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sábado, 21 de outubro de 2023

Reflexão num dia de chuva

[TEXTO PUBLICADO EM 15 DE JANEIRO DE 2011].
A infindável temporada de chuvas que assolam grande parte do Sudeste brasileiro faz do guarda-chuva quase que uma peça obrigatória do vestuário masculino e, observa-se, a cada dia, do feminino também. Parece, de fato, que as mulheres se cansaram das sombrinhas que, na verdade, convenhamos, aliviam muito mais do sol forte do que das águas que caem do céu, quer por sua pequena área de proteção, quer pelo material de que são feitas. Aliás, guarda-chuvas e sombrinhas não são irmãos, nem formam um casal. O primeiro é uma adaptação dos guarda-sóis que já existiam na Suméria, no Egito, nas antigas Grécia e Roma, passando pelos pálios, reais e pontifícios, até mais ou menos desembocarem naqueles utilizadas pelos artistas paisagistas, quando pintavam junto à natureza, como retratados pelo satirista inglês James Gillray (1756-1815), e que constam de um auto-retrato do genial Francisco de Goya (1746-1828) e noutro, discreto, de Arnaud (ou Armand) Julien Pallière (1784-1862) numa vista de Vila Rica. Foi, portanto, a partir do século XIX, com o triunfo da Revelução Industrial, com a indiscutível supremacia britânica na produção de bens de consumo e na sua divulgação, que o guarda-chuva, com esta específica função, ganha o mundo. Tanto que diversos historiadores contam como os escravos brasileiros, por exemplo, tão logo obtida suas alforrias, compravam um par de sapatos – eram proibidos de usá-los, na condição servil – e um guarda-chuvas, como provas de sua cidadania. Por outro lado, há uma certa ironia quanto a influência britânica na coisa toda: os brasileiros cunharam o nome da peça através do francês, parapluie (literalmente, “parachuva”) ; em inglês, sempre foi chamado umbrella (“sombrinha”). Já, justamente, a sombrinha, que é reintroduzida na Europa no século XVIII pelo gosto das chinesices, alastra-se no XIX pelo japonismo (como antes estiveram apaixonados pelos objetos chineses, os europeus, desta vez, passaram a preferir os japoneses). Mas o fato é que a sombrinha sempre foi muito mais decorativa, coquette, do que uma eficaz proteção contra a chuva.Poucos objetos são mais prosaicos do que um guarda chuva. Não conheço uma pessoa sequer que não tenha usado um alguma vez na vida. Por outro lado, creio que pouca gente reflete o quão sofisticada é a estrutura do mesmo. As partes que armam o tecido protetor equivalem-se às tesouras dos telhados, e as superam porque são móveis, flexíveis e de uma leveza absoluta. Sempre que me deparo com as imagens daquelas grandes construções de ferro fundido do século XIX e princípio do XX, quer seja a Torre Eiffel ou a Estação da Luz, o Viaduto Santa Efigênia ou o desaparecido Palácio de Cristal, erguido em Londres nos tempos da Rainha Vitória, nunca deixo de refletir se não eram elas herdeiras, indiretas, da estrutura dos guarda chuvas, e cada vez mais me inclino à conclusão de que eram, sim, ao menos aparentadas umas e outras.Um reles, mísero guarda chuvas, conserva semelhanças também com uma arma. Alguns são praticamente acionados por uma espécie de gatilho. Todos possuem travas de segurança e, dependendo de suas dimensões, podem servir de eficientes porretes. Além disso, têm uma ponteira que, bem utilizada, é capaz até de machucar. E, por seu formato, guarda chuvas podem ser esgrimidos não tanto como uma espada ou florete, mas como um estoque: as bengalas que possuíam em seu interior uma fina e comprida lâmina, que delas poderia ser desembainhada e utilizada num confronto. Aliás, fabricaram-se muitos guarda chuvas que eram também estoques. E outros capazes mesmo de disparar de um a dois tiros graças a um processo semelhante de embutimento. Num caso, a haste servia de bainha. No outro, de alma do cano, sendo o gatilho e o percussor instalados no punho, no gancho da peça. Um exemplar do primeiro deles pode ser visto no filme Os Vingadores (The Avengers, EUA, 1998) bem como na série televisiva que a precedeu (Ing., 1968-1969). Já do segundo pode-se que eram relativamente comuns nos acervos de provas da polícia civil brasileira. Depois da caça contra as armas no Brasil, acredito que muitas delas foram destruídas. Mas no Museu da Polícia de São Paulo, sei que existe pelo menos um remanescente. De minha parte, confesso, já utilizei diversas vezes um bom e vigoroso guarda chuva como arma de defesa. Quer fosse espantando uns grandes e rabugentos cães com os quais me deparava em certas madrugadas ouropretanas, quer enfrentando outros, com ares de raivosos, em pleno sol marianense. Trespassei, com a ponteira, mais de uma aranha venenosa, e pude espantar pelo menos meia dúzia de tipos suspeitos. Uma das seqüências que mais admiro na história do cinema encontra-se no filme Indiana Jones e a última cruzada (EUA, 1989). Ela tem início com o ataque de um avião contra os protagonistas que leva o personagem Henry Jones Sênior, ou I, (o pai do protagonista, papel desempenhado magistralmente por Sean Connery), numa praia que julgo ser da Dalmácia, eis que saca de seu guarda-chuva, tal qual fosse uma espada, preso à sua mala, abrindo-o e avançando contra um grupo de gaivotas. Desorientadas, as aves voam em direção da aeoronave a ponto de derrubá-la, livrando os heróis da morte. Enquanto caminha pela praia o velho herói justifica seus atos baseando-se numa súbita recordação de uma frase atribuída ao Imperador Carlos Magno (c. 742-814): “Que meus exércitos sejam as rochas, as árvores e as aves do céu”. Como disse, atribuída a Carlos Magno, pois não se tem notícia exata de sua autoria. Nem de seu vínculo àquele monarca. Mas tudo isto não importa. A cena é bela e mostra como a erudição, aliada até a uma coisa reles como um guarda-chuva, é capaz de insondáveis prodígios. Em suma, não desdenhemos destes objetos aparentemente tão comuns. E cada vez mais freges, estes vindos da China. Sua engenharia, no fundo, é notável. Sua utilidade, óbvia. E, pelo jeito que o tempo tem mudado neste país, cada vez mais tornam-se eles indispensáveis. Viva o bisonho guarda-chuva

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Mais uma semana difícil

Noutras ocasiões tratei, neste espaço, do desequilíbrio que rege os acontecimentos do mundo e o prazo de envio desta minha contribuição semanal aos editores responsáveis pelo texto que os leitores ora têm em mão. Ninguém tem culpa disto, só os fastos, os tempos, etc. A única vantagem desta discrepância entre o calor dos acontecimentos e o prazo necessário para a publicação de um comentário relativo aos mesmos é que, neste intervalo, temos condição de refletir quanto a tais ou quais fatos. Como agora.
No final da semana passada a economia norte-americana entrava numa crise sem precedentes na história mundial. A maior potência econômica e militar do mundo manifestava – como ainda manifesta – suficientes indícios de que poderia pedir uma moratória: uma extensão no prazo do pagamento de sua dívida, aquilo que Sarney fez no Brasil nos anos 1980 e que provocou, então, histéricas reações cá e lá. O atual presidente do Senado nós conhecemos bem. Nunca pensei que diria algo do gênero, mas parece-me, hoje, que aquele pedido de moratória foi a melhor coisa que ele fez em toda sua vida pública. Entretanto, à época, era o Brasil terceiro-mundista, quebrado, preguiçoso, viciado. Muito diferente dos Estados Unidos de hoje que, apesar de estar quebrado, preguiçoso e viciado, ainda é uma potência. O desenrolar desta história é algo que deve nos preocupar, diuturnamente, até seu desfecho.
Do outro lado do Atlântico, no mesmíssimo final de semana, um horrendo episódio desenrolou-se na Noruega, um país verdadeiramente civilizado. Ali os direitos civis e políticos de seus cidadãos, naturais ou imigrantes, são respeitados de uma maneira quase sem similar na face da Terra. Saúde, Educação, Lazer, Cultura, preservação do Ambiente, direitos trabalhistas, Previdência pública, apoio à velhice e à juventude, respeito às diversidades várias são uma tônica na política nacional dali. A Noruega (assim como a Suécia, a Dinamarca e a Finlândia) só não é (como as outras nações há pouco mencionadas) uma espécie de “Paraíso terreno”, porque faz frio demais ali. No resto, quanto às imensas garantias sociais (não são privilégios de poucos) de que gozam seus habitantes, aquelas fariam de tal terra, sim, uma lugar ideal para as pessoas de bem e mérito. Mas neste quase idílico local, um de seus cidadãos abateu, friamente, quase cem de seus conterrâneos, estribado na mais vulgar das ideologias, na suposta teoria das raças superiores que devem preceder as ditas inferiores. E fez isto matando seus irmãos de uma maneira quase “darwiniana”: interpretando mal as teorias do sábio inglês, o assassino pretendeu abater “os mais fracos” de seu próprio grupo, para que sobrevivessem “os mais fortes”. Uma limpeza genética e moral, parece ter pretendido. E hoje, mais uma vez, por conta de sua escolaridade e direitos gozados desde a infância, críticos do mundo todo encontram razões para atacar a social democracia escandinava, um modelo até ontem, por um desvio de quem usufruía dela.
Mas, é claro, o mundo não parou por conta destes fatos. Porque, para a mídia graúda, a reflexão não interessa. Só a paixão. É esta que vende jornal, que arrebanha a atenção do vulgo. E, por isso, só ouvimos falar, durante quase uma semana, da morte da cantorinha inglesa cujo “modelo de vida” já anunciava o seu “prazo de validade”. Em suma, os Estados Unidos estavam à beira da bancarrota, um assassino violento ceifou quase uma centena de vidas num dos melhores países do mundo, e só se ouvia falar em Amy, Amy, Amy...
Confesso que gostava de sua voz, a qual, de fato, era muito boa. Seu repertório, por outro lado, ainda que muito agradável, levava-me a crer que ela não passasse de uma boa crooner, reinterpretando quase arqueologicamente ritmos como o soul e a black music, hits do passado pouco conhecidos. Depois vim a saber que eram de sua própria lavra, o que fez com que meu respeito por ela aumentasse. Mas, convenhamos, quando uma bomba-relógio anunciada e identificada explode, ela nos choca, mas não deveria nos comover em demasia nem roubar nossa atenção de tudo o mais. O que ora ocorre nos Estados Unidos e o que se deu na Noruega são fatos muitíssimos mais terríveis do que o drama pessoal de uma jovem confusa, conquanto talentosa. Lembram bombardeios covardes, implosões misteriosas. O terror inaudito.
Em suma, pranteio a morte da cantora. Porém problemas muito maiores do que este rondaram o horizonte mundial na última semana. E não tiveram o mesmo enfoque. O que só nos leva a pensar uma coisa: diante de outras crises gravíssimas, seremos mais uma vez sutilmente alienados delas por motivos de menor importância?

