sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Modernizar a marretadas

O grande escritor paulista Monteiro Lobato cunhou, em fins do século XIX, a expressão “cidades mortas” para uma série de localidades vizinhas à sua Taubaté, que viviam da cultura do café havia quase uma centena de anos, e pelo fato do solo se esgotar, enfrentaram uma profunda, uma absoluta decadência. Em Minas Gerais, cidades como Ouro Preto, Tiradentes e Diamantina, mereceriam, durante muito tempo, a mesma designação: sem ouro nem diamantes, foi a pobreza que conservou seus aspectos tão característicos, que inibiu transformações radicais em sua paisagem urbana. O mesmo pode ser dito de Paraty e de Vassouras, no Rio de Janeiro; de Goiás, ou “Goiás velho”, como chamam os turistas, para horror de seus moradores; de boa parte de Olinda, em Pernambuco; de São Cristóvão, em Sergipe; de Alcântara, no Maranhão; de Penedo e Marechal Deodoro, em Alagoas; e de muitos outros lugares. Cidades vítimas da estagnação econômica e que se conservaram quase tal como eram, porque não puderam crescer.
Algumas delas, todavia, descobriram novas vocações, sequer sonhadas em anos remotos, naqueles dias em que foram dadas como “mortas”. O Vale do Paraíba é um pólo tecnológico e industrial de destaque; Olinda, ainda que incorporada ao “Grande Recife”, é um importante núcleo prestador de serviços; Ouro Preto e Diamantina abrigam grandes mineradoras; Alcântara abriga uma base de lançamento de foguetes espaciais. Todavia, uma, às vezes duas, semelhanças, todas estas cidades compartilham: muitas comportam célebres centros universitários: mas todas, absolutamente todas, inscrevem-se entre os principais destinos turísticos do país. E por quê? Porque conservaram muito, mas muito mesmo, de sua arquitetura.
O turismo, sob muitos aspectos, é uma indústria, como as tradicionais. Emprega muita gente, direta e indiretamente, cria uma malha de relações econômicas que envolve outras tantas, instiga a produção de bens de consumo que a ele se vinculam, ao mesmo tempo em que oferece um produto, que se não é único, tem o seu diferencial, a sua especificidade. Mas para que uma cidade seja um destino turístico, e, portanto, faça receita, promova empregos, faça o dinheiro circular, ela, necessariamente, deve ter alguma coisa para mostrar. E, portanto, é preciso preservar. Ou criar um novo que seja radicalmente diferente, não um pastiche. Como isto é difícil, preservar é sempre a melhor opção. No mínimo, porque “já está lá”. Pois é sobejamente conhecido que onde a indústria, o comércio, a lavoura, ou todos eles, entram em decadência, muito do que era considerado “velho”, “ultrapassado”, por um lado, ou “mato à toa”, “morro imprestável”, “rio fedido”, por outro, revelaram-se, em muitos casos, a salvação econômica de várias cidades.
É por isso que assistimos, com tristeza, o que está sendo feito em duas cidades nossas vizinhas: Araras e Pirassununga, ambas de longa história e história de proeminência na região, e que contam com alguns belos prédios que poderíamos mesmo chamar de monumentos. Mas não falo deles, que lá permanecem e permanecerão. Falo de todo um conjunto arquitetônico construído entre meados do século XIX e a primeira metade do XX, composto de casas mais ou menos suntuosos — isto não importa — e que revelam muito do modo de vida de todo aquele período. Além de serem belas, evidentemente. Vê-se com freqüência, nos últimos anos, muitas delas serem impiedosamente postas abaixo, ou, o quê dá quase no mesmo, reformadas de uma tal maneira que perdem todas as suas características. Algumas conservam uma coluna aqui, uma porta acolá, mas os janelões são substituídas por janelas de ferro, as varandas são fechadas, os jardins são arrasados para a construção de estacionamentos. Tudo muito triste. È verdade que não possuem a “solenidade” de um casarão do século XVII ou XVIII, como os de Salvador, por exemplo. Mas tão somente porque são ainda “jovens”. Vamos deixar com que elas envelheçam, com seus leões nos portões e suas mangueiras nos quintais.
Modernizar a golpes de marreta teve lá seu sentido nos tempos do Barão Haussmann, que remodelou Paris lá pelos anos 1860. E até para o Rio de Janeiro do começo do século, com o prefeito Pereira Passos e o seu “bota abaixo”. Mas, de lá para cá, a consciência mudou. Pena que as práticas não. Precisamos abrir os olhos. Salvar o que ainda se tem, já que ninguém sabe o que o amanhã nos revela. E lembrar que, afinal, quem não tem passado, dificilmente terá futuro.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de setembro de 2007].

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