Um dos males em se publicar uma crônica de quinze em quinze dias é que freqüentemente a velocidade dos fatos nos toma a dianteira e aquilo que era novo numa semana, quando transposto para o papel, acaba com ar de velharia. E isto se verifica com ainda muito maior gravidade quando um grande acontecimento ocorre, por exemplo, quando o jornal já está sendo rodado e nada mais pode ser corrigido. Aí, de fato, quando abordarmos o assunto, eis que ele terá já contra si uma velhice de quinze dias: pouco, em termos gerais, mas uma eternidade para uma crônica.
Por outro lado, tem também algumas vantagens. Poucas. Pouquíssimas, aliás. A primeira delas é que nos dá tempo suficiente para avaliar os vários aspectos de uma questão, observar seus desdobramentos e chegar a uma conclusão serena. Em suma, impede-nos de julgar o que quer que seja de forma apressada, ou preconceituosa, ou levados em demasia pelo calor do momento. A segunda vantagem é que nos livra da possibilidade de cairmos em algum erro muito grave. Pensemos, por exemplo, se o assunto fosse alguma guerra: numa semana, comemoraríamos, ou lamentaríamos, a tomada de alguma cidade, a vitória de um grupo ou a derrota de outro, e eis que na semana seguinte, a cidade fosse retomada e com ela outras mais, e o vencedor da véspera se tornasse o grande derrotado. O que faríamos, então, com os nossos comentários?
Assim, o tema aqui será o atentado terrorista em Londres, ocorrido há uma quinzena e sobre o qual — salvo muçulmanos, ingleses, norte-americanos, e as potenciais próximas vítimas, portugueses e italianos — ninguém parece ter mais interesse, ainda que o devesse. Só o fato de o resto do mundo, aparentemente, não estar dando mais a mínima atenção para o fato, torna-o, efetivamente, interessantíssimo. E faz com que pensemos numa série de possíveis motivos.
O primeiro deles nos faz pensar na sempre tão discutida questão da superexposição de informações de que somos vítimas no mundo moderno. Segundo esta teoria, o volume de notícias a que somos submetidos diariamente é tão grande que, por exemplo, aquilo que ouvimos pela manhã, à noite já teríamos nos esquecido, tal o número de fatos que se desenrolaram durante a tarde. No caso do atentado a Londres e seu interesse, hoje, este argumento é, em parte, inválido. Pois, se por um lado, nós, brasileiros, tivemos nossa atenção desviada para os inúmeros escândalos domésticos que nos atingiram, por outro lado, as notícias que se sucederam ao atentado e a ele pertinentes, além de muito poucas desde então, foram, nos primeiros dias, quase sempre confusas e muito pouco revelavam sobre o incidente. Logo, não se justifica a hipótese da superexposição de informações.
O segundo motivo para o desinteresse poderia ser uma certa perda do aspecto de ineditismo. Os primeiros e grandes ataques de Nova Iorque e Washington — quer por sua brutalidade, mas quer, principalmente, por ser algo totalmente novo e impensado —prenderam, assim, a atenção e a respiração do mundo todo durante meses. E o excesso de informações a ele relacionado não diminui nem um pouco o interesse por ele. Mas lembremo-nos, também, de que o atentado de Madri: não se tratava mais de algo inédito, antes, já era esperado, inúmeras informações circularam quanto a ele e ainda assim o mundo ficou estarrecido durante semanas.
O que consideramos o motivo principal pelo pouco interesse que o atentado de Londres ainda desperta em boa parte do mundo é o fato de que ele proporcionou poucas imagens de impacto. Contido nos túneis do metrô, onde o espaço exíguo e a escuridão não permitiam a captação pelas câmeras do cenário da destruição, não proporcionou grandes cenas de devastação, de sofrimento humano, como seus congêneres americanos e espanhol. Vá lá que se mostrou um ônibus sem seu teto, mas o que é isto perto das duas torres gêmeas e parte da fachada no Pentágono no chão? O que é isto perto dos trens retorcidos e da estação de Atocha em ruínas? Mesmo a triste imagem da moça com seu rosto oculto por uma máscara para queimaduras, a única verdadeiramente impactante, o que é perto de todos os restos de corpos humanos que as televisões e os jornais mostravam em Nova Iorque e Madri? Muito pouco.
Pois é este o motivo. Os olhos do Ocidente só se satisfazem com as piores crueldades. E o Mal deve ser espetacular se quiser prender a atenção. Só as imagens mais terríveis parecem ficar na memória hoje em dia. Assim, é de se pensar se os terroristas não falharam, em parte, em seu intuito de nos chocar. E, por outro lado, pensar também se não foi, na verdade, todo o Ocidente que falhou, por se permitir tornar tão insensível ao horror.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 23 de julho de 2005].
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