Certos, e vários, períodos históricos, ainda que bastante remotos, revelam-se muitas vezes aparentemente mais próximos de nós do que à primeira vista se julgaria. E tal se dá por muitos motivos.
Em primeiro lugar, há a questão do gosto, tanto do historiador, quanto do mais comum dos leitores, dos apreciadores de filmes “de época”, dos membros de grupos místicos ou confrarias fechadas, dos que se deleitam com as ditas “teorias conspiratórias”, etc. Assim vemos, por exemplo, pessoas que nutrem um imenso apreço pela vida no Egito antigo, conhecendo mesmo minúcias daqueles tempos e, todavia, ignorando completamente, digamos, a Primeira Guerra Mundial, ou a revolução inglesa de Cromwell. Ou aqueles que reputam todos os principais avanços da cultura à antiguidade greco-romana, e que consideram a Idade Média um período de trevas, uniforme em seus mais de mil anos. Ou quem leia tudo sobre a corte francesa, sobre o nazismo, sobre Napoleão, ou sobre a revolução de 1932, porque o avô nela lutou, ou quanto à ditadura militar, porque um tio desapareceu por sua causa. E por aí afora: os casos são inúmeros.
Outro fator que conta para tal, seria uma relativa proximidade do período ou, melhor dizendo, nossa análise de que ainda vivemos sob o forte efeito de tais fatos ou épocas e que, portanto, temos de compreendê-los para entendermos o nosso presente. Isto, em boa parte está certo e muitos historiadores seguem esta linha. Mas, em minha opinião, ainda que o pensamento seja correto, ele não é completo. Pois a determinadas causas não se seguem, necessariamente, conseqüências específicas. Se permitirem a comparação, o que ocorre é muito semelhante à parábola do semeador: “Saiu o semeador a semear. Na semeadura parte da semente caiu junto ao caminho, e as aves vieram e a comeram. Parte caiu em terreno pedregoso, onde não havia muita terra, e logo brotou, porque a terra não era profunda. Mas levantando-se o sol a queimou e, como não tinha raízes, logo secou. Outra parte caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram e a sufocaram. Outra parte caiu em terra boa e deu fruto: uma cem, outra sessenta e outra trinta” (Mateus, 13: 3-8). Ou seja, a intencionalidade de um determinado fato pode ter sido tão forte quanto à vontade do semeador, mas suas conseqüências não dependem somente de suas intenções ou de sua determinação. Outros elementos influem consideravelmente e se encontram, por assim dizer, até mesmo fora da parábola: e se ele insistisse em lançar a semente no solo raso, que gerou uma rápida brotação e, ao mesmo tempo, protegesse-a do sol? Sim, porque no curso dos atos e fatos históricos fazem-se presentes, também, as escolhas, as insistências, muitas vezes erradas, mas que parecem válidas porque encobertas, ocultas da luz. Ou seja, o fruto vingou, apesar de tudo levar a crer no contrário, mas não por meios naturais, de qualidade duvidosa e muito menos enraizado do que supomos — como muitas condições do presente e sua aparente vinculação com um determinado fato do passado.
Por fim, há também certa vontade política, cujo discurso se conhece por “história oficial”, que aceita rupturas com o passado onde há continuidade, ou vice-e-versa, quando lhe convém. Vejamos o caso do ensino de história em São Paulo e a sua influência no interesse das pessoas por este ou aquele período.
Do século XVI, pouca gente gosta: São Paulo não passava de meia dúzia de vilas pobres, cheias de índios, jesuítas e degredados, que viviam da agricultura se subsistência, alguma cana e um pouco de extração de pau-brasil. Tentou-se mudar esta imagem nos tempos da comemoração do Quarto Centenário de S. Paulo, mas não vingou por muito tempo. Quanto à história da Bahia, muito mais rica, no período, pouco ouvimos falar.
Do século XVII, também não se gosta muito. Louvam-se, ou atacam-se os bandeirantes, mas como tudo parece muito parecido com a centúria anterior, sobretudo na pobreza, pouca gente se interessa. Porque, para muitos, só tem interesse os períodos de riqueza, que nos legaram muitos vestígios materiais (igrejas, documentos, jóias, etc). Do resto do território, menciona-se um pouco o Quilombo de Palmares, menos ainda a invasão holandesa do Nordeste e mais nada de parte alguma. Não fossem as aulas de literatura nas quais são apresentados o Padre Vieira e Gregório de Matos, e seria outro século passado em brancas nuvens.
Quanto ao XVIII, ele é bem mais conhecido. Ainda que São Paulo desapareça completamente como tema de estudos, há toda a fascinação do ciclo do ouro, das igrejas barrocas, dos poetas árcades, dos amores de Marília e Dirceu, e da Inconfidência Mineira que, aprendemos, “formou a nossa consciência enquanto nação e foi o primeiro passo pra nossa Independência”. É, portanto, um período bem mais conhecido e apreciado.
Da primeira metade do XIX, fala-se mais, ainda que dele se goste menos. Há um certo entusiasmo quanto ao 7 de Setembro, porque se deu às margens do Ipiranga, e quanto aos irmãos Andradas, paulistas como a Marquesa de Santos, que também desperta o interesse de alguns. O mesmo quanto aos poetas românticos e aos primeiros tempos da Faculdade de Direito. Mas não conheço ninguém que exalte aqueles dias como magníficos, que queira “saber tudo” sobre aqueles tempos. Já no que diz respeito à segunda metade, só se fala no café ou na imigração (tema este, aliás que não é estudado em quatro quintos do território nacional). E porque não tivemos o luxo da corte do Rio de Janeiro, e como o estado de São Paulo é republicano “desde criancinha”, tudo parece meio sem graça, principalmente aqueles homens barbudos em suas casacas sisudas, cercados por cafezais.
Chega o século XX e o progresso de São Paulo, a cidade que não pode parar, um salto estratosférico de um burgo acanhado para a capital do modernismo, com seus palacetes em todos os estilos. Mas há a política dos coronéis, miúda, e a do café-com-leite, graúda, que incomoda tanto as consciências de alguns. Vem depois a revolução de 1932, heróica e fascinante, mas efêmera e sem conseqüências. E depois disto não falo, porque boa parte da novela ainda está sendo escrita...
Respondendo à pergunta do título, acredito que não, o passado não é logo ali. Pois a história, ou “o curso da civilização”, ou a vida humana na Terra, termos que, para muitos, se confundem num só, não é como um passageiro de trem que toma sua condução rumo a um destino pré-definido, passando por um roteiro já traçado. Não pode voltar para seu ponto de partida, nem para as estações intermediárias, só reconstituí-los através da memória. E esta, muitas vezes é imprecisa, mais deformando do que formando nossas impressões, levando-nos a enxergar semelhanças onde elas não existem, a confundir contingências, por causas, e escolhas, como efeitos.
Voltaremos a este assunto.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 14 de abril de 2007].
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