P.S. Na próxima semana, salvo assunto de força maior, tratarei desta bobagem que alguns chamam de “a maldição dos 27 anos”.

P.P.S. Fiquei feliz em notar que o crítico de cinema do Estado de S. Paulo reconheceu a mesma filiação que eu próprio havia identificado entre o novo Capitão América e Bastardos Inglórios. Ainda mais por que ele assistiu ao filme, e eu não, quando escrevi minha crônica com uma semana de antecedência. Nada contra ele, o crítico. Pelo contrário. É que este gênero de filmes e os motivos pelos quais são produzidos, e suas linguagens, são muito previsíveis. Fazer o quê?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 30 de julho de 2011].

Um impostor dos quadrinhos: o Capitão América... do Norte

A história dos quadrinhos, ou ainda a história das histórias em quadrinhos, traz curiosidades maiores do que se pensa à primeira vista.
Este gênero de produção (cultural? De entretenimento? Alguém arrisca um classificação convincente?), que é sem dúvida de massa e para elas destinada, teve um início bastante pueril na virada do século XIX para o XX. E com esse cariz permaneceu pelos anos 1910 a, mais ou menos, 1940, comportando temáticas bem variadas. Tinha-se histórias declaradamente voltadas para o público infantil (Buster Brown, rebatizado como Chiquinho, na revista brasileira O Tico-tico, lançada em 1905; ou ainda Os Sobrinhos do Capitão, e as primeiras histórias de Mickey Mouse e sua turma), infanto-juvenil (pensemos em todos os super-heróis), e mesmo adulto, porém, inicialmente, satírico (Pafúncio e Marocas, Mutt e Jeff, etc.).
A partir dos anos 1930, 1940, vão surgindo histórias mais calcadas na aventura, lançando mão de certa violência e erotismo, muitas vezes combinados com o terror sobrenatural. Neste mesmo período, também, alguns personagens saltam das páginas de jornais e revistas e ganham as telas do cinema, em produções baratas que faziam a alegria dos jovens de então e eram solenemente desconsiderados pelos adultos e pela crítica, incapaz de perceber qualquer valor no Super-Homem, Buck Rogers, Flash Gordon e outros confrades. Mas aquele era o período da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial, e as pessoas precisavam esvaziar suas cabeças dos temores de então.
Nos anos 1950 e 1970, especialistas de toda natureza e do mundo inteiro se levantarão contra as histórias em quadrinhos, considerando-as perniciosas à juventude (um dano para a educação e péssima influência sobre a psicologia dos seus leitores), relacionando-as as delinqüência juvenil, estupros, gravidez adolescente, e coisas do gênero. Mas em fins dos anos 1970 e 1980, com o conceito norte-americano das graphic novels, a crítica se interessou pelos quadrinhos, julgando-a quase uma arte. Nos anos 1990 sobreveio uma crise no meio – o público leitor migrou para outras mídias – e desde então se os quadrinhos já não vendem tão bem, produzem lucrativas franquias cinematográficas, de brinquedos, games e toda sorte de mercadorias para crianças e adultos. É o que explica, por exemplo, o lançamento de mais uma adaptação do Capitão América para os cinemas.
Desconheço o grau de sucesso de tal personagem nas versões para o cinema e televisão em décadas anteriores. Lembro de uma adaptação de 1990 que foi um retumbante fracasso. E não sei o que esperar da nova, a ser lançada por estes dias. Mas se há algo a dizer sobre o Capitão América é que ele me parece um dos mais antipáticos e chauvinistas personagens de quadrinhos que já vi. É verdade que é ótimo torcer por ele. Afinal, ele enfrenta os terríveis nazistas, pelos quais não se pode ter nenhuma simpatia e contra os quais se pode devotar todo o ódio e desejo de vingança possíveis (como o fez aquele Tarantino em seu Bastardos Inglórios – talvez mais pai do novo filme que os quadrinhos que lhe deram origem). Depois, é meio inócuo, hoje em dia, bater em nazistas. Os originais, salvo um outro nonagenário que não mete medo em ninguém, estão todos mortos. Queria ver se os produtores teriam coragem de mandar o Capitão América enfrentar os japoneses... Aí seria bem diferente. Porque eles foram quase tão cruéis quanto os primeiros, a dinastia reinante de seu país é a mesma daqueles dias, mas são um dos povos que mais consumem a tralha produzida nos Estados Unidos. Teriam os produtores peito para afrontar tal mercado consumidor? Duvido.
Outra coisa que me faz desgostar do Capitão América é seu aspecto ultrapatrioteiro. Ele é sempre norte-americano demais, certinho demais, caipira demais, “Cinturão da Bíblia” demais. Só pelos americanos ele se bate, e por mais ninguém? Lutou na França? Ah, mas era porque seus compatriotas estavam lá. É de se presumir que sequer conseguisse apontar num mapa onde fica a França.
E, por fim, o que acho o pior no que diz respeito a esse herói: metê-lo em situações reais, num contexto histórico. Porque nenhum super-herói lutou na Segunda Guerra e, sim, homens comuns, heróicos sem dúvida, gente de carne e osso que se arriscou e morreu por lá sem contar com a ajuda de qualquer impostor vestido em uniforme de cores berrantes. E transportar para aquele tempo e lugar a ação providencial de alguém que nunca existiu, é, em minha opinião, uma grave ofensa à memória de todos aqueles que de fato lá estiveram, dando o seu sangue contra o inimigo.
Stendhal e Tolstoi criaram homens comuns que, em seus livros, participaram de batalhas nas guerras napoleônicas. Sem qualquer impacto real sobre elas. Algo amplamente válido num gênero maior que é o romance. Que gêneros menores, como os quadrinhos, ou o cinema de entretenimento, queiram reescrever a história, colocando marmanjos mascarados, que vestem a cueca por cima das calças, batendo-se contra o nazismo, aí já não se trata de uma licença artística: é uma pouca vergonha mesmo.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 23 de julho de 2011].

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Ainda O Alvorada, e enquanto preciso for!

Peço a atenção dos leitores, mais uma vez, e sua paciência, a um assunto crucial no que diz respeito à história de Leme. Terão que me aguentar por um espaço maior do que de costume. Mas, fazer o quê? Quando a causa é boa, não se poupa munição. E, assim, gostaria que as mulheres e homens de bem desta cidade, que são muitos e honrados, prestassem atenção a esta minha crônica – com ares de manifesto, vá lá – movida por um único interesse (o qual, já adianto, a possíveis detratores, e à sua lógica bem conhecida, não me renderá um único centavo), que tem como motivo, mais uma vez, a manutenção do Cine Alvorada como um centro de Cultura – um farol, quase se poderia dizer – iluminando a sociedade lemense. E, em vista deste símbolo cultural que luta para sobreviver aos tempos, gostaria de deixar algumas colocações.
Não me recordo, especificamente, dos critérios que levam ao tombamento de abatedouros, fábricas e estações ferroviárias, e, no entanto, tais prédios são tombados. Ao que parece, o Conselho Estadual por ora se interessa apenas pelos remanescentes dos anos 1920-1930 e anteriores. Quem sabe, daqui a vinte ou trinta anos, depois que os prédios que foram erguidos entre as décadas de 1940 a 1960 estiverem quase totalmente desaparecidos, aí, quem sabe, o referido Conselho se lembre deles, e veremos um festival de tombamentos de pontos de ônibus, sanitários públicos e coisas que tais, pois é o que há de restar graças a tal conduta.
Quanto ao estilo do querido Cine Alvorada, pode-se dizer que ele não pertence a nenhum ainda nomeado. Mas isto é só uma questão de tempo. Basta algum acadêmico estudar prédios semelhantes e lançar uma tese com o título “O Estilo Fantasista na Arquitetura”, ou coisa do gênero, que, pegando o nome, fará Leme inteira chorar por não ter mantido ainda de pé o seu único exemplar de prédio fantasista: seu patrimônio arquitetônico será alijado, seu potencial turístico mutilado, etc., etc., etc.
Pareço, aparentemente, brincar com o termo fantasista, mas ainda que este não exista, expressa muito bem algo que permaneceu sem nome e que surgiu em meados dos anos 1950, campeou ainda em parte da década seguinte, e que no fundo era muito mais cenográfico do que arquitetônico, misturando, sem pudor, o moderno, o art-nouveau, o art-déco e o clássico (bastante diluído).
O seu criador, por assim dizer, em nossas plagas, foi João Artacho Jurado (1907-1983). Suas obras mais conhecidas foram os edifícios Cinderela, Parque das Hortênsias e Bretagne, em Higienópolis, o Louvre e o Viadutos (este quase de frente à Câmara dos Vereadores de São Paulo, em cujo topo, durante décadas, exibia-se um imenso anúncio das lojas Garbo), no centro, e o Saint-Honoré, na Paulista, além de alguns outros em Santos, na orla. E, todos eles, defendidos com unhas e dentes por seus moradores, e por muita gente que os conhece, como merecedores de tombamento.
Tal estilo não pode ser chamado de eclético – que é o nome que se dá a toda construção meio anacrônica, como o neo-gótico (Sé de São Paulo), neoclássico (o antigo prédio da Light e mesmo o Teatro Municipal paulistano) ou neo-barroco (Faculdade de Direito da USP, a São Francisco). Nem de pós-moderno (a menos que consideremos Artacho Jurado o precursor deste movimento: mas ninguém é pai sem deixar herdeiros, ou seguidores, e ele não os teve até onde me consta).
Para que se tenha uma ideia do quão cinematográficas eram as suas feições, registre-se que, na inauguração do Bretagne (na Avenida Higienópolis, fronteiro ao Colégio Sion), contaram-se entre os convidados (convidados, vírgula, era pura jogada de marketing) o cowboy do cinema Roy Rogers e a então Miss América. E, até hoje, vários de seus prédios servem de locação para comerciais publicitários, graças às suas formas tão interessantes: o último de que me lembro, era um de vodca, no qual se enchia de espuma sintética a piscina de uma cobertura de prédio, para uma balada. Em suma, era um estilo muito mais à Hollywood e Las Vegas, do que à Niemayer ou Le Corbusier. E, portanto, nunca foram os prédios de Artacho Jurado apreciados pelos arquitetos modernos. Que, aliás, o desclassificavam de cabo a rabo por ele não ser um de seus pares, visto que ele era só um empresário, empreendedor, com ideias próprias quanto ao gosto, que decidiu torná-las reais, em alvenaria, pastilhas, formas sinuosas e curiosas. Algo imperdoável à classe, que ainda comanda os institutos do patrimônio em geral...
Daí o belo exemplo que daria Leme aos demais municípios formulando uma lei específica de tombamento do Alvorada. A cidade sairia na vanguarda de muitas outras, inscreveria seu nome nos anais dos prédios preservados pelos seus interesses intrínsecos. Tal não vale a ousadia? Ou somos revolucionários apenas mediante uma cartilha?
Quanto ao projeto de construção de um Teatro Municipal Lemense, digo aos cidadãos locais que perguntem a meia dúzia dos vizinhos ararenses – não é necessária uma amostragem maior, tal o consenso que eles têm pela coisa – o que pensam de seu moderno teatro, também conhecido como “teatro da sogra”, para ficarmos apenas no epíteto mais delicado que ele recebeu. Que argúem os cidadãos de Leme, daqueles, suas impressões quanto ao dinheiro investido na obra, e se acham que o mesmo corresponde ao resultado final. E que indaguem dos mesmos das conveniências do lugar em que se situa, e da programação cultural desta casa de espetáculos...
Assim, perguntamos: se há dinheiro público suficiente para se desapropriar ou comprar um terreno e nele ser construído um teatro, pagando-se uma régia soma ao escritório de arquitetura responsável por ele, não custaria muito menos manter ou adaptar o prédio do Alvorada? E, melhor ainda, empregar os recursos que sobrassem na manutenção do conjunto e na implantação de um projeto cultural efetivo, abrindo o espaço para a dança, o teatro, a música instrumental? Para que construir um teatro novo sabe-se lá onde – quiçá em local ermo ou desprovido de transporte público? Todos os projetos urbanísticos atuais privilegiam as áreas centrais da cidade como polo irradiador de cultura para a coletividade – até mesmo o Mário Trevas, o Aidemim, o Chirico e o Kemsabe, em São Paulo, não agiram diferente – e quer se tirar um local privilegiado para tal meio, dos mais privilegiados dos locais para tal fim? No mínimo é falta de senso. Ou, podemos pensar: “os cofres públicos estão por demais abarrotados, daí, sabe-se como é, tem que se gastar nalguma coisa, etc., etc., etc”. E mesmo, em caso contrário, que as verbas sejam pingues, perguntamos: que Prefeitura do país não emprega um certa quota de empregados semi-ociosos aqui e ali? Por que não mais quatro: um bilheteiro, um projecionista, um lanterninha e uma venderora de confeitos, no foyeur, das 18 às 22h? A faxina, evidentemente, fica por conta de uma outra funcionária pública: pois as prefeituras do interior têm quase um exército próprio de faxineiras! Ah, mas se pode ainda argumentar que é necessário tino, para se manter uma tal empresa viável do ponto de vista econômico. Pois bem, se o Alvorada tivesse investido num Ciclo do Cinema Iraniano, concordo que seria inviável para boa parte do público Se, ainda, mantendo, seu espaço para os blockbusters nacionais e internacionais, que dão receita certa, não se pode cooptar um público suficiente, é aí que deve se manifestar o poder local instituído, garantindo aos seus munícipes o contanto com a arte e com o mundo. Tais circunstâncias produzem, com muito maior e melhor efeito, resultados culturais que um teatro saído do nada e erguido no meio do vazio. Ou arrasando-se uma área cuja função primordial – e histórica – era outra. Portanto, que não se venha com a ideia de construir alguma coisa em prol da demolição de um prédio remanescente da Ferrovia Paulista. Então é lícito destruir aquilo que se preserva, em prol daquilo que foi raptado de seu lugar inicial? Só a mais completa e absoluta ignorância – ou outros fatores que não cabem aqui discutir –compartilhariam tais ideias.
Mas antes que digamos que tudo está perdido, podemos supor que, ao fim, há ainda uma possibilidade de manutenção, física e cultural, do Cine Alvorada, enquanto espaço multicultural, ainda que os poderes públicos do município (Executivo e Legislativo) decidam-se por abandoná-lo, contrariando seus eleitores que querem mantê-lo – o que seria uma verdadeira abominação. Falo de uma alternativa que tem conservado inúmeros cinemas deficitários, e que poderia ser resolvida graças a uma aliança, ou parceria com uma universidade local. Por que os herdeiros, ou atuais responsáveis, pela antiga, e filantrópica – assim constiuída publicamente – FAL, agora um braço de uma universidade que não para de crescer, na qual, segundo dizem, é possível que o aluno “comece uma revolução em sua carreira”. Por que tal (milionária) instituição de ensino não poderia assumir, ou subvencionar, o funcionamento de um cinema? Quanto isto lhe custaria no bolso, ou quanto tal iniciativa seria discrepante de sua missão educacional? Cinema não é cultura? Não é educação? Não revoluciona nenhuma carreira?
Alternativas, como vimos, existem. Esperemos por aqueles que tenham coragem, ou a mínima decência, de aplicá-las. Caso contrário, merecem, tais senhores, e instituições, a mais pública e completa rejeição, uma vaia coletiva e o nosso eterno desprezo. Quão bravos, quão belos os lemenses que defendem o Cine Alvorada! Que os podereres constituídos por seus votos não os traiam!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 9 de abril de 2011].

