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domingo, 29 de agosto de 2010

Heróis lendários e farsantes de ocasião

Quando alguém quer ridicularizar a organização dos esportes no Brasil, costuma contar um causo de um nadador brasileiro sem braço que teria participado da Olimpíada de 1920, em Antuérpia. Trata-se de um exagero, é verdade, mas parece aquele tipo de piada pronta, e irresistível, diante da qual ninguém verifica os fatos. Aceita-se, porque o chiste é ótimo, mesmo que inexato.
Mas, na verdade, não era bem assim. O atleta que hoje se tornou alvo involuntário e imerecido de galhofas foi, no passado, um dos maiores nomes da natação brasileira. Chamava-se Abraão Saliture, foi o primeiro campeão brasileiro dos 1.500 m, nado livre, no mar, em 1898, e venceu diversos campeonatos, vários deles internacionais, entre os anos de 1901 a 1906 e 1909 a 1920, o ano da Olimpíada. A qual, aliás, não seria a sua última: participou ainda da Olimpíada de Los Angeles, de 1932, com 49 anos de idade. Quanto ao seu problema físico, ele era, na verdade, um defeito no braço, adquirido na infância, resultado de uma doença não diagnosticada então. O que não o impediu de competir, naqueles jogos de 1920, para além da natação, e também no remo e no pólo aquático. Infelizmente, pouco mais se conhece deste intrépido herói: não encontramos registros de seu nascimento (presumivelmente 1883), origem, vida após os Jogos Olímpicos, ou de sua morte. Seus dados pessoais que chegaram até nós em pouco diferem do que sabemos dos antigos atletas gregos: um nome, uma participação olímpica, e pouco mais.
O leitor, ao cabo das linhas acima, deve ter ficado absurdado com a longevidade profissional, atlética, do bravo Abraão Saliture. “Competindo, ainda, aos 49 anos? E com um defeito no braço?”, deve ter pensado. Pois é. E, ao que tudo indica, cumpriu muito bem o que se esperava dele. Assim como o remador Amir Klink, com um defeito na mão, e 29 anos nas costas (em termos esportivos já não poderia ser considerado um jovem) cruzou sozinho o Atlântico, sem contar outras façanhas que fez depois. Sem falarmos nos intrépidos atletas paraolímpicos brasileiros, muitos deles já meio passados da idade, em comparação aos seus êmulos ditos normais, e que triunfam sobre suas desvantagens de forma briosa, quase mágica, e trazem muito mais medalhas das competições que a média dos ditos perfeitos.
Mais uma questão a ser colocada. O primeiro ouro olímpico brasileiro, a primeira prata e o primeiro bronze, couberam, respectivamente, a Guilherme Paraense, Afrânio da Costa e à equipe brasileira de tiro, à qual os dois primeiros pertenciam. Um pormenor curioso da trajetória deles pode ser verificado nos percalços que sofreram até chegarem a Antuérpia. Viajando às suas próprias expensas, tiveram de desembarcar, do navio que os levaria até a Bélgica, ainda em Lisboa, informados que foram de que o mesmo não chegaria a tempo para as provas. Seguindo de trem, tiveram parte das armas e da munição roubadas. Chegando a Antuérpia, com fome e quase sem o material esportivo – suas ferramentas de trabalho – foram salvos pela equipe norte-americana, que, deles condoída, emprestou-lhes armas e munições que os brasileiros não conheciam. E, ainda assim, nosso representantes triunfaram.
Pois bem, todos estes fatos vêm à mente quando pensamos no pífio resultado nesta Copa de nossa Seleção Canarinha (ou Canalhinha, como querem alguns), também conhecida como Legião Estrangeira (como querem outros, pelo fato da maioria dos jogadores atuar noutros países que não o nosso). Um grupo nababescamente pago, regiamente hospedado, divinamente incensado por público, imprensa e marketing, e que nada mostrou, nada fez. Ou melhor, fez e mostrou (para além de um gol de braço, ocorrido antes), apenas no primeiro tempo do jogo em que acabaria por ser desclassificado, e de virada.
Os motivos para a derrota apresentados – não pelos jogadores, estes deuses de chuteiras Nike incapazes de uma séria autocrítica: deuses, afinal, não se contradizem – mais uma vez repousam, alegadamente, nos problemas físicos de um único jogador. O que, à primeira vista, pode parecer perseguição a ele, o que, todavia, não é. Se o dito ataque brasileiro tinha como base três jogadores, e um deles não estava em plena condição de jogo – já de saída, dizem, graças a problemas nas partes pudendas – nada, evidentemente, poderia dar certo. Pensemos num banco de três pés. Afrouxemos um. No que resulta? Tombo na certa. E o que mais irrita é que noutras copas, com outros envolvidos, também ocorreu o mesmo: escalaram-se elementos sem fôlego, ou avariados, ou um pouco passados da idade, e sobre tais ruínas resolveram erigir fortalezas. Naquela ocasião, como agora, deu-se o que era de se esperar.
Entretanto, busquemos informações sobre estas nulidades efêmeras, cometas radiantes e passageiros, astros em ocaso: encontraremos legiões de fãs, páginas e mais páginas de amenidades tratadas como registro histórico, discursos laudatórios, e apaixonados, defendendo seus gostos pessoais, desejos, vontades. Sua fama, transitória na essência, parece imorredoura, na aparência que alguns a ela querem dar. Mas serão, no futuro, evidentemente, palavras ao vento.
Os velhos Abraão Saliture e Guilherme Paraense têm, de fato, o estofo e a fama dos atletas gregos: legendária, heróica e concisa. Os novos – o nome deles será irrelevante daqui a alguns anos – gozam, por enquanto, da mesma parcela da Fama que, no Passado, usufruíram os semi-aleijados, e mercenários, gladiadores romanos: um certo grau de onipresença na atenção popular, inscrita em paredes e objetos de adorno de gosto discutível. E o completo esquecimento por parte das gerações vindouras.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 20 de julho de 2010].

