sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Quem semeia ventos...

Neste ano, chuvas torrenciais assolaram o semi-árido nordestino. Ao mesmo tempo, o comumente chuvoso Rio Grande do Sul foi afligido por uma inaudita e brutal seca. Não muito depois, o furacão Catarina — isto mesmo, furacão, pois este é o nome do fenômeno ocorrido, apesar de todas as tentativas de negá-lo enquanto tal — devastou inúmeras áreas do Sul do país. Por sua vez, Santos experimentou uma ventania de assustar e, mais recentemente, Saquarema, no Estado do Rio de Janeiro, passou algo semelhante. E agora sentimos um frio meio fora de época.
É inegável que o clima mundial tem mudado radicalmente nos últimos anos. Veja-se o calor indescritível que ocorreu na Europa no ano passado. As brutais nevascas que os norte-americanos enfrentaram no último inverno, a seca pavorosa que se abateu sobre a Austrália. Como também é inegável que o clima em geral sofre mudanças radicais de tanto em quanto tempo. Só não o sabemos mais porque os estudos de climatologia histórica são bastante recentes. Mas muitas mudanças do passado são bastante conhecidas.
Sabemos, por exemplo, das várias glaciações que acometeram a Terra, sendo que a última delas já contava com o Homem vivendo nela. Graças a uma elevação no clima, hordas e mais hordas de povos asiáticos migraram para o Ocidente. Estudos relacionam o Dilúvio bíblico a uma grande elevação do nível do Mar Negro. Sabe-se que o Egito dos faraós não era tão árido quanto hoje, e que boa parte do que atualmente é deserto já foi savana. A Roma imperial teve uma de suas vilas engolida por um lago que encheu demais, depois de chuvas anômalas.
Há relatos semelhantes durante a Idade Média de outros desaparecimentos assim. Várias cidades da Inglaterra, sobretudo na Cornualha, há muito se encontram sob o mar. Por outro lado, antigas pinturas ou gravuras mostram a tão conhecida Torre de Belém, em Lisboa, plantada em pleno Tejo, rodeada por suas águas, e não tão rente às margens como hoje vemos. No século XVII, o Rio Tamisa congelou em plena Londres, fato nunca então visto ou repetido.
Da mesma Inglaterra, diz-se que o século XIX foi inexplicavelmente chuvoso, e esta é em boa parte a imagem que até hoje temos daquele país. Grande parcela das secas que devastaram a Índia no mesmo século, que alteraram drasticamente sua economia, a vida de seu povo, a estrutura fundiária e permitiu a dominação estrangeira, é atualmente interpretada como efeito do El Niño. O mesmo fenômeno, só recentemente nomeado, teria sido responsável pelas agudíssimas secas do Nordeste brasileiro no século retrasado, que minaram a coragem dos homens livres e os lançaram quase à servidão. E a garoa de São Paulo hoje é só uma lembrança.
Em suma, mudanças climáticas são constantes, quer por “descalibragem” no eixo da Terra, quer devido às manchas solares, ou por qualquer causa de origem natural. O problema — enxergado por muitos especialistas, e não é de hoje, aliás o problema maior — é quando as alterações no clima se produzem pela excessiva interferência do Homem na Natureza. Pois é isto que estamos enfrentando.
Alguns especialistas acreditam que a poluição produzida no século XIX, época do florescimento da indústria nos países economicamente mais desenvolvidos — Inglaterra, França, Estados Unidos, Bélgica — e nalguns nichos de desenvolvimento fabril dentro de estruturas em geral mais arcaicas — norte da Itália, Catalunha, algumas cidades russas —, pois bem, alguns estudiosos avaliam que toda a poluição do ar gerada no período supera toda a que foi produzida pela Humanidade até então.
Com o surgimento do consumo de massas, o descalabro foi geral. Depois do automóvel, da popularização do ar-condicionado, das embalagens descartáveis para tudo e mais um pouco, parte do mundo tornou-se uma imensa lixeira: a outra parte pode ser limpa, mas não é menos fétida. E a tentativa de levar o mundo todo ao consumo desenfreado, principal proposta de dez entre dez governantes mundiais, sejam os poderosos dos países ricos, sejam os caciques dos miseráveis, só radicalizaria ainda mais o problema. É sabido que se o planeta inteiro consumisse nos níveis dos norte-americanos, a Terra toda se tornaria estéril em menos de cinqüenta anos.
Pois bem, agora estamos nós, pacatos brasileiros, sofrendo alterações climáticas que imaginávamos só possíveis noutros lugares. A Lei de Talião, que constitui mais da metade do arcabouço moral do brasileiro médio, sempre nos pareceu infalível: os países ricos fazem, os países ricos pagam. Nós agora estamos, também, pagando. O bom-senso não diria, então, que temos nossa parcela de culpa?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em data que não me recordo, mas anterior a agosto de 2004].

Nenhum comentário:

Postar um comentário