Tudo pelo Cine Alvorada!

Quando o leitor tiver em mãos, sob seus olhos, esta página com minha crônica, e de minha cara vizinha Berenice, espero ainda que, com os mesmos olhos, possa avistar, firme e inabalável, o Cine Alvorada, em seu mesmíssimo lugar, físico e cultural, na cidade de Leme. Anseio, sinceramente, que as autoridades locais – públicas, mas não só, pois a sociedade civil é também uma autoridade, senão a primeira, de direito – tomem as medidas necessárias para que um foco irradiador de cultura, e uma interessante construção de fins dos anos 1950, seja preservado com todo o respeito de que faz jus.
Já de antemão afianço que a responsabilidade final caberá ao poder executivo ou à Câmara, em suma, às esferas municipais. Só a eles cabe o tombamento do prédio. Que não se, recorra, portanto, às avaliações do Condephaat – míope na análise de casos (os abatedouros parecem ter primazia frente aos avoengos solares) e manco na celeridade com que os encaminha à preservação – ou àquelas do IPHAN – este é cego de um olho (só enxerga valor artístico, histórico ou arquitetônico em construções com mais de cento e cinquenta anos) e perneta (seus processos de tombamento seguem o ritmo da marcha do Saci). Quanto à boa-vontade do novo proprietário – do, agora friamente chamado, imóvel – duvido de que a mesma possa ser abalada. Quem cogita em pôr abaixo um marco cultural e arquitetônico do município para, em seu lugar, erguer – que digo, e desde quando tal coisa se ergue? – um pátio de vendas de automóveis demonstra não ter sensibilidade alguma frente à cidade em que vive. Nem, tampouco, boa visão para os negócios, pois, afinal, o mesmo se localizaria no término de uma Avenida, na qual a concorrência já se encontra estabelecida e atuante. Ninguém desce ao fim de nada para tomada de preços, sobretudo neste ramo comercial. Quem compra carros – e isto é sabido do Oiapoque ao Chuí – procura os estacionamentos à entrada das cidades e próximos às rodovias: ninguém desbrava ruas das quais não sabe como retornar.
Considero também lamentável que a família proprietária do Cine Alvorada tenha querido livrar-se dele, sem pensar no destino que o mesmo poderia ter. Pois não se fecha um cinema como se fecha uma venda ou um armarinho. Graças à sua influência política, poderia ter planejado um fim mais nobre para o empreendimento, como transformá-lo, por exemplo, num Cine-Teatro Municipal, ou algo do gênero, encampado pela Prefeitura ou, ainda, pela Câmara – a casa dos edis de Itatiba, SP, por exemplo, mantém, em suas dependências, um excelente teatro. Tal proposta, se aberta à manifestação pública, frisando-se a sua necessidade para a manutenção do prédio e de suas funções, certamente granjearia a adesão de muitos munícipes. Mas, a política, sabemos todos como ela é: mãe num dia, madrasta no outro, e que se percam os anéis para se salvarem os dedos.
Saindo da esfera monetária e política, retornando à espiritual, sinto-me no dever de afirmar que tenho gratas lembranças do Cine Alvorada. Namorei muito pouco dentro dele, mas, por outro lado, diverti-me à farta, junto a amigos, com o objetivo primeiro e principal da casa, afinal de contas: assistir aos filmes. E, em especial, as reprises. Até hoje tenho amigos que não acreditam que, um dia, eu possa ter visto Ben-Hur em exibição panorâmica. Pois não só o vi, como revi, quase toda semana-santa, exibido na tela – panorâmica – do Alvorada. Quem se lembra do filme, sobretudo da corrida de bigas, sabe do que estou falando. Pois se trata de uma experiência única. Às vezes, na mesma temporada, éramos sujeitos a alguns abacaxis, como O Manto Sagrado – ao qual apelidávamos de O Manto Sangrado, porque a chatice do filme sangrava nossa paciência. Por outro lado, havia ainda um excelente filme espanhol, do qual nunca consegui lograr maiores informações além do título: O Beijo de Judas (“El Beso de Judas”), cujo artista que interpretava Jesus parecia ter mais de dois metros de altura e seu rosto nunca era mostrado. O que valia por dezenas de tratados teológicos (não só cristãos, mas até judaicos e islâmicos), quanto à representação humana de um Messias e nossa capacidade de compreendê-los. Acho que até alguns ateus endossariam a abordagem humana de toda a questão.
Enfim, reitero meus votos – mais que votos, pois subescrevi o abaixo-assinado virtual (http://www.peticaopublica.com.br/?pi=P2011N8232 ) – de que o Cine Alvorada permaneça onde está. E apoiarei, publicamente, todos os que se manifestarem por tal. Entretanto, não sei ainda o destino do mesmo ante aos olhos do leitor (esta crônica é enviada entre às quintas e sextas-feiras). Caso o nosso velho cinema venha abaixo, digo só uma coisa: para mim, e espero que outros pensem o mesmo, a 29 de agosto passará a acabar na Newton Prado – o resto já não mais me interessa.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 2 de abril de 2011].

