Têm feito muito sucesso, recentemente, programas e mini-séries de televisão cujo objetivo seria “retratar” a vida quotidiana dos mais variados homens do passado, quer tenham sido ilustres, quer desconhecidos, quer ainda personagens fictícios compostos a partir de indícios do que poderiam ser. Houve, por exemplo, uma série bastante aclamada, Roma (HBO, EUA, 2005-2007), que se propunha a contar como era a vida dos patrícios, plebeus e escravos romanos, misturando história e ficção. É claro que esta mistura está longe da versão idealizada pelo que outrora se chamava “romance histórico”. Pois na série há uma consciente exploração dos aspectos menos nobres, ou saudáveis, com direito à exibição da violência e das múltiplas sexualidades daquele período. Linha esta seguida por muitos outros programas exibidos em canais como Discovery, History, National Geographic, etc. Afinal, devemos nos lembrar que são, em sua maioria, produções norte-americanas, feitas por um povo e para um povo fascinado pela combinação de sexo e violência. E ainda que pudéssemos tratar de várias diferenças culturais entre eles e nós, a verdade é que este não é o tema desta crônica. E, assim, retornemos, aqui, a ele.
A popularização da “vida quotidiana” como espetáculo, ou objeto de pesquisa, não vem de hoje. De fins do século XVIII até meados do XIX foi muito popular um livro intitulado Viagem do jovem Anacarse à Grécia de meados do século IV, escrito por Jean-Jacques Barthélemy (1716-1795), esquecido mais tarde e recentemente tirado do limbo por um ensaio do conhecido historiador italiano Carlo Ginzburg, incluído em sua última obra traduzida para o português, O Fio e os rastros (Companhia das Letras, 2007). Ali o autor francês (abade e arqueólogo), por meio de seu personagem puramente ficcional, contava o que via da Grécia de então, bastante diferente de sua Cítia natal (os citas habitavam a região que correspondem hoje à Ucrânia, ao sul da Rússia, e a escolha de alguém originário dos confins do mundo conhecido, onde a influência grega era meramente marginal, fazia todo o sentido para a descrição de práticas e objetos banais para uns, mas estranhos para outros).
De meados do século dezenove, em diante, a história enquanto disciplina, ou “ciência”, que estava se formando, e precisava se mostrar superior a uma simples recolha de curiosidades, baniria as considerações “quotidianas” de seu campo de estudos. Ela passou a tratar somente dos grandes feitos políticos, diplomáticos, bélicos, do funcionamento de instituições como o Império Romano e a Igreja, do comércio, da agricultura, das cobranças de impostos, etc. Os aspectos do “dia-a-dia” do passado foram relegados aos romancistas ou a alguns “divulgadores da história”, sempre considerados “inferiores”. É verdade que a arqueologia, que cresceu muito mais do que a história “ciência” naquele período, fez muitas descobertas quanto à vida comum (o aspecto das moradias, o que nelas havia, o quê seus moradores comiam, etc.), mas sua divulgação se dava por meio de áridos compêndios, que pareciam reforçar ainda mais as diferenças entre o passado e o presente. Diferenças que existem, é fato, mas não tantas quanto se pressupõe.
Já entre as décadas de 1920 a, aproximadamente, de 1960, os ânimos dos historiadores foram de tal modo conquistados pelas paixões políticas e econômicas que um olhar sobre os hábitos e costumes do passado tornou-se, na maioria dos casos, muito enviesado: salvo raras e honrosas exceções, quando não se estava querendo supervalorizar as tradições romanas, gaulesas, germânicas, arianas, chinesas, buscava-se provar a inevitabilidade da “revolução proletária” por meio de uma sucessão de eras contraditórias entre si que tinham porque tinham de desembocar no socialismo. Não queremos, aqui, rejeitar, como um todo, este período de sólidas e apaixonadas interpretações. Mas o fato é que muitas generalizações apressadas e escancaradas mentiras travestidas de “verdades históricas” foram perpetradas então.
Seria a partir de meados dos anos 1960 — por motivos que renderiam uma outra crônica, com direito à narração de uma trajetória bastante curiosa — que a “história do quotidiano” reencontraria o seu lugar. E que se estabeleceria, com todas as pompas e fanfarras, num papel quase de “linha principal” das pesquisas desde então e até nossos dias, só que com a alcunha de “história da vida privada”: a qual gerou duas belas séries de livros, uma francesa (a França é o berço deste conceito), outra brasileira, coleções que são o sonho de consumo de milhares de pessoas que se interessam pela história e que tenham visto um só de seus volumes. Que são ótimos, aliás. Ainda que, pessoalmente, discordo da extensão do rótulo “vida privada” para um largo espaço de tempo. Não se pode falar em algo do gênero, por exemplo, quando tratamos da educação de crianças, ao longo da história. Do comportamento de homens relacionados aos poderes públicos no passado. Nem do papel da mulher na sociedade, talvez o mais claro exemplo das fraquezas de uma generalização. Peguemos este último caso, aliás, para deixar a questão bem clara. As mulheres, salvo raríssimas exceções, foram privadas de qualquer ensino, que não o religioso — e, mesmo este, com ressalvas — durante milênios. Sua participação pública, durante o mesmo recorte de tempo, só era permitida nos ofícios religiosos. Fora daí, recebiam um grave e infame estigma. Mas eis que um dia elas ocupam as fábricas. Noutro, são reconduzidas ao lar. Noutro ainda, vão para fábricas de armamentos, vão ser telefonistas e secretárias. Depois, devem voltar para casa e ajudar a “construir o sonho americano”, exportado para o mundo todo. Vem a “Revolução Sexual” e tudo muda. Vem uma nova geração de executivos de grandes empresas e todas elas devem voltar a uma vida de futilidades. Onde está a continuidade, ou a ruptura, na “vida privada” destas mulheres? E notem que estamos falando tão somente do mundo ocidental e, ainda assim, abrindo mão de uma análise mais acurada do que aconteceu, e ainda acontece, nos grotões, daqui e de fora.
Concluindo, considero tal enfoque, o da “vida privada”, talvez um pouco falho, sob alguns aspectos. Entretanto necessário, sob muitos outros. Pois tem se mostrado, afinal, o meio mais fácil e rápido de mostrar aos jovens seu papel no mundo, na medida em que aproxima a vinculação deles com a história, para além da simples memória. É uma grande experiência revelar a um jovem que ele não precisa ser palmeirense (ou santista, corintiano, o que for) só porque seu pai o é, mas, de repente, um entusiasta do atletismo. Que ele não tem que, necessariamente, defender uma visão racista e machista do mundo, que “herdou” de um avô, e sim enfrentar a pluralidade dos fatos, e se posicionar crítica e pessoalmente, sem seguir o “urro do bando”, e sim a sua consciência. Que, se a família e os amigos ensinam-lhe ou insuflam-lhe os piores hábitos de conduta, de higiene, de moral, ele ainda é soberano, podendo aceitá-los, e arcando com eles, ou refutá-los. E, tudo isto, à custa dos exemplos vários que a história vem recolhendo ao logo dos tempos. Que talvez não sejam os melhores, mas que, por perseverarem na defesa do direito de muitos, ainda são capazes de pôr à distância a supremacia dos desejos de alguns poucos.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 29 de setembro de 2007].
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