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Sob o signo de Circe

Uma notícia recente de jornal deu conta de que uma nova geração de atletas “geneticamente modificados” poderá estar competindo nas Olimpíadas de Atenas. Tais atletas teriam acrescentado à sua composição genética outras combinações de DNA e, com isso, melhorado seus desempenhos esportivos. A informação consta de um livro recém-publicado na Inglaterra, "Genetically Modified Athletes" (“Atletas geneticamente modificados”, do Dr. Andy Miah, um cientista britânico, que alega que o “doping genético”, como já está sendo chamada este tipo de trapaça, não se trata mais de pura teoria, mas, sim, de uma realidade viável. Segundo ele, alguns atletas chegaram a fazer contato com cientistas na vanguarda das pesquisas em engenharia genética.
A possibilidade da criação desse golpe contra a ética no esporte, aliás, era tão presente na mente dos envolvidos no meio, que a própria Associação Mundial Anti-Doping (WADA, em inglês) antecipou-se ao desenvolvimento da ciência naquela área e proibiu esse tipo de alteração física, considerando-a, justamente, doping, tanto na forma de substância, quanto de método, desde o ano passado. De maneira que a transferência de genes extras para o corpo de um atleta, genes estes que possam vir a superdesenvolver áreas chaves da fisiologia como músculos, tecidos ou hemácias, passou a ser proibida antes mesmo de ser considerada possível pela ciência.
Por outro lado, o acima citado cientista britânico, que descobriu tais possibilidades de fraude, vê com bons olhos esse tipo de coisa. Acredita que o futuro do esporte passa por esse caminho e que a idéia de um atleta naturalmente perfeito é um contra-senso romântico. De acordo com ele, como os esportistas já se utilizam dos mais variados meios tecnológicos para melhorar seus desempenhos, o emprego desses novos métodos seria uma etapa normal na própria evolução dos esportes, garantindo performances surpreendentes, recordes extraordinários e outras “maravilhas”. Mas não disse uma palavra quanto aos possíveis efeitos colaterais na saúde de quem cometeria tal coisa. Tampouco dos eventuais efeitos na opinião pública.
Dentre os muitos aspectos relacionados ao sucesso de público dos eventos esportivos, creio que um dos principais, senão o principal, é resultado de uma certa identificação possível entre espectador e atleta. Pois o que é o atleta, em muitos casos, se não uma pessoa absolutamente igual a nós todos e que soube desenvolver além de nós certas habilidades físicas específicas? Qualquer pessoa que já apostou uma corrida com um amigo na infância reconhece-se num corredor dos 100 metros rasos. Pode até invejá-lo, achar que aquele teve oportunidades privilegiadas, e que ele, pacato espectador, poderia até estar no lugar do celebrado atleta se as mesmas oportunidades lhes fossem concedidas. E o mesmo se dá, sabidamente, em todos os demais esportes: quem assiste a um jogo de futebol sem se lembrar das peladas da infância ou da semana passada, sobretudo quando vê um gol perdido, e garante, em alto e bom som que, se fosse ele no lugar do craque, o gol seria feito?
Assim que graça poderia ser vista numa competição em que, digamos, e a grosso modo, veríamos um atleta que acrescentasse traços de DNA de cavalo para disputar uma corrida, outro com DNA de peixe lançando-se numa prova de natação e outro ainda com DNA de pulga competindo no salto em altura? Vá lá que estejamos simplificando muito a coisa, mas que graça todos nós, que não nos submetemos a tais procedimentos, poderíamos ver numa exibição em que seres híbridos, fingindo-se humanos, desempenham tarefas que nunca, jamais, sequer em sonhos, poderíamos desempenhar?
Não, isto não seria esporte, não seria algo com que possamos nos identificar nem mesmo tangencialmente. Para mim, parece-se mais com lutas entre feras, brigas de galo ou corridas de cavalo sem o jóquei, se tal é possível. Seria o caso, também, de se mudar a invocação olímpica dos esportes: os novos e grandes jogos quadrienais deveriam passar a homenagear Circe, aquela deusa da Odisséia que transformava os homens em animais.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em data que não me recordo, mas anterior a agosto de 2004].

Perdemos o caneco. Mas que não venham passar o pires!