sábado, 15 de janeiro de 2011

Reflexão num dia de chuva

[Texto publicado em 15 de janeiro de 2011].
A infindável temporada de chuvas que assolam grande parte do Sudeste brasileiro faz do guarda-chuva quase que uma peça obrigatória do vestuário masculino e, observa-se, a cada dia, do feminino também. Parece, de fato, que as mulheres se cansaram das sombrinhas que, na verdade, convenhamos, aliviam muito mais do sol forte do que das águas que caem do céu, quer por sua pequena área de proteção, quer pelo material de que são feitas. Aliás, guarda-chuvas e sombrinhas não são irmãos, nem formam um casal. O primeiro é uma adaptação dos guarda-sóis que já existiam na Suméria, no Egito, nas antigas Grécia e Roma, passando pelos pálios, reais e pontifícios, até mais ou menos desembocarem naqueles utilizadas pelos artistas paisagistas, quando pintavam junto à natureza, como retratados pelo satirista inglês James Gillray (1756-1815), e que constam de um auto-retrato do genial Francisco de Goya (1746-1828) e noutro, discreto, de Arnaud (ou Armand) Julien Pallière (1784-1862) numa vista de Vila Rica. Foi, portanto, a partir do século XIX, com o triunfo da Revelução Industrial, com a indiscutível supremacia britânica na produção de bens de consumo e na sua divulgação, que o guarda-chuva, com esta específica função, ganha o mundo. Tanto que diversos historiadores contam como os escravos brasileiros, por exemplo, tão logo obtida suas alforrias, compravam um par de sapatos – eram proibidos de usá-los, na condição servil – e um guarda-chuvas, como provas de sua cidadania. Por outro lado, há uma certa ironia quanto a influência britânica na coisa toda: os brasileiros cunharam o nome da peça através do francês, parapluie (literalmente, “parachuva”) ; em inglês, sempre foi chamado umbrella (“sombrinha”). Já, justamente, a sombrinha, que é reintroduzida na Europa no século XVIII pelo gosto das chinesices, alastra-se no XIX pelo japonismo (como antes estiveram apaixonados pelos objetos chineses, os europeus, desta vez, passaram a preferir os japoneses). Mas o fato é que a sombrinha sempre foi muito mais decorativa, coquette, do que uma eficaz proteção contra a chuva.Poucos objetos são mais prosaicos do que um guarda chuva. Não conheço uma pessoa sequer que não tenha usado um alguma vez na vida. Por outro lado, creio que pouca gente reflete o quão sofisticada é a estrutura do mesmo. As partes que armam o tecido protetor equivalem-se às tesouras dos telhados, e as superam porque são móveis, flexíveis e de uma leveza absoluta. Sempre que me deparo com as imagens daquelas grandes construções de ferro fundido do século XIX e princípio do XX, quer seja a Torre Eiffel ou a Estação da Luz, o Viaduto Santa Efigênia ou o desaparecido Palácio de Cristal, erguido em Londres nos tempos da Rainha Vitória, nunca deixo de refletir se não eram elas herdeiras, indiretas, da estrutura dos guarda chuvas, e cada vez mais me inclino à conclusão de que eram, sim, ao menos aparentadas umas e outras.Um reles, mísero guarda chuvas, conserva semelhanças também com uma arma. Alguns são praticamente acionados por uma espécie de gatilho. Todos possuem travas de segurança e, dependendo de suas dimensões, podem servir de eficientes porretes. Além disso, têm uma ponteira que, bem utilizada, é capaz até de machucar. E, por seu formato, guarda chuvas podem ser esgrimidos não tanto como uma espada ou florete, mas como um estoque: as bengalas que possuíam em seu interior uma fina e comprida lâmina, que delas poderia ser desembainhada e utilizada num confronto. Aliás, fabricaram-se muitos guarda chuvas que eram também estoques. E outros capazes mesmo de disparar de um a dois tiros graças a um processo semelhante de embutimento. Num caso, a haste servia de bainha. No outro, de alma do cano, sendo o gatilho e o percussor instalados no punho, no gancho da peça. Um exemplar do primeiro deles pode ser visto no filme Os Vingadores (The Avengers. EUA, 1998) bem como na série televisiva que a precedeu (Ing., 1968-1969). Já do segundo pode-se que eram relativamente comuns nos acervos de provas da polícia civil brasileira. Depois da Jihad contra as armas no Brasil, acredito que muitas delas foram destruídas. Mas no Museu da Polícia de São Paulo, sei que existe pelo menos um remanescente. De minha parte, confesso, já utilizei diversas vezes um bom e vigoroso guarda chuva como arma de defesa. Quer fosse espantando uns grandes e rabugentos cães com os quais me deparava em certas madrugadas ouropretanas, quer enfrentando outros, com ares de raivosos, em pleno sol marianense. Trespassei, com a ponteira, mais de uma aranha venenosa, e pude espantar pelo menos meia dúzia de tipos suspeitos. Uma das seqüências que mais admiro na história do cinema encontra-se no filme Indiana Jones e a última cruzada (EUA, 1989). Ela tem início com o ataque de um avião contra os protagonistas que leva o personagem Henry Jones Sênior, ou I, (o pai do protagonista, papel desempenhado por Sean Connery), numa praia que julgo ser da Dalmácia, saca seu guarda-chuva, tal qual fosse uma espada, preso à sua mala, abrindo-o e avançando contra um grupo de gaivotas. Desorientadas, as aves voam em direção da aeoronave a ponto de derrubá-la, livrando os heróis da morte. Enquanto caminha pela praia o velho herói justifica seus atos baseando-se numa súbita recordação de uma frase atribuída ao Imperador Carlos Magno (c. 742-814): “Que meus exércitos sejam as rochas, as árvores e as aves do céu”. Como disse, atribuída a Carlos Magno, pois não se tem notícia exata de sua autoria. Nem de seu vínculo àquele monarca. Mas tudo isto não importa. A cena é bela e mostra como a erudição, aliada até a uma coisa reles como um guarda-chuva, é capaz de insondáveis prodígios. Em suma, não desdenhemos destes objetos aparentemente tão comuns. E cada vez mais freges, estes vindos da China. Sua engenharia, no fundo, é notável. Sua utilidade, óbvia. E, pelo jeito que o tempo tem mudado neste país, cada vez mais tornam-se eles indispensáveis. Viva o bisonho guarda-chuva!

sexta-feira, 12 de março de 2010

Quanto vale o Cristo Redentor?

A Arquidiocese do Rio de Janeiro vire e mexe ocupa as páginas dos jornais, ao contrário de todas as demais que conheço. Enquanto as outras dão notícias de seus trabalhos, campanhas, ou simplesmente pregam a palavra de Deus, a Mitra fluminense faz-se notória pela proibição do uso de imagens que lhe pertencem. A mais comum é a interdição quanto a filmagem de cenas de novelas ou seriados nas igrejas sob sua responsabilidade. E lembremos que no Carnaval carioca de 1989, foi também proibida a apresentação de uma réplica da estátua do Cristo Redentor, que desfilaria num carro alegórico da Beija-Flor de Nilópolis. A imitação, aliás, era um tanto irrealista, na medida em que seus trajes estariam em farrapos, de acordo com o enredo da escola, que mostrava pobres e miseráveis vestidos de trapos. Por fim, entretanto, a imagem saiu, coberta por um plástico preto e por uma faixa que dizia: “Mesmo proibido, olhai por nós”. Quanto a este episódio, achei na época, e acho ainda agora, que a Igreja do Rio exagerou na proibição e cometeu um grave equívoco. Uma coisa seria desfilarem com uma reprodução da imagem de Cristo em farrapos. Aí, compreendo, pode ser desrespeitoso. Bem diferente é fazer a mesma coisa com a estátua do Cristo. Ou Um e outra são a mesma coisa? Depois, poderia até ser alegado que não era uma paródia daquela do morro do Corcovado, mas de uma outra qualquer das milhares que existem no Brasil...
Mas voltando aos dias de hoje, eis que surge uma nova polêmica envolvendo a Arquidiocese do Rio de Janeiro e o Cristo Redentor. Desta vez tendo do outro lado da contenda a Columbia Pictures, produtora do filme 2012. Alega a Mitra fluminense que o estúdio norte-americano usou indevidamente a imagem da estátua que, na trama, é destruída por um terremoto. E, por isto, quer que lhe paguem uma indenização e que haja uma retratação pública por parte da companhia cinematográfica. Pois a questão não seria simplesmente monetária (o uso da imagem do Cristo Redentor não é cobrado, dizem, mas a Igreja também pode vetar que ela apareça em filmes ou programas). Quanto às negociações entre as partes, parece que estão bem avançadas e que, por ora, uma ação judicial está descartada.
Diante de um fato destes, confesso que me acho dividido. Uma parte de mim gostaria que o caldo engrossasse, que partissem aos tribunais e que a Cúria perdesse. Outra, o exato contrário: que ela ganhasse. Vejamos os motivos.
Com o processo e a derrota da Arquidiocese, a liberdade de expressão e de manifestação artística estaria mais uma vez garantida. Vá lá que 2012 não seja arte, mas acredito que monumentos, obras de arte, construções e paisagens, por sua natural visibilidade pública, possam e devam ser livremente tratados em registros artísticos e ficcionais. E assim entendem incontáveis pessoas e instituições do mundo, a começar pelo próprio Vaticano, que já viu dezenas de vezes, pelo menos, a Basílica de São Pedro ser destruída em filmes e, se não gostou, por outro lado não pediu dinheiro por isto. Nem esta tal de “retratação pública”, com cheiro (de queimado) de mea-culpa em Auto-de-Fé. E o mesmo comportamento se verificou por parte das cidades de Londres, Paris, Nova Iorque, Washington, Roma, etc., tantas vezes arrasadas no cinema.
Já com a vitória da Cúria fluminense, é possível que surgissem alguns ganhos também. Pois acabaria a exploração incondicional de imagens, coisas que vemos a toda hora, por exemplo, na publicidade.
Imaginemos uma hipótese. Uma campanha milionária de automóveis utiliza-se de cenas e locações do centro de São Paulo em virtude de sua riqueza arquitetônica – que as agências maquiam até parecer se tratar de uma outra cidade. Ora, o centrão, mal cuidado, nada ganha com isto, ao contrário da agência publicitária, da montadora, etc. Pois bem, aberto o precedente do caso do Cristo Redentor, haveria espaço para uma discussão séria quanto ao direito das imagens, que poderia levar os responsáveis pelo comercial a pagarem pelo uso delas e, assim, a municipalidade e os proprietários dos prédios filmados teriam recursos para investir na conservação daqueles cenários e para muito mais.
Outra hipótese: as campanhas políticas. Os partidos, do maior ao menor, valem-se de imagens aleatórias para dizerem que cuidarão da Saúde, Educação, Segurança, Cultura, Preservação Ambiental e do Patrimônio Histórico ou Paisagistico, além de muitos Etceteras. Pois bem, se após a utilização das mesmas nada fosse investido nos locais apresentados, poderia haver o entendimento de que uma sanção deveria ser imposta a quem delas se utilizou e, no poder, nada fez.
Em suma, se o uso da imagem alheia gera dinheiro a alguém, que parte dele seja transferido aos donos da mesma. É lógico e deveria ser natural, como é entendido em tudo o mais que diz respeito aos direitos autorais (que, no fundo, são verdadeiros “direitos de propriedade”).
Confesso que não cheguei a uma opinião definitiva quanto ao assunto. Pois, ao cabo das coisas, acaba-se, de todo jeito, por se ficar num meio caminho de um uso social da imagem. Pertenceria ele a um ou a todos? É um assunto a se indagar, e estou, como sempre, aberto a comentários.
Por ora, há que se concluir que é impossível saber quanto vale o Cristo Redentor. Se render uma boa polêmica, que não seja meramente para as partes envolvidas, deve valer alguma coisa.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de fevereiro de 2010].

