sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O IgNobel, o Nobel e certas práticas ignóbeis

Já tratei, anteriormente, neste espaço, do Prêmio IgNobel, uma sátira ao Prêmio Nobel criada pela revista Annal of Improbabel Research (Anais da Pesquisa Improvável), que, desde 1991, vem agraciando diversos cientistas, em razão dos estudos a que se dedicam e dos resultados obtidos, aparentemente ridículos. A justificativa dos organizadores do evento seria homenagear pesquisas e experiências que, à primeira vista, causam riso, mas depois dão o que pensar. Ao mesmo tempo, a publicidade dada a tais trabalhos serviria como um tributo à imaginação, além de uma maneira de ampliar o interesse das pessoas pelas ciências como um todo. E, por este motivo, a lista das categorias contempladas pode variar, dependendo da qualidade e natureza das pesquisas tidas como mais curiosas.
Se, por um lado, existe uma constância quanto à Medicina, à Paz, à Literatura, por outro, já foram concedidos prêmios à pesquisa nas áreas de Estatística, Entomologia, Aeronáutica, e por aí afora. Mas é injusto pensar que tudo não passa de uma simples chacota, quando não verdadeiro escárnio. Pois os prêmios são entregues na célebre e prestigiadíssima Universidade de Harvard, pelas mãos, justamente, de ganhadores do Prêmio Nobel.
É claro que, muitas vezes, é difícil levar a sério uma pesquisa como a que ganhou o IgNobel de Medicina deste ano: uma investigação de Dan Meyer e Brian Witcombe quanto aos efeitos colaterais a que estão sujeitos os engolidores de espadas. Mas, se pensarmos bem, estes artistas do picadeiro não merecem também a atenção da ciência, quanto à preservação de sua saúde? Houve,por exemplo, uma pesquisa ganhadora do prêmio de 2001, na mesma área, de autoria de Peter Bass, da Universidade McGill, do Canadá, dedicada aos ferimentos causados às pessoas pela queda de cocos sobre elas. Parece uma bobagem, mas cientistas de muitos países tropicais se interessaram por ela. Bem como agências de turismo e companhias de seguro: num mundo globalizado, onde as pessoas escolhem as mais variadas rotas turísticas, é de se compreender seu sucesso.
O Ignobel da Paz, de 2006, concedido a Howard Stapleton, do País de Gales, é, na minha opinião, um dos mais curiosos. O autor se dedicou a inventar um aparelho que emitiria uma onda de som em alta freqüência audível, supostamente, apenas por adolescentes, com a finalidade de afastá-los de determinados espaços públicos, evitando assim a depredação do patrimônio. Todavia, para a sua infelicidade, o efeito foi o inverso: o som revelou-se agradável aos jovens, tornando-se um toque de celular utilizado por eles para falarem e trocarem mensagens durante as aulas sem que os professores percebessem. Está certo que foi um desastre, mas que a idéia era boa, ninguém pode ter dúvida. Pensemos em todos aqueles menores de idade que, ilegal e impropriamente, bebem e fumam em postos de gasolina até altas horas, ou na freqüência, também ilegal, dos mesmos em casas noturnas, ou naqueles que se lançam, com sprays de tinta em punho, a emporcalhar prédios, monumentos, etc. Se o aparelho tivesse funcionado a contento, a lei, a ordem, o patrimônio e a saúde pública seriam preservados, sem a necessidade de deslocamento de policiais, assistentes sociais, membros dos conselhos tutelares, sem o desgaste dos pais.
Tratamos, portanto, até agora, do que parecia absurdo, e que no entanto não é, nas obras dos ganhadores do IgNobel. Mas o que dizer dos comportamentos, por vezes ignóbeis, dos ganhadores do Prêmio Nobel?
Há alguns meses, o escritor alemão Günter Grass, Nobel de Literatura em 1999, considerado por décadas uma espécie de consciência crítica de seu país, por não se negar a pôr o dedo na chaga ainda aberta do nazismo, que muitos preferiam esquecer, declarou ter sido um membro, por sinal voluntário, da temível Waffen-SS, tropa de elite do regime nazista, notória por suas atrocidades na Segunda Guerra. Já era sabido, e confessado publicamente por ele, que participara da Juventude Hitlerista. Até aí, nada de mais. Naquele tempo, quase não se tinha escolha, salvo se a pessoa contasse com um pistolão que a livrasse. Para a maioria, era a participar ou ser enviado a um campo de concentração. Foi o que aconteceu, ao que tudo indica, por exemplo, com o então jovem Joseph Ratzinger, hoje, S.S. Bento XVI. O que incomoda é: por que Grass só agora confessou tal fato? Para que tal declaração não lhe roubasse prêmios, prestígio, leitores? Por medo de que a verdade viesse à tona pela voz de outro que não ele?
Depois veio o norte-americano James Watson, não o simpático e correto John Watson, médico e companheiro de aventuras de Sherlock Holmes, mas o descobridor da estrutura molécular do DNA — juntamente com Francis Crick e Maurice Wilkins —, ganhador do Nobel de Medicina de 1962. Eis que, no domingo passado, numa entrevista, o pesquisador afirmou-se “inerentemente pessimista quanto às perspectivas da África” porque “todas as nossas políticas sociais estão baseadas no fato de que a inteligência deles é a mesma que a nossa – enquanto que todos os testes dizem que não é assim”. Ele também afirmou desejar (!) que todos fossem iguais, mas argumentou que “pessoas que têm de lidar com empregados negros descobrem que isso não é verdadeiro”. A estas brutalidades desse renomado pesquisador, somam-se outras, vindas do passado, e relembradas agora: a crença numa exacerbada sexualidade existente nos homens negros (idéias defendidas pela Ku-Kux-Klan, a famigerada fraternidade racista estadunidense, para encher de medo as mulheres brancas, vítimas potenciais de tais “algozes naturais”); sua proposta de permitir livremente o aborto quando descoberta a possibilidade “genética” (!) da criança se tornar um homossexual; e, por fim, sua declaração de vontade quanto à extinção futura das pessoas consideradas feias, através de um certo “planejamento genético”. Quanto a esta última, só posso pensar que tenha sido dita para “fazer uma média”, como falam por aí. Porque ele é feio que dói.
Para coroar o rol de frases imbecis ditas por ganhadores do Prêmio Nobel, a escritora britânica Doris Lessing, agraciada este ano, afirmou esta mesma semana que os atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos “não foram tão terríveis”, se comparados aos ataques do Exército Republicano Irlandês (IRA) na Grã-Bretanha e na Irlanda do Norte. De fato, foram 3.700 mortes, nas ações do IRA, contra 3.000, nas Torres Gêmeas. Só que, quanto ao primeiro caso, as baixas se deram ao cabo de 30 anos de conflito, num Império em boa parte decadente. Quanto ao segundo, tudo se deu num único dia, num Império ainda em expansão e que, por conta de tal feito, alterou a geopolítica do planeta inteiro sabe-se lá ainda por quanto tempo mais.
Não quero dizer, aqui, que o IgNobel é melhor que o Nobel. Mas seria interessante considerar se, diante da genialidade de uns, não seria preferível, ético, moral, acolher a aparente comicidade de outros. Decerto que nem sempre. Mas de vez em quando, pelo menos.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de outubro de 2007].

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