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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Entre a salvação e a ruína

Atendendo ao pedido de alguns amigos e leitores que não puderam ler um artigo que publiquei no jornal Folha de S. Paulo, na coluna Tendências/Debates de 27 de março passado [2009], transcrevo-o abaixo:

“NOS MEUS dias de estudante em Mariana, MG, um amigo me dizia, em tom de brincadeira e crítica, que aquela era a única cidade que ele conhecera onde o patrimônio histórico não só era "tombado, como também escorado". O objeto de seu comentário era um antigo sobrado que agonizava em plena praça Cláudio Manoel, defronte à Sé de Mariana, durante anos mal sustentado por escoras de madeira, numa eterna iminência de queda.
Hoje, o prédio encontra-se restaurado, mas vários outros não tiveram a mesma sorte: foram ao chão, por descuido de seus proprietários e dos poderes públicos. E tal se deu na rua Direita, um dos "cartões-postais" da cidade.
Se isso foi possível na turística primeira capital de Minas Gerais, com suas imponentes igrejas, da Sé, de São Francisco, de São Pedro dos Clérigos e de Nossa Senhora do Carmo – cujo interior, riquíssimo, foi praticamente todo devorado pelo fogo, em 1999-, imagine o que poderia ocorrer em distritos afastados da sede do município.
Pois não é preciso mais imaginar: já está acontecendo, em Santa Rita Durão, distante pouco mais de 20 km de Mariana. Berço do poeta árcade – autor do épico "Caramuru" – cujo nome, em 1895, substituiria o de Inficionado, denominação primeira do lugar, esse distrito marianense possui dois preciosos templos do século dezoito que estão se desfazendo ante os olhos da população. A matriz de Nossa Senhora de Nazaré, cuja construção teve início em 1729 e que foi tombada em 1945, passa por uma restauração que já completou o décimo aniversário sem que melhora alguma possa ser vista.
As infiltrações de água danificam suas paredes, o entablamento, o piso e, principalmente, a pintura do forro, de João Batista de Figueiredo, datada de 1778 e que se encontra quase completamente destruída. Além disso, a falta de vigilância permitiu que parte de sua decoração de talha fosse arrancada dali. E dizem que nem sequer o foi na calada da noite... Já a capela de Nossa Senhora do Rosário, uma joia do rococó, igualmente tombada em 1945 e que tem excelentes pinturas nos forros da capela-mor e da nave – estas, pelo menos, restauradas em 2000 –, apresenta um avançado estágio de deterioração estrutural. Suas paredes de taipa pendem para o lado e nelas se observam grandes e profundas rachaduras. Tal inclinação permitiu que o reboco, em muitas partes externas, ruísse de seus suportes e provocou o deslocamento dos retábulos colaterais.
A situação ainda é mais grave quando se recorda que num deles, o colateral esquerdo, existe uma obra atribuída a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que está seriamente ameaçada. Ou seja, nem o Aleijadinho está a salvo em Santa Rita Durão, Mariana. Ao descaso dos órgãos públicos, que não investigam tais fatos ou não tomam as medidas cabíveis para saná-los, soma-se o pouco caso dos interesses privados. Em visita recente (janeiro de 2009), fomos informados pelos moradores que, em razão da queda de uma ponte em março de 2008, os caminhões das mineradoras que exploram a região têm desviado seus trajetos costumeiros e acabam por passar perto da capela, comprometendo ainda mais suas fundações.
Como se vê, trata-se menos de um caso de esquecimento e mais de verdadeira omissão. Que se compreende, mas não se justifica, pelo fato de o distrito não se situar nas rotas turísticas principais, por ser distante da sede e pelo número pouco elevado de habitantes – ou por serem eles pouco influentes do ponto de vista político. Por outro lado, são várias e bem conhecidas as autoridades que poderiam dar um basta a essa vexaminosa situação: a Arquidiocese de Mariana, proprietária dos prédios, o governo municipal, o estadual e o federal, quer diretamente, quer por meio de seus institutos de preservação do patrimônio ou de incentivo ao turismo.
A iniciativa privada também deveria fazer algo por eles, seja pelo seu potencial de atração de visitantes, seja como marketing social – moeda tão apreciada hoje em dia por entidades que, muitas vezes, parecem sofrer de uma consciência um pouco pesada. Em tempos de tão cantada e decantada crise econômica, pedir recursos para a proteção do patrimônio deve soar a alguns ouvidos como um verdadeiro absurdo. Mas relíquias do nosso passado, diferentemente de lucros e investimentos, não podem ser refeitas a cada novo ano fiscal. São obras únicas e insubstituíveis.
Registramos aqui a denúncia e cobramos céleres providências por parte dos responsáveis. É salvarmos os templos ou incluí-los numa outra modalidade turística ou arqueológica: a visitação e o estudo das ruínas do século XVIII mineiro.”