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Uma questão atual

Quando assisti pela primeira vez ao filme “Tiros em Columbine” (Bowling for Columbine, EUA, 2002), do cineasta Michael Moore, um documentário que trata da obsessão norte-americana pelas armas de fogo, confesso que minha atenção voltou-se somente ao tema principal, e vários outros assuntos de permeio escaparam-me. Recentemente, assistindo a uma reprise, dei-me conta de um curiosa relação que e o diretor faz entre dois aspectos da sociedade americana aparentemente desligados um do outro. Em dado momento — para ser mais preciso, na parte do desenho animado dentro do filme —, o narrador menciona que juntamente com a expansão dos direitos civis aos negros americanos (ou afro-descendentes, como preferem ser chamados por lá), houve também a mudança de inúmeras famílias de classe média branca dos bairros onde tradicionalmente viviam, nas cidades, rumo aos subúrbios e aos condomínios mais ou menos fechados.
Ou seja, enquanto os negros americanos conquistavam direitos — que, entre nós, brasileiros, sempre foram muito mais do que evidentes — como poderem viajar nos bancos da frente dos ônibus, poderem usar sanitários e bebedouros públicos que não os explicitamente dedicados à sua cor, e por ela não serem discriminados na tentativa à admissão num emprego ou numa escola, em suma, passavam a efetivamente interagir no meio urbano, a classe média branca fugia daquele mesmo meio urbano, reinventando-o em moldes conservadores na orla das grandes cidades.
Essa migração preconceituosa ocorreu nos Estados Unidos a partir da década de 1950. O Brasil — que a partir daquela época passou a copiar tudo o que a sociedade norte-americana tinha de pior, só que com atraso, e alterando completamente a lógica original das coisas, mas não para melhor — deus à luz suas primeiras experiências em matéria de condomínios fechados no início da década de 1970. Alphaville, em São Paulo, foi o primeiro exemplar e o modelo consagrado do gênero, para todos que o seguiram pelo Brasil, e data de 1974. Diz-se que seu nome, ou assim pretendiam os empreendedores do condomínio, seria uma “contraposição” ao tipo de sociedade “ideal” criada como cenário, e personagem do filme Alphaville (França, 1965), do cineasta Jean-Luc Godard.
Pusemos em aspas os termos contraposição e ideal por dois motivos. Em primeiro lugar, consideramos a citação do nome de uma infelicidade atroz, por que a cidade do filme nada tinha de ideal, o que já justificam as aspas da segunda palavra. Porque a Alphaville do cineasta franco-suíço é uma comunidade dominada por um computador, o Alpha-60, que controla todos os acontecimentos e toda liberdade de expressão de seus habitantes, vigiando a todos o tempo todo, mas não impedindo que vários horrores acontecessem.
Assim, é curioso notar que antes mesmo que se falasse em violência urbana, ou melhor, antes de que esta fizesse parte de nosso quotidiano, a classe média paulistana, certamente mais levada pelo espírito de cópia, de macaquice, do que vitimada por um medo real, pela violência também real, já procurava abandonar o ambiente urbano, trocando-o por um mundo quase de faz-de-conta.
Não temos nada contra os condomínios propriamente ditos. Compreendemos, aliás, que no contexto de crimes que envolve este país há tanto, onde a segurança individual é praticamente nula, as pessoas deixem as cidades por lugares mais seguros. Mas a proliferação de tais lugares de moradia acabam por se tornarem prejudiciais à sociedade como um todo. Pois além de avançarem, freqüentemente, sobre áreas de mananciais, reservas naturais, florestais, etc., acabam também por gerarem demandas sociais novas, pois toda uma infra-estrutura urbana tem de ser criada para levar recursos básicos até áreas muitas vezes distantes dos centros tradicionais. Nesse processo, perdem as cidades, vítimas do natural descaso de uma população que cada vez mais delas se afasta, freqüenta, olha por ela. E , o que é pior, esgarça violentamente o tecido da sociedade, a noção de igualdade entre os homens, de fraternidade entre cidadãos, na medida em que acabam por criar duas naturezas de seres: os que vivem dentro dos muros e os que vivem fora. Uns achando-se quase que pertencentes a uma linhagem real ou divina, olhando para fora com olhos aterrorizados e preconceituosos. Outros espichando o olhar por cima do muro, vislumbrando, distorcidamente, o que lá se passa como algo invejável, ou algo que deva ser destruído. É uma questão sobre a qual vale a pena refletir.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de agosto de 2005].

E o vento levou...

Os Estados Unidos da América são, para muita gente, um exemplo de país onde tudo funciona, o Estado é diligente, as leis são cumpridas, o povo é ordeiro e a tecnologia é a mais desenvolvida do mundo. Os atentados terroristas daquele famoso 11 de setembro ofuscaram um pouco o brilho da tão propalada precisão e eficiência da CIA (Agência Central de Informação), mas como mais nada ocorreu em solo norte-americano desde então, a aura de superpotência infalível voltava a brilhar. Bastou todavia um furacão, para, literalmente, botar tudo isto abaixo e mais um pouco. Então, vejamos.
O norte-americano médio é fanático por meteorologia. Há dezenas de programas na televisão que tratam do assunto, os apresentadores, “homens do tempo”, são celebridades nacionais, e há mesmo um canal de teve a cabo dedicado apenas e tão somente a esta questão. A mania é tão grande que o próprio cinema não está imune a ela, e aí estão os arrasa-quarteirões Twister (1996) e O Dia depois de Amanhã (2004), para falarmos só dos grandes. Nunca é demais lembrar que n’O Mágico de Oz, clássico da literatura infantil daquele país e filme de grande sucesso, a pequena Dorothy não é levada a uma terra de fantasia por qualquer recurso mágico, mas por um ciclone...
Se o governo norte-americano gasta fortuna com o serviço de meteorologia, fica a pergunta: como é que não previram o estrago que o furacão poderia causar?
Outro aspecto curioso: vamos admitir que a meteorologia acertou em cheio quanto ao poder de destruição da coisa toda. Então, pensamos logicamente, a reação das autoridades e da população em geral seria a de tomar todas as precauções possíveis que reduzissem as conseqüências. Isto é o que se espera de um país “civilizado, de primeiro mundo”, como gostam de dizer por aí. Mas o que lemos a respeito? Que não há comida nem condições de saúde adequadas na Lousiana. Que os centros de acolhimento aos desabrigados são poucos, estão superlotados, e alguns deles não contam sequer com água, mas com cadáveres dentro e ao redor dos abrigos. E em meio a este caos, o governador daquele estado lança apelos aos quatro ventos, com perdão do trocadilho, pedindo sobretudo dinheiro, é claro. Ora, convenhamos, pode haver coisa mais de “terceiro mundo” do que esta? Um desastre natural, ocorrendo numa área onde eles são comuns e esperados, apanhando de calças-curtas a população e seu governador, que se limita a queixar e pedir recursos? Não é o que assistimos todo ano na Índia, Paquistão e boa parte do nordeste brasileiro, diante de fenômenos bem conhecidos e sempre recorrentes?
Finalmente a questão do cumprimento da lei, quer por parte de seus agentes, quer pela própria população. As notícias mais recentes dão conta de que a ação de saqueadores armados por todo o território de Nova Orleãs, aproveitando-se do saldo de destruição, é tão intensa que a própria Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA, na sigla em inglês, a Defesa Civil nacional, por assim dizer ) suspendeu completamente as operações de resgate e transferência de desabrigados. Tais grupos enfrentam abertamente os contingentes da Guarda Nacional de lá, e de maneira tão assombrosa que a própria polícia tem sido incapaz de sofrear a pilhagem e depredação. O ponto ao qual as coisa chegaram é de tal forma crítico, que levou as próprias vítimas daqueles agressores estão fazendo justiça com as próprias mãos. A tentação é forte para compararmos este quadro com que às vezes ouvimos do que se passa em certas áreas do Rio de Janeiro e Espírito Santo. Todavia, é muito pior: está mais é para Bagdá durante a guerra.
E tudo isto aconteceu no Sul dos Estados Unidos, cenário de histórias fascinantes e do preconceito racial mais brutal e vergonhoso experimentado no continente americano. Talvez se deva a isso o fato de o grosso dos desabrigados mostrados pela televisão ser composto por negros, que decerto viviam mal em casas péssimas. Mas, claro, isto não interessa. As causas do infortúnio nunca têm importância para a mídia e para a política: a fanfarra que se faz depois é que deve ser mostrada.
O fato é que, quem diria, estamos vendo os Estados Unidos experimentando momentos do que é viver no terceiro mundo. Será que olharão com melhores olhos para nós? Duvido. Um vento soprado do Atlântico derrubou Nova Orleãs. Um vento gelado, vindo de Washington, soprará todas as esperanças de entendimento entre Norte e Sul para bem longe.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 2 de setembro de 2005].

Finalmente, um bom filme!

