sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Perdemos o caneco. Mas que não venham passar o pires!

Segundo um dito popular, todo brasileiro acha que é técnico da seleção de futebol e também Ministro da Economia, ou da, antiga, Fazenda, ou ainda de uma outra pasta qualquer que mande de verdade. Ou então, uma espécie de novo Messias, porque, afinal, se “Deus é brasileiro”, seríamos, duplamente filhos Dele, e portanto mais próximos para interpretar seus desígnios.
Em suma, o que o ditado quer dizer — e os acréscimos a ele postos, mas que não traem seu espírito, ao contrário, reforçam-no — é que os brasileiros são notórios palpiteiros, e que todos nós acreditamos ser os únicos portadores das verdades incontestáveis, das soluções definitivas, e inéditas, para o futebol, para o Brasil e para o mundo.
Há uma guerra civil nalgum lugar da África, que priva um país de seu funcionamento normal? Pois se o Brasil tivesse mais proximidade com a outra nação, nossa diplomacia seria tão hábil que nada disto teria se verificado. Alastra-se a gripe aviária pela Ásia e Europa? Aqui, mandaríamos meia dúzia de mata-mosquitos e daríamos a tarefa por encerrada — e que o povo comesse carne ou peixe, durante esta providencial solução. O analfabetismo funcional cresce nos países subdesenvolvidos? Qual o quê, somos uma nação de ávidos leitores — veja-se o fenômeno Paulo Coelho — e, pelo menos no Estado de São Paulo, o quase infindável governo sob as garras dos tucanos foi capaz de grandes avanços no campo da Educação. Sei... Agora, contem, como dizia o gaiato, aquela piada do papagaio...
Futebol e economia, em linhas gerais, nada têm a ver com a tímida diplomacia brasileira atual — a anterior também não foi muito melhor. Nem com e a gripe aviária, que, se entre nós não se instalou, por outro lado nos mostrou o rebanho bovino em alguns estados ser vitimado pela febre aftosa, que fechou muitos mercados internacionais para a nossa carne, não obstante os vários e constantes subsídios estatais para o controle e financiamento daquela atividade. E quanto a educação, como um todo, no Brasil, ninguém precisa ser especialista para sabe o quanto ela vem deixando a desejar nos últimos tempos.
Mas reivindico, hoje, senão a condição de técnico de futebol, pelo menos o direito de, enquanto brasileiro — que julgamos poder falar sobre qualquer assunto —, de também me manifestar sobre a infame derrota que a seleção brasileira de futebol sofreu nesta Copa do mundo que se encerra. E julgo-me pronto a tal juízo, por um motivo muito claro: não torço, nem nunca torci, por nenhum time. Querem maior imparcialidade do que isto?
Não torcer por um time não é “ficar em cima do muro”, é louvar a beleza do esporte independentemente de qualquer equipe: quem fez o melhor jogo é que merece a glória, pois o melhor time será sempre aquele que jogou melhor, e mais bonito, numa partida.
E, afinal, o que é torcer por um time de futebol? É endossar, sem crítica alguma, um clube do qual não somos sócios, cuja equipe de atletas é “comprada” de outras agremiações? É jurar fidelidade a um grupo de criaturas que podem muito bem estar jogando noutro time tão logo se encerre a temporada? E que vitória se tem, que não uma vitória de Pirro? Do que adianta ganhar num ano, e nada deste ganho valer para o outro ano? Pois todo o avanço do conhecimento humano e as conquistas materiais, e mesmo espirituais, das civilizações são cumulativos, ou seja, são frutos de tentativas e erros, que a crítica e a decorrente mudança de atitude ou enfoque, procuram retificar para acrescentar algo novo. Aprende-se o á-bê-cê não por ele em si, mas porque é o primeiro passo para a alfabetização. Os exemplos do aprendizado constante são inúmeros. Mas o esporte, seja ele qual for, para o torcedor, é imutável. Ele basta-se por si próprio. Não produz reflexão alguma, porque é efêmero, e é isto que justamente o torna mais digno de louvores por parte daqueles que o defendem, que trocam deliberadamente o “pensar” pelo “gozar”. É efêmero e sempre será, porque os envolvidos são sempre outros, ainda que contenha em si uma “verdade” imutável: o antagonista é sempre o mal, aquele que deve ser exterminado independentemente de quem ele seja, ou mesmo de quem sejamos nós. Autos-de-fé, em que carrascos e vítimas das fogueiras são os outros e nós mesmos, dependendo do dia.
Torcer por uma seleção nacional de futebol é a mesma coisa. Quem gosta do esporte, deve esperar pelo melhor jogo, não importando de quem se trata. Se a nossa equipe foi ruim, e de fato o foi, torçamos pela melhor. Afinal, não nos gritam a todo momento que o ideal da prática desportiva é competir, e não necessariamente vencer?
Os leitores viram, portanto, que nesta crônica não me alvitrei como técnico da seleção nem Ministro da Fazenda. Deste último tema, conheço pouco. Do primeiro, menos ainda. E no entanto não renego a tradição dos brasileiros em palpitar sobre qualquer assunto. De modo que me sinto no direito de bradar contra aqueles milionários que jogam bola, que por dinheiro vestem a camisa de qualquer agremiação — um até chegou a adquirir cidadania espanhola para fins contratuais (sim, aquele mesmo, que arrumava as meias enquanto o ataque adversário campeava) — e que não tiveram a coragem de botar seus pés, inúteis, em solo pátrio, para receberem a justa vaia do povo.
Por fim, é fato, perdemos o caneco — não resisti a um certo saudosismo, pois se a nossa Taça Jules Rimet virou barra de ouro ou peça de colecionador (sou mais por esta alternativa). E que não venham nos passar o pires para “desenvolver o esporte nacional”. Nacional de quem? E que esporte? O daqueles magnatas que se hospedaram num castelo?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 8 de julho de 2006].

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