Segundo um dito popular, todo brasileiro acha que é técnico da seleção de futebol e também Ministro da Economia, ou da, antiga, Fazenda, ou ainda de uma outra pasta qualquer que mande de verdade. Ou então, uma espécie de novo Messias, porque, afinal, se “Deus é brasileiro”, seríamos, duplamente filhos Dele, e portanto mais próximos para interpretar seus desígnios.
Em suma, o que o ditado quer dizer — e os acréscimos a ele postos, mas que não traem seu espírito, ao contrário, reforçam-no — é que os brasileiros são notórios palpiteiros, e que todos nós acreditamos ser os únicos portadores das verdades incontestáveis, das soluções definitivas, e inéditas, para o futebol, para o Brasil e para o mundo.
Há uma guerra civil nalgum lugar da África, que priva um país de seu funcionamento normal? Pois se o Brasil tivesse mais proximidade com a outra nação, nossa diplomacia seria tão hábil que nada disto teria se verificado. Alastra-se a gripe aviária pela Ásia e Europa? Aqui, mandaríamos meia dúzia de mata-mosquitos e daríamos a tarefa por encerrada — e que o povo comesse carne ou peixe, durante esta providencial solução. O analfabetismo funcional cresce nos países subdesenvolvidos? Qual o quê, somos uma nação de ávidos leitores — veja-se o fenômeno Paulo Coelho — e, pelo menos no Estado de São Paulo, o quase infindável governo sob as garras dos tucanos foi capaz de grandes avanços no campo da Educação. Sei... Agora, contem, como dizia o gaiato, aquela piada do papagaio...
Futebol e economia, em linhas gerais, nada têm a ver com a tímida diplomacia brasileira atual — a anterior também não foi muito melhor. Nem com e a gripe aviária, que, se entre nós não se instalou, por outro lado nos mostrou o rebanho bovino em alguns estados ser vitimado pela febre aftosa, que fechou muitos mercados internacionais para a nossa carne, não obstante os vários e constantes subsídios estatais para o controle e financiamento daquela atividade. E quanto a educação, como um todo, no Brasil, ninguém precisa ser especialista para sabe o quanto ela vem deixando a desejar nos últimos tempos.
Mas reivindico, hoje, senão a condição de técnico de futebol, pelo menos o direito de, enquanto brasileiro — que julgamos poder falar sobre qualquer assunto —, de também me manifestar sobre a infame derrota que a seleção brasileira de futebol sofreu nesta Copa do mundo que se encerra. E julgo-me pronto a tal juízo, por um motivo muito claro: não torço, nem nunca torci, por nenhum time. Querem maior imparcialidade do que isto?
Não torcer por um time não é “ficar em cima do muro”, é louvar a beleza do esporte independentemente de qualquer equipe: quem fez o melhor jogo é que merece a glória, pois o melhor time será sempre aquele que jogou melhor, e mais bonito, numa partida.
E, afinal, o que é torcer por um time de futebol? É endossar, sem crítica alguma, um clube do qual não somos sócios, cuja equipe de atletas é “comprada” de outras agremiações? É jurar fidelidade a um grupo de criaturas que podem muito bem estar jogando noutro time tão logo se encerre a temporada? E que vitória se tem, que não uma vitória de Pirro? Do que adianta ganhar num ano, e nada deste ganho valer para o outro ano? Pois todo o avanço do conhecimento humano e as conquistas materiais, e mesmo espirituais, das civilizações são cumulativos, ou seja, são frutos de tentativas e erros, que a crítica e a decorrente mudança de atitude ou enfoque, procuram retificar para acrescentar algo novo. Aprende-se o á-bê-cê não por ele em si, mas porque é o primeiro passo para a alfabetização. Os exemplos do aprendizado constante são inúmeros. Mas o esporte, seja ele qual for, para o torcedor, é imutável. Ele basta-se por si próprio. Não produz reflexão alguma, porque é efêmero, e é isto que justamente o torna mais digno de louvores por parte daqueles que o defendem, que trocam deliberadamente o “pensar” pelo “gozar”. É efêmero e sempre será, porque os envolvidos são sempre outros, ainda que contenha em si uma “verdade” imutável: o antagonista é sempre o mal, aquele que deve ser exterminado independentemente de quem ele seja, ou mesmo de quem sejamos nós. Autos-de-fé, em que carrascos e vítimas das fogueiras são os outros e nós mesmos, dependendo do dia.
Torcer por uma seleção nacional de futebol é a mesma coisa. Quem gosta do esporte, deve esperar pelo melhor jogo, não importando de quem se trata. Se a nossa equipe foi ruim, e de fato o foi, torçamos pela melhor. Afinal, não nos gritam a todo momento que o ideal da prática desportiva é competir, e não necessariamente vencer?
Os leitores viram, portanto, que nesta crônica não me alvitrei como técnico da seleção nem Ministro da Fazenda. Deste último tema, conheço pouco. Do primeiro, menos ainda. E no entanto não renego a tradição dos brasileiros em palpitar sobre qualquer assunto. De modo que me sinto no direito de bradar contra aqueles milionários que jogam bola, que por dinheiro vestem a camisa de qualquer agremiação — um até chegou a adquirir cidadania espanhola para fins contratuais (sim, aquele mesmo, que arrumava as meias enquanto o ataque adversário campeava) — e que não tiveram a coragem de botar seus pés, inúteis, em solo pátrio, para receberem a justa vaia do povo.
Por fim, é fato, perdemos o caneco — não resisti a um certo saudosismo, pois se a nossa Taça Jules Rimet virou barra de ouro ou peça de colecionador (sou mais por esta alternativa). E que não venham nos passar o pires para “desenvolver o esporte nacional”. Nacional de quem? E que esporte? O daqueles magnatas que se hospedaram num castelo?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 8 de julho de 2006].

A Copa de 2014 não há de dar samba....