O leitores sabem que não tenho o hábito de comentar filmes neste espaço. Não que não goste de cinema, pelo contrário. Gosto, e gosto muito. E por esse motivo assisto cada vez menos às novas produções. Porque o que vem sendo realizado nos últimos vinte anos ou, mais precisamente, nos últimos dez anos, em minha opinião, é de tal maneira raso, parco de idéias e previsível — decerto porque visam a uma imensa maioria do público, por sua vez também superficial, meio burrinho e fã das saídas fáceis — que o que antes era um prazer, agora me parece um castigo. Além de perda de tempo, evidentemente.
Vejamos o caso de Tróia (Troy, EUA, 2004, 162 min.). Parece uma mistura de western spaghetti, cheio de gente e cheio de mortes, só que muito caro, e de faroeste clássico, substituindo-se a cavalaria pelos gregos e os índios pelos troianos, e todos lutando sem saber mais qual era exatamente o motivo. Gladiador (Gladiator, EUA, 2000, 155 min.) e Cruzada (Kingdom of Heaven, EUA/Inglaterra/Espanha, 2005, 145 min.), não só pelo fato de serem do mesmo diretor, têm, por incrível que pareça, quase que a mesmíssima história. Ou, quando têm absolutamente a mesma trama, a nova versão não chega aos pés da primeira. Basta compararmos a segunda versão de Sob o domínio do mal (The Manchurian candidate, EUA, 2004, 130 min.), com Denzel Washington, e a primeira (idem, EUA, 1962, 126 min.), com Frank Sinatra. Ainda que o protagonista do filme mais recente seja um ator incomparavelmente melhor do que Sinatra, todo o resto é de uma tal obviedade e falta de sutileza que passaríamos muito bem sem ele.
É verdade sim, que alguns filmes vez ou outra apresentam algum vestígio, quando não vários, de inteligência, além de boas cenas para os atores, fotografia caprichada, enquadramentos ousados e até um bom roteiro. A maioria destas produções, aliás, pertence ao gênero policial, ou suspense. E a maioria delas, também, vem se destacando pela escalada constante, crescente, senão vertiginosa, das cenas de violência, e não uma qualquer, mas paroxismos de violência e sordidez. E por mais que a trama muitas vezes seja instigante, a imagem bem cuidada, etc., haja estômago para os assuntos tratados, para a infestação de crimes sexuais, assassinos seriais, canibais e outros horrores!
Por isso é sempre bom quando se encontra um filme pelo qual não se dá nada, cujo título parece meio fraco e que chega e nos surpreende. Falo de CrashNo Limite (Crash, EUA, 2004, 113 min.), que ganhou três prêmios Oscar neste ano, o que, necessariamente não quer dizer muita coisa, mas que no caso até foi justo. Já passou nos cinemas, deve estar há meses nas locadores e será exibido em agosto nos canais Telecine.
A trama começa com uma batida (daí o título original, Crash, que também significa “encontro”) entre dois automóveis numa estrada cujo tráfego foi bruscamente interrompido pela polícia, que investiga a cena de um crime: um corpo encontrado no acostamento. No carro da frente, abalroado pelo detrás, encontra-se uma dupla de policiais, um negro e uma hispânica, como eles dizem; no detrás, uma chinesa que fala mal o inglês, mas é cidadã americana, e que insulta a policial feminina, chamando-a de imigrante ilegal, e ameaçando-a de chamar o departamento de imigração.
Daí temos um salto, não para o futuro, mas para a noite anterior àquele dia. Encontramos dois jovens negros queixando-se do preconceito que sofrem. Mas um deles vê que o amigo, à sua maneira, também é vigorosamente preconceituoso. Seguem pela rua e avistam um casal branco e rico (Sandra Bullock e Brendam Fraser, muitíssimo melhores do que de costume) caminhando despreocupadamente. Ela, ao notar os dois rapazes, sente-se intimidada e abraça o marido. Por sua vez, um dos rapazes percebe naquele ato uma prova de racismo, e vai tirar satisfações. Então descobrimos que ele é um assaltante e a forma de “reagir ao insulto”, é roubando o automóvel do casal. Só que o dono do carro não é ninguém menos do que o Promotor de Justiça de Los Angeles.
Não contarei aqui toda a trama nem, muito menos, o final. Tanto para não estragar o prazer de quem ainda não assistiu ao filme, como porque ele é contado de uma forma bastante incomum, por meio da qual os mais singulares personagens vão se entrelaçando de uma maneira complicada, e ao mesmo tempo natural: um dos principais atrativos desta produção. Saibam os leitores que desfilam pela história ainda uma família de imigrantes iranianos (todos cidadãos americanos), um policial racista e seu parceiro “bem-intencionado”, alguns chineses, um diretor de televisão negro que não acredita em racismo, um latino trabalhador que é visto como bandido pela jovem senhora branca — a qual trata sua empregada mexicana com o mesmo carinho e respeito que a maioria dos paulistas usa no trato com os migrantes nordestinos.
O adendo ao título, em português, No Limite, também foi muito feliz. Ele indica muito bem a condição em que vivem variados grupos étnicos e culturais nos Estados Unidos, que vivem lado a lado e quase sem cruzarem os seus limites entre uns e outros. Daí ser necessário o encontro, nem que seja através de um encontrão (crash).
O filme levanta uma questão que, no meu modo de ver, é crucial nestes tempos em que se fala de “multiculturalismo” e, ao mesmo tempo, “resgate da identidade”. A de que no fundo, todos os homens são diferentes uns dos outros e que é impossível querer igualar arbitrariamente tudo e todos (o pensador político francês Tocqueville, já no início do século XIX, criticava os americanos por sua sociedade onde era “obrigatório” que “todos fossem iguais”). Pois o grande desafio, que precisamos enfrentar, é justamente o de reconhecermos as diferenças, sabermos conviver com elas e respeitá-las, sem jamais querermos impor a nossa visão do mundo sobre as demais. O diálogo é a saída, não o discurso único.
Curiosamente, o diálogo é o que mais falta no filme. E, dessa maneira, somos esclarecidos por ele, dos riscos e tragédias que sua ausência pode inevitavelmente causar.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de junho de 2006].

Rainha de celulóide

Anacronismo é o nome que se dá ao erro, bastante comum, de atribuir a uma época, ou personagem, idéias, hábitos e sentimentos que são de outra época. O mesmo termo também se aplica à representação, nas obras de arte, de costumes e objetos de um período a que não pertencem. Na verdade, na maioria das vezes que olhamos para o passado, somos de certa forma anacrônicos: procuramos nele algo que existe hoje e que, acreditamos, sempre existiu. Da mesma maneira, o anacronismo, nas artes, é muito mais comum do que pensamos. Tanto a Ilíada, quanto a Odisséia, as fontes primeiras da literatura ocidental, eram cheias de erros do tipo: por meio delas sabemos muito mais do tempo de Homero (entre os séculos VIII e VII a.C), do que da vida ao tempo da Guerra de Tróia (entre 1300 e 1200 a.C.). E todo “romance histórico” — de jóias como Nossa Senhora de Paris, de Vítor Hugo (1802-1885) até as bobagens mais recentes — é cheio de anacronismos. Entretanto, isto, na arte, é permitido, porque ela não procura passar um retrato fiel, integral, de uma época, mas, sim, um retrato verossímil, crível, confiável: pena que estas características estejam em boa parte ausentes no filme, que acaba de estrear, Maria Antonieta (2006, EUA), de Sofia Coppola, com a medianamente bela e bastante insossa Kirsten Dunst como protagonista.
A idéia da diretora foi retratar a rainha dos franceses (1755-1793) como uma adolescente rica e mimada, qual uma dos dias atuais. Só que tal idéia é uma besteira sem tamanho. Primeiro, porque o conceito de adolescência é coisa do início do século XX. Antes disto, saltava-se direta e cruamente da infância para a idade adulta, como querem hoje os defensores da redução da menoridade penal, que, definitivamente, devem acreditar que a adolescência seja um privilégio apenas de seus filhos: os dos outros que se lixem. Em segundo lugar, é impossível comparar a filha do Imperador da Áustria, casada com o herdeiro do trono francês, a qualquer mocinha mimada atual, por mais dinheiro e menos educaçãoque tenha — que foi o caso da própria diretora e de suas amiguinhas. Seria mais ou menos como comparar a eleição de um papa ao “dois-ou-um” que se tira num churrasco para ver quem é que sai para comprar outra caixa de cerveja. Pompa, circunstância, tradição e poder político não são pesados na mesma balança que moedas...
Um dos momentos mais comentadas do filme deve-se a uma cena em que aparece, dentre centenas de sapatos da rainha, um tênis da moda, atualíssimo. Nada tenho contra isso. É uma liberdade, uma licença poética, talvez não muito sutil, é verdade, e se a idéia era passar que a jovem rainha, de fato, possuía tudo o que desejava e até mais além, é um ponto positivo do filme. Já se a intenção foi “contextualizar” a variedade de seu guarda-roupa através de um modismo do presente, é mesmo lastimável e um anacronismo tolo.
Outra cena, de doer, ou melhor, cenas, porque a todo momento repetem a pantomima, são aquelas em que a rainha passeia pelos corredores do Palácio de Versalhes com seu séquito igualmente jovem, igualmente doidivanas. Pois não há nada mais estapafúrdio que a própria maneira de caminhar das moçoilas, que mais parecem deslizar pelo piso sintético de um shopping center. Ora, naquele tempo, e principalmente naquele ambiente, até a maneira de andar era prevista pela etiqueta da corte. Mas o que vemos lembra mais uma abertura de seriado de televisão, desses bem mequetrefes, com jovens californianas douradas de sol, andando em bandos, alinhadas qual num desfile, julgando estarem “acontecendo”, como dizem por aí... Nestes momentos, inclusive, a diretora trai até mesmo seu principal propósito, que é atenuar a “culpa política” da rainha Maria Antonieta em razão de sua juventude. Pois bastam algumas seqüências destas para que até o pacifista mais declarado sinta vontade de mandar todas aquelas “patricinhas” para a guilhotina...
E para enterrar de vez o filme, há a trilha sonora. Que desastre! Não sou purista a ponto de achar que uma história ambientada numa época tenha que, necessariamente, conter músicas produzidas naquele período. Não há duvida que Ben-Hur (1959, EUA), por exemplo, ganha muito mais com os temas compostos por Miklós Rózsa, do que com alguma tentativa de se reproduzir as músicas romanas e hebréias da época da trama. Da mesma maneira, não teria qualquer sentido assistir, digamos, O Patriota (2000), exclusivamente ao som de minuetos e das melodias produzidas nas colônias inglesas da América do século XVIII. Haja paciência! É por isso que se permite que sejam compostas músicas exclusivas para os filmes, baseadas nalguma coisa dos ritmos de então, e que ajudam o espectador a ambientar-se na trama. Ou ainda algo bem marcado, num idioma mais moderno, para cenas de perseguição, suspense, romance ou até para as cômicas. Agora, escolher canções da atualidade, que tocam no rádio, na MTV e nas “baladas”, para um enredo passado na França de Luís XVI, isto já beira à esquizofrenia. Não sei de onde veio essa mania besta de por trilhas musicais moderninhas em produções de época. O rei Artur e seus cavaleiros ao som de rock.... Maria Antonieta embalada por “bate-estaca”... estou vendo o dia em que teremos um filme em que Júlio César será morto no senado romano ao som de um rap... Dramático, não? Quem não se lembra, por exemplo, do filme Moulin Rouge! (2001, EUA), com seu bem cuidado figurino, curiosos cenários, boa coreografia, bons atores, com Nicole Kidman belíssima, mas com uma trilha sonora de amargar? E, o que é pior, como é um musical, não dá para tirar o som da tv, porque cena de dança sem música, por pior que seja, acaba parecendo episódio de histeria coletiva. E paira no ar a pergunta: seria uma produção que teríamos, se não gosto, pelo menos paciência para rever? Acho que não. Aliás, não vejo a hora que Maria Antonieta passe na tv por assinatura: assim posso tirar o som e, em seu lugar, escutar a música que eu quiser. Mozart, que era um autor completo, é uma ótima pedida.
Que o filme é bonito, visualmente, isto não resta dúvida. Mas a ênfase que se dá ao figurino, como uma de suas principais qualidades, parece-me excessiva, meio fora de propósito. Um filme que ganha prêmios por figurino, som, etc., dá-me a impressão de um casamento no qual ninguém presta atenção na noiva, e sim no automóvel que a trouxe para a igreja. Ou seja, ambos podem ser muito importantes, é verdade, mas o principal parece que foi deixado para trás. E esta, de fato, foi a impressão que tive tão logo as luzes do cinema se acenderam...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de março de 2007].

