Creio que todos que viram o início da Campanha do Agasalho deste ano devem ter dado um pouco de ombros. Afinal, viveu-se um calor bastante atípico até esta semana, e a simples menção a cobertores e malhas de lã, enquanto queixou-se do ar abafado, causava verdadeiro mal-estar. Mas eis que o frio parece ter chegado e, com ele, a lembrança quanto ao dever moral de doar agasalhos. E em nome deste, lá se vai aquela jaqueta que não serve mais, aquele casaco que saiu da moda ou que foi irreversivelmente manchado.
O próximo passo é acolher as equipes atrás de doações e, assim, livrar-se daquela saia ou calça que encolheu. Ou carregar um pesado fardo até algum posto de arrecadação e lá depositar, com todo o estardalhaço possível, as camisas velhas do finado tio Fulano, guardadas desde o ano anterior, unicamente para este fim; ou o enxoval da tia Beltrana, que teve o bom-senso de falecer recentemente, legando roupas “quase novas”. Que bela imagem o doador fará, com aquele monte de roupas que ali tão desinteressadamente deixa.
Depois, é só observar pela televisão o trabalho das esquipes fazendo a triagem das doações, o esforço do Corpo de Bombeiros, do Exército, de escoteiros e voluntários nesta meritória tarefa que é distribuir alguma espécie de conforto físico aos desfavorecidos de toda parte.
E, por fim, assistir, por mio daquela grande emissora, no conforto do lar, alguma reportagem na qual se vê o destino de um suéter com o Mickey Mouse estampado: da Barra da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro, para o Jardim Ângela, na capital dos paulistas. Com sorte, ainda poderemos ver o recolhimento dos indigentes de todos os sexos e idades aos albergues, lugares tão elogiados pelos seus mantenedores, que não se compreende a relutância de tantos em ali ingressarem. E visto tudo isto, mergulhar no sono, numa cama quente e confortável, como a sensação do dever cumprido. Afinal, deitado numa cama, aquecida por cobertores, sob o teto de uma casinha quente, do que mais o homem precisa? Está bem. Que seja. Mas o que é que pode ser dito quanto ao teto e às casinhas onde boa parte do povo vive hoje em dia?
É aí que reside a outra parte da questão, referente ao frio, mas que serve para todo o resto do ano e da vida, e que, ao nosso ver, é a principal: as moradias populares no Brasil, construídas pelo poder público, de qualquer instância, são, em sua imensa maioria, inqualificáveis! Para não dizer, completamente desqualificadas. Pensadas para serem construídas aos punhados, contrariando topografia e sentido na ocupação do território, são frutos não dos cálculos que garantam um bom loteamento do terreno, uma boa estrutura das casas e demais qualidades básicas de vida, mas o custo mais baixo possível para se vencer uma licitação, ou qualquer outro nome que venha a ter. Ou alguém duvida?
Quem não conhece alguma história, por este Brasil afora, de conjuntos de casas populares construídas em baixadas, em brejos, em ribanceiras, só porque aqueles terrenos pertenciam a algum “correligionário político”, que “de boa vontade dispusera a terra ao bem comum”? Ou o inverso, histórias de terrenos sem valor e sem utilidade que se tornam, de uma hora para a outra, o local ideal para a construção de conjuntos habitacionais, sendo que depois se descobre que aquela terra era de algum discreto, ou nem tanto, amigo do poder no momento. Mas, em ambos os casos, uma coisa é sabida: o dinheiro das desapropriações é régio.
Assim são erguidas casas que, de tão pequenas e mal planejadas, mal permitem camas, que não uns catres duros e estreitos e que não duram cinco anos, quando não uns ralos colchões dispostos no chão. Sobre estes leitos, em geral não há forro. E assim padecem o frio do inverno ou os horrores de um verão superdimensionado, quando o calor é todo reverberado para dentro das casas, junto com as mil más influências de toda a sorte de produtos tóxicos que se empregam em certas coberturas de casas, que se empregam no sagrado teto.
Neste princípio de inverno, pensemos, sim, na doação de agasalhos. Mas não nos esqueçamos de que só eles não bastam. Moradias populares decentes são um alívio muito maior contra o frio do que cobertores remendados ou velhas roupas puídas. E tanto umas, quanto as outras, afinal, são bancadas pelo nosso bolso. Não é hora de interessarmo-nos mais pelo assunto, para além de uma simples estação do ano?
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 9 de julho de 2005].
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