sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Um automóvel incomoda muita gente...

A maioria dos leitores não imagina a quantidade de vezes em que, conquanto já termos uma crônica pronta, eis que surge um novo assunto, um novo tema, urgente e incontornável, que subverte nossos planos e lega à gaveta — ou melhor, a um arquivo de computador — nossa idéia inicial. Na semana passada, por exemplo, pretendíamos dar seguimento a uma análise esboçada anteriormente, a qual carecia de uma conclusão. Mas como silenciar diante de algo tão premente quanto o mais novo massacre norte-americano, ocorrido, ao menos naquela ocasião? Pois agir de outra maneira seria impossível, inviável e injusto para com os leitores. A crônica permite, é claro, a digressão sobre as mais variadas questões, mas é, antes de tudo, um testemunho, uma seqüência de notas quanto ao tempo em que vivemos. E não pode, nem deve, se afastar muito disso. Em suma, há prioridades no gênero, e as principais delas são, justamente, a relevância de certos fatos e a pontualidade dos mesmos. Em vista do exposto, os leitores compreenderão porque deixamos certas “séries” de crônicas aparentemente sem conclusão. Pois, parafraseando Camões, “Cesse tudo que a musa antiga canta/ Que outro valor mais alto se alevanta”.
O que nesta semana despertou uma viva atenção foi uma ótima reportagem publicada na revista Carta Capital — que é, sem sombra de dúvida, a melhor revista semanal do país em muitas décadas — tratando da relação que o mundo tem com o automóvel “nosso de cada dia”. É claro que muitos outros assuntos de relevância nacional também despertaram a revolta e a preocupação de muita gente. Como esquecer da revelação quanto às relações promíscuas mantidas por alguns “pais” do Plano Real com o mercado financeiro? Da prisão de desembargadores e outros homens públicos juntamente com notórios criminosos? Da comparação entre os minguados investimentos na Educação nacional e os inflados gastos com a propaganda do Governo Federal, dentre outras mazelas.? É verdade, há também o “apagão aéreo” que parece não ter fim. Mas até que ponto tal assunto não é uma mera medida diversionista para afastar nossas atenções e assuntos mais complexos, como os mencionados acima e que, ao que tudo indica, serão esquecidos brevemente?
Voltando ao tema principal, pensemos no automóvel, tema da matéria assinalada. Ainda que ele seja um meio lícito, prático e confortável de levar uma, ou mais pessoas, da maneira mais rápida, barata e aparentemente confortável, de um ponto a outro, resumir-se-ia ele a este aspecto tão prosaico? Sabemos que não. Pois ele é muito mais do que isto, e, sob muitos aspectos, pelas piores razões. Ele é tabu, totem e fetiche, como concordam os teólogos, psiquiatras, psicólogos, antropólogos, filósofos, historiadores — e até os publicitários, ainda que não confessem publicamente. Mais do que uma máquina, mais do que um meio de locomoção, ele vem se tornando um objeto de culto. E de flagrante exclusão social, principalmente nos países subdesenvolvidos, como o nosso.
Não pretendemos, aqui, propor qualquer desvario: a extinção dos automóveis é mais que absurda, é idiota. Embora os mesmos sejam um dos principais motivos para o aquecimento global e para os eternos conflitos que abalam o Oriente Médio e, por extensão, o mundo, sua utilidade é inquestionável. O que propomos, todavia, é a seguinte reflexão: até que ponto ele é insubstituível e, mais além, até que ponto não somos dominados por esta mera carcaça de ferro e borracha, alçada à condição de um deus?
Se admitimos como exemplares certas nações européias cuja noção de justiça social se sobrepõe ante as demais, e que abrem mão do transporte particular — automóveis — em prol do público, por que não nos inspirarmos neste exemplo? Vamos eternamente copiar o modelo americano? Mas como, se o comportamento de nossos proprietários de automóveis se assemelha aos daqueles das mais atrasadas nações africanas, dos mais exóticos países asiáticos, que julgam que a posse dos mesmos a eles conferem privilégios especiais?
Cidadania, civilização, é tomar o ônibus, o trem, o metrô. É olhar seu companheiro no transporte público como um igual, e não rosnar o motor diante de alguém que passa pela faixa de pedestres. Afinal, o conceito de República, que, em princípio, nos governa, pressupõe o mérito, a capacidade, o talento, como a únicas distinções possíveis entre uns e outros cidadãos e, ainda assim, relativas, porque todos somos iguais: o dono de um fusquinha tem os mesmos direitos sobre a rua que o dono de uma Ferrari, e ambos devem respeitar, sobretudo, o direito do pedestre. Negar isto, é querer retornar ao pior do Absolutismo, é pretender revogar os direitos mais essenciais, é intentar constituir a casta dos “motorizados”, com amplos poderes, de morte, inclusive, àqueles que não o são.
À guisa de conclusão, quero deixar bem claro alguns pontos. Tenho automóvel e dirijo. Nunca fui multado, nunca bati nem risquei automóvel algum, nem sequer o meu. Respeito a legislação de trânsito como respeito à todas as demais, com rigor e constância, porque não existe civilização que viva ao arrepio da lei, nem pode chamar-se de cidadão quem a infrinja: não sou, nem nunca fui, portanto, contraventor, criminoso, bárbaro ou selvagem, e, de tal modo, isento às leis. E troco “os confortos” de meu automóvel pelo transporte público sempre que tal possibilidade se me apresenta. Que são precários, é verdade, que nos desrespeitam e que poluem quase tanto quanto nossos automóveis, idem, mas que ainda são um dos poucos espaços de convivência pública neste país e de exercício da cidadania: só quem não os conhece pode ignorar este aspecto verdadeiramente igualitário, quanto ao pior e quanto ao melhor, que ele pode proporcionar.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 28 de abril de 2007].

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