sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Diário Carioca: Parte II — Museus com música ambiente

Em minha última visita ao Rio de Janeiro, visitei alguns monumentos e instituições que são referências no Brasil e em boa parte da América Latina, sendo uma delas, aliás, um exemplo para todo o globo, tanto por seu acervo, quanto pelo profissionalismo empregado em seu atendimento ao público.
Falo, em primeiro lugar, da Biblioteca Nacional, a quarta maior do mundo, que contém obras que fazem morrer de inveja muitas outras grandes bibliotecas espalhadas pelo planeta. Pois não bastasse seu imenso acervo, não bastassem suas instalações magníficas que fazem do prédio um verdadeiro palácio dedicado ao livro, ela possui todo um serviço de pesquisa que fornece ao interessado, esteja ele a milhares de quilômetros de distância ou mesmo a meia dúzia deles, as principais informações para sua pesquisa, desde a mais simples até aquelas sobremodo complexas, e sem que o mesmo tenha de sair de casa: o resultado é disponibilizado quer de forma impressa, quer por xerox, ou por cópia eletrostática. Mas se ainda assim a pessoa se decida por pesquisar no local, orgulha-se a biblioteca em afirmar que a espera entre o pedido do livro e a entrega ao leitor não excede trinta minutos. Já quando pensamos na Biblioteca “Mário de Andrade”, a segunda maior do país e orgulho de São Paulo...Não falo das instalações do prédio, com suas infiltrações e rachaduras, da morosidade no único serviço de reprodução de texto, um departamento de xerox que atravessou várias gestões com a maioria das máquinas quebradas, sem previsão de reparos, e com funcionários sempre à beira de uma greve ou recém saídos dela, quando não exercendo-a em sua plenitude. E quanto ao legado das últimas — e atuais — administrações, só o futuro dirá: o balanço, até o presente, só da notícia de um roubo espetacular ocorrido ninguém sabe quando. E neste ponto, os cariocas, mais uma vez, estão na nossa frente, porque também sofreram um roubo de iguais proporções, e identificaram-no no prazo de uma semana.
Todavia, foi o Museu Histórico Nacional, das instituições visitadas, a que mais chamou minha atenção. Porque lá podemos verificar o tratamento que o Estado dá à nossa memória, que é tão particular, ao mesmo tempo tão coletiva, e que reside não só em nossas lembranças, mas também em livros, papéis,e em todo o tipo de objetos por meio dos quais procuramos reconstituir e compreender a nossa história. Ele pertence a uma “família” de museus, por assim dizer, que acumula as funções de repositório — ou depósito, como queiram — de antigüidades nacionais ali reunidas não como “testemunhas do passado”, que de fato são, mas, intencionalmente, como “testemunhas da História”, ou seja, aquela que se quer sacralizada. De modo que, por exemplo, uma cadeira do século XIX, deixa de ser uma peça antiga de mobiliário e se converte “na cadeira onde se sentou D. Pedro II quando assinou a declaração de Guerra contra o Paraguai”, digamos. Muda todo o contexto, não é verdade? Entretanto, isto acarreta certos perigos. Porque, muitas vezes, peças do mesmo gênero não se vinculam diretamente à nenhum “fato significativo da História”, só que por estarem no mesmo local, ganham ares de igual importância. Assim, o público procura ver em toda cadeira que encontra no Museu o assento de algum grande nome da história nacional: mesmo que não identificadas como tal, ele supõe que um dia o serão, e naquela simpática poltrona que ele viu num canto de um salão, acredita, haverá de certo, no futuro, uma placa indicando ter sido onde se sentava Rui Barbosa, digamos, “quando comunicado da Proclamação da República”. Que um cidadão pense em algo dessa natureza, é até bom. Curiosidade e imaginação histórica são coisas ótimas. O problema surge quando os museus dão mais ênfase às eventualidades históricas do que às realidades. E o empilhamento de toda a sorte de objetos num ambiente conduz, inexoravelmente, a isto. É preferível, mil vezes, uma série de museus intitulados “museu da casa paulista”, “museu da casa fluminense”, “museu da casa alagoana”, por exemplo, do que meter toda sorte de salas de jantar, armários e escarradeiras num museu dito “histórico”. Porque, ao fim e ao cabo, o Trono Imperial e a pena com a qual a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea acabam nivelados à espreguiçadeira da Baronesa Fulana, exposta na sala anterior, e à faca de abrir cartas da Viscondessa Cicrana, exibida duas salas mais adiante.
A concepção museológica nacional, é preciso que se diga, nunca seguiu a História, que é crítica, propositiva, aberta a interpretações e possibilidades várias, mas, sim, a memória, que, apesar de bem-intencionada, nada mais é do que uma tentativa de se criar uma narrativa do passado brasileiro, um todo uniforme, conduzindo a um determinado fim que outro não é senão o culto à Pátria, ou da idéia que se pretendia construir de “Pátria” à época da construção dos museus, conceitos de tal maneira impositivos, dogmáticos e alheios a possíveis críticas, que acabaram por se parecerem com grandes templos ou santuários consagrados a uma idéia. Quando não imensos, colossais túmulos, onde toda uma série de objetos, conceitos, pessoas, deveriam jazer mumificados e adorados pelas gerações vindouras.
Exemplos de tal procedimento não faltam. Falamos já daquela “família” de museus que seguia tal procedimento. Mas não cabe ao Museu Histórico Nacional o papel de patriarca. A primazia cabe, de fato, ao Museu Paulista, o Museu do Ipiranga, fundado em 1895 para a exposição de exemplares da fauna e flora brasileiras (leia-se: “animais empalhados e folhas secas”), e convertido em museu histórico em 1917. Vem então o já citado, inaugurado no Rio de Janeiro em 1922, em razão do centenário de nossa Independência, seguido pelo Museu Republicano da “Convenção de Itu”, de 1923. Este, aliás, celebra de tal maneira o acontecimento, extrapolando em tantos simbolismos, que, dentro dele, às vezes temos a impressão de estarmos numa igreja — brinco entre amigos que não se trata de um museu, mas sim, da igreja de Nossa Senhora da Convenção de Itu: até a mesa à volta da qual se sentaram os republicanos é disposta de uma maneira, com os retratos deles na parede, que evoca claramente a Ceia dos apóstolos. Quanto ao último membro dessa família — falo aqui daquele dentre a prole que se tornou mais vistoso, não da parentalha tímida, que se deixa esquecer nalguma lonjura —, trata-se do Museu da Inconfidência, de Ouro Preto, inaugurado em 1940.
Todos eles, por mais impressionantes que sejam seus acervos, recaem num erro comum: buscam uma imagem coletiva do passado que não existe, e assim são eles próprios testemunhas de como um dado presente procura enxergar certas coisas no passado à custa da verdade e da veracidade, chegando a ponto de, quando não as encontram, serem capazes de fabricá-las.Pensemos novamente no exemplo das cadeiras, dentre muitos outros possíveis.
Nós, paulistas, ainda temos um consolo quando visitamos os museus de nosso Estado. Pelo menos não somos submetidos às músicas de fundo que os museus cariocas tocam nas salas, para que o público “entre no clima” do momento histórico ali apresentado: nosso “cardápio”, um pouco indigesto, ainda que regional, é praticamente o mesmo, mas, pelo menos, estamos a salvo de uma questionável, e óbvia, música ambiente.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 16 de setembro de 2006].

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