Sempre achei detestável aquela prática de muitos políticos que consiste na inauguração de uma obra ainda antes de sua conclusão. O oposto, montar toda uma solenidade para inaugurar algo que já está em funcionamento, se, por um lado, não é tão grave quanto o exemplo precedente, não deixa, por sua vez, de ser patético, zombando dos eleitores, de todo o mundo. E o que dizer então de um homem público que participa de uma cerimônia na qual seria “revelado” algo de que o planeta inteiro já tinha ciência? Será que só ele não sabia? Em se tratando do Presidente Lula, é possível. Afinal, não sabemos que é comum ele afirmar que “nunca soube disto”, “jamais teve conhecimento daquilo”, etc, etc?
Pois é, foi num episódio desta natureza em que ele se envolveu nesta semana, ainda que uma multidão negue o fato. E os mal-intencionados também lhes fizeram coro. Sabemos muito bem o porquê. Podemos perdoar uns. Porém nunca os outros. Pois má-fé travestida de patriotismo, ou melhor, patriotada, o que tem sido verificado no caso em questão, é imperdoável.
Mas qual foi o episódio, em suma? Pois bem, eis que nosso Exmo Sr. Presidente da República abalou-se, na última terça-feira, acompanhado de um séqüito de dezenas de pessoas, para a pacífica Zurique, na Suíça. Já de antemão fica a pergunta: qual o objetivo de tão apressada visita? Seríamos levados a julgar que seria algo de muito grave, certamente. Pois o que levaria nosso Chefe de Estado, acompanhado de tantos ministros e dos governadores dos três Estados mais ricos da Federação, ao lado de outros, a deixar o país com tanta pressa?
Sabemos que os tempos não são dos melhores. O Brasil vê-se assolado por uma epidemia de dengue. A crise aérea é ainda uma realidade tangível. O governo tem dificuldade de aprovar a CPMF, sem a qual, segundo ele, nossa nação seria ingovernável. O Senado atravessa uma das piores crises de sua história. O Sr. Vice-Presidente da República encontra-se hospitalizado, e em razão da ausência do titular, eis que assume o posto de primeiro mandatário, interinamente, o Presidente da Câmara, alvo de investigações recentes. Convenhamos, é uma péssima ora para que Sua Excelência, tantos ministros e governadores deixem nossa nação. Qual seria o motivo, então de tamanho açodamento? Um golpe de Estado? A tentativa de evitá-lo, granjeando apoio externo? Um empréstimo monetário de altíssima monta, a ser ratificado pelos governadores, a maior parte deles da oposição, o que legitimaria o ato, frente ao caos que procurariam combater? Não, senhores, nada disso. Correram para a Suíça para fingir surpresa durante uma cerimônia cujo resultado já era sabido: por ausência absoluta de concorrentes, eis que o Brasil irá sediar a Copa do Mundo de 2014. Resumindo: a nação e os Estados mais ricos do país ficaram em boa parte acéfalos porque seus titulares decidiram “criar um clima” para uma resposta que já era de conhecimento de todos! Não há dúvida que a coisa toda começa mesmo muito mal.
E que séqüito foi aquele que acompanhou o Presidente Lula? Não falo dos Ministros de Estado, que por serem seus diretos prepostos, vão para onde o homem os manda. Mas que raios foi aquilo, dos governadores da oposição, alguns deles seus mais encarniçados rivais, tomarem uma carona com seu arqui-rival?! Guardadas as devidas proporções — que são imensas, e mais no sentido da desproporcionalidade entre os modelos do passado e os exemplares do presente —, meter o Presidente Lula e o governador José Serra de Chirico, juntos, num avião seria o mesmo que colocar Jango e Carlos Lacerda no mesmo vôo. Ou — numa alegoria que seria cara ao líder petista e ao prócere tucano, e consoante a muitos de seus atos e pensamentos — equivaleria a botar o líder da Gaviões da Fiel, lado a lado com o da Mancha Verde, no mesmo ônibus, acompanhados de suas claques. Impossível, portanto. Mas não aqui, não nos dias que se correm, não com os partidos que temos.
E já que falamos das cabeças da comitiva, temos que falar também das caudas. Não falo de uma específica parcela de tal caravana que, por direito, convenhamos, deveria ali estar. Romário, o mais controvertido dos craques nacionais, tem lá a sua história, e não podemos dizer que sua presença em tal cerimônia seja absurda.O mesmo quanto ao técnico da seleção brasileira, e ao presidente da CBF. Ainda que mereçam toda a sorte de críticas — levantadas pelo público, pela imprensa e pelos poderes constituídos — são, indiscutivelmente, símbolos e representantes oficiais do futebol nacional. Gostemos deles ou não. Mas o que dizer daqueles governadores que, antes de apresentar uma partida da Copa deveriam, no mínimo, exibir os índices mais elementares de desenvolvimento social em seus Estados? Sabemos que não quiseram perder uma boa boca-livre, mas o que fazem ali? Sem falar nas pencas de acompanhantes — mulheres, maridos, secretários, secretárias — que também lá desembarcaram. Acho que só ficaram faltando mesmo, em tal oba-oba patrioteiro, o Galvão Bueno, in loco, aquele corneteiro e aquele tocador de bumbo, que são pagos pelo Banco do Brasil para animar qualquer competição esportiva de que se tenha notícia. E, claro, o Ministro da Cultura, que poderia abrilhantar ainda mais a cerimônia com uma “canja” musical. Desde que não cantasse, evidentemente, o samba Pela internet, que o ministro-cantor vendeu para o Itaú, permitindo que fosse reproduzida em comerciais daquele banco por um cantor cuja voz era excessivamente parecida com a sua, atitude que recebeu uma severa reprimenda do Conselho de Ética vinculado à Presidência da República — samba, aliás, marotamente inspirado no clássico Pelo telefone, de 1917, de autoria de Donga (eu disse Donga, gigante do samba e não Dunga, um dos anões da Branca-de-Neve, nem, muito menos, o Dunga técnico da seleção, que parece, a cada dia, menos feliz, nada dengoso, pouco propenso a sonecas e espirros, com muito pouco de mestre, e mais e mais zangado).
Resumo da ópera: dificilmente veremos um belo balé de chuteiras, como dizem. É mais provável uma farsa protagonizada pelos poderes públicos que, posteriormente, em discursos dramáticos, tentará justificar a tragédia que se abaterá nas contas públicas nacionais, que serão levadas, certamente, em ritmo de samba: um samba ruim, aliás.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 3 de novembro de 2007].

Enquanto isto, no país do futebol...

