O leitores sabem que não tenho o hábito de comentar filmes neste espaço. Não que não goste de cinema, pelo contrário. Gosto, e gosto muito. E por esse motivo assisto cada vez menos às novas produções. Porque o que vem sendo realizado nos últimos vinte anos ou, mais precisamente, nos últimos dez anos, em minha opinião, é de tal maneira raso, parco de idéias e previsível — decerto porque visam a uma imensa maioria do público, por sua vez também superficial, meio burrinho e fã das saídas fáceis — que o que antes era um prazer, agora me parece um castigo. Além de perda de tempo, evidentemente.
Vejamos o caso de Tróia (Troy, EUA, 2004, 162 min.). Parece uma mistura de western spaghetti, cheio de gente e cheio de mortes, só que muito caro, e de faroeste clássico, substituindo-se a cavalaria pelos gregos e os índios pelos troianos, e todos lutando sem saber mais qual era exatamente o motivo. Gladiador (Gladiator, EUA, 2000, 155 min.) e Cruzada (Kingdom of Heaven, EUA/Inglaterra/Espanha, 2005, 145 min.), não só pelo fato de serem do mesmo diretor, têm, por incrível que pareça, quase que a mesmíssima história. Ou, quando têm absolutamente a mesma trama, a nova versão não chega aos pés da primeira. Basta compararmos a segunda versão de Sob o domínio do mal (The Manchurian candidate, EUA, 2004, 130 min.), com Denzel Washington, e a primeira (idem, EUA, 1962, 126 min.), com Frank Sinatra. Ainda que o protagonista do filme mais recente seja um ator incomparavelmente melhor do que Sinatra, todo o resto é de uma tal obviedade e falta de sutileza que passaríamos muito bem sem ele.
É verdade sim, que alguns filmes vez ou outra apresentam algum vestígio, quando não vários, de inteligência, além de boas cenas para os atores, fotografia caprichada, enquadramentos ousados e até um bom roteiro. A maioria destas produções, aliás, pertence ao gênero policial, ou suspense. E a maioria delas, também, vem se destacando pela escalada constante, crescente, senão vertiginosa, das cenas de violência, e não uma qualquer, mas paroxismos de violência e sordidez. E por mais que a trama muitas vezes seja instigante, a imagem bem cuidada, etc., haja estômago para os assuntos tratados, para a infestação de crimes sexuais, assassinos seriais, canibais e outros horrores!
Por isso é sempre bom quando se encontra um filme pelo qual não se dá nada, cujo título parece meio fraco e que chega e nos surpreende. Falo de Crash – No Limite (Crash, EUA, 2004, 113 min.), que ganhou três prêmios Oscar neste ano, o que, necessariamente não quer dizer muita coisa, mas que no caso até foi justo. Já passou nos cinemas, deve estar há meses nas locadores e será exibido em agosto nos canais Telecine.
A trama começa com uma batida (daí o título original, Crash, que também significa “encontro”) entre dois automóveis numa estrada cujo tráfego foi bruscamente interrompido pela polícia, que investiga a cena de um crime: um corpo encontrado no acostamento. No carro da frente, abalroado pelo detrás, encontra-se uma dupla de policiais, um negro e uma hispânica, como eles dizem; no detrás, uma chinesa que fala mal o inglês, mas é cidadã americana, e que insulta a policial feminina, chamando-a de imigrante ilegal, e ameaçando-a de chamar o departamento de imigração.
Daí temos um salto, não para o futuro, mas para a noite anterior àquele dia. Encontramos dois jovens negros queixando-se do preconceito que sofrem. Mas um deles vê que o amigo, à sua maneira, também é vigorosamente preconceituoso. Seguem pela rua e avistam um casal branco e rico (Sandra Bullock e Brendam Fraser, muitíssimo melhores do que de costume) caminhando despreocupadamente. Ela, ao notar os dois rapazes, sente-se intimidada e abraça o marido. Por sua vez, um dos rapazes percebe naquele ato uma prova de racismo, e vai tirar satisfações. Então descobrimos que ele é um assaltante e a forma de “reagir ao insulto”, é roubando o automóvel do casal. Só que o dono do carro não é ninguém menos do que o Promotor de Justiça de Los Angeles.
Não contarei aqui toda a trama nem, muito menos, o final. Tanto para não estragar o prazer de quem ainda não assistiu ao filme, como porque ele é contado de uma forma bastante incomum, por meio da qual os mais singulares personagens vão se entrelaçando de uma maneira complicada, e ao mesmo tempo natural: um dos principais atrativos desta produção. Saibam os leitores que desfilam pela história ainda uma família de imigrantes iranianos (todos cidadãos americanos), um policial racista e seu parceiro “bem-intencionado”, alguns chineses, um diretor de televisão negro que não acredita em racismo, um latino trabalhador que é visto como bandido pela jovem senhora branca — a qual trata sua empregada mexicana com o mesmo carinho e respeito que a maioria dos paulistas usa no trato com os migrantes nordestinos.
O adendo ao título, em português, No Limite, também foi muito feliz. Ele indica muito bem a condição em que vivem variados grupos étnicos e culturais nos Estados Unidos, que vivem lado a lado e quase sem cruzarem os seus limites entre uns e outros. Daí ser necessário o encontro, nem que seja através de um encontrão (crash).
O filme levanta uma questão que, no meu modo de ver, é crucial nestes tempos em que se fala de “multiculturalismo” e, ao mesmo tempo, “resgate da identidade”. A de que no fundo, todos os homens são diferentes uns dos outros e que é impossível querer igualar arbitrariamente tudo e todos (o pensador político francês Tocqueville, já no início do século XIX, criticava os americanos por sua sociedade onde era “obrigatório” que “todos fossem iguais”). Pois o grande desafio, que precisamos enfrentar, é justamente o de reconhecermos as diferenças, sabermos conviver com elas e respeitá-las, sem jamais querermos impor a nossa visão do mundo sobre as demais. O diálogo é a saída, não o discurso único.
Curiosamente, o diálogo é o que mais falta no filme. E, dessa maneira, somos esclarecidos por ele, dos riscos e tragédias que sua ausência pode inevitavelmente causar.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de junho de 2006].
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