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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O Terremoto do início do Milênio

O recente terremoto no Oceano Índico, seguido das ondas gigantescas que devastaram toda a região sul da Ásia, é um destes fenômenos que dão muito o que pensar, sobretudo a nós, cristãos — lembremos que toda a coisa teve seu início em pleno dia de Natal — e ocidentais, para não dizer, também, falantes do português — porque outro evento igualmente horrendo vitimou não só a Europa, mas mais especificamente Portugal.
Pois no dia 1 de Novembro — Festa de Todos os Santos, uma das mais importantes da Cristandade àquela época — do ano de 1755, pouco depois das 9 horas da manhã, quando as igrejas estavam cheias de fiéis e as ruas tomadas pelo povo que ia ou voltava dos cultos, um dos mais violentos tremores de terra de que há memória ou registro destruiu quase toda Lisboa. Prédios sucumbiam, incêndios surgiram de toda parte, e os muitos, apavorados, que se meteram em barcos ou navios para fugir daquele terror, foram colhidos por uma onda de proporções inimagináveis que convulsionou todo o Mar da Palha — como é chamada a larga embocadura do rio Tejo — e varreu toda a parte baixa da cidade. E o resultado de tantos desastres foi terrível: uma metrópole em ruínas e mais de 60 mil mortos.
Tudo isto, note-se bem, ocorrido no espaço limitado de uma cidade que era grande, mas longe estava de ser uma das maiores da Europa, e no correr de um único dia, ao fim do qual, um rei, D. José I, quase em estado de choque, perguntava a um ministro — que não era o mais poderoso, mas tivera a audácia a presteza de ser o primeiro a se apresentar frente à sua majestade — “o quê fazer agora?”. E, segundo a tradição, respondeu-lhe o ministro — Sebastião José de Carvalho e Melo, que ainda não era Conde de Oeiras, nem muito menos Marquês de Pombal — num exemplo de praticidade e larga visão: “Agora é sepultar os mortos e cuidar dos vivos”.
Se para os portugueses foi um horror indescritível, emocional e materialmente falando, do ponto de vista espiritual também foi um terror. Portugal era uma das nações mais religiosas, das mais ferrenhamente católicas da Europa, com proporções altíssimas de clérigos regulares e seculares dentre a população, com um sem fim de catedrais, igrejas, capelas, santuários, ermidas, cruzeiros, conventos e mosteiros. Tinha, como defensor da Pátria, como seu "Anjo da Guarda Nacional", por assim dizer — então chamado "Anjo Custódio" — ninguém menos que o Arcanjo São Miguel, que teria sido visto combatendo, lado a lado com os portugueses; como protetor, havia São Jorge, e como padroeiro, Santo Antônio, que era também padroeiro de Lisboa e, mais do que tudo, nascido ele próprio naquela cidade (Pádua é o local de sua morte). E não bastasse o que já era tanto, mal cumpriam-se sete anos desde que seus monarcas foram reconhecidos como grandes defensores do Catolicismo, através do título de Sua Majestade Fidelíssima — concedido pelo Papa Benedito XIV ao Rei D. João V, e extensível a seus descendentes —, honraria que só se rivalizava à de Sua Majestade Católica (pertencente aos reis de Espanha) e de Sua Majestade Cristianíssima (esta, aos Reis da França) e que representava o quanto a Santa Sé devia em preito de gratidão a Portugal.
É preciso dizer que a violência do fenômeno e suas conseqüências impressionaram fortemente toda a Europa, e os mais ilustres personagens a deixarem um testemunho a respeito do episódio, em razão também de seu grau de envolvimento, foram Voltaire (1694-1778) e Rousseau (1712-1778). Pois ambos os autores travaram uma célebre polêmica justamente em razão daquela hecatombe.
O primeiro não só utilizou-se do terremoto para rebater parte das teorias de Leibniz, grande filósofo de meados do século XVII, princípios do XVIII, como o mesmo desastre lhe serviu de tema para um longo poema, intitulado o “O Desastre de Lisboa” — em que indaga como um Deus benevolente e onipotente teria permitido tamanha destruição e sacrifício.