Que guerra, que crimes, que filmes, que nada! Que crises, epidemias, queda do dólar, alta ou baixa da Bolsa! Nada afeta nosso gigante pela própria natureza, nosso impávido colosso deitado eternamente em berço esplêndido! A prova é, que certos temas, relacionados à Pátria Amada, por menos que gostemos deles, impõem-se, muitas vezes, além de nossas vontades, tal a relevância, tal o interesso do público. E, assim, retornamos ao assunto da crônica da semana passada, a futura Copa de 2014, a ser realizada no Brasil.
Louvado como um evento de impacto colossal, que mexeria com os mais profundos brios da nação, comovendo milhões e milhões de corações patrícios, eis que foi o evento soterrado, logo em seguida, por uma avalanche de críticas e suspeitas quanto aos resultados deste processo, que só virá à luz daqui a sete anos. Desde então, não há um articulista sério, na grande imprensa, que não exprima o seu temor quanto ao evento, quanto às suas conseqüências, em nosso combalido país. Até mesmo aqueles que se deixam levar um pouco mais pelo espírito do “somos capazes de sediar uma Copa” ou “que belos espetáculos nós teremos”, não conseguem calar seus receios de que se gaste dinheiro demais, e no lugar errado. Pois é.
Quando da escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Pan-americanos de 2007, as verbas oficiais extrapolaram em tal monta o pré-estabelecido para o convescote esportivo carioca, que até mesmo um observador meio relapso sentiria o cheiro de que algo não estava correto e que um evento de maior proporção haveria de reproduzir, exponencialmente, os erros ali constatados. Pois se as somas aplicadas numa única cidade ultrapassaram as raias do concebível, imaginemos os gastos para a festa da FIFA, que se dará não numa única sede, mas em inúmeras capitais brasileiras. E, o que é pior, com liberação quase que instantânea, de fartos recursos. Conseguem imaginar? Nestas horas lamento não ter estudado um pouco mais Matemática, sobretudo as progressões geométricas e o método para o cálculo dos juros bancários...
Em suma, durante sete anos o Brasil gastará um precioso e escasso dinheiro que falta à Saúde, Educação, Segurança, Transporte e Infra-estrutura (e por ora refiro-me tão somente ao “básico”, porque faltam incentivos públicos para centenas de outras áreas), para, em seu lugar, reformar e construir estádios, estacionamentos para automóveis junto aos mesmos, subvencionar a ampliação da rede hoteleira em algumas cidades, decerto abrir novas avenidas, rasgar novíssimas estradas em detrimento das já existentes — que perecem a olhos vistos. Sem falar no montante que será empregado em outros efeitos “cosméticos”, tão inúteis quanto dispensáveis, num país onde o saneamento básico, a eletrificação e a erradicação do analfabetismo, pela forma como vem sendo tratados, são ainda sonhos para o futuro — um futuro sempre, e a cada vez, mais distante...
Não duvido que boa parte dos planos se cumpram quanto à reforma e construção de estádios, estacionamentos gigantescos para o público, etc. Fico imaginando partidas tidas como “clássicas” realizadas por Inglaterra e França, por exemplo, no reformulado Vivaldão de Manaus, metrópole que criará linhas de bondes para o evento. Itália e Alemanha no reformado Morenão, de Campo Grande, cidade que conta com um ótimo serviço de moto-táxis...Espanha e Rússia na Arena Bahia, a ser construída, em Salvador, capital bem provida no setor de transportes graças à suas eficientes barcas. Zaire e Arábia Saudita no maquilado Morumbi, desprovido de estações de metrô num raio quilométrico — parece que já existe um projeto de linha, e, ao que tudo indica, aquela mesma que já causou uma tragédia. Cito assim, por alto, pois as escolhas dos jogos, para cada capital, dependerá do prestígio político de cada governador. Mas, terminada a festa, o que faremos com estas monumentais construções? Vá lá que o estádio do Morumbi possa acolher um São Paulo e Corinthians. Mas Libermorro e Nacional encherão o Vivaldão? Ubiratan e Sene terão grande audiência no novo Morenão? Como seria o público de um Bahia e Atlético Salvador na Arena Bahia?
Ora, convenhamos, onde o básico ainda não foi feito, o supérfluo é revoltante! É criminoso! Em nosso país, o abastecimento de água ainda é precário. Tratada, então, nem se fala. Esgoto, então, nem pensar. E tratado, muito menos. Quanto às cidades que contam com ambos, são minoria. Coleta de lixo ainda é um problema. Muitas pontes, estradas, usinas elétricas, moradias populares, cujos recursos já foram captados — via impostos — e cujas verbas já foram dispensadas para sua execução, nunca saíram do papel. E agora querem gastar ainda mais dinheiro num evento desnecessário? O qual, aliás, ainda é caro? A grande imprensa, amiúde, tem revelado o superfaturamento de obras correlatas, propinas pagas, descalabros de todo o gênero. Vários articulistas de grandes jornais até já se referem às suspeitas quanto aos possíveis desmandos que serão feitos com o dinheiro público por conta desta Copa. Não só por parte do atual governo, mas também do que o sucederá. Por acreditarem, justamente, que pode-se mudar a pele, mas não o vício: não importa o governo, a rapina é sempre constante, parecem dizer.
Então, que vergonha! Não há oposição decente neste país, que barre tal desvario? Pois é, parece que não há. Parte dela embarcou no “oba-oba”. Outra, é cotada, e incensada pelo grupo que ora governa esta terra, como sucessora natural da atual administração. Mas no que isto importa? Afinal, poderemos assistir, num futuro próximo, o clássico Iêmen e Colômbia no Morumbi, com as presenças do Exmo. Sr. Presidente da República Aécio Cunha Neves e do governador (reeleito) José Serra de Chirico. Isto não é o bastante? Alguém haveria de querer mais? Francamente...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de novembro de 2007].

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Que semana!

