Não faz muito tempo que o conhecimento que o brasileiro médio possuía acerca da América do Sul resumia-se a meia dúzia de informações, freqüentemente distorcidas, relativas a apenas dois países: Argentina e Paraguai. Quanto ao primeiro — motivo de ódio irracional permanente — sabia-se que possuía bons jogadores de futebol, mas desonestos, ante aos nossos ótimos e impolutos craques; tinha-se conhecimento, também, que lá se comia churrasco, o qual, obviamente, nada valia se comparado aos nossos, até mesmo àqueles de fundo de quintal, no fim-de-semana; e aqui e ali alguém tinha ouvido falar que a capital do país era bonita — do que se duvidava, pois nada poderia rivalizar a “pujança” de São Paulo — e de que era um lugar bom para comprar, muito barato, malhas de lã e casacos de couro, que muitos consideravam só ligeiramente superiores aos fabricados em Monte Sião e Serra Negra. Já quanto ao Paraguai — tema de todo o tipo de chacotas — até que se sabia um pouco mais, afinal, eles perderam uma guerra para nós, “aquela do Duque de Caxias”; também sempre foi de conhecimento público que o país parecia ser o maior foco de contrabando e falsificações de produtos importados do mundo todo (quem, afinal, nunca tinha ouvido falar das cidades de Puerto Stroessner e Pedro Juan Caballero?); todavia, os elogios eram mais comuns, visto que a cerveja era mediana, os rios eram bons para pescar, havia cassinos, e tudo, absolutamente tudo, era ridiculamente barato.
Nas últimas duas ou três décadas, entretanto, outros países passaram a ser mais conhecidos pelo brasileiro, de uma forma geral. Ele aprendeu, por exemplo, que o Uruguai, além de ser a pátria daquela seleção que nos derrotou no Maracanã em 1950, era também um paraíso-fiscal. Que o Chile era uma ditadura “onde tudo funcionava”. E que o Peru, “lugar muito atrasado, cheio de índios mascando folhas de coca o tempo todo”, até que tinha umas ruínas bonitas, “daquele povo inca, ou seria asteca?”, “uns lugares muito místicos”. Pelo Equador ninguém nunca se interessou, afinal, como ele não faz fronteira com o Brasil, era como se não existisse. Já quanto à Colômbia, logo todo mundo aprendeu que era um antro de produtores e traficantes de cocaína, um lugar onde “o crime organizado está em toda parte”. Já o Suriname, a Guiana e a Guiana Francesa, simplesmente não existem, não fazem parte da América do Sul, no máximo alguém se lembra de que “ainda são colônias de países da Europa”. Porém, de uns tempos para cá, duas novas nações começaram a ganhar a atenção dos brasileiros: a Bolívia e a Venezuela.
É verdade que muitos já tinham ouvido falar na Bolívia, só que por alto. Havia sempre alguém que tinha um parente ou conhecido que alguma vez viajara no “Trem da Morte”, ou que, pescando em Corumbá, comprou algum contrabandozinho em Puerto Suarez. E Santa Cruz de la Sierra é um nome familiar a muitos aspirantes ao curso de Medicina, como também às pessoas ligadas, do topo à base, ao agro-negócio. Os mais curiosos, muitas vezes, até tinham conhecimento de um lugar com o “ridículo” nome de Cochabamba. E muitos cariocas não ignoram que o bairro de Copacabana homenageia Nossa Senhora de Copacabana, um culto boliviano à Virgem, para ali levado há séculos por um bandeirante, de cujo nome ninguém se lembra.
Quanto à Venezuela — cujo nome, para início de conversa, muita gente acha até difícil de falar —, trata-se de uma verdadeira novidade para o Brasil. Há pessoas que até duvidavam de sua existência. “Não fica no Caribe?” ou “Com certeza, fica na América Central”, foram frases já ouvidas por mim em diversas ocasiões, quando o tema era nosso vizinho ao Norte. Certa vez ouvi a suspeita de uma pessoa quanto àquele país possuir uma grande colônia de imigrantes oriundas do Vêneto, ma Itália. Pois, segundo argumentava, “se temos uma Nova Veneza, em São Paulo, porque os outros não podem ter a sua?’. Notável... Mas, de resto, a ignorância a respeito da Venezuela sempre foi, praticamente, absoluta: no máximo algum gaiato se lembrava que a capital do país tinha o “impagável” nome de Caracas. E então, a risada corria solta...
Ironias à parte, a ignorância do brasileiro em relação aos nossos vizinhos sul-americanos não tem a menor graça, mas tem, por outro lado, um aspecto cultural, histórico, muito forte. Pois o fato é que a maioria da população de nosso país, não considera que o Brasil faça parte da América do Sul e, sim, que ele seria uma espécie de “entidade superior”, um “modelo de unidade”, um continente cercado de ilhotas onde se fala o espanhol. “Somos melhores que eles”, é um discurso que se ouve em todo lugar, reproduzido naquele mesmo tom de arrogância empregado pelos norte-americanos em relação às Américas, às quais eles ignoram quase tanto como nós, discurso que, todavia, tanto criticamos quando é dito por eles, mas que endossamos, na nossa versão rasteira, dia após dia. Logo, não é por acaso que sejamos apanhados de surpresa quando surgem novos atores na cena sul-americana. Ainda que, convenhamos, não sejam atores de primeira — quando muito, uns protagonistas muito dos canastrões — estão sendo, apesar dos pesares, suficientemente hábeis para complicar a peça e bagunçar todo o cenário.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de dezembro de 2007].
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