domingo, 26 de julho de 2009

A Biblioteca de Alphonsus

Quem visita a confortável casa do poeta Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), o Pobre Alphonsus, em Mariana, percorrendo suas salas e quartos transformados em museu, observando os móveis, os adornos, imaginando como fora a sua vida e a da família, muitas vezes não percebe uma preciosidade, meio oculta, em meio às antiqualhas quotidianas, ainda que de um passado nem tão remoto. Entre os muitos cômodos daquele solar, existe uma antiga alcova, que encerra, aos olhos dos mortais comuns, a biblioteca do autor de Ismália. Ali estão as fontes, mais do que a da vida, do Parnaso e dos botequins dos quais ele bebeu.
Soube, por gente confiável, que sua biblioteca encontra-se inteiramente catalogada. Quanto ao acesso ao público, não conheço suas regras. Em todo caso, acredito que ela deva se tornar mais conhecida, pois, certamente, o estudo daquele acervo daria ótimos frutos a todos os interessados na vida e na obra do poeta. É claro que tal empreita rodeia-se de alguns problemas. Acervos familiares, geralmente, são desbaratados. Neste caso, as dificuldades se agravam em razão da vasta prole que teve o poeta: vai um livro para um filho, outro para uma filha, um se perde na mudança, outro emprestou-se ninguém sabe a quem. Muitas vezes, uma leitura passageira imortaliza-se numa estante. Noutras, a referência capital de uma vida desaparece sem deixar rastro. Entretanto, há uma grande possibilidade de que muitas leituras que inspiraram Alphonsus ainda estejam por ali.
Assim, pergunto-me, por que não cotejarmos os livros, os anos em que vieram ao prelo, frente à produção coetânea do poeta? O que, por exemplo, ele teria lido, ou supostamente lido, à época da publicação do Setenário das Dores de Nossa Senhora, Câmara ardente ou Dona mística? Quais livros se juntaram ao seu acervo antes que Kyriale e Mendigos fossem publicados? Em suma, o que lia Alphonsus enquanto produzia sua obra?
Tais questões, à primeira vista, parecem um preciosismo. Um luxo para pesquisadores desocupados, locatários da torre ebúrnea onde vivem os poetas. Todavia elas são, de fato, a chave para a compreensão de todo o pensar e fazer poéticos de Alphonsus. Pois assim como um pintor retrata aquilo que vê (pelos olhos de outros seus confrades e nem tanto pelo que observa a olho nu), que um músico compõe a partir do que escuta ( mais dos mestres e de seus contemporâneos, menos do ramerrão das ruas), um homem de letras escreve, justamente, a partir delas próprias, daquilo que lê. Assim foi e assim sempre será. As ásperas paisagens cantadas por Cláudio Manoel da Costa, eram as da Arcádia, mítica e literária: um registro poético universal, não um relatório topográfico local. E as musas de Gonzaga – antes de Marília, contam-se outras – eram muito mais um tema, do que uma verdade, plena e plana: um recurso da poesia, não um retrato de uma senhorinha local. E o mesmo se aplica a quem se queira, de Homero a Basílio da Gama, de Virgílio a Santa Rita Durão, de Ovídio a Silva Alvarenga, de Catulo a Alvarenga Peixoto, dentre muitos outros, em tempos e países para além das Minas dos setecentos.
Conhecer a biblioteca de Alphonsus é conhecer Alphonsus e sua obra. E, portanto, espero que alguma alma curiosa esteja se ocupando daquele importante acervo. Em todo caso, não custa sugerir. Fica, aqui, assim, este manifesto de ouro: que venham outros, com suas ferramentas referencias e teóricas, extrair o que se encontra oculto entre as prateleiras de uma velha casa marianense. O povo anseia pelos resultados.

[Esta crônica foi originalmente publicada nos jornais A Notícia, de Leme, SP, em 11 de julho de 2009, e O Inconfidente, de Ouro Preto, MG, em 25 de julho de 2009 (www.oinconfidente.com.br/website/Text.aspx?id=443), edição online]

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