Creio já ter contado aos leitores que envio minhas crônicas para A Notícia às quintas-feiras. Portanto, a minha semana, diferentemente da dos demais, não se inicia nas segundas-feiras, nem se encerra aos domingos: submete-se a uma curiosa datação, compreendida entre quintas-feiras. O que, aliás, é muito bom, às vezes, porque os fatos do mundo não se prendem às vontades do calendário oficial. Aliás, muito antes pelo contrário, como diria um bom mineiro: os acontecimentos não se prendem a qualquer cronologia estipulada de antemão, como o sabe qualquer historiador e como o reconhece o senso comum. Por tal motivo, se fala num “breve século vinte”, e por aí afora. Mas a verdade é que, para um cronista, a última semana foi de tal forma repleta de acontecimentos, que chega a tirar o fôlego de qualquer um.
Da Ásia, por exemplo, vieram graves notícias, mas, também, outras esperançosas. Comecemos pelo pior, caso a caso. Na China, uma epidemia de causa desconhecida matou, segundo fontes oficiais, duas dezenas de crianças, contaminando algumas outras milhares. Como naquele país tudo é superlativo, dada a sua população, e como ele está sujeito a uma férrea ditadura, não é de se duvidar que, para além de uma vintena de meninas e meninos mortos, possam existir, na verdade, milhares, e contar-se em dezenas de milhares os infectados. Por outro lado, soubemos que aquela sociedade não é o “bloco monolítico” que se diz, já que pudemos ver muitos chineses defendendo o Tibete (e, claro, apanhando barbaramente por conta disso). E, ao mesmo tempo, graças a tal episódio, precedido de outros, em todas as partes do mundo, eis que se pôde verificar, pela primeira vez na história dos jogos olímpicos modernos, que os povos de inúmeros locais do globo ao invés de aceitarem passivamente a propaganda das Olimpíadas, aproveitaram-se dela para expor suas idéias, gritarem suas reivindicações e, de uma maneira madura, souberam revelar a política que existe por trás da hipócrita pax olimpica.
Do mesmo continente, assistimos, estarrecidos, ao ciclone que varreu a antiga Birmânia, atual Mianmar. E ouvimos, ao mesmo tempo, uma ótima resposta vinda da França, quanto à ajuda que prestaria diante daquele flagelo: mandarão mais voluntários para o socorro do que dinheiro, já que a nação francesa duvida, com toda razão, dos ditadores que dominam aquele país. Perfeito. Raras vezes se vê uma ditadura “enquadrada” – termo caro a elas – com tanta justiça e ocasião. E por falar em descaminho de dinheiro, há até um presidente africano propondo a extinção da FAO, a agência de alimentação da ONU. Mas não porque seu país não precise dos serviços de tal entidade, e sim porque ela gasta, segundo aquele chefe-de-estado, mais com sua manutenção institucional do que com projetos sociais. E por fomentar, com seus recursos, um círculo vicioso e danoso à África, sustentado pelos corruptos que desestimulam a produção de alimentos para cevarem-se dos auxílios mundiais. Relação perversa já identificada por muitos intelectuais africanos sérios.
Pulando para a Europa, eis que soubemos dos pormenores – pavorosos, todos eles – relativos àquele crime monstruoso perpetrado por um austríaco contra sua filha durante vinte e quatro anos. E dos descalabros impostos aos seus filhos/netos (a aberração de tal circunstância, ainda não tem, felizmente, em idioma algum, termo próprio capaz de nomeá-la). Episódio que, por sua crueldade, nos remete ao brutal assassinato de uma menina brasileira que agora começa a se encaminhar para seu desfecho legal, jurídico, depois de ter se tornado um exemplo cabal do quanto a imprensa nacional é sensacionalista, vindicativa, desonesta e ávida por sangue: um “teatro de horrores” (grand guignol, como o chamam os franceses), transcrito num papel que, se espremido, verteria sangue.
Os assuntos da semana passada foram inúmeros. Caberia mencionar, ainda, o plebiscito boliviano, o ciclone que arrasou o Rio Grande do Sul – situação que, segundo os especialistas, pode se repetir em qualquer área litorânea do país e que, pelo que sabemos, poderá ser muito mais devastador noutras regiões, a começar pelos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, sazonalmente incapazes de acudir o povo de suas orlas depois de reles temporais, previstos em razão de suas próprias condições geográficas, políticas e sociais e que, no entanto, ano após ano, parecem pegar as autoridades de calças curtas. Por que será?
Mas depois de tantas tragédias, estranhezas, bizarrices, nada melhor do que rir um pouco, ainda que o tema seja grotesco. Pois não é que um ex-ídolo da juventude caiu de quatro nesta semana? Aliás, nunca soube como ele se tornou um ídolo, porque suas palavras e práticas, para além das desportivas, e olhe lá, nunca comunicaram nenhum valor ou gesto realmente digno de tal idolatria. Mas, voltando ao tema, de que piada mais grossa tal atleta foi capaz de ser autor! Andam dizendo por aí, aliás, que ele deixará de ser chamado “Fenômeno” e, doravante, será conhecido pelo apelido de “Estrogênio”: tal a sua capacidade de atrair a atenção masculina...
Que semana!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de maio de 2008].

Em frente: marche!

As ditaduras, os regimes de exceção e os governos corruptos amam os esportes, e quanto mais espetaculosos, melhores. Os tiranos da antiga Grécia promoviam-nos com largueza de fundos e ocasiões, para além das meras Olimpíadas. Lembremos, por sinal, que a grande campeã entre as cidades-estados de então sempre fora Esparta, um baluarte do autoritarismo.Em Roma, sabia-se que para acalmar as vontades levantadas, a miséria e o senso geral de injustiça, bastava dar ao povo pão e circo (panis et circensis). Em Constantinopla, aqueles imperadores de nomes exóticos incentivavam as corridas de carros (bigas, quadrigas, etc.), que acabaram por se converter numa febre incontrolável, uma paixão belicosa que abatia tanto os competidores quanto o público, divididos em verdadeiros partidos, prontos a matar e a morrer pela defesa das cores de seus times.
Na Idade Média o desvario esportivo foi em parte contido, em boa parte graças à própria fragmentação do poder. Existiam justas entre nobres, torneios que lhes garantiam terras e direitos. E o povo se divertia com lutas entre animais, jogos com bastões, cabos-de-guerra e que tais. Tudo muito violento, primitivo, e que perduravam, na vida dos espectadores, por um correto, exato, espaço de tempo: o tempo preciso de suas execuções.
Já a Idade Moderna, talvez o ápice do saber retórico, teológico, político, artístico e literário da humanidade, galhardamente ignorou as práticas esportivas como um modelo, do que quer que fosse, para a sociedade. Jogava-se a péla, caçava-se, cavalgava-se, esgrimia-se, entre a nobreza. O povo ainda se divertia lançando cães contra ursos, montando em touros, e coisas assim. Mas nenhum atleta foi considerado um herói entre os século XVI e XVIII: então escrevia-se, estudava-se, colonizavam-se continentes, catequizava-se. Não havia espaço para simulacros de heróis: eles existiam, de fato.
Será em meados, para fins, do século XIX, e início do XX, que o esporte, tal como o compreendemos, conhecerá seu renascimento. Amedrontados com a escalada das idéias socialistas, e com as constantes reivindicações dos trabalhadores, governos e empresários se uniram para promover um novo divertimento para as massas: o culto aos esportes. Foi um lance de gênio: ao mesmo tempo em que lucravam com o controle das apostas, preparava-se o povo, fisicamente, para a guerra e para a dura rotina das fábricas; ao mesmo tempo, domava-se a consciência popular, conduzindo suas atenções e vontades na direção daqueles eventos passageiros – vivesse Marx mais alguns anos e ele concluiria que os esportes, e não a religião, seria o verdadeiro ópio do povo.
Hoje, eis que o mundo dito democrático curva-se à horrenda ditadura chinesa. Louva-se a organização daquela gente, sua disciplina, sua arquitetura imponente, seu urbanismo às marretadas e outras coisas do gênero. Nada disso é novo. O mesmo comportamento servil e boçal já foi dispensado à União Soviética (1980) e à Alemanha Nazista (1936), talvez este o maior exemplo. É verdade que os Estados Unidos boicotaram a Olimpíada de Moscou, como era de se esperar frente a um arqui-rival que, inclusive, cometia barbaridades no Afeganistão. Mas o mundo democrático em peso enalteceu as Olimpíadas de Berlim e os super-homens arianos, ninguém se importando com o que eles faziam nos campos de concentração de Dachau, Boyermoor e Oranienburg-Sachsenhausen, já existentes à época dos Jogos, e que confinavam e matavam judeus, ciganos, opositores políticos, católicos, testemunhas-de-jeová e homossexuais. Ninguém questionou. Embasbacado, o mundo se preocupava tão somente com novos recordes olímpicos.
Dizem que o esporte forma cidadãos. Balela! Cidadãos pensam, opinam, interferem nas regras, recriam-nas, não se submetem cegamente a elas, sobretudo quando ditadas por uma minoria pouco transparente. Alguém, por acaso, já elegeu algum membro de qualquer comitê olímpico? E por que, então, sujeitarmo-nos às suas disposições quanto ao que devemos ver, quanto ao que deve ser feito e como? Uma pelada entre o setor de produção e o de embalagem de um fábrica, travada no campinho da empresa, está muito mais próxima do ideal olímpico que as pantomimas oficiais sobre este nome.
Descendo aos pormenores, não há como evitar alguns comentários.
Essa louvação desbragada de um estádio que comparam a um ninho (olhando bem, está mais para arapuca) e do piscinão de Pequim, é francamente detestável. É reduzir a arquitetura à lógica dos parques-de-diversão, segundo a qual basta a algo ser grande e novidadeiro para ter mérito, para ter seu lugar. É associar o fausto duvidoso daqueles monstrengos gigantescos à idéia de triunfo de um regime que, francamente, está entre os mais corruptos e violentos da história.
E aquelas cerimônias de abertura, então? Francamente. O império do mau-gosto. Nossas escolas-de-samba com seus bestialógicos têm muito mais arte e engenho do que aquelas procissões profanas atrás de um pálio de mentirinha, aqueles desfiles militares travestidos de festa. Olhando para elas, tenho sempre a impressão de ver o banho de sol de prisioneiros num pátio de penitenciária, só que de presos fantasiados, e tocados a chicote. Daí sua eficiência, disciplina, etc... Daí o interesse que as ditaduras, os regimes de exceção e os governos corruptos têm pelos esportes.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 16 de agosto de 2008].

