antuérpia, com fome e quase sem o material esportivo – suas ferramentas de trabalho – foram salvos pela equipe norte-americana, que, deles condoída, emprestou-lhes armas e munições que os brasileiros não conheciam. E, ainda assim, nosso representantes triunfaram.
Pois bem, todos estes fatos vêm à mente quando pensamos no pífio resultado nesta Copa de nossa Seleção Canarinha (ou Canalhinha, como querem alguns), também conhecida como Legião Estrangeira (como querem outros, pelo fato da maioria dos jogadores atuar noutros países que não o nosso). Um grupo nababescamente pago, regiamente hospedado, divinamente incensado por público, imprensa e marketing, e que nada mostrou, nada fez. Ou melhor, fez e mostrou (para além de um gol de braço, ocorrido antes), apenas no primeiro tempo do jogo em que acabaria por ser desclassificado, e de virada.
Os motivos para a derrota apresentados – não pelos jogadores, estes deuses de chuteiras Nike incapazes de uma séria autocrítica: deuses, afinal, não se contradizem – mais uma vez repousam, alegadamente, nos problemas físicos de um único jogador. O que, à primeira vista, pode parecer perseguição a ele, o que, todavia, não é. Se o dito ataque brasileiro tinha como base três jogadores, e um deles não estava em plena condição de jogo – já de saída, dizem, graças a problemas nas partes pudendas – nada, evidentemente, poderia dar certo. Pensemos num banco de três pés. Afrouxemos um. No que resulta? Tombo na certa. E o que mais irrita é que noutras copas, com outros envolvidos, também ocorreu o mesmo: escalaram-se elementos sem fôlego, ou avariados, ou um pouco passados da idade, e sobre tais ruínas resolveram erigir fortalezas. Naquela ocasião, como agora, deu-se o que era de se esperar.
Entretanto, busquemos informações sobre estas nulidades efêmeras, cometas radiantes e passageiros, astros em ocaso: encontraremos legiões de fãs, páginas e mais páginas de amenidades tratadas como registro histórico, discursos laudatórios, e apaixonados, defendendo seus gostos pessoais, desejos, vontades. Sua fama, transitória na essência, parece imorredoura, na aparência que alguns a ela querem dar. Mas serão, no futuro, evidentemente, palavras ao vento.
Os velhos Abraão Saliture e Guilherme Paraense têm, de fato, o estofo e a fama dos atletas gregos: legendária, heróica e concisa. Os novos – o nome deles será irrelevante daqui a alguns anos – gozam, por enquanto, da mesma parcela da Fama que, no Passado, usufruíram os semi-aleijados, e mercenários, gladiadores romanos: um certo grau de onipresença na atenção popular, inscrita em paredes e objetos de adorno de gosto discutível. E o completo esquecimento por parte das gerações vindouras.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 20 de julho de 2010].
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