As ditaduras, os regimes de exceção e os governos corruptos amam os esportes, e quanto mais espetaculosos, melhores. Os tiranos da antiga Grécia promoviam-nos com largueza de fundos e ocasiões, para além das meras Olimpíadas. Lembremos, por sinal, que a grande campeã entre as cidades-estados de então sempre fora Esparta, um baluarte do autoritarismo.Em Roma, sabia-se que para acalmar as vontades levantadas, a miséria e o senso geral de injustiça, bastava dar ao povo pão e circo (panis et circensis). Em Constantinopla, aqueles imperadores de nomes exóticos incentivavam as corridas de carros (bigas, quadrigas, etc.), que acabaram por se converter numa febre incontrolável, uma paixão belicosa que abatia tanto os competidores quanto o público, divididos em verdadeiros partidos, prontos a matar e a morrer pela defesa das cores de seus times.
Na Idade Média o desvario esportivo foi em parte contido, em boa parte graças à própria fragmentação do poder. Existiam justas entre nobres, torneios que lhes garantiam terras e direitos. E o povo se divertia com lutas entre animais, jogos com bastões, cabos-de-guerra e que tais. Tudo muito violento, primitivo, e que perduravam, na vida dos espectadores, por um correto, exato, espaço de tempo: o tempo preciso de suas execuções.
Já a Idade Moderna, talvez o ápice do saber retórico, teológico, político, artístico e literário da humanidade, galhardamente ignorou as práticas esportivas como um modelo, do que quer que fosse, para a sociedade. Jogava-se a péla, caçava-se, cavalgava-se, esgrimia-se, entre a nobreza. O povo ainda se divertia lançando cães contra ursos, montando em touros, e coisas assim. Mas nenhum atleta foi considerado um herói entre os século XVI e XVIII: então escrevia-se, estudava-se, colonizavam-se continentes, catequizava-se. Não havia espaço para simulacros de heróis: eles existiam, de fato.
Será em meados, para fins, do século XIX, e início do XX, que o esporte, tal como o compreendemos, conhecerá seu renascimento. Amedrontados com a escalada das idéias socialistas, e com as constantes reivindicações dos trabalhadores, governos e empresários se uniram para promover um novo divertimento para as massas: o culto aos esportes. Foi um lance de gênio: ao mesmo tempo em que lucravam com o controle das apostas, preparava-se o povo, fisicamente, para a guerra e para a dura rotina das fábricas; ao mesmo tempo, domava-se a consciência popular, conduzindo suas atenções e vontades na direção daqueles eventos passageiros – vivesse Marx mais alguns anos e ele concluiria que os esportes, e não a religião, seria o verdadeiro ópio do povo.
Hoje, eis que o mundo dito democrático curva-se à horrenda ditadura chinesa. Louva-se a organização daquela gente, sua disciplina, sua arquitetura imponente, seu urbanismo às marretadas e outras coisas do gênero. Nada disso é novo. O mesmo comportamento servil e boçal já foi dispensado à União Soviética (1980) e à Alemanha Nazista (1936), talvez este o maior exemplo. É verdade que os Estados Unidos boicotaram a Olimpíada de Moscou, como era de se esperar frente a um arqui-rival que, inclusive, cometia barbaridades no Afeganistão. Mas o mundo democrático em peso enalteceu as Olimpíadas de Berlim e os super-homens arianos, ninguém se importando com o que eles faziam nos campos de concentração de Dachau, Boyermoor e Oranienburg-Sachsenhausen, já existentes à época dos Jogos, e que confinavam e matavam judeus, ciganos, opositores políticos, católicos, testemunhas-de-jeová e homossexuais. Ninguém questionou. Embasbacado, o mundo se preocupava tão somente com novos recordes olímpicos.
Dizem que o esporte forma cidadãos. Balela! Cidadãos pensam, opinam, interferem nas regras, recriam-nas, não se submetem cegamente a elas, sobretudo quando ditadas por uma minoria pouco transparente. Alguém, por acaso, já elegeu algum membro de qualquer comitê olímpico? E por que, então, sujeitarmo-nos às suas disposições quanto ao que devemos ver, quanto ao que deve ser feito e como? Uma pelada entre o setor de produção e o de embalagem de um fábrica, travada no campinho da empresa, está muito mais próxima do ideal olímpico que as pantomimas oficiais sobre este nome.
Descendo aos pormenores, não há como evitar alguns comentários.
Essa louvação desbragada de um estádio que comparam a um ninho (olhando bem, está mais para arapuca) e do piscinão de Pequim, é francamente detestável. É reduzir a arquitetura à lógica dos parques-de-diversão, segundo a qual basta a algo ser grande e novidadeiro para ter mérito, para ter seu lugar. É associar o fausto duvidoso daqueles monstrengos gigantescos à idéia de triunfo de um regime que, francamente, está entre os mais corruptos e violentos da história.
E aquelas cerimônias de abertura, então? Francamente. O império do mau-gosto. Nossas escolas-de-samba com seus bestialógicos têm muito mais arte e engenho do que aquelas procissões profanas atrás de um pálio de mentirinha, aqueles desfiles militares travestidos de festa. Olhando para elas, tenho sempre a impressão de ver o banho de sol de prisioneiros num pátio de penitenciária, só que de presos fantasiados, e tocados a chicote. Daí sua eficiência, disciplina, etc... Daí o interesse que as ditaduras, os regimes de exceção e os governos corruptos têm pelos esportes.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 16 de agosto de 2008].
A vaca estradeira
Há um dia
Nenhum comentário:
Postar um comentário