sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Ouro de tolos

Já faz algum tempo que venho tratando neste espaço de algumas grandes exposições realizadas no país e, mais especificamente, em São Paulo, notórias pelo volume de dinheiro e de público que mobilizam e pelo exagero de publicidade que conseguem, quase de graça, na grande imprensa. Tratam-se de eventos espetaculares — quais cometas, brilhantes, mas efêmeros — que arrastam na cauda de sua passagem milhares de informações, notas e comentários detalhados e elogiosos, para não dizer exageradamente minuciosos ou francamente aduladores, e sem conseqüências maiores para o público, que não a ilusão de participar de algo “superior”, “elevado”, o qual, todavia, não o é. Monta-se uma exposição, inunda-se a mídia de dados sobre ela, e o cidadão de boa-fé vai a uma delas, acreditando, que naquela visita, adquirirá “cultura” ou “conhecimento”, como se alardeia.
Não nego que, por piores que sejam tais mostras, elas de fato podem permitir que um homem, ou uma mulher, ambos de bem, cheguem a ter um certo acesso à “cultura” e ao “conhecimento”. Só que o mesmo pode ser obtido pela visita a um acervo tradicional. Ou pela leitura de um livro, revista ou jornal. Ou, até, pelo simples correr de olhos por uma bula de remédios — um gênero de texto que, por vezes, é capaz de informar muito mais sobre um tempo, suas práticas e expectativas do que vários e grossos tratados que procuram enfocar uma determinada época. E, certamente, muitíssimo mais além do que os cadernos chamados Cotidiano, e coisas assim, dos grandes jornais.
Mas estas mega-exposições, ainda que unanimemente elogiadas, não são capazes de tais feitos, ou seja, trazer “cultura”. Estes eventos, já chamados de blockbusters (“arrasa-quarteirão”, numa tradução literal, que, em sua origem, relacionava-se a uma bomba, a um artefato militar de grande impacto e que emprestou seu nome, recentemente, a qualquer produto voltado ao consumo de massa embalado por uma imensa e milionária campanha publicitária), por mais barulhentos que sejam, caem no vazio. Como minas explosivas de profundidade lançadas, não contra submarinos, mas contra cardumes de sardinhas: fazem um barulho tremendo e não atacam o que precisa ser atacado, só perturbam os sentidos daqueles tímidos que se pautam, que se norteiam, apenas e tão somente em serem parte obediente de um bando — bando, aliás, sem liderança, guiado por um tosco instinto: menos de sobrevivência e mais de subsistência.
Foram mencionados, acima, o homem e a mulher de bem, que para tais exibições são atraídos por meio de iscas midiáticas, sem se darem conta de que se enredam numa armadilha predatória. Há, entretanto, aqueles que acedem docilmente a outros estratagemas correlatos. Pulam da água loucos para abocanhar o anzol no qual foi fixado um chamariz artificial: a ilusão de compartilharem de um suposto status “elevado”, de pertencerem a uma minoria que freqüenta salões de arte com a mesma tranqüilidade de quem circula por um shopping center. E, em ambos os casos, e muitos não o percebem, as semelhanças até que se cumprem, só que por outros motivos: na adoração dos produtos que, tanto num, quanto noutro espaço, não passarão de objetos de desejo que jamais se tornarão objetos de consumo — que é o motivo primeiro de estarem ali, ou através do qual justificam estarem ali, e que, no entanto, se mostra irrealizável, em qualquer parte.
No caso desta ilusão, desta oferta que é prontamente negada, a grande imprensa está maculada de culpa até as canelas. Transformando exposições pífias em grandes acontecimentos, infla seus cofres graças aos anúncios, e vendem mais edições sob a alegação de estarem informando detalhadamente o público. E o que deveria ser noticiário, ou crítica de arte, converte-se em balcão de anúncios, ou numa espécie de falso “guia para aparecer na coluna social”.
Por outro lado, o silêncio impera quanto à trajetória e as conseqüências de tais aventuras empresariais, convertidas em espetáculos, e fantasiadas de iniciativas culturais. Pois o que lhes segue à reboque, qual o que se nota na esteira de um navio, não são apenas ondas maiores e menores ou a espuma branca e macia, mas também uma variada gama de dejetos que as poderosas hélices dissolvem, em parte, mas não as eliminam de todo: são aquelas informações conhecidas, e não por pouca gente, só que à boca miúda, que dão conta do imenso lucro que tais exposições concedem aos seus organizadores, principalmente em razão das várias renúncias fiscais, que lhes favorecem em tais empreitas, e que todos nós pagamos. Voltaremos a este tema.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de maio de 2007].

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