Um novo pistoleiro americano

Durante alguns instantes da última quarta-feira, o mundo parou em razão das notícias referentes a uma seqüência de mortes tão brutal quanto aparentemente sem sentido. E com o mundo, parou também o Brasil, que faz parte dele — ainda que, algumas vezes, pareça com ele conviver numa relação de certo afastamento quanto ao tempo, espaço e idéias verificadas noutras partes do globo. Mas não tão distante de certos centros, como veremos.
Dizer que o Brasil parou talvez seja um certo exagero. Salvo no Carnaval, durante uma Copa do Mundo, no último capítulo da “novela das oito” (que ainda é chamada assim, embora seja exibida às nove), na final do “BBB”, ou do campeonato paulista, ou do brasileiro, o país nunca pára. Mas que as atenções nacionais e os comentários, em geral, concentraram-se, naquele dia, sobre um incidente macabro e sangrento, não resta dúvida. E qual foi ele?
Não, não se trata do maior atentado ocorrido nos últimos tempos em Bagdá, que ceifou a vida de mais de duzentas pessoas. E nem seria diferente. Acostumados que estamos com o derramamento de sangue no Oriente Médio, alguns mortos a mais ou a menos não parece nos sensibilizar. Depois, o próprio montante de vítimas — mais de duzentas — é meio que inconcebível: não forma uma imagem clara na nossa percepção e acaba se confundindo, como se fosse abstrata demais. Soa mais à estatística do que a um episódio envolvendo pessoas reais.
Nem, tampouco, do saldo da guerra entre traficantes do Rio de Janeiro, que abateu cerca de dezenove cidadãos brasileiros. Pois tal evento deve ter sido até comemorado por muita gente — ou melhor, por criaturas, que se consideram gente. Afinal, para muitos, todo favelado é culpado de alguma coisa por antecipação. E quando se trata de favelado carioca, então não se tem dúvida da culpa do sujeito. Daí muitos proporem determinadas práticas de erradicação do crime a serem aplicadas naqueles locais — acompanhadas de algumas bem específicas “políticas sociais” — que fariam muitos europeus e sul-africanos empalidecerem de horror, pela lembrança das décadas sombrias em que tais idéias eram acolhidas.
Pois no mundo, e no Brasil, todos os olhos e corações se voltaram para um único fato, cruel e covarde, sem dúvida, que foi a soma dos feitos e vítimas do rapaz que matou trinta e nove pessoas, e feriu outras tantas, numa universidade americana. Repitamos: foi cruel e foi covarde. E acrescentemos: dramático, infame e abjeto. Pranteemos as vítimas, que merecem, e condenemos o autor. Mas a verdade é que “massacres” perpetrados por atiradores solitários nos Estados Unidos são, no fundo, tão comuns quanto morticínios no Oriente Médio, tiroteios no Rio de Janeiro, etc. A única surpresa, talvez, seja em razão do número, que é alto. O rapaz, de origem sul-coreana, parece ter estabelecido um novo recorde. E o temor seja , talvez, de que algum americano nato procure reivindicar “o título” para o time da casa...
Mas, convenhamos, teria o procedimento do estudante Cho Seung-Hui alguma coisa de diferente daquele praticado por Eric Harris e Dylan Klebold, os autores do massacre da Columbine High School, na cidade de Denver, Colorado, e que gerou até um filme? Ou de qualquer outro assassínio coletivo praticado nos Estados Unidos? Não seguiu ele a mesma e surrada cartilha que é a base de todo desajustado daquele país para semelhantes feitos? Como não ver, na sua base, as influências, no campo da ficção, de filmes como “O Franco Atirador” (The Deer Hunter, 1978), ou “Motorista de Táxi” (Taxi Driver, 1976 — a cena do psicótico, vivido por Robert De Niro, diante do espelho, intimidando potenciais e imaginários alvos de sua “justiça”, é considerada um clássico da dramaturgia norte-americana) e, por que não, até mesmo “Rambo” (First Blood, 1982)? E quanto ao seu visual, enviado por ele próprio, via fotografia e vídeo, para a rede televisiva NBC, portando uma pistola em cada mão, o boné com a viseira voltada para trás — qual atirador da SWAT — e aquele jaleco preto à la FBI, que vemos em tantos filmes de Bruce Willis e quejandos, e que até a nossa polícia tem copiado? Querem comportamento mais genuinamente norte-americano do que este?
Assim, que a comunidade sul-coreana dos EUA não se alvoroce, e que os patriotas estadunidenses — que, em tais ocasiões, atiram primeiro, e perguntam depois — sosseguem antes de lançarem-se a uma cruzada. Pois o feito do estudante seguiu à risca a tradição dos atiradores desajustados e norte-americanos de nascimento. Como não reconhecer, em sua atitude, ecos do pistoleiro calado e sem nome que, hostilizado por uma comunidade, dela decide se vingar? Não lhe serviu de modelo o caubói solitário, que a mitologia americana proclamava ser exemplar, e que vemos em vários filmes em que Clint Eastwood, é o protagonista, o “forasteiro sem nome”?
O rapaz era americano na essência. Ou como diria Guimarães Rosa, “até na escuma do bofe”. Matou, e morreu, como muitos doidos norte-americanos matam e morrem. É fato que não se valeu de uma pistola Colt, de um revólver Smith & Wesson ou de uma carabina Winchester — “ferramentas da civilização americana”, como magistral, e contundentemente notou Ruy Castro na edição da Folha de S. Paulo da quarta-feira — mas o iter criminis, o desenrolar das etapas que se sucederam desde o momento em que surgiu a idéia do delito, até a sua consumação, é clara, e inequivocamente americano.
Por justiça, e piedade, pranteemos os mortos. Todos eles. Os de Bagdá, do Rio de Janeiro e dos Estados Unidos, sem distinção entre vítimas e algozes. Pois a doença, o mal de nossa civilização, não reside num único local. Ela emana de vários outros pontos, e campeia com vigor, alastra-se, solidifica-se. Até parecer banal.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 21 de abril de 2007].

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Banzai!

O Brasil, ou melhor dizendo, algumas cidades dos estados de São Paulo e do Paraná, comemoraram, nesta semana, os cem anos da imigração japonesa. Cerimônias, festivais, inaugurações de praças, exposições e festas celebraram, enfaticamente, tal data. E, de fato, é um episódio a se assinalar. Poucas comunidades asiáticas foram capazes de se assimilar em terras distantes com a mesma facilidade que a colônia japonesa o fez em nosso país. E, ao mesmo tempo, deixando influências tão marcantes em nossa cultura. Não conheço ninguém, das minhas relações, que não tenha feito judô ou caratê nalgum momento de sua vida. Nem, sequer, uma professora do ensino básico que não tenha noções do origami, as dobraduras de papel reproduzindo, engenhosa e esquematicamente, animais, personagens, flores, etc. A piscicultura e a jardinagem, o cultivo do chá e a revalorização da cerâmica e da porcelana artesanal devem seu influxo à presença nipônica em nossa terra. O mesmo pode ser dito quanto ao crescimento do consumo do peixe nos hábitos alimentares dos brasileiros, não só assado, como, também, cru: sashimis, finas fatias de peixe sem qualquer cozimento, fazem parte do cardápio tanto de bons bares e restaurantes, quanto de qualquer birosca, do Oeste paulista ao Norte mato-grossense, do Sul do Paraná até o mais reles pesqueiro de nossas vizinhanças. E, juntamente com tais iguarias, o emprego dos palitinhos para consumi-las: os hachis, como os chamam muitos, em detrimento da palavra fachis, que existe, em bom português, há quase cinco séculos: foram os portugueses os primeiros ocidentais a manterem um vivo contato com o Japão, ao qual chamavam, à época, de Cipango (nem um pouco por acaso, uma das primeiras Santas Casas de Misericórdia fundadas fora de Portugal o fora, justamente, na cidade de Nagasáqui, local este tornado célebre por outros motivos, causados por outras figuras... ).
A influência japonesa na cultura ocidental é marcante. Há quem diga que o uso do pijama, por nós, tenha a sua origem nela, ou melhor, numa adaptação do quimono. Da mesma maneira, há quem afirme que o robe, de chambre ou de banho, e até mesmo o peignoir feminino, apesar do nome francês, foram popularizados graças à beleza dos padrões de seus congêneres japoneses. Nas artes, o intercâmbio de idéias foi, também, notável. O Impressionismo, o Expressionismo e muitas vanguardas artísticas de fins do século XIX para começo do XX, beberam das fontes que jorraram das estampas japonesas. A gravura moderna, aliás, que tem como uma espécie de precursor o mais do que célebre O Grito, de Edvard Munch (1863-1944), não pode ser pensada sem tais referências. O próprio Art Nouveau, com seu apreço pelo dourado, pelas formas sinuosas, inspiradas na natureza, seria, segundo muitos, uma resposta ocidental às temáticas empregadas nas artes e no artesanato daquele arquipélago. E boa parte da arquitetura moderna, do americano Frank Lloyd Wright (1867-1959) à escola alemã de Bauhaus (1919-1933) fizeram suas leituras de vários conceitos tradicionais daquela matriz. Sem falar naqueles que sugerem que a mímica e as expressões empregadas no alvorecer do cinema, ainda mudo, sejam uma difusa referência às diversas práticas teatrais do Japão. Um clássico do faroeste americano, Sete Homens e um Destino (The Magnificent Seven, 1960), nada mais é do que uma adaptação de outro notável filme, Os Sete Samurais (1954), daquele genial diretor que foi Akira Kurosawa (1910-1998).Sem falar no novo fôlego dado ao atual cinema de terror, quase todo inspirado em complexas tramas do cinema japonês. E como falamos em intercâmbio, pressupondo uma troca, está aí a literatura japonesa, ótima, reformulada por seus contatos com o Ocidente: a cada dia mais lida e admirada, nomes exóticos como Junichiro Tanizaki (1886-1965), Ryunosuke Akutagawa (1892-1927), Yasunari Kawabata (1899-1972) e Yukio Mishima (1925-1970) vêm se tornando familiares, e justamente reverenciados pelos bons leitores: Musashi, a saga de um dos maiores guerreiros japoneses, escrito por Eiji Yoshikawa (1892-1962), é um dos livros mais lidos no Brasil e já conta com 120 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo.
No Brasil, para além das referências já citadas, a influência desta colônia foi pequena. O ambiente não permitia o desenvolvimento da arquitetura tradicional, salvo, em raríssimos casos, no Sul. E nossa terra, em diversas ocasiões, foi inóspita aos súditos do Império do Sol Nascente. Em sua maioria trabalhadores urbanos, ou pequenos proprietários de terra, sem falar nos membros da pequena fidalguia dos samurais, muitos foram convertidos, quase que à força, em peões das lavouras de café. Numa época em que o racismo tinha foros (falsos) de ciência, eram quase tão execrados quanto os negros, estes, inconvenientes testemunhas de um passado brutal. Muitos estados do Nordeste, e, em especial, a Paraíba, manifestaram seu interesse em acolherem imigrantes japoneses, em razão de sua notória objetividade no trabalho, dedicação a ele, e hábitos regrados. No Sudeste, todavia, eram vistos como algo pouco acima do gado indiano que então se importava à larga. E até mais exóticos que os nelores, gires e zebus: estes, mudos; os outros, falantes de uma língua incompreensível. Durante a Segunda Guerra (1939-1945), foram alvos das maiores violências e covardias, desde o fechamento de seus jornais até a perseguição política, sem falar na vigilância constante a que foram submetidos. Conquanto não se tenha notícias de atos de sabotagem ou de espionagem levados a cabo pelos japoneses — ao contrário do que ocorria entre os membros de muitas colônias alemãs e italianas — foram, os primeiros, especialmente visados como possíveis agitadores. E aviltados, humilhados, pelo Estado e pela sociedade tacanha de então. Mas não só de então. Ainda hoje, inúmeros estudantes relapsos atribuem a sua reprovação nos exames vestibulares da vida, não às suas preguiças, descasos, impropriedades, e, sim, à concorrência dos japoneses...
Fazemos bem em reverenciar este centenário da imigração nipônica, este povo estóico, honrado, e que tanto vem contribuindo para o nosso país. Portanto, banzai! Dez mil anos junto a nós, integrando-se a nós, tornando-nos uma coisa só, um todo, mas com suas ótimas peculiaridades, das quais não abriremos mão, e que é o que dá sabor e graça à vida de uma nação.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 28 de junho de 2008].

