Numa viagem recente a São Paulo, passei de carro por uma das regiões mais degradas da cidade. Sei que parece exagero dizer “viagem a São Paulo” quando, hoje, a capital está logo ali. É por força do hábito. Como, também, chamar algum sítio da metrópole paulistana de um dos lugares “mais degradados”. Pois, na verdade, toda ela inspira urgentes cuidados em razão do hábito, desta vez, verdadeiramente pernicioso, de adiarem-se os consertos em prol de novas e discutíveis obras. Aquele festival, bem conhecido, de rasgar avenidas caras e imensas enquanto as ruas que a elas dão acesso colecionam buracos, calçadas arrasadas, etc. E em sistema de rodízio: ora atua-se num bairro para agradar o vereador tal, ora noutro, para a felicidade das empreiteiras e dos especuladores, e por aí vai, sempre desnudando um santo para vestir outro e resultando em dois pobre coitados seminus e mal-ajambrados.
Veja-se o triste caso da Avenida Paulista, por exemplo. Há não muito tempo, ela era considerada um dos principais cartões-postais, senão o cartão-postal, da cidade. Hoje, há trechos irreconhecíveis. As calçadas parecem se desfazer ante aos nossos olhos, com poças d’água — fétida e preta — formadas por chuvas das quais ninguém mais se lembra. E ainda assim, encontram-se elas tomadas por camelôs vendendo os produtos mais ordinários. Não, mais que isto, reles, porque até neste tipo de comércio há uma hierarquia, cujo topo é ocupado pelos vendedores de artigos eletrônicos e roupas e acessórios pirateados de grifes, e que tem na base aqueles que vendem incenso, CDs e DVDs piratas, horrendas flores artificiais: são estes últimos os que ocuparam a avenida. Não bastasse isto, surgiram, nos últimos tempos, vários chineses preparando e vendendo comida em barracas cuja ausência de higiene é flagrante. E, para arrematar este quadro infeliz, instalaram-se algumas lojas, em certos trechos, cuja qualidade dos artigos, aspecto do estabelecimento, etc., mais parecem pertencer à Avenida São João: a qual hoje é símbolo de degradação e que outrora foi cartão-postal da cidade. Curioso, não? E o quê está em vias de ser eleito o novo cartão-postal da cidade? A fria e nova-rica Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, monumento ao concreto, ao aço e às janelas espelhadas, com favelas nos seus calcanhares e um bafio pestilento, eterno, vindo do Rio Pinheiros e dum córrego fronteiriço. Formidável...
A lista de abusos e absurdos ocorridos em São Paulo é imensa, e se me dedicasse a eles não escreveria outra coisa neste espaço certamente por um período menor do que um ano. Assim, vamos ao pouco que se tem feito de bom pela cidade. É incrível, mas isto existe. E deve-se em grande parte a um político pelo qual não tenho a menor simpatia, bem como ao partido a que pertence. O que só vem a provar a minha isenção quanto ao assunto. Trata-se, pois, do prefeito paulistano, o Sr. Gilberto Kassab, e à sua ótima idéia, e pulso, em implantar o projeto “Cidade Limpa”.
Acredito que todos se recordam do episódio ocorrido há alguns meses, num posto de saúde, envolvendo o prefeito em questão e um homem, fabricante de faixas e cartazes, que se sentiu prejudicado pela nova lei. Naquela ocasião, a prepotência e arrogância do alcaide paulistano incomodaram até seus aliados, arranhando, incontestavelmente, sua reputação. A marca ficou, mas os resultados daquele projeto agora já são visíveis, e evidentes são os ganhos que a cidade teve graças a ele.
Em primeiro lugar, São Paulo parece mais leve, mais limpa, mais clara. Cidade desprovida de encantos naturais, devendo sua “beleza” às obras arquitetônicas, eis que estas agora se revelam, com a retirada daqueles colossais cartazes, dos gigantescos outdoors, das onipresentes faixas, dos anúncios imensos recobrindo as fachadas. E graças a esta nova nudez do corpo da cidade, revelando suas belas curvas, como também suas cicatrizes, podemos ver o que se deve corrigir, o que se deve preservar. Consegui ver, pela primeira vez, que, por detrás de gigantescos anúncios, encontravam-se construções que, se situadas em cidades menores, já se encontrariam preservadas, exaltadas, tombadas, tornadas museus municipais, casas de cultura... Passei por grupos de casas e prédios, retirado do manto de cartazes que o cobriam, que mereciam ser incluídos no roteiro turístico da cidade, dada a diversidade de estilos históricos neles encarnados. Tomando só um exemplo: vi conjuntos de construções art-déco — aquele estilo arquitetônico de meados dos anos 1920-30, moderno, geométrico — dos melhores que existem. Muitos basbaques louvam o Art-Deco District, de Miami Beach, Flórida, EUA, localizado na Ocean Drive. Comparar o que vi em São Paulo, com o que se encontra naquela cidade americana, seria o mesmo que comparar uma daquelas praias de águas cristalinas do nosso Nordeste à praia de Peruíbe em dia de chuva...
Que a iniciativa do prefeito Kassab conquiste adeptos em todo o território nacional. Livremos nossos prédios daquelas horrendas máscaras. Só assim poderemos reconhecer o belo, e atacar, efetivamente, o feio.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 30 de junho de 2007].
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