Um amigo português, há pouco tempo, descreveu-me o seguinte plano de viagem e o justificou. Dizia ele que, depois de visitar boa parte dos sítios históricos de seu país, gostaria de empreender uma visita ao Brasil, mas não em busca das principais construções históricas de nossa pátria tropical, que ele já conhecia, e, sim, precisamente, de um roteiro diferente: um roteiro literário, que abrangesse não só as casas dos grandes vultos de nossa literatura — e, convenhamos, por mais de trezentos anos, da literatura dele também — bem como, se possível, os cenários e as paisagens descritas por nossos maiores autores.
No primeiro instante senti-me, como era de se esperar, extremamente envaidecido. Como se ouvisse rufar aos meus ouvidos aquele velho — e patético — chavão, outrora repetido em nosso país, em timbre triunfante, acerca de tudo e acerca de nada, que dizia que “a Europa irá se curvar ante ao Brasil” ... etc., etc., etc. Mas depois, acordando do breve e injustificável letargo ufanista, considerei nossas condições e passei a ponderar com o amigo.
Em primeiro lugar, adverti, aqui não é como a Inglaterra, que não só tem um “roteiro literário” para Londres, visitando as casas de Charles Dickens, W. M. Thackeray e Conan Doyle, bem como os cenários em que seus vários personagens, como David Copperfield, o Sr. Pickwyck, Betty Sharp e Sherlock Holmes percorreram, com direito a placas afixadas às ruas onde “viveram”. Igualmente não temos um roteiro como o do Distrito dos Lagos, visitando as moradias dos poetas românticos Wordsworth, Coleridge, e Southey — autor também de um dos primeiros (ótimo aliás) compêndios da História do Brasil —, ou do polígrafo Thomas de Quincey, ou do grande crítico e filósofo da arte John Ruskin, autor das imortais “Pedras de Veneza”, dentre outros talentos que viveram na região.
Longe estamos de Paris, que anuncia a cada canto a morada deste ou daquele poeta, escritor ou filósofo, com direito a placas de indicação plantadas em plena rua e outras comemorativas nos lugares que, de uma maneira ou outra, figuraram em suas obras. O turista quer conhecer a casa de Victor Hugo, Verlaine, Rimbaud, Gide ? É simples, basta seguir a placa: e por esta indicação, conhece quase todas as moradias dos escritores franceses, os cenários por onde passaram e os quais descreveram. Paris, neste tipo de roteiro, é tão rica que se dá ao luxo de indicar até mesmo as moradias de escritores das mais diversas nacionalidades que ali habitaram, desde o russo Turgeuniev ao nicaragüense Rubén Darío, passando pelos americanos Gertrude Stein, Hemingway e Scott Fitzgerald
Da mesma maneira, não possuímos a variedade de roteiros que, por exemplo, o distrito de Concord, Massachussets, Estados Unidos, se dá ao luxo não só de apresentar, como apresentá-los aos montes, quer seja enfocando as construções coloniais, ou os campos de batalha da Guerra da Independência, e ainda, principalmente, as casas de moradia e as paisagens descritas por Henry David Thoreau, Louisa May Alcott, Ralph Waldo Emerson, Nathaniel Hawthorne e Margaret Fuller, que valem não só por uma verdadeira aula de literatura americana de meados do século XIX, como pelo fato destes autores serem os fundamentos da literatura norte-americana moderna.
Nem mesmo, senti-me obrigado a reconhecer, temos as indicações como as que Portugal pontuou em seu mapa, as vastas indicações à casa de Camilo Castelo Branco, em Vila Nova de Famalicão, ou a de Guerra Junqueiro naquele rincão cujo nome é tão belo quanto uma poesia épica: Freixo de Espada-à-Cinta. Ou como as da casa de José Régio, em Portalegre.
Nem temos indicações em nossas cidades, da moradia dos grandes vultos das letras e das artes pátrias. A casa de Mário de Andrade, em São Paulo, só meia dúzia de pessoas a conhecem. A casa onde viveu Guilherme de Almeida, que até já foi museu, menos gente ainda. E no Rio de Janeiro e Recife, a coisa não é muito melhor. Não só faltam indicações, quando faltam mesmo as próprias casas, devoradas pela voragem das grandes cidades e seu apetite por arranha-céus.
A solução, ponderei com o amigo, é Ouro Preto: lá estão ainda de pé não só as casas onde viveram os poetas árcades Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto, como também a moradia a do tribuno conservador Bernardo Pereira de Vasconcelos, do escritor romântico Bernardo Guimarães, do poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens e do parnasiano Augusto de Lima.
Mas meu amigo riu, gostosamente, e disse, brincalhão: “Ouro Preto não vale, Pedro. Para você, a solução, sempre passará por Ouro Preto...”.
E depois, dizem que ninguém sabe do destino alheio.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 28 de maio de 2005].
Bolinhas feito pérolas
Há uma semana
Nenhum comentário:
Postar um comentário