sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Pantofagia

Os bons dicionários registram que a pantofagia (do grego pan-, “tudo”, e -fagia, “comer”), é o hábito de comer de tudo, indiscriminadamente. Assim, somos todos um pouco pantófagos perante um bufê de churrascaria ou de restaurante “por quilo”, quando nos servimos de torresmo com camarão, sushi e lingüiça, mussarela de búfala com picanha de búfalo, etc. Mas a Etnologia trata os hábitos pantofágicos com mais rigor, para além da gula irrefletida dos habitantes das cidades. Segunda aquela ciência, em tais práticas incluem-se aqueles que se alimentam de insetos, não só a popular içá, mas também grilos e outros, dentre os quais aquela lesma de taquara que salvou da fome tantos desbravadores e que ainda é ingerida por recrutas do exército em certas incursões às matas: menos por necessidade e mais por uma espécie de “batismo de macheza”. E para a lista entram também os comedores de terra, os geófagos, tanto aquelas crianças que, infestadas de verminoses, sentem um desejo incontrolável por tal “iguaria”, quanto até mesmo adultos que, no entanto curados, não perderam o hábito, ou vício — em algumas feiras populares de lugares nem tão remotos assim do Brasil, podem ser encontrados tabletes de terra para o consumo de tão seleta freguesia.
Há outros hábitos pantofágicos que ora não vem ao caso relatar, a maior parte deles relacionados a rituais das mais variadas culturas. A ingestão de bebidas alucinógenas, de gosto medonho e preparadas com os ingredientes mais exóticos, conta-se entre eles. Da mesma maneira, as práticas canibais de nossos antepassados tupinambás, aimorés, etc. Quem tiver interesse que leia aquele ótimo livro que é A Pantofagia ou as Estranhas Práticas Alimentares na Selva (Companhia Editora Nacional, Coleção Brasiliana, em co-edição com o MinC/Pró-Memória/INL, São Paulo, 1987), do escritor, historiador e folclorista paraense Abguar Bastos (1902- 1995), pesquisador sério e homem de letras de talento, infelizmente meio esquecido nos dias de hoje, junto com muita gente de valor.
Como todos podem ver, comer é uma coisa muito séria. Mesmo o que nos parece repulsivo, pode ter seu caráter sagrado. Os deuses do Olimpo tinham suas comidas e bebidas especiais, assim como os têm as divindades indígenas das Américas, as africanas e afro-brasileiras. Tanto os gregos quanto os hebreus sacrificavam os melhores animais de seus rebanhos (dos quais algumas partes eles próprios, sacrificantes, comiam): os primeiros, aos seus deuses, os segundos, a Iavé. E não podemos nos esquecer que o Cristianismo tem a sua essência diretamente ligada a um sacrifício e a uma ceia, santa, aliás, em boa parte alegórica, é fato, mas uma ceia.
Não seria por acaso, também, que o escritor modernista Oswald de Andrade (1890-1954), talvez um dos mais revolucionários pensadores da cultura brasileira, tenha dado ao seu libelo mais radical o título de Manifesto Antropofágico (1928), repleto de influências de Marx, Freud, Montaigne e Rousseau. Para quem não se lembra, naquele texto, de um modernismo que já dava provas de maturidade, o autor identificava a maneira como os brasileiros “alimentaram-se” de referências culturais européias, “deglutiram-nas”, e criaram uma cultura própria, e mais forte, sustentava ele, que os modelos “comidos”. Qual os antigos canibais, que se nutriam apenas dos fortes e bravos, para incorporar suas virtudes. Ainda que polêmico, repleto de humor e nada metódico, o Manifesto incorporou-se ao pensamento nacional de maneira indelével.
O quê práticas, autores, estudos, manifestos querem dizer é uma só coisa: não há nada de errado em assimilar o estranho, ou o estrangeiro, desde que de maneira consciente e com uma finalidade benéfica. Senão, é o mesmo que entupir-se de comida, e de comida mal-feita, porque sentimos falta de uma coisa, a qual, todavia, não sabemos o que seja: compulsão como tentativa de sanar a frustração. E para piorar tal quadro, há um bando de gente ávida por nos deixar no mesmo ponto, cevando-nos com toda a sorte de porcarias.
As últimas semanas deram mostras evidentes de quanta ração nos foi enfiada goela abaixo, qual é feito com os gansos franceses, para a produção do foie gras que, literalmente, quer dizer “fígado gordo” — no nosso caso, leia-se “cérebro preguiçoso”. Aquele inútil Pan do Rio de Janeiro, o “apagão aéreo” como causa do acidente de Congonhas, as desculpas esfarrapadas do ministro apanhado em gestos obscenos, os “méritos” e os “momentos de ternura” de ACM, o “Cansei”, dos plutocratas de S.Paulo, e por aí vai. Em suma: estamos ou não estamos submetidos a uma dieta à força, e pantofágica? E o que é pior, sem qualquer benefício, sem um traço sequer do sagrado. Portanto, rejeitemos, rejeitemos estes pratos indigestos que nos servem e que são cobrados a peso de ouro. Temos o direito de escolher o que “comemos”, e não é nada disso que está sendo oferecido no “cardápio” nacional.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 4 de agosto de 2007].

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