Já o segundo, que discordou da interpretação do fato dada por Voltaire (mas que também era admirador de Leibniz), respondeu a ele por meio da “Carta sobre a Providência”, na qual procurava eximir de culpa tanto a natureza quanto Deus, e atirando-a toda para as costas dos homens pelo fato de viverem em casas sólidas de mais de dois andares dispostas numa área relativamente pequena e quase incitando a humanidade a viver em cabanas ou choças como as dos índios em geral.
Não é preciso dizer o quanto o argumento utilizado por Rousseau foi, e até hoje ainda o é, massacrado por boa parte dos leitores. E Voltaire, cuja pena era um chicote, não deixou por menos: volta ao desastre de Lisboa e dele faz referência no capítulo VI de seu clássico romance, cômico e filosófico ao mesmo tempo, “Candido, ou o otimismo”, no qual ironiza justamente certas idéias de Rousseau, que julga um otimista para além da realidade ... por causa do terremoto.
Bem, o fato é que, quanto ao terremoto de Lisboa, duzentos e quarenta e nove anos já se passaram e, parafraseando a célebre frase atribuída ao Marquês de Pombal, já sepultaram seus mortos e já cuidaram dos vivos que, por sua vez também morreram, e não são mais pranteados porque ninguém mais se lembra deles, porque a vida dos homens continua, o tempo segue, as cidades são refeitas, como Lisboa também o foi.
O que se viu recentemente nas terras banhadas pelo Oceano Índico foi, indubitavelmente, tristíssimo e assombroso. Mas não devemos circunscrevê-los à esfera a qual pertencem os conceitos de bem ou mal, ou àquela outra onde gravitam as noções de bom ou mau. O horror que vitimou aquela região da Terra não foi a vontade de um Deus em querer punir cristãos hedonistas que trocam um Natal em família por exóticos e distantes ambientes, ou não-cristãos que não reconhecem o nascimento de Jesus, como muitos têm ouvido nos últimos dias. Pois o que, em suma, aconteceu foi um mero, ainda que imenso, fenômeno da natureza, cujos efeitos poderiam ser muitíssimo minorados se houvesse nas regiões atingidas algum monitoramento contra esse tipo de ocorrência, além de condições básicas para a atuação de uma defesa civil eficiente. Vale lembrar que a natureza é imprevisível, porém manda avisos, cabe aos homens democratizar as tecnologias que decifram esses comunicados, ao invés de imputá-los a qualquer outra força maior.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 30 de dezembro de 2004].

Super acqua flumens...

É bem conhecido o fato de que as grandes civilizações do passado cantavam seus principais rios com sua melhor poesia, quando não os adoravam quais divindades. Basta lembrarmos do que os egípcios escreveram sobre o Nilo. Dos babilônios, sumérios, acádios e tantos outros que habitaram a Mesopotâmia (“a terra situada entre rios”) e o que deixaram sobre o Tigre e o Eufrates. Nas Sagradas Escrituras, cantam-se todos estes rios, e o Jordão, e mais uns tantos córregos, mesquinhos aos olhos dos brasileiros, acostumados que somos a hiperabundância de água que os trópicos nos propiciam. E a distante Índia e a remota China louvaram seus caudalosos Ganges e seu rio Amarelo, mas por serem tão afastados do Ocidente, tais encômios só nos chegaram muito mais tarde e com sabor de exotismo.
