domingo, 26 de julho de 2009

Gringos

Há alguns dias, um antigo professor meu, que se tornou um grande amigo, convidou-me a acompanhá-lo numa visita a algumas igrejas de Ouro Preto. Ele estava recebendo um grupo de universitários norte-americanos em visita ao Brasil, estudantes de português que quiseram testar seus conhecimentos da nossa língua in loco. E, ao mesmo tempo, conhecer um pouco do país. O grupo era capitaneado pelo professor deles, que organizara a viagem segundo um método bastante incomum para nós. Geralmente, nestes casos, os alunos são hospedados num único lugar, pousada, hotel ou albergue, e sua interação com os habitantes locais acaba bastante reduzida. Talvez prevendo tal possibilidade, o que ele propôs era algo diferente: dividiu-os em duplas e cada uma delas deveria se hospedar numa república estudantil diferente. E, mais do que isto, deveria atuar de alguma maneira na cidade. Como, nestes dias, está ocorrendo o Festival de Inverno, não foi difícil arrumarem algo para fazer, e se inscreveram como monitores nalgumas das atividades propostas pela organização do festival. Resumindo: a redoma que geralmente é posta sobre os estudantes em viagem, isolando-os do resto do mundo, foi estilhaçada. Vê-se, portanto, o quão arrojada foi a aposta.
Naquela tarde de caminhadas e visitas, o professor norte-americano confidenciou-nos que sua boa intenção não se cobrira dos êxitos que imaginara. Se, por um lado, a fluência em nossa língua melhorara, e o contato com a população local tornara-se efetivo, a familiaridade com a mesma, digamos, assim, tornara-se excessiva: alguns namoricos começaram a surgir, as bebedeiras noturnas ficaram a cada dia mais comuns, e o cronograma das atividades se ressentia disto: não se galga uma ladeira com facilidade e rapidez quando o corpo padece dos excessos de uma noitada. E a atenção e a concentração vão para o espaço. Em suma, o tiro não saiu pela culatra, mas a expulsão do cartucho feriu o atirador...
Sua principal queixa era ante ao fato de que o que deveria ser uma viagem de estudos estava se convertendo numa espécie de Spring Break Vacation (“férias de primavera”, em tradução livre), aquela semana ou duas em que os estudantes norte-americanos vão ao México ou ao Caribe atrás de festas, noitadas, bebidas, drogas e sexo, como muitos filmes mostram. O mesmo que nossos estudantes secundaristas fazem em Porto Seguro, BA, na “semana do saco cheio”. Ou melhor, são os nossos que os copiam, com os mesmos resultados. Mas com uma grande diferença. Lá, são universitários, maiores de idade, livres para fazerem o que bem entendem. Aqui, secundaristas e menores de idade, deixados livres por seus pais, mas não pela lei, que, todavia, nada faz para coibir excessos. E, depois, os norte-americanos é que são hipócritas...
Voltando ao grupo em visita, chamaram-me a atenção dois fatos. Em primeiro lugar, a extrema variedade étnica e cultural dos seus componentes. Dos quatorze rapazes e moças, somente dois eram gringos legítimos. Os demais eram negros, mulatos, hispânicos, ítalo-americanos. E havia até mesmo um rapaz de marcadas características árabes, além de um pouco de sotaque. Em suma, o registro de uma diversidade que raramente vemos por aqui, em nossas universidades. E eles é que são racistas!
Em segundo lugar, impressionou-me o aspecto quase infantil de todos eles. Havia momentos em que pensava estar lidando com meninos e meninas do primeiro ou segundo ano do ensino médio: o mesmo olhar meio perdido, o mesmo ar preguiçoso, o mesmo desinteresse por tudo, ou quase tudo, que não sejam eles próprios. E aquela crassa ignorância de todas as coisas que não surgiram no mundo junto com sua geração, ou pouco depois.
Neste ponto, até que fiquei animado. Nossos universitários, se não são mais maduros, pelo menos procuram ser. Ou fingem muito bem. Afetam mais conhecimentos, elaboram discursos mais articulados, povoam de jargões os seus diálogos. E fazem poses meditativas, sérias, inquiridoras. Por isso, poderíamos até dizer que, na aparência pelo menos, os nossos se saem melhor que os deles.
Portanto, devemos comemorar! Pelo menos nesta matéria tão pequena, podemos ver os Estados Unidos se curvar ao Brasil...

[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de julho de 2009]

Nenhum comentário:

Postar um comentário