Peço a permissão dos leitores para interromper a série a que dei início já há quinze dias, mas um assunto mais premente veio à baila neste intervalo de tempo. Como já sabem, este é um dos problemas de uma contribuição a cada quinzena: a realidade dos fatos, muitas vezes, nos leva de roldão. Já o assunto que merece um comentário tão pontual vem a ser a inauguração do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, esta “jóia da coroa” da candidatura do governador paulista à Presidência da República, incrustada na recém-reformada Estação da Luz .
Não sou nenhuma pessoa tacanha que acredita que um museu seja uma mera coleção de velharias mais ou menos imprestáveis. Nem tampouco um antiquado a ponto de pretender que os museus sejam locais revestidos de uma aura sagrada onde se expõem as grandes obras de arte do passado ou peças que sejam testemunhos de outros tempos. Acho, em boa parte, que são isto também, mas não só. Acredito mesmo que, de acordo com a proposta e o interesse, mas sobretudo dada a materialidade da coleção, um museu do automóvel, ou de história natural, de antigos rádios Phillips, ou de medalhas e armas do Império, são em grande parte equivalentes. O mesmo quando se trata de um museu de arte moderna frente a um dedicado à arte até o século XIX. Sendo bem organizados, catalogados e com um acervo representativo, têm praticamente o mesmo valor. E se aos seus recursos somam-se ainda alguns bons efeitos da tecnologia — uma iluminação especial, fones de ouvido informando o visitante, gráficos ou animações computadorizados multiplicando-se por monitores — então melhor ainda.
O que é difícil imaginar é um museu voltado a algo totalmente incorpóreo e imaterial, a um conceito que depende de tantos outros meios para poder existir quanto uma língua. É possível, como sabemos, um Museu da Imagem e do Som, temos aliás, pelo menos dois no Brasil: um em São Paulo, outro no Rio. E é possível porque tanto o som quanto a imagem podem ser gravados por processos mecânicos, como todo mundo sabe, e reproduzidos à hora que se bem entende. Trata-se, portanto, de um museu de sons e imagens com sentidos próprios, e não, por um lado, uma coleção de velhas películas e fitas cassetes, nem, por outro lado, um museu do barulho, ou das palavras soltas, de gritos desconexos, fotos aleatórias, filmes sem princípio, meio ou fim.
Lembremos que a definição mais seca da palavra museu — além de se referir a sua etimologia e seu antigo uso, “templo das musas”, nos quais se recolhiam objetos de arte, mas também exercitava-se a poesia, tornando-se uma espécie de coleção, biblioteca e academia — seria de que se trata de uma instituição dedicada a buscar, conservar, estudar e expor objetos de interesse duradouro ou de valor artístico, histórico, etc., como se constata em qualquer bom dicionário. Assim, segundo o que foi dito, paira a pergunta: e desde quando a língua é um objeto que possa entrar para um museu?
Por tudo que foi mostrado na imprensa a respeito do museu da língua portuguesa em São Paulo, o que mais chama atenção é justamente a dificuldade em expor um acervo que só existe de forma abstrata. Ou alguém acredita que projetar imagens de palavras numa parede, qual num planetário, tem alguma coisa a ver com a língua? Ou manusear objetos, montando palavras, relaciona-se diretamente com o idioma? Ou ler cartazes imensos, suspensos no teto, com trechos de obras literárias, tem algum sentido? Pelo menos para esta última “novidade”, como se sabe, há um meio melhor, mais cômodo e “mais aprovado pelo público”: o bom e velho livro.
Ora, um museu da língua é impossível. O que se pode ter é um museu das palavras encadeadas em frases ou versos, sejam impressas, sejam faladas e gravadas de alguma maneira qualquer. Mas, para isso, como devem se lembrar, já temos as bibliotecas, os museus de imagens e sons.
Em suma, o novo museu é completamente dispensável e sem sentido. Se o objetivo era celebrar nosso idioma, muito melhor faria o governador se comprasse mais livros às bibliotecas já existentes, ou informatizasse as mesmas, ou tornasse disponível o conteúdo das obras pertencentes às bibliotecas das universidades estaduais, ou mesmo daquelas que se encontram na Biblioteca Municipal, guardiã de tesouros que muita gente nem sonha existirem. Aí de fato teríamos um tributo ao idioma pátrio! E certamente por um custo bem menor.
Se a questão era porque devia-se gastar dinheiro em algo aparatoso relacionado à língua, e ao mesmo tempo dar um sentido a mais à Estação da Luz — cenário da nova pirotecnia — por que, ao invés de meter ali todos aqueles brinquedos moderninhos, não criaram no local numa biblioteca estadual de primeira, coisa que ainda não existe, e uma referência para todo o país? Isto sim seria um museu da língua! Só que no Brasil, nada é tão simples. A lógica é fazer o oposto do que a lógica manda. Preferiu-se esbanjar numa obra personalista e empolada, uma espécie de parque de diversões com atrações limitadas e maçantes. Pois que ninguém tenha dúvida quanto à vida curta deste museu. Depois das excursões de escolas e colégios, e de meia dúzia de exposições, todas com “ar de vanguarda” e quase idênticas umas as outras, não sei o que será do museu, senão, quem sabe, se converter numa espécie de biblioteca improvisada ou, o que é mais provável, cair no esquecimento. Tão logo deixar de ser mais uma novidade “novidadeira” há de perder a graça. E nem falamos em perder o sentido, já que este o tal museu não tem nem nunca terá.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de abril de 2006].
Bolinhas feito pérolas
Há uma semana
Nenhum comentário:
Postar um comentário