Diminuindo a escala, é rara a poesia de uma povo que não trate de um rio, em particular, que não precisa ser, necessariamente, o “grande rio nacional”, digamos, assim, como nos exemplos anteriores. Neste caso, a matéria poética será feita daquilo rio que passa por uma cidade, ou aldeia, muitas vezes nem nomeado. A poesia grega e romana tem mil exemplos, a medieval também os seus tantos, e a renascentista também. Deve-se a um poeta francês do período o primeiro poema ao rio Sena, um provocativo libelo no qual, em pleno século quatorze, já se trata dos perigos da poluição e da morte dos rios, sob o belo título de Complaint de la Seine, algo como “Lamento pelo Sena”. E o que dizer dos “sôbolos rios” camonianos? Com o barroco, o tema é um pouco eclipsado, ainda que o poeta inglês John Donne escreva um magnício soneto tendo o Tâmisa como tema. E no arcadismo, eis que o assunto volta com toda força, basta lembrarmo-nos dos versos do nosso Cláudio Manuel da Costa, cantando o Mondego, o rio das Velhas e o seu “pátrio rio”, o Tripuí, que nasce em Ouro Preto, então Vila Rica.
E os tempos se sucedem, e com eles as escolas literárias e também a percepção da natureza. O Mississippi vira tema, em prosa, de um Mark Twain, de um Hart Crane. Canta-o o poeta americano, naturalizado inglês, T.S. Elliot, não muito depois que Fernando Pessoa cantou o Tejo, que não era mais belo que o rio que passava por sua aldeia, o mesmo Tejo — ou Tajo, como o chamam os espanhóis — que foi também cantado por Garcia Lorca.
No Brasil, o Amazonas é um gigante mudo para a poesia, mal e mal lembrado pela prosa, e mais como obstáculo da civilização do que continuação do que quer que seja que não a selva. O São Francisco até que foi tema de alguma poesia regional, em sua maior parte oral, e quase nada a respeito foi impresso. Alguns rios da fronteira paraguaia, quando da guerra em que devastamos aquele país, também serviram de motivos a uma ou outra poesia, tacanhamente patriótica, chauvinista ao extremo, em que as águas servem de mero cenário para as batalhas.
É fato que Cecília Meireles dedica ao rio das Mortes, da triste guerra dos Embobas, o seu grande talento de sempre. E João Cabral de Melo Neto converteu, num exemplo de grande felicidade poética, o belo Capiberibe num “cão sem plumas”. Como também não podemos desprezar certa poesia popular, regionalista, vez ou outra transcrita em música, esta, por sua vez chamada de caipira, tradicional ou “sertaneja de raiz”, e capaz de belos achados. Basta lembrarmo-nos daquela, célebre, relativa ao rio Piracicaba.
Mas a verdade é que tratamos tão mal nossos rios, que só os vemos com bondade, com prazer, como motivo estético, retrospectivamente. Lançamos em suas águas todo o tipo de impurezas, seja o reles esgoto doméstico, sejam os infames resíduos industriais. Exaurimos seus leitos em busca de areia, ou do que quer que seja, que nos satisfaça o mais rápido possível, instantaneamente. Roubamos suas margens para todo tipo de loteamentos clandestinos, ou estrangulamos seus cursos para a construção de vias expressas que nunca são feitas a contento e que freqüentemente nos levam de parte alguma a lugar nenhum. Quando não matamos seus peixes pelo lixo que nas águas lançamos, eis que nos dedicamos à pesca predatória ou, pior, abominável mesmo, lançamos espécies de peixes estranhas ao habitat, que devastam toda a fauna local, mas que nos permitem “uma pescaria divertida, uma boa briga”, como já ouvi dizerem. E, ainda por cima, depois de todo o desserviço a eles prestado, temos a coragem de queixar do mau cheiro de suas águas, em certos dias quentes.
Mas tudo que teve seu começo tem seu fim. Esperemos. Não de braços cruzados, porque a situação é séria e os desmandos nesse assunto se avolumam.
Voltaremos a este assunto.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 6 de agosto de 2005].

E o vento levou...

Os Estados Unidos da América são, para muita gente, um exemplo de país onde tudo funciona, o Estado é diligente, as leis são cumpridas, o povo é ordeiro e a tecnologia é a mais desenvolvida do mundo. Os atentados terroristas daquele famoso 11 de setembro ofuscaram um pouco o brilho da tão propalada precisão e eficiência da CIA (Agência Central de Informação), mas como mais nada ocorreu em solo norte-americano desde então, a aura de superpotência infalível voltava a brilhar. Bastou todavia um furacão, para, literalmente, botar tudo isto abaixo e mais um pouco. Então, vejamos.