Foi este o texto que naquele jornal publiquei. Espero que achem interessante.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 4 de abril de 2009].

Uma campanha positiva

O texto da semana passada [4 de abril de 2009] foi uma reprodução de um artigo meu publicado no jornal Folha de S. Paulo em 27 de março último, na seção Tendências/Debates. Reproduzi-o a pedido de alguns amigos e leitores que, sabendo da publicação, não conseguiram lê-la a tempo.
Ele foi resultado de uma visita de campo a um distrito de Mariana, MG, realizada por mim e por colegas do curso de especialização em Cultura e Arte Barroca da Universidade Federal de Ouro Preto. Lá constatamos o iminente risco de queda de algumas igrejas históricas, patrimônios artísticos nacionais ameaçados de ruína. Indignados, tomamos as providências possíveis: escrevemos uma carta denunciando os fatos e a enviamos às autoridades competentes.
O barulho que criamos rendeu bons frutos. A Folha de S. Paulo se interessou pelo caso, concedeu espaço para o meu artigo, e ainda fez uma longa matéria, publicada em 6 de abril, tratando do descaso dedicado a alguns velhos templos mineiros, matéria a qual, remotamente, assessorei. E tanto o artigo quanto a reportagem tornaram mais evidente ao público aquela situação, repercutindo favoravelmente pela causa. Soube, aliás, por uma amiga que mora em S. Paulo, que a tevê interna do metrô exibia, nos vagões, a todo momento, uma chamada sobre a situação e remetendo à matéria do jornal.
É claro que este é só um trecho do caminho a ser percorrido. Muito mais há que ser feito. Mas, pelo menos, demos o primeiro passo.
O escandaloso em toda esta situação a respeito do patrimônio é que o seu abandono só se agrava. Em meu artigo, alertei para o fato de que os templos em questão encontravam-se em ruínas iminentes porque, também, distantes do centro da cidade, da turística Mariana. Pois é, para minha surpresa, eis que na semana seguinte surge a notícia de que a Igreja de São Francisco de Assis, no coração daquela cidade e um dos seus principais cartões-postais, foi interditada, sob risco de desabar! É inacreditável. E, o mais absurdo é que, segundo a reportagem, tal medida foi levada a cabo depois de vários meses, pelo fato das autoridades e funcionários do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), “não encontrarem os responsáveis pela administração do prédio”. Ora vejam! Dizia um amigo meu que, na sua opinião, todos os ficais do IPHAN ou eram cegos ou doentes dos olhos: tudo se passava na frente deles que, aparentemente, nada viam. Deveríamos, então, acrescentar que, além de cegos, são também surdos: bastaria perguntar a qualquer transeunte da cidade que aquele, prontamente, daria a resposta, quando não acompanharia o fiscal até a própria casa de um dos responsáveis. Agora fica fácil entender porque o patrimônio histórico nacional sofre tanto. Quem deveria vigiar, não vigia corretamente.
Nossa parte, ao menos, estamos fazendo. E o leitor deveria, também, se manifestar sempre que diante de um fato desses. Ou fazemos o que nos cabe, ou num futuro bem próximo não teremos nem sombra do nosso passado. Corremos o risco de que as próximas gerações pensem que nosso país foi construído anteontem...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 11 de abril de 2009].

