sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Auto-ajuda? Para quem?

Até alguns atrás, freqüentemente, podiam ser encontrados em bancas de jornal livros populares com títulos instigantes como “O Segredo da loteria”, “Fique rico agora mesmo”, “A Loteca desvendada”, “Seja você também um milionário”, coisas assim. Antes disso, quando os cassinos eram legalizados, circulava um material parecido, que anunciava maravilhas aos seus leitores: “A roleta sem mistério”, “Quebre a banca” e que tais. No conjunto, todas prometiam “receitas de sucesso”, que davam mesmo certo, pois seus autores ficaram ricos pura e tão somente por meio daqueles métodos, divulgados a todos, a partir daí, em razão do desejo dos mesmos de que outros pudessem gozar da mesma felicidade.
Mas à vista dos livros, uma dúvida sempre surgia aos menos incautos: se tudo aquilo era verdade, por que aqueles “benfeitores” entregavam o segredo por uns reles trocados? Por acaso eles não temeriam a concorrência? Mais gente apostando, e ganhando, levaria à diminuição dos prêmios. Outro tanto, com as mesmas “práticas empresariais”, digamos assim, reverteria toda a lógica dos negócios, pondo por terra a fórmula mágica. As respostas a estas indagações o grande público nunca soube. Souberam-nas os donos de gráficas, editoras, jornalistas e mesmo a polícia: os autores de tais livros não ficaram ricos pela aplicação dos procedimentos anunciados, mas porque venderam milhares daquelas fantasias impressas a milhares de basbaques. Este era o truque.
Com as expansões do mercado editorial brasileiro, e mesmo do público leitor, somadas à instabilidade econômica, às mudanças nas relações trabalhistas, intra-empresariais, etc., e mesmo a uma certa crise religiosa bastante verificável nas últimas décadas, os livros de auto-ajuda parecem, para muita gente, uma verdadeira tábua de salvação encontrada em meio ao oceano de incertezas que se tornou o mundo moderno. Seu sucesso de vendas pode ser facilmente verificado numa ótima matéria da revista Carta Capital desta semana, que trata do assunto como um todo, com suas várias e múltiplas implicações. Dentre os aspectos mostrados, dois deles chamaram-me a atenção, na medida em que vinha ao encontro da minha própria impressão quando da leitura — movida por pura curiosidade — de certos “clássicos” do gênero.
Em primeiro lugar, o discurso prolixo e errático, misturando conceitos da psicologia com estratégias do marketing mais vulgar, a ciência mais moderna com a superstição mais arcaica, num palavrório que desafia qualquer noção de lógica, coerência e coesão, muito próximo do charlatanismo, aliás, na medida em que agrega tudo e qualquer coisa numa mesma frase, num mesmo corpo de conceitos.
O historiador britânico Peter Burke é autor de dois livros deliciosos, dentre os vários que escreveu, nos quais trata dos diversos usos da linguagem ao longo do tempo. Num deles, Línguas e jargões: contribuições para uma história social da linguagem. (São Paulo, Unesp, 1997. 267p.), há um ensaio de Roy Porter (co-autor do livro) intitulado “Perplexo com palavras difíceis”: o uso do jargão médico. Nele, o autor expõe minuciosamente como o vocabulário técnico dos médicos soava falso e estranho para a população em geral entre os séculos XVI e XVIII. Tal falar arrevesado era a prova cabal de seu charlatanismo para muitos e, especificamente, para os curandeiros e práticos da medicina sem longos estudos regulares. Mas com o tempo, ele ganhou credibilidade. Daí então foi a vez dos charlatões inventarem um jargão mais impenetrável, empolado e esdrúxulo. Podemos dar um desconto tanto a um quanto ao outro campo dos adversários pelo fato de que a ciência, ou melhor, as ciências em geral, naquele período estavam se firmando nas suas bases empíricas: deixava-se o campo da autoridade deste ou daquele autor como fonte das verdades e passava-se para a pesquisa e a experiência como origem do saber. Pois naqueles tempos, desde os mais doutos estudiosos até o mais inculto camponês, do Papa ao ateu mais impenitente, todos viam a intervenção dos astros na vida e na saúde humanas, praticavam sangrias em pessoas exangues e acreditavam em outros mil procedimentos que hoje julgamos risíveis, e que todavia gozaram do papel de certeza científica para alguns, e arrematado bom senso, com o aval da tradição, para outros. Mas que matavam quase tanto quanto às guerras e pestes daqueles dias.
Os tempos atuais têm seus campos bem delimitados. Quando um automóvel é posto em funcionamento ninguém associa a combustão da gasolina à ação do “volátil elemento ar, ativado pelo sublime elemento fogo, produzindo uma transubstanciação do denso elemento terra em sua forma líquida, o petróleo, presidida pelo planeta Mercúrio” — que seria o discurso produzido no período já citado para explicar este processo. Da mesma maneira, ninguém de bom discernimento na atualidade pode reputar a “baixa auto-estima” como um fator determinante de seu próprio malogro profissional numa época em que a demissão em massa é política das grandes empresas. Os fatores são outros, que não passam diretamente pelo indivíduo, tomando-o como causa, mas que o levam de roldão como conseqüência.
Outro ponto delicado é a pretensa divinização do indivíduo, proposta por tais livros. Se por um lado não passam de exercícios espirituais sem espírito algum, jesuitismo sem Jesus, um catecismo de egoístas pregando a salvação da carne pela carne, mesmo se valendo da carne do próximo, se acharem preciso, por outro assemelham-se a adaptações grosseiras dos antigos manuais de corte, que ensinavam ao cortesão a melhor maneira de conciliar seus interesses e frustrações frente à boa-vontade d’El Rei — ou do chefe ou do patrão, nos dias atuais.
Em suma, que o leitor tenha sempre em mente: a melhor “auto-ajuda”, é fruto de reflexão próprias — daí o auto — ajudada pela leitura daqueles magníficos homens e mulheres que sondaram a vida nos seus mais recônditos esconderijos: os grandes filósofos, teólogos, escritores e pensadores. O resto é conversa fiada. Pois um sujeito que se propõe a escrever um livro de auto-ajuda só está pensando é na sua própria ajuda.
Voltaremos a este assunto.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de novembro de 2005].

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