O norte-americano médio é fanático por meteorologia. Há dezenas de programas na televisão que tratam do assunto, os apresentadores, “homens do tempo”, são celebridades nacionais, e há mesmo um canal de teve a cabo dedicado apenas e tão somente a esta questão. A mania é tão grande que o próprio cinema não está imune a ela, e aí estão os arrasa-quarteirões Twister (1996) e O Dia depois de Amanhã (2004), para falarmos só dos grandes. Nunca é demais lembrar que n’O Mágico de Oz, clássico da literatura infantil daquele país e filme de grande sucesso, a pequena Dorothy não é levada a uma terra de fantasia por qualquer recurso mágico, mas por um ciclone...
Se o governo norte-americano gasta fortuna com o serviço de meteorologia, fica a pergunta: como é que não previram o estrago que o furacão poderia causar?
Outro aspecto curioso: vamos admitir que a meteorologia acertou em cheio quanto ao poder de destruição da coisa toda. Então, pensamos logicamente, a reação das autoridades e da população em geral seria a de tomar todas as precauções possíveis que reduzissem as conseqüências. Isto é o que se espera de um país “civilizado, de primeiro mundo”, como gostam de dizer por aí. Mas o que lemos a respeito? Que não há comida nem condições de saúde adequadas na Lousiana. Que os centros de acolhimento aos desabrigados são poucos, estão superlotados, e alguns deles não contam sequer com água, mas com cadáveres dentro e ao redor dos abrigos. E em meio a este caos, o governador daquele estado lança apelos aos quatro ventos, com perdão do trocadilho, pedindo sobretudo dinheiro, é claro. Ora, convenhamos, pode haver coisa mais de “terceiro mundo” do que esta? Um desastre natural, ocorrendo numa área onde eles são comuns e esperados, apanhando de calças-curtas a população e seu governador, que se limita a queixar e pedir recursos? Não é o que assistimos todo ano na Índia, Paquistão e boa parte do nordeste brasileiro, diante de fenômenos bem conhecidos e sempre recorrentes?
Finalmente a questão do cumprimento da lei, quer por parte de seus agentes, quer pela própria população. As notícias mais recentes dão conta de que a ação de saqueadores armados por todo o território de Nova Orleãs, aproveitando-se do saldo de destruição, é tão intensa que a própria Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA, na sigla em inglês, a Defesa Civil nacional, por assim dizer ) suspendeu completamente as operações de resgate e transferência de desabrigados. Tais grupos enfrentam abertamente os contingentes da Guarda Nacional de lá, e de maneira tão assombrosa que a própria polícia tem sido incapaz de sofrear a pilhagem e depredação. O ponto ao qual as coisa chegaram é de tal forma crítico, que levou as próprias vítimas daqueles agressores estão fazendo justiça com as próprias mãos. A tentação é forte para compararmos este quadro com que às vezes ouvimos do que se passa em certas áreas do Rio de Janeiro e Espírito Santo. Todavia, é muito pior: está mais é para Bagdá durante a guerra.
E tudo isto aconteceu no Sul dos Estados Unidos, cenário de histórias fascinantes e do preconceito racial mais brutal e vergonhoso experimentado no continente americano. Talvez se deva a isso o fato de o grosso dos desabrigados mostrados pela televisão ser composto por negros, que decerto viviam mal em casas péssimas. Mas, claro, isto não interessa. As causas do infortúnio nunca têm importância para a mídia e para a política: a fanfarra que se faz depois é que deve ser mostrada.
O fato é que, quem diria, estamos vendo os Estados Unidos experimentando momentos do que é viver no terceiro mundo. Será que olharão com melhores olhos para nós? Duvido. Um vento soprado do Atlântico derrubou Nova Orleãs. Um vento gelado, vindo de Washington, soprará todas as esperanças de entendimento entre Norte e Sul para bem longe.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 2 de setembro de 2005].

