O leitor mais atento já deve ter notado que gosto de livros antigos, ainda que o meu conceito de antigo não seja o que aparente à primeira vista. É claro que me comovem as primeiras edições, as finas encadernações do Passado. Minha noção, todavia, é outra. Temos os livros clássicos, como os de Homero, Esopo, por exemplo. E o que chamo de antigos, como um comentário à obra deles escrito no século I a.C, digamos, ou no século XVI ou XVII, para não irmos muito longe. A Nova Floresta, do Pe. Manuel Bernardes (1644-1710), é um caso destes. O livro, disposto alfabeticamente como uma enciclopédia, com verbetes como Amor, Coragem, etc., ilustra cada um deles com exemplos retirados da história greco-romana, das fábulas, da Bíblia ou da vida dos santos, ou de episódios históricos, todos eles costurados como se tratassem da mesma coisa. É um pensamento antigo, hão de concordar. Outros desses são os bestiários da Idade Média, também dispostos de uma forma enciclopédica, e que tratavam de animais (bestas, daí bestiário), pedras e plantas, misturando a tradição e a ciência da época a episódios bíblicos, ou reflexões teológicas, com a intenção de que uns justificassem os outros. Para que tenham uma idéia, transcrevo um breve trecho, mas integral, de um bestiário, na passagem que trata do Diamante:
“Há uma outra classe de pedra diamante: não teme o ferro nem nele interfere o cheiro de fumaça. Se existe numa casa, nem demônio nem mal algum têm acesso a ela. Encontra-se nas moradas dos reis. Quem a possui, vence a todo homem e a todo animal. A pedra diamante é o meu Senhor: assim como ocorre com ela, se O tiveres consigo, nenhum mal te sobrevirá”.
O trecho explica por si só o que chamo de antigo.
Mas gosto também dos livros que chamo de velhos. Mais novos – todavia, nem sempre, muito mais novos, necessariamente – do que aqueles outros. Um deles, por exemplo, é um livro português de 1720, ou por aí, que folheei há pouco. Ele trata do que se fazer com as vítimas de afogamento. Nele, muitas prescrições são completamente diversas do que se pratica hoje. Diz que, antes de se expulsar a água dos pulmões, deve-se aquecer o corpo da pessoa, e se ter certeza de que está bem aquecido. Ora, assim é que se matava de vez! Entretanto, fala muito de sua época e da medicina de então. Outro, formidável, é um manual de defesa civil publicado em 1944, alertando a população quanto às providências a serem tomadas no caso de nossas cidades sofrerem um bombardeio aéreo. Consultei uns especialistas que me garantiram que os conselhos valem até hoje. Mas bem sabemos o quanto a guerra passou longe de nossas cidades...
Creio, por outro lado, que os mais curiosos são os de crítica literária, artística ou teatral, certos livros de memórias, ou de “projetos”, além de certos romances utópicos ou catastróficos. Como é curioso ouvir falar de sucessos do passado que ninguém mais se lembra, e de artistas, então, duramente criticados, e que se tornaram célebres! Ler sobre hábitos, prédios e locais públicos e saber como eram, como se chamavam, como se perderam vários deles há menos tempo do que se pensa. Reformas urbanas, pontes, viadutos, grandes construções que nunca saíram do papel! Projetos de emigração gorados, ou de colonização fracassados, sociedades ideais, por se sonhar, e tirânicas, a se temer, num futuro que se julgava próximo – algumas das últimas, aliás, até chegaram a existir, como bem sabemos. Deste tipo de romance, um, aliás, fez bastante sucesso, recentemente, ainda que esquecido, por muito tempo, pelo público e malhado pela crítica desde a sua estréia. Trata-se d’O Presidente negro, de Monteiro Lobato, que nuns EUA do Futuro, assistia-se a um candidato negro disputando a eleição presidencial com uma mulher. Havia uma porção de bobagens no livro, é fato, mas que quase coincidência com o que se viu há pouco naquele país, não?
Para muita gente, tudo isso pode não passar de velharias. Por outro lado, são testemunhos fiéis de que o Passado, em diversos momentos, pensou numa imensa gama de outros mundos porventura possíveis, e diferentes do nosso, ou de tal como ele está aí. Não se trata, acredito, de uma série de ninharias envelhecidas, mas de uma verdadeira lição. É, de fato, uma lição de uma “História que não foi”, pode-se dizer, mas que nos ajuda muito a pensar no Presente tal como ele é e de como poderia ter sido, quem sabe. Talvez eles não enxergassem o Futuro com lentes muito bem-ajustadas, mas eram as mais sofisticadas que tinham em suas épocas. Como as que temos, também, mais para frente, não parecerão muito precisas. Cada período vira-se com o que tem à mão. Por isso, podemos aprender com a miopia alheia a compreendermos melhor a nossa. É científico. E, na mesma medida, bíblico, pois não diz Lucas (6:41): “Por que vês o cisco no olho do irmão, e não notas a trave no teu?”.
Mas paro por aqui, antes que me julguem muito antigo...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 6 de setembro de 2008].
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