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Trabalho sem fim

Depois da metade de um dia de pesquisa na Biblioteca dos Bispos de Mariana, num ambiente escuro, cercado por raridades, julguei que merecia uma pequena pausa. Deixei o prédio e fui esticar as pernas, num banco da praça fronteira.
Por sorte, àquela hora da tarde, a temperatura abrandara um pouco, o sol se escondera atrás das nuvens e um vento bastante ameno passara a soprar. E vi que a ideia de aproveitar aquele ambiente sombreado não fora só minha. Por toda a praça viam-se pessoas, refesteladas, nos bancos. Chamaram minha atenção três senhoras, em pontos distantes uns dos outros, com vassouras apoiadas nos encostos de madeira. Eram, evidentemente, varredoras de rua, que aproveitavam um breve descanso.
O tempo foi passando e aquela ligeira pausa se seguia, aparentemente sem fim. Até que todas, ao mesmo tempo, se levantaram, varreram algumas folhas – poucas, e nada do lixo que as circundava – e recolheram-nas com uma pá. Poucas folhas foram para uma lixeira, já transbordante e, claro, a maior parte delas voltou para o chão. As mulheres pareceram não se importar. Tanto que voltaram, logo em seguida, placidamente, aos seus bancos. Novo descanso.
Não fiquei ali para ver por quanto tempo mais repetiriam aquela rotina. Afinal, tinha meus afazeres. De volta à biblioteca, entre a consulta de um livro e outro, eu aproveitava para dar uma espiada pela janela. E a toda vez as via sentadas, mas agora mais próximas, e conversando.
Perto do fim da tarde, finalmente atingiram o canto da praça mais próximo do prédio onde me encontrava. Não precisava mais acompanhá-las com o canto dos olhos. Agora, o ruído da varrição me informaria de seu ritmo de trabalho. E os ouvidos confirmaram aquilo que tinha visto. Varriam muito pouco e, logo em seguida, paravam. E conversavam, conversavam, conversavam...
Para mim, já bastava daquilo. Atirei-me aos livros, e me esqueci delas, de seu trabalho duplamente leve, fingido e um tanto inútil.
Ao fim do dia, saí e passei por elas. A praça continuava coberta de folhas e de um pouco de lixo, em idêntica forma a que a vira horas antes. Mas, naquele instante, um vento súbito, razoavelmente forte, soprou por entre as árvores, desfolhando-as com rigor. O calçamento, então, cobriu-se quase completamente. E ouvi de uma das varredoras, que contemplava a mesma cena e seus resultados, a seguinte frase, lançada às outras:
– Que coisa! Todo um dia de trabalho perdido...
Um dia de trabalho perdido! Pensei na tarefa inútil e sem fim que é varrer folhas. Inútil e infinito porque elas sempre, e sempre, continuarão a cair. Mas dia após dia, lá estão as mulheres, que são pagas para isto, a varrer e a fingir que varrem, ignorando o lixo, enchendo transbordantes cestos que devolvem ao calçamento as folhas que deveriam conter. Pensei, mais brandamente, que talvez fosse pelas varredoras saberem da inutilidade daquele trabalho, que as levava a simular algum esforço. Pode ser. Em todo caso, ainda que finjam por conhecerem aquela faina infinita, tal fingimento não desvia um palmo de um fato inquestionável: há algo, naquela atividade constante e sem frutos, de vagamente infernal...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 03 de outubro de 2009.]

