sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Um novo cartão-postal paulistano

Vem sendo comentado na grande imprensa o futuro impacto — falam que para o bem — arquitetônico e urbanístico que será causado pela construção da Ponte Estaiada sobre as águas — fétidas — do Rio Pinheiros. Antes, porém, é necessário um esclarecimento. Pontes estaiadas são pontes suspensas que não precisam de duas torres e quatro ancoradouros como as pontes pênseis mais tradicionais. No seu caso, os cabos (estais) vão da plataforma a uma única torre, ou mastro, em que são presos.
Como dizíamos, clama-se, aqui e ali, a originalidade de suas formas, a audácia do seu desenho, e a magnitude da obra. Alega-se que há décadas nada de tal vulto é construído na capital paulista.
Em parte, até que se tem um pouco de razão. Com exceção da Ponte das Bandeiras, de 1942, todas as outras só não são de um horror fenomenal, porque conseguem ser absolutamente anódinas: ninguém pensa nelas do ponto de vista arquitetônico, mas pura e tão somente utilitário. Grandes maciços sem vida ligando uma margem à outra. Depois não sabem porque S.Paulo se tornou uma das cidades mais feias do mundo...
Dizia que há uma certa razão, mas só esta acima citada. O resto é uma seqüência de equívocos. Vejamos alguns.
No afã de defendê-la, a Prefeitura de S.Paulo chega até a dizer que o único mastro da ponte, com 138 metros de altura, “será o segundo ponto mais alto da Cidade, apenas dez metros mais baixo que o prédio do Banespa”. Mais uma prova que a atual administração “democrata” nada conhece da cidade: o edifício-sede do Banespa possui 161,22 metros de altura, e não 148 metros, conforme o cálculo da municipalidade; e, o que é pior ainda, como é sabido, há construções ainda mais altas, como o Edifício Itália, com 163 metros (150 a partir do nível da rua), e o Mirante do Vale, com 170 metros, ainda o edifício mais alto do país. Ah, o que não se faz para se inflarem números... Até desconhecê-los.
E, ao mesmo tempo, gaba-se a extensão de seu vão principal: 122 metros. O que eles não informam é o porquê de escolherem tal sistema, já que tal tipo de pontes são empregadas em locais onde a circulação de barcos e navios é muito intensa, como no caso da Ponte da Normandia, situada na foz do rio Sena entre Honfleur e Le Havre, com 856 metros de vão central, e da Ponte Skarnsundet, na Noruega, cujo vão mede 326 metros. Na verdade, tal sistema só tem sentido em lugares onde o tráfego marítimo ou fluvial realmente existe, como nos casos da Ponte do Brooklyn, em Nova Iorque, da Ponte Golden Gate, em S. Francisco, Califórnia, da Ponte 25 de Abril, em Lisboa, da Ponte Hercílio Luz, em Florianópolis, e até mesmo da ponte pênsil sobre o Rio Piracicaba, visto que ali havia um ativo tráfego de pequenos barcos a vapor, à época de sua construção. Agora, convenhamos, que movimento fluvial existe no Rio Pinheiros, para além das dragas que removem de seu leito a sujeira de toda uma cidade?
É de se imaginar se a idéia não passa de mais uma macaquice, imitação na aparência, mas não na essência, de “modernidades” alheias. É possível mesmo especular se quem a planejou, quem a aceitou, e quem a elogia, não seriam alguns tantos brocoiós nostálgicos de algum sonho não realizado, de “vistas” norte-americanas em nossas paisagens metropolitanas. Gente que suspira à visão do prédio do Banespa porque este lembra o Empire State Building. Que enxerga na Avenida Paulista, a nossa versão da Quinta Avenida nova-iorquina, e no Parque do Ibirapuera, o nosso Central Park. Francamente!
Fica no ar a pergunta: será que o tráfego fluvial do Rio Pinheiros irá aumentar? Será que veremos empresários, políticos, empreiteiros, apresentadores de televisão, socialites, navegando em lanchas e iates pelas águas cremosas e mal-cheirosas daquele rio? Seria um espetáculo e tanto...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de dezembro de 2007].

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