Zêuxis, Parrásio e o futebol olímpico

Há uma fábula de que gosto muito. Plínio, o Velho (23 d.C. – 79 d.C.), conta-a como se história fosse. Mas, cá entre nós, todos seus elementos parecem muito mais morais do que reais. Mas vamos a ela.
Segundo Plínio, Zêuxis, de Heracléia (c. de 464 a. C.) e Parrásio, de Éféso (?), depois, de Atenas, os dois maiores pintores daquela verdadeira Idade de Ouro da Grécia, aceitaram um desafio cujo objetivo era provar qual deles era o maior artista. O primeiro era altamente conceituado, produzia para um extenso público, era o queridinho de todos, ainda que Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C) o criticasse, ainda que batesse em leão morto. Já Parrásio, um artista conceituado já pelos anos de 399 a.C., tinha a sua clientela bem menor, ainda que entusiasta. Quando digo que tudo cheira à fábula, todos podem compreender porquê: a cronologia não se encaixa muito bem. O tempo de vida de cada um não se concatena como deveria. Mas retornemos à disputa dos artistas.
Zêuxis realizou sua obra e cobriu-a com uma cortina. Na hora marcada para a avaliação, abriu-a e, por detrás dela, havia a pintura de uns cachos de uva, de tal forma realista, que um bando de passarinhos invadiu o espaço, onde se dava a contenda, para bicar aquelas frutas. Não é preciso dizer que o aplauso da audiência foi imenso.
Com o gosto do triunfo na boca, o artista pediu a Parrásio que abrisse a cortina que cobria sua obra e, assim, a revelasse. Mas este, por sua vez, não esboçou qualquer movimento. Então Zêuxis percebeu a maestria de seu rival. A cortina, na verdade, era a pintura. Não lhe coube outra saída que não proclamar: “Eu pude enganar os pássaros, mas Parrásio foi capaz de iludir o próprio Zêuxis”.
Percebem, portanto, qual o desfecho do duelo. Mas Zêuxis sempre será mais lembrado do que Parrásio. E injustamente, diga-se. Ele será, eternamente, o modelo de alguém de sucesso que decai. Já quem o depôs, ironicamente, afunda no esquecimento. Uma injustiça, torno a dizer. Mas somos assim, mais defensores das causas perdidas do que das triunfantes.
Tudo bem, mas o que isto tem a ver com o futebol olímpico?Pois bem, tem tudo.Zêuxis é representado por nossa seleção masculina, a “canarinha”, como dizem mitos, ou “canalhinha”, como querem outros. Parrásio é nossa seleção feminina, muito mais eficiente, e mais bela de se ver, por motivos óbvios, do que aqueles machos, peludos, mercenários e incompetentes. Um time de belas moças que superou seus confrades esportivos, em tudo que é possível e imaginável. Sua elegância foi patente, coisa que não estamos acostumados a ver por parte dos nossos cultuados, e semi-endeusados, arranca-tocos.
A tristeza disto tudo é que pouco se falará do belo empenho das moças, comparativamente às inúmeras laudas que serão escritas, lamurientas, acerca de nossos pernas de pau.
Seria a vingança de Zêuxis? Não, creio que se trata da apenas estultice da imprensa e do público nacionais. Isto de deixar à míngua os Parrásios, não é novo. Que se divirtam com os brilharecos, parecem todos insinuar. Mas até quando?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 23 de agosto de 2008].