domingo, 26 de julho de 2009

A Biblioteca de Alphonsus

Quem visita a confortável casa do poeta Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), o Pobre Alphonsus, em Mariana, percorrendo suas salas e quartos transformados em museu, observando os móveis, os adornos, imaginando como fora a sua vida e a da família, muitas vezes não percebe uma preciosidade, meio oculta, em meio às antiqualhas quotidianas, ainda que de um passado nem tão remoto. Entre os muitos cômodos daquele solar, existe uma antiga alcova, que encerra, aos olhos dos mortais comuns, a biblioteca do autor de Ismália. Ali estão as fontes, mais do que a da vida, do Parnaso e dos botequins dos quais ele bebeu.
Soube, por gente confiável, que sua biblioteca encontra-se inteiramente catalogada. Quanto ao acesso ao público, não conheço suas regras. Em todo caso, acredito que ela deva se tornar mais conhecida, pois, certamente, o estudo daquele acervo daria ótimos frutos a todos os interessados na vida e na obra do poeta. É claro que tal empreita rodeia-se de alguns problemas. Acervos familiares, geralmente, são desbaratados. Neste caso, as dificuldades se agravam em razão da vasta prole que teve o poeta: vai um livro para um filho, outro para uma filha, um se perde na mudança, outro emprestou-se ninguém sabe a quem. Muitas vezes, uma leitura passageira imortaliza-se numa estante. Noutras, a referência capital de uma vida desaparece sem deixar rastro. Entretanto, há uma grande possibilidade de que muitas leituras que inspiraram Alphonsus ainda estejam por ali.
Assim, pergunto-me, por que não cotejarmos os livros, os anos em que vieram ao prelo, frente à produção coetânea do poeta? O que, por exemplo, ele teria lido, ou supostamente lido, à época da publicação do Setenário das Dores de Nossa Senhora, Câmara ardente ou Dona mística? Quais livros se juntaram ao seu acervo antes que Kyriale e Mendigos fossem publicados? Em suma, o que lia Alphonsus enquanto produzia sua obra?
Tais questões, à primeira vista, parecem um preciosismo. Um luxo para pesquisadores desocupados, locatários da torre ebúrnea onde vivem os poetas. Todavia elas são, de fato, a chave para a compreensão de todo o pensar e fazer poéticos de Alphonsus. Pois assim como um pintor retrata aquilo que vê (pelos olhos de outros seus confrades e nem tanto pelo que observa a olho nu), que um músico compõe a partir do que escuta ( mais dos mestres e de seus contemporâneos, menos do ramerrão das ruas), um homem de letras escreve, justamente, a partir delas próprias, daquilo que lê. Assim foi e assim sempre será. As ásperas paisagens cantadas por Cláudio Manoel da Costa, eram as da Arcádia, mítica e literária: um registro poético universal, não um relatório topográfico local. E as musas de Gonzaga – antes de Marília, contam-se outras – eram muito mais um tema, do que uma verdade, plena e plana: um recurso da poesia, não um retrato de uma senhorinha local. E o mesmo se aplica a quem se queira, de Homero a Basílio da Gama, de Virgílio a Santa Rita Durão, de Ovídio a Silva Alvarenga, de Catulo a Alvarenga Peixoto, dentre muitos outros, em tempos e países para além das Minas dos setecentos.
Conhecer a biblioteca de Alphonsus é conhecer Alphonsus e sua obra. E, portanto, espero que alguma alma curiosa esteja se ocupando daquele importante acervo. Em todo caso, não custa sugerir. Fica, aqui, assim, este manifesto de ouro: que venham outros, com suas ferramentas referencias e teóricas, extrair o que se encontra oculto entre as prateleiras de uma velha casa marianense. O povo anseia pelos resultados.

[Esta crônica foi originalmente publicada nos jornais A Notícia, de Leme, SP, em 11 de julho de 2009, e O Inconfidente, de Ouro Preto, MG, em 25 de julho de 2009 (www.oinconfidente.com.br/website/Text.aspx?id=443), edição online]