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Nenhum idílio resiste a um escrutínio

Passei uma semana na Pousada do Caraça, local que abrigou, outrora, um importante internato para rapazes, e que foi uma importante referência histórica e cultural não só para Minas Gerais, como para todo o país.
Movi-me até lá por dever de ofício: recolher informações para o meu trabalho sobre livros antigos que trazem estampas que possam ter influenciado a pintura mineira colonial. E ainda que não seja um apaixonado pela dita exuberância natural de qualquer paisagem – prefiro uma capela, ainda que em ruínas, à mais celebrada das cachoeiras, e restos de arruamentos a qualquer mata – ainda assim não pude deixar de reconhecer uma certa beleza intrínseca, e pitoresca, que se observa por todo o parque.
Isolado entre morros, imerso numa ampla reserva natural particular, ali se encontram plantas e animais que em poucas partes se vê. Confesso que tive ciência de algumas espécies, pela primeira vez, ali. O lobo guará, símbolo do parque, do colégio e da pousada, e que quase todas as noites apresenta-se aos olhos dos visitantes, em pleno adro da capela de Nossa Senhora dos Homens, foi só um deles que vi, mal contados três ou quatro passos de mim.
Tudo é muito lindo, tudo é muito maravilhoso, e, como algumas placas dispostas ao redor nos fazem questão de recordar, “estamos no Paraíso”. Pode ser. Porque, como acreditamos, no Paraíso terrestre, nalgum lugar entre o rio Tigre e o Eufrates, existia uma serpente. Já a versão mineira do Éden, entre o córrego do Caraça e seus afluentes, não conta exclusivamente com uma áspide, mas, sim, com toda uma legião, ou melhor, uma multidão delas: jararacas e urutus, quase que a nos lembrar, minuto a minuto, que elas são as donas do local, e não nós, pacatos humanos, por vezes cristãos...
Ali soube também, graças a um grupo de herpetólogos — estudiosos de cobras, sapos, rãs, e outros répteis — que o parque tem uma altíssima concentração de serpentes. Informação que pode ser muito interessante aos pesquisadores, mas que, para mim, vale mais do que um alerta para que me ponha longe delas.
Outra coisa que parece passar despercebida nestes “santuários naturais” é a constante violência da natureza: o idílio se desmancha a olhos vistos. Assim, observamos, a toda hora, pacíficas aves atacando ninhos de outras pacíficas aves, e o mesmo se dá com mamíferos, insetos, répteis, anfíbios, etc. E o cheiro final desta comilança mútua não é dos melhores. Afinal, mortandade alguma pode cheirar bem.
E como ela pode ser vista nestes refúgios! Serpentes se devorando, japús atacando tizius, fugindo de jacus e saracuras, temendo as razzias de gaviões. Esquilos fartando-se de insetos, insetos nos incomodando, e sapos, e lagartos, etc., etc., etc.
Nos esquecidos livros que leio, pesquiso, fotografo, não raro os encontro meio que roídos de bichos. E seus odores, por vezes, não são dos melhores. Todavia eles têm mais vida, e menos morte, do que, digamos, dezesseis metros quadrados de natureza, a céu aberto, embalados pela brisa, e não metidos, como os outros, em prateleiras.
De modo que, me desculpem, mas prefiro os pacíficos livros à voracidade da dita natureza. Antes um Paraíso ideal do que um natural. O primeiro pode até não existir, o que nos dá esperanças de que, talvez, exista, mas numa outra parte do mundo, da galáxia, do universo, sabemos lá onde. Quanto ao segundo Paraíso, como assim o chamam, ou o veem alguns, certamente ele não existe. E quem duvide, que assista aos curiosíssimos espetáculos que a natureza a toda hora nos prodigaliza, os repastos de todos alimentando-se de todos, o odor de putrefação que se exala de todas as matas.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de setembro de 2009.]