Quando faltavam exatos dez dias para o fim de 2005, tomei uma modesta resolução: decidi que não leria mais jornal ou assistiria a qualquer noticiário pela televisão até o dia dez de janeiro. Assim, passei exatos vinte dias cuidando da vida, pondo as leituras em ordem e, de vez em quando, vendo um ou outro filme. E pelo que vejo, agora que retornei àqueles hábitos por tão pouco tempo suspensos, não perdi quase nada.
Todo final de ano tem sido a mesma coisa na grande imprensa e na televisão. Numa, vemos as edições minguarem de tamanho, até alguns cadernos saem de circulação. Noutra, é a mesma charanga de sempre, os mesmos “especiais de fim-de-ano”, que de tão repetitivos tornam-se a verdadeira antítese da palavra especial. Sempre os mesmos rostos, cantando as mesmas músicas, repetindo coreografias que de início já eram sem imaginação. Poupei-me também de assistir àqueles programas que se pretendem “inventivos”, testando “novos formatos”, e que na verdade nunca passam do velho folhetim que vem dos tempos áureos do rádio, só que com imagens moderninhas e piadas um pouco mais picantes.
Outras coisas realmente aborrecidas de que me livrei, graças à minha singela resolução, foram daquelas mal-fadadas retrospectivas do ano. Que time ganhou o campeonato, qual foi rebaixado, quem morreu, quem foi preso, quem bateu não sei qual recorde, quem disse as maiores bobagens ao longo do ano, se um terremoto na Ásia matou mais gente do que um furacão na América, ou se uma nevasca na Europa fez mais estrago do que uma inundação sabe lá onde, e tudo costurado no mesmo saco, como se feitos da mesma matéria e como se tudo aquilo fizesse algum sentido na vida. Foi bom também não assistir àqueles gurus, profetas, videntes e quejandos — e incluam-se aí também os economistas e cientistas políticos palpiteiros — com seus prognósticos, expectativas, profecias, ou que nome queiram dar, e todas elas se não impossíveis, certamente improváveis.
Por fim, gostei bastante de não ser forçado a engolir toda aquelas idênticas propagandas natalinas, fosse para vender brinquedos, planos de capitalização ou celulares, com suas crianças fingindo pureza, e algum tosco Papai Noel anunciando as maravilhas disto ou daquilo, “pelo menor preço”. Uma coisa tem de ser dita, entretanto, a respeito destas peças publicitárias, das poucas que vi: neste ano elas foram extremamente sinceras. Nada daquela hipocrisia de outros Natais, quando se falava em paz, concórdia e amor como mero disfarce para as intenções reais, que era vender um determinado produto, uma espécie de anestesia antes da facada. Não. Este ano a publicidade nem sequer fingiu boas intenções, só queria vender, vender, vender, sem apelar para qualquer espírito natalino ou às nossas consciências porventura culpadas. Deve ser por isto que a figura de Jesus foi integralmente banida da televisão. Jesus não vende máquinas de lavar roupa nem panetone. Papai Noel vende até o Nada, e embalado para presente. Merecia o prêmio de profissional de marketing do ano.
Pois bem, chegou o dia dez de janeiro e abri o jornal. E ainda se falava daqueles famigerados Valério, Delúbio e o mensalão (indiscutivelmente, a gíria do ano), e uma CPI tão longa que mais parece ir se constituindo já num quarto Poder, ao lado do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Li que um general brasileiro se matou no Haiti, sem qualquer motivo aparente, depois de um dia absolutamente normal, e sem deixar um bilhete sequer. Um caso que, certamente, entrará para os anais dos estudos sobre o suicídio, de tal maneira é atípico. Soube que o Primeiro-ministro de Israel está prestes a esticar as canelas porque, disseram-me, na véspera de seu primeiro derrame almoçara hambúrgueres, bifes com molho chimichurri, costeletas de cordeiro, espetinhos de carne, salada e duas porções de bolo de chocolate. Mas há quem diga que na verdade ele sofreu uma praga de um grupo de religiosos. Seja como for, parece mesmo que ele há de morrer pela boca: pela sua, glutona, ou pela dos rabinos, fulminantes.
Em suma, quase nada que nos diga respeito diretamente. Pois nossa vida prosseguirá a mesma, quer com a punição de fulano e beltrano, ou não, com um general a mais ou a menos, sem este ou aquele primeiro-ministro seja lá de onde for. Mas duas notícias realmente são de assustar. A primeira é a que prevê alterações drásticas no clima do Planeta, não mais para daqui a dez anos, mas para este ano mesmo. E a segunda, que surge qual evento do Apocalipse, é a tal gripe aviária, a um passo da evolução para um estágio mais letal, não mais passando das aves para o homem, mas de homem para homem. Tal qual a Peste Negra, surgida no extremo Oriente, e que no início se limitava aos ratos e que entrou na Europa também pela Turquia.
Ao que parece, neste ano assistiremos ao começo de algo muito ruim. Ou será que assistiríamos já ao fim? Melhor batermos na madeira e, de preferência, madeira de reflorestamento.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de janeiro de 2006].
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