Assisti, de Maringá, onde participava de um simpósio, à chegada do Papa Bento XVI a São Paulo. Durante a transmissão televisa do episódio – extremamente aborrecida, aliás, repleta de toda uma série de comentários e pormenores irrelevantes, pois, afinal, o que importa é o que o Sumo Pontífice diz, e não coisas como o instante em que ele saiu do avião, o momento em que desceu a escada de desembarque e outras do gênero – eis que um amigo perguntou-me porque Sua Santidade iniciou sua visita ao Brasil pela capital paulista e, não, por Brasília. Minha primeira vontade foi dizer que o líder dos católicos é de tal maneira independente que principia sua visita a um país por onde ele bem entende. Mas, como Bento XVI é também um chefe de Estado, admito como presumível a pergunta: por que não, em primeiro lugar, Brasília? É verdade que o presidente norte-americano, que cá recentemente esteve não cumpriu, digamos, tal “protocolo”, só que a arrogância e a presunção dos líderes daquele país são bem conhecidas... Portanto, o que podemos concluir é que o Papa decidiu-se por São Paulo como a primeira parada por outros e mais claros motivos: a cidade é antiga, foi fundada por religiosos e concentra uma proporção de fiéis sem par na América Latina, ou seja, por razões que vem ao encontro de sua visão política e teológica.
Mas a pergunta – por que não Brasília? – continuou a ocupar meus pensamentos, ainda que por outras questões. E a principal delas é que não consigo enxergar qualquer relação entre a capital federal e a religião. Não quero dizer com isso que vejo aquela cidade apenas e tão somente como a sede do governo e ponto final. Há todo um caráter simbólico nela impregnado, para o melhor e para o pior. E as referências religiosas ali são muitas e marcantes. Pensemos na Catedral de Brasília, uma construção verdadeiramente impressionante e inserida no coração da cidade. Pensemos na profecia de D. Bosco, segundo a qual o planalto central brasileiro seria o berço de uma nova civilização. Pensemos ainda na quantidade de mosteiros, conventos, seminários e até mesmo seitas exóticas que por lá abundam. E não podemos nos esquecer que se a planta do plano piloto lembra, para muita gente, um avião, para muitos ela e um xis e, por extensão, uma cruz.
O curioso é que, mesmo diante de tantos motivos, a associação entre Brasília e a religião, para mim, e para muita gente, é extremamente complicada de ser feita, se não impossível. Porque por mais monumental que seja sua Catedral, por exemplo, ela não possui nada de familiar, ela não se parece com nada daquilo em que costumamos pensar quando ouvimos a palavra “catedral”. Mas é verdade, também, que a própria Brasília não se parece com cidade nenhuma conhecida no mundo.
Daí é de se pensar se as religiões, ou melhor, as nossas relações com elas, não dependem muito mais de outros símbolos, que não os necessariamente místicos, do que supomos ou gostaríamos de acreditar. Em suma, temos de fato idéias pré-concebidas, por exemplo, do que seja uma igreja: o aspecto que deve ter o prédio, sua decoração, etc., que pode variar bastante, é verdade, mas que, em geral, permanecem ligados a alguns poucos conceitos que nos sejam familiares. Ou seja, não basta construir um prédio com aspecto de, digamos, supermercado, espetar no alto dele uma cruz e chamá-lo de “igreja”: dificilmente o veremos como tal. A familiaridade com certas formas, portanto, pode influir drasticamente até mesmo em instâncias que julgamos superiores: forma e conteúdo dependem, sim, e muito, um do outro.
Creio que o fato de estar em Maringá, quando cheguei a esta conclusão, tenha exercido certa influência. Pois a cidade é muito bonita e, ao mesmo tempo, muito estranha. É um exemplo quanto à arborização, quanto ao planejamento urbano, quanto à valorização do espaço público, etc. Mas, ao mesmo tempo, é uma cidade que parece ter prescindido completamente de seu passado. É verdade que ela é novíssima – 60 anos completados dia 10 de maio – mas mesmo este pouco parece que lhe foi subtraído. E o resultado é muito confuso. Andamos por uma rua, por exemplo, e topamos com uma bela fileira de árvores de cinqüenta anos de idade. Assim, era de se esperar que as construções próximas a ela datassem da mesma época, pouco mais ou pouco menos. Mas não. Tudo é novo. Tudo é novíssimo em toda a cidade. Logo, nada é familiar. Trata-se de uma cidade grande que na verdade se parece mesmo é com um imenso bairro. E a todo momento me via procurando o seu centro histórico sem encontrá-lo.
Concluindo, assim como não vejo ligação entre Brasília e religião, acho que falta o sentido de cidade em Maringá. Pois, em ambos os casos, suas formas não comungam com o sentido, com o conteúdo que pretendem ter.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de maio de 2007].
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