quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Médicos e monstros

De todos os livros que li na infância, o meu predileto era “A Ilha do Tesouro” (1883), de Robert Louis Stevenson (1850-1894). Aquela trama de um tesouro enterrado numa ilha distante e de um misterioso mapa indicando seu paradeiro, fascinavam-me. Sem falar no rico desfile de personagens magníficos, fossem eles “vilões”, fossem “heróis”. Jamais serei capaz de esquecer a cena em que um velho pirata, inteiramente maligno, o cego Pew, que, depois de assassinar um seu antigo camarada, e quase fazendo o mesmo ao protagonista, é encurralado numa ponte de madeira, e esmagado pelos cascos dos cavalos da guarda que rumavam em sua captura. O som daquelas patas nas pranchas da ponte ribombam até hoje em meus ouvidos. Quando li o romance, aquela impressão foi tão forte – a narrativa da cena, como um todo – que comuniquei ao meu pai o quanto eu sentira o vívido efeito do episódio. Confessou-me ele que, quando lera o mesmo livro, décadas antes, sentira a mesma coisa: um misto de terror e uma prova de verossimilhança que jamais se-lhe pagou da memória. Lendo algumas análises sobre o livro – hoje enclausurado na categoria de “literatura juvenil” – notei que inúmeros estudiosos, e amantes das belas-letras, compartilharam da mesma sensação. O grande escritor argentino Jorge Luís Borges (1899-1986) era um deles, como soube mais tarde.
Apesar de todos os piratas fascinantes, para o bem e para o mal, que o livro exibe, ressalta-se a bela sociedade formada pelos homens de bem que partem a caça ao tesouro. São, todos eles, notáveis, modelos de virtude, e dentre aqueles heróis, ressalta-se a figura do Doutor Livesey, médico, cavalheiro, Valendo-se, na mesma medida, da ação e do puro raciocínio: dispara sua arma com a mesma precisão com que trata dos feridos.
O mesmo Robert Louis Stevenson, não bastasse ter criado aquele clássico, foi capaz de trazer à luz um outro ainda mais espetacular, a semente de mil histórias de terror, contos fantásticos, o embrião de nove entre dez filmes de suspense. Este foi o caso do conto, ou novela curta, intitulado “O Estranho caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde” (1886), ou, como é comum dizer, “Dr. Jekyll e Mr. Hyde”, ou ainda, “O Médico e o monstro”. O conto, ou novela, demonstram, empiricamente, mais avanços sobre os estudos da mente – é um daqueles caso em que a Literatura antecipa-se à Ciência — do que toda a medicina da época fora capaz de elucidar. Da demência alcoólica à dependência de narcóticos, da esquizofrenia ao “Incrível Hulk”, tudo está esboçado em suas páginas. Inclusive a mania, suicida, comum à época, de muitos médicos transformarem-se, eles mesmos, em cobaias de seus próprios experimentos.
Treze anos depois, George Bernard Shaw (1856-1850), o mago dos palcos ingleses, em sua peça teatral “O Dilema de um Médico” (1906), atacará todo o sistema de saúde em seu país, o status da medicina enquanto uma espécie de “nova religião revelada”, a “síndrome de Deus” — da qual padecem muitos clínicos e especialistas —, como, também, a completa sujeição das populações, das mais variadas origens, ao “discurso médico”, esteja ele correto ou não. E, diga-se, a peça, em si, não é uma de suas melhores, mas o prefácio vale por uma aula: corroborando a visão de uma certa hipocrisia dos médicos do Passado, alertando quanto aos desmandos verificados em seu Presente, e alertando quanto ao Futuro — aspectos estes que, no século XX, seriam amplamente comprovados por estudiosos como o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), ou pelo historiador britânico Peter Burke (1937), dentre outros.
Certo, mas o que isto tudo tem a ver com a crônica desta semana? Tudo e nada, ao mesmo tempo.
Há muita gente séria no ramo da Medicina. Mas, também, uma bela soma de patifes, de entremeio. E grande parte das novas gerações que alega seguir os votos de Esculápio e o Juramento de Hipócrates, fraudam o primeiro e cometem perjúrio quanto ao segundo. Veja-se o caso dos estudantes de Londrina e a arruaça que fizeram. Veja-se o comentário do responsável pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, afirmando que a maioria das pessoas que quer seguir a carreira, abraça-a mais por uma expectativa de ganhos, e status, do que por vocação, respeito ao próximo, amor à Ciência...
Em suma, há médicos e há monstros, como há médicos que são verdadeiros monstros. Portanto, olho vivo. E que os profissionais de bem, valorosos, que são muitos, protejam a sociedade, livrando-a dos usurários da saúde, dos avaros dos exames, dos relapsos dos diagnósticos, dos que vêem seus pacientes mais como “clientes” e menos como “pacientes”. E que coloquem essa molecada insensível e mercenária em seu devido lugar. Será que isto é pedir muito? Será que, tanto os médicos de bem, de princípios, como os pacientes, não irão, efetiva, cristã e honradamente “ganhar” com isto?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de dezembro de 2008].

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