Pouca gente ainda se lembra, mas apareceu, certa vez, um jacaré no muito mais do que fedido Rio Tietê, em plena capital. Retirado dali, tornou àquele seu habitat improvisado, e, por conta de sua volta, ganhou o apelido de Teimoso. Não tenho idéia do que aconteceu com ele. Talvez tenha morrido intoxicado pelo mau-cheiro. O que prova que, se os paulistanos não têm o insensível coração de jacaré, jacarés, por sua vez, tem pulmões e narinas muito mais sensíveis do que os dos paulistanos. Faz sentido. Ajuda a compreender a podridão da política paulistana: estão acostumados com os maus eflúvios. Mais um pouco e eles dirão que, na verdade, tudo não passa de um raro perfume...
Na mesma cidade, às margens do igualmente fétido Rio Pinheiros, avista-se, com freqüência, uma família de capivaras. Tentaram expulsá-las – seria mais uma das célebres e truculentas reintegrações de posse, movidas pela prefeitura? Não. Ambientalistas e bombeiros se uniram para tirarem-na dali. Mas o que aconteceu foi que ambos levaram um baile dos bichinhos, que permanecem por lá. Esta talvez seja a primeira vitória dos sem-teto – literalmente – em São Paulo em muitos anos. Pode-se especular que não deixaram tal posto em razão da valorização do entorno: nas margens olorosas do Pinheiros, além do buraco do Serra, encontram-se prédios de altíssimo padrão, o mais sofisticado hotel da cidade e a caríssima Daslu. O lixo por eles lançados deve ser altamente nutritivo, daí a permanência dos animais: das capivaras, quero dizer. O que, por sua vez, demonstra que os novos plutocratas paulistanos e as capivaras têm muito em comum, principalmente na tolerância ao fedor. Depois, verdade seja dita, não há perigo em tal convivência: carrapato algum é capaz de galgar as alturas de um arranha-céu. Talvez só pelo elevador.
Em Campinas, certa vez, deparei-me com um animal silvestre bastante tímido. Calma, não é o que estão pensando. Não sejam maldosos. Como diria um desbocado amigo meu, o animal em que pensaram não tem mais nada de tímido, urbanizou-se completamente e é encontrado a toda hora, sobretudo por lá, acrescentaria ele. Pura maldade e preconceito! Voltando à história, tratava-se, no caso, de uma lontra que atravessava uma avenida de alta velocidade, que leva ao Shopping Iguatemi. Não sei se ela se dirigia a ele, mas, desde então, tenho olhado cada vez com maior suspeita estes locais. Freqüentar shopping center seria um hábito de lontras? Vou verificar, mas só o posso in loco. E se descobrir que é? E se me transformar numa lontra? Acho que adiarei tal pesquisa por um certo tempo, até resolver esta grave questão filosófica e metodológica...
Noutra ocasião, durante uma rápida visita a Manaus, deparei-me com um tamanduá-bandeira, imenso, em plena Vila Olímpica, correndo em minha direção. Será que sua intenção era ir para o abraço? Não esperei para tirar a dúvida. Dispenso confraternizações esportivas. Ainda mais, abraço de tamanduá.
Outro fato curioso: já notaram como sempre se vê urubus pousados no alto dos prédios das reitorias universitárias? Bem ali, pouco acima dos gabinetes magníficos? De minha parte, pude vê-los em São Paulo, Campinas, Piracicaba, Belo Horizonte, Ouro Preto, Rio de Janeiro e Londrina. Tanto em universidades públicas quanto em particulares. Ouvi dizer que andaram espantando algumas daquelas aves em Brasília e no ABC paulista. Mas, tenho certeza, elas voltarão, e, se não as mesmas, alguma outra da mesma espécie. Ao que parece, é uma lei natural: urubus parecem adorar as posições elevadas.
Já em Mariana, Minas Gerais, soube que, em praça pública, um anum branco bicou, até a morte, outro de sua espécie: ambos disputavam o mesmo galho, para nele se cevarem ou para acomodarem, cada um, sua própria ninhada. Sei que este fenômeno é bastante comum, pelo país afora, mas em plena cidade, em meio à agitação urbana?
Em Brasília, sempre me surpreendeu a intensidade da vida animal, sem brincadeira. Raposas, gambás, gaviões das mais variadas espécies e outras aves de rapina, tucanos, inclusive. Alto lá, diria alguém, tucanos não são rapineiros. De fato. Anda que Piso e Marcgraf, dois naturalistas alemães que visitaram o Brasil no século XVII, julgassem os tucanos, por seu bico, uma ave de rapina. Hoje, é sabido que não se trata disso. Suas cabeças são, proporcionalmente, demasiado pequenas em relação às dos gaviões. Suas asas não lhes permitem alçar longos e altos vôos. Padecem de um campo visual de pouco alcance. Portanto, não passam de aves saltitantes: pulando de galho em galho, sempre em busca do mais elevado, nos quais encontram os melhores frutos. Por outro lado, sabe-se que, muitas vezes, baixam ao solo, alimentando-se de pequenos animais, ovos de outros pássaros e insetos: ninharias, como se vê. E seu bico altivo, ainda que impressionante, é, todavia, oco: só para impressionar. Mas voltando ao tema e ao cenário, já vi cobras – é sério, numa boca-de-lobo, em plena Asa Sul – e outros animais peçonhentos, de dia e de noite. Tudo isto em Brasília. Mas acho que todos sabem disso, não é?
Sem falar nas aves trepadeiras que, toda estação, ressurgem, ninguém sabe de onde, assolando toda a produção do país, com voracidade, com uma fome infernal, destruindo plantações, jardins públicos, sujando casas, monumentos, escolas e hospitais, numa ânsia por estabelecerem, também, em ótimas posições.
Em suma, salta aos olhos de todos a ação destes formidáveis exemplares de nossa fauna tão nacional. Como, também, suas práticas exóticas, cruéis, estranhas e insalubres para a existência das demais espécies. Em prol da sobrevivência, deixam os seus cenários naturais. Mas são capazes, ainda, de imporem a sua lei: a Lei das Selvas, segundo a qual quem quiser viver, que se submeta a eles: se não, será devorado. Ou, então, coberto de imundícies por eles mesmos produzidas. Portanto, cabe vigilância, por parte das autoridades públicas, nas mais diversas instâncias, e por parte do povo. Afinal, trata-se de uma questão de segurança, saúde e educação para as próximas gerações, e para a sociedade, em geral. Animais exóticos, selvagens, não podem conviver com o público. É contra a sua natureza. Deixemos as cidades aos seus habitantes, e não às feras.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 30 de agosto de 2008].
A vaca estradeira
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