Médicos e monstros

De todos os livros que li na infância, o meu predileto era “A Ilha do Tesouro” (1883), de Robert Louis Stevenson (1850-1894). Aquela trama de um tesouro enterrado numa ilha distante e de um misterioso mapa indicando seu paradeiro, fascinavam-me. Sem falar no rico desfile de personagens magníficos, fossem eles “vilões”, fossem “heróis”. Jamais serei capaz de esquecer a cena em que um velho pirata, inteiramente maligno, o cego Pew, que, depois de assassinar um seu antigo camarada, e quase fazendo o mesmo ao protagonista, é encurralado numa ponte de madeira, e esmagado pelos cascos dos cavalos da guarda que rumavam em sua captura. O som daquelas patas nas pranchas da ponte ribombam até hoje em meus ouvidos. Quando li o romance, aquela impressão foi tão forte – a narrativa da cena, como um todo – que comuniquei ao meu pai o quanto eu sentira o vívido efeito do episódio. Confessou-me ele que, quando lera o mesmo livro, décadas antes, sentira a mesma coisa: um misto de terror e uma prova de verossimilhança que jamais se-lhe pagou da memória. Lendo algumas análises sobre o livro – hoje enclausurado na categoria de “literatura juvenil” – notei que inúmeros estudiosos, e amantes das belas-letras, compartilharam da mesma sensação. O grande escritor argentino Jorge Luís Borges (1899-1986) era um deles, como soube mais tarde.
Apesar de todos os piratas fascinantes, para o bem e para o mal, que o livro exibe, ressalta-se a bela sociedade formada pelos homens de bem que partem a caça ao tesouro. São, todos eles, notáveis, modelos de virtude, e dentre aqueles heróis, ressalta-se a figura do Doutor Livesey, médico, cavalheiro, Valendo-se, na mesma medida, da ação e do puro raciocínio: dispara sua arma com a mesma precisão com que trata dos feridos.
O mesmo Robert Louis Stevenson, não bastasse ter criado aquele clássico, foi capaz de trazer à luz um outro ainda mais espetacular, a semente de mil histórias de terror, contos fantásticos, o embrião de nove entre dez filmes de suspense. Este foi o caso do conto, ou novela curta, intitulado “O Estranho caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde” (1886), ou, como é comum dizer, “Dr. Jekyll e Mr. Hyde”, ou ainda, “O Médico e o monstro”. O conto, ou novela, demonstram, empiricamente, mais avanços sobre os estudos da mente – é um daqueles caso em que a Literatura antecipa-se à Ciência — do que toda a medicina da época fora capaz de elucidar. Da demência alcoólica à dependência de narcóticos, da esquizofrenia ao “Incrível Hulk”, tudo está esboçado em suas páginas. Inclusive a mania, suicida, comum à época, de muitos médicos transformarem-se, eles mesmos, em cobaias de seus próprios experimentos.
Treze anos depois, George Bernard Shaw (1856-1850), o mago dos palcos ingleses, em sua peça teatral “O Dilema de um Médico” (1906), atacará todo o sistema de saúde em seu país, o status da medicina enquanto uma espécie de “nova religião revelada”, a “síndrome de Deus” — da qual padecem muitos clínicos e especialistas —, como, também, a completa sujeição das populações, das mais variadas origens, ao “discurso médico”, esteja ele correto ou não. E, diga-se, a peça, em si, não é uma de suas melhores, mas o prefácio vale por uma aula: corroborando a visão de uma certa hipocrisia dos médicos do Passado, alertando quanto aos desmandos verificados em seu Presente, e alertando quanto ao Futuro — aspectos estes que, no século XX, seriam amplamente comprovados por estudiosos como o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), ou pelo historiador britânico Peter Burke (1937), dentre outros.
Certo, mas o que isto tudo tem a ver com a crônica desta semana? Tudo e nada, ao mesmo tempo.
Há muita gente séria no ramo da Medicina. Mas, também, uma bela soma de patifes, de entremeio. E grande parte das novas gerações que alega seguir os votos de Esculápio e o Juramento de Hipócrates, fraudam o primeiro e cometem perjúrio quanto ao segundo. Veja-se o caso dos estudantes de Londrina e a arruaça que fizeram. Veja-se o comentário do responsável pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, afirmando que a maioria das pessoas que quer seguir a carreira, abraça-a mais por uma expectativa de ganhos, e status, do que por vocação, respeito ao próximo, amor à Ciência...
Em suma, há médicos e há monstros, como há médicos que são verdadeiros monstros. Portanto, olho vivo. E que os profissionais de bem, valorosos, que são muitos, protejam a sociedade, livrando-a dos usurários da saúde, dos avaros dos exames, dos relapsos dos diagnósticos, dos que vêem seus pacientes mais como “clientes” e menos como “pacientes”. E que coloquem essa molecada insensível e mercenária em seu devido lugar. Será que isto é pedir muito? Será que, tanto os médicos de bem, de princípios, como os pacientes, não irão, efetiva, cristã e honradamente “ganhar” com isto?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de dezembro de 2008].

Quando a vida imita a arte

Quando eu tinha uns treze ou quatorze anos, li um conto alemão cuja narrativa impressionou-me vivamente. Ainda hoje, tenho-o como um dos melhores já lidos em toda a minha vida. Trata-se de “Deuses no exílio”, de Heinrich Heine (1797-1856), em que o autor conta o que teria acontecido com os habitantes do Olimpo depois que foram banidos do panteão das divindades depois do triunfo do Cristianismo. Desterrados numa ilha, Zeus, Ares, Hermes e Afrodite vivem pouco melhor, se isto é possível, do que náufragos miseráveis. Todos eles tristíssimos e sem esperança alguma de qualquer melhora.
O jornalista norte-americano H. L. Mencken, de língua ferina e pena ainda mais aguda, escreveu um pequeno artigo, lá pelos anos 1920, em que retornava ao tema de Heine – o “sábio de Baltimore”, como ficou conhecido, era descendente de alemães e um germanófilo de primeira linha, de modo que, certamente, conhecia o conto. Em seu artigo, ele desdenhava um tanto das certezas da vida, da proeminência de certas divindades sobre outras, lembrando que antes da aceitação plena de Buda, Javé e Alá, inúmeros outros deuses foram tão poderosos quanto aqueles, se não mais, cultuados por muito mais tempo e em territórios muito mais vastos. E que, ainda assim, haviam caído em desgraça.
Em 1943, o escritor belga Jean Ray (1887-1964) publicou um romance intitulado Malpertuis, cuja trama se passava numa gigantesca mansão flamenga um velho mago agonizante convivia com antigos personagens da mitologia grega, resgatados por ele de seus desterros em ilhas desertas. Vestindo trajes modernos, portando-se como pessoas do tempo presente, mas sem trair seus antigos temperamentos, ali viviam Hermes e Apolo, as Erínias, ou Fúrias, e mesmo Prometeu. Em 1971, a história ganhou uma adaptação cinematográfica, pelas mãos de Harry Kümel (1940), tendo como protagonista, Malpertuis, o legendário ator e diretor norte-americano Orson Welles (1915-1985). Por uma dessas coincidências que raramente são, de fato, coincidências, pude assistir ao filme em 1985, ou seja, um ou dois anos depois da minha leitura do conto mencionado, quando pude constatar, sem sombra de dúvida, que tanto o cineasta quando o romancista conheciam o enredo da história contada por Heine. E que filme! É um a pena que ele não possa ser encontrado em parte alguma, e olhem que, há anos, procuro por uma cópia...
Passados quase vinte e três anos daquela sessão de cinema, e já meio esquecido do conto, do romance e do filme, eis que, a pedido de minha noiva, ajudo a procurar alguns nomes na lista de aprovados para a segunda fase do vestibular da Fuvest. O que uma coisa tem a ver com a outra? Verão, em breve. Pois bem, estava eu decifrando as letras miúdas em que tais listas são publicadas nos jornais. Ao meu lado, uma relação com os nomes dos alunos que, esperávamos, contassem da listagem publicada. Alguns acertos aqui, amplas lacunas ali, e minha atenção acaba por se voltar aos estranhos, ou curiosos, nomes de vários candidatos. Foi-se o tempo das bizarrias, notórias, de algum Um Dois Três de Oliveira Quatro, Pia de Fórmica Branca, Dulce Salgado ou Jacinto Pimenta Aquino Rego. Não, as excentricidades de hoje se notam menos nas combinações do que nas grafias exageradas de certos nomes, como Chrysthianny, em lugar de uma Cristiane, Vynycyus em lugar de um Vinícius, e coisas do gênero. E, por falar em Vinícius, como eles abundam na lista. Eles e os Yuris. As Marias e os Josés ainda são maioria, mas a variedade dos nomes valeriam todo um estudo sociológico. Eis que, por fim, deparei-me com um nome que chamou minha atenção e que se amarra completamente ao início desta crônica. Na página final da listagem, na letra Z, surge, impávido, um Zeus Tristão dos Santos.
Zeus Tristão dos Santos! Que o portador deste nome não se incomode com minhas considerações. Não o conheço, nada tenho contra ou a favor dele, nem minha intenção é ridicularizá-lo, longe disso. Mas que soberba coincidência! Vá lá que Tristão, referência a um cavaleiro lendário do medievo, personagem de romances e de uma ópera de Wagner (1813-1883), tenha sua própria autonomia. Mas, nesta combinação entre prenome e sobrenome, parece que se converte num sinônimo de “tristonho”. Logo, um Zeus “tristonho” dos Santos, lembra o conto de Heine, o romance de Jean Ray e o filme de Harry Kümel: um deus velho entristecido pelo triunfo de novos santos e por sua queda.
Que o jovem Zeus triunfe em seu exame vestibular. E que me perdoe torná-lo conhecido por uma particularidade da qual não tem culpa ou autoria. Registro-o pela enorme coincidência, involuntária, decerto, entre seu nome e toda uma trama histórica e literária. Poucas vezes se vê a vida imitando a arte com tanta precisão, senão de temas, pelo menos de nomes.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 20 de dezembro de 2008].