Um Fantasma de carne e osso

Durante um certo tempo, morando numa cidade cujo nome não vem ao caso, freqüentei um determinado bar. Ou melhor, botequim. Era limpo, realmente limpíssimo, para o seu gênero. E o cardápio até que era interessante, mas curiosamente nunca vi ninguém comendo por ali. Interpretei tal fato como uma espécie de conselho, velado. E nunca me arrisquei a provar de suas iguarias. Deixo a outros tal aventura.
A clientela do lugar, como é comum em tais estabelecimentos, era bastante variada, mas com certa predominância de pessoas de meia-idade e idosas. De modo que era um sítio bastante silencioso, livre da algaravia e do barulho para além do limite que fazem os jovens depois de três ou quatro cervejas. Quanto à conversa, ali, ela não era das melhores, pelo contrário. Aliás, acho que ia até lá, justamente, porque não havia conversa nenhuma, ou quase nenhuma. Ninguém tergiversava absurdamente sobre política ou economia, não havia aquela vã e enfadonha falação esportiva, não se via ninguém aficionado por crimes, acidentes, catástrofes. Foi, por assim dizer, durante alguns meses, o meu Clube Diógenes. Os leitores de Conan Doyle sabem a que me refiro: um lugar calmo e tranqüilo, onde ninguém aborrece quem quer que seja e onde o silêncio é quase uma lei. Frise-se o quase: afinal, conversávamos um pouco por lá.
Vez ou outra, aparecia um velho promotor de justiça, aposentado, fã de Vicente Celestino e de antigos filmes. Discutimos sobre os faroestes clássicos de nossas preferências, mas nossos assuntos começaram a murchar quando descobri que ele era um entusiasta da Atlântida, “e seu papel definitivo na história do Egito e dos Incas”, segundo suas próprias palavras. Aí também era pedir demais...
Um dos mais expansivos clientes do botequim era um instalador de pára-raios. Sim, senhores, há especialistas neste assunto e, como ele me explicou, há uma grande diferença entre “a mera colocação de antenas” e “a complexa instalação dos pára-raios”: suas funções, garantiu-me, eram muito mais “intrincadas” que as de um “simples eletricista”. Tinha lá suas teorias meio visionárias, como a de que os terremotos que vêm assolando nosso país se dão por conta da exploração do petróleo, a qual estaria criando buracos sob as placas tectônicas. Tais idéias até que não são desprovidas de um certo sentido, mas ele apregoava-as qual um profeta, com a voz cava, profunda, e com uma ênfase que fazíamos com que nos víssemos à beira do Juízo Final.
Excentricidades à parte, devo dizer que ele me foi muito útil, revelando certos aspectos da cidade – nova, para mim – que eu desconhecia, bem como alguma coisa dos próprios freqüentadores daquele botequim. E, mais especificamente, quanto a um tipo que me chamou a atenção desde meus primeiros dias por ali.
A pessoa em questão era um homem por volta dos seus cinqüenta e tantos, senão sessenta. Negro, bem-apessoado, mas um pouco fora de forma, trajava, invariavelmente, um agasalho esportivo completo, calça e jaqueta, uma camiseta de um time de futebol que desconheço, um boné, alusivo à mesma agremiação esportiva,enfiado na cabeça, e nos pés, um par de tênis, impecavelmente limpos, bastante novos, mas que, notava-se, não eram de primeira categoria.
De todos os freqüentadores, ele era o mais assíduo, e o mais silencioso. Bebia sua cerveja em pequenos goles, enquanto contemplava o nada. Era tal sua parcimônia em beber que pensei que assim procedia porque seus recursos eram parcos: em geral, quem bebe vagarosamente é porque não pode pagar uma segunda rodada. Porém, mal terminada a garrafa, ele adormecia. Às vezes, levantava-se, pagava sua conta e partia sozinho. Noutras, era levado por um rapaz, qual um inválido, um desmemoriado.
Perguntei ao meu conhecido quem era aquele homem, afinal. Falou-me seu nome que, para mim, nada significou. Então explicou-me, mais detalhadamente, algo sobre o personagem em questão.. Ele fora, durante muito tempo, centro-avante e capitão de um time de futebol, cuja camisa ainda vestia, sempre e sempre. Não ficara rico: deixara apenas de ser miserável. Por não ter estudado, não conseguiu obter nada, depois de seus dias de triunfo.Tivera alguma fama, mas somente regional: velhos torcedores ainda se lembravam dele, de vez em quando. Vivia, portanto, daqueles fumos, daqueles fiapos de uma efêmera glória passada. Ouro-de-tolo fora o seu quinhão na vida; o seu patrimônio, amealhado por toda uma existência, valia o mesmo que nada. O nada que lhe consumia os últimos dias e que tinha sempre ante seus olhos. O vazio absoluto.
Apiedei-me do sujeito. Ninguém merece ser transformado numa espécie de máquina, com uma única função e que, quando não está mais eficiente, é jogada fora. Homem é homem, não é coisa, não é engrenagem que, explanada, deve ser atirada no lixo, substituída por outra mais nova. Talvez ele tenha lá sua culpa por não ter se reciclado, este termo da moda, que diz tudo e nada ao mesmo tempo. Mas será que lhe foi permitido? Será que esta sociedade que criamos não reifica muitos de nós, tornando-nos coisas, e depois nos descarta como coisa inútil? A julgar por tantas pessoas transformadas em mercadoria — modelos, jogadores de futebol, celebridades de programas abomináveis na televisão — estamos vivendo em tempos modernos muito piores do que os sugeridos por Chaplin, que tanto criticou o fato do homem ser reduzido à condição de máquina. Pois, ao poucos, vemos pessoas que vão se tornando numa nova espécie de fantasmas, desconhecida dos antigos, ou dos fantasmas de celulóide: os artistas do passado, mortos, que ainda vemos, vivos, no cinema.Não, o caso daquele velho jogador, é ainda pior. Ele, como muitos de seus parceiros de ofício, tornou-se um fantasma de carne e osso, sempre lembrado em relação aos seus feitos passados, nunca reverenciado, e sendo visto, por muita gente, como um estorvo, uma pobre relíquia de um passado fugaz. É hora de darmos um basta a isto. Não podemos mais permitir que tais aberrações, por tantos de nós insufladas, sejam criadas